Salto alto e o topo da montanha

“Nós temos um problema do cavalo alto emergindo no paganismo moderno. Ou pelo menos, está borbulhando para a superfície e se tornando mais notável graças aos poderes mágicos da internet. Quando me refiro ao problema do cavalo alto, estou falando de formas de elitismo.” – Melissa Smith.

Toda vez que eu leio alguém reclamando do elitismo em algum campo do conhecimento humano, eu vejo ciúme, inveja e anti-intelectualismo. Entre os americanos está acontecendo uma onda de novatos, jovens e adultos, inundando o Paganismo Moderno e querendo fazer dessa reconstrução cultural algo mais confortável, cômodo e conveniente para objetivos e agendas pessoais. No Brasil a coisa está pior ainda, com a Comunidade Pagã sendo envolvida [estagnada, asfixiada] por um culto à personalidade baseada em um sacerdote, dito legítimo iniciado.

Até parece que eu [ou algum bruxo/bruxa, sacerdote/sacerdotisa] tenho que sentir vergonha por ter chegado aonde cheguei e por saber o que sei. Eu acho que a experiência é semelhante, eu estou estudando e praticando Bruxaria há tanto tempo que eu esqueci onde, como e por que eu comecei a seguir o Caminho Torto, que eu chamo carinhosamente de Caminho Entre o Bosque Sagrado, mas para os curiosos eu falo que é o Caminho do Vale das Sombras.

Preguiçosos e espertalhões vão tentar achar atalhos e vão ficar choramingando em vão. A maestria vem da prática e experiência. Quer subir no cavalo alto? Você tem que achar um, para começar. Se [quando] você achar o cavalo alto, você vai ter que aprender a subir nele. Se [quando] você aprender a subir no cavalo alto, você vai ter que aprender a conduzi-lo. Se [quando] você adquirir essas coisas, você acha justo que alguém em um cavalo de pau querer ser igual a você? Eu creio que não.

Oquei, nós podemos descer do cavalo alto, mas ainda estaremos de salto alto. Quem se lembra do [filme] Mágico de Oz, os sapatos usados por Dorothy e a Bruxa do Oeste, deve ter entendido onde eu quero chegar. Quem tentar tocar nos meus saltos altos pode se considerar morto. Nesta analogia, o princípio permanece. Para ter um salto alto, nós temos que achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso. Um sapateiro [artesão] assim só poderá nos fazer sapatos depois de árduo treinamento com o mestre sapateiro e ter a aprovação da guilda. Esse parâmetro tem muito a ver com a Bruxaria que, não coincidentemente, é chamada de Ofício. Inúmeras outras ocupações e profissões seguem o mesmo padrão de exigência. Em lugar algum um aluno de escola pode ser comparado a um professor universitário. Então por que só na Bruxaria tem que ser diferente?

Mesmo se você achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso, não pense que é só ir e encomendar seu salto alto [ou outro símbolo de sua diplomação/graduação]. Sabe como é, guildas são exigentes e costumam conversarem, trocar informações e suporte mútuo. Certamente você terá que entregar um certificado [que nós chamamos de voucher] onde diz a qual guilda você pertence, qual foi o seu mestre e qual a sua vocação. O sapato será feito conforme o tamanho do seu pé, mas conterá as especificações bastante restritivas conforme a posição que você ocupa nesse ofício. Mesmo de posse do sapato, você vai ter que trabalhar muito antes de querer aumentar seu salto. Você acha justo alguém de chinelos querer ser igual a você? Eu acho que não. Quem quiser usufruir dos privilégios [chamado de elitismo pelos invejosos e ciumentos] de ser um profissional do Ofício deve passar pelo mesmo árduo treinamento, passar pelo crivo [rigoroso] da guilda e mostrar [com trabalho] de que é apto. Não existe atalho ou facilitação.

Eu não estou onde estou de graça. Eu tive que ler, aprender, praticar e passar pela experiência. Tal como na lenda da vila onde as pessoas acreditavam que os Deuses estavam no alto da montanha. Quem queria conhecer os Deuses teria que efetivamente subir até o topo da montanha [e isso requer vontade, treinamento e dedicação].

Imagine se um espertalhão, preguiçoso só vai ate uma pequena parte da montanha e volte falando que não encontrou coisa alguma. Imagine que mais pessoas assim façam o mesmo e digam a mesma coisa. Em algumas gerações, os jovens vão simplesmente deixar de acreditar nos Deuses por que “não há evidência de existência”. Esse é o descrente, o ateu, baseia sua visão de mundo por uma visão parcial.

Imagine que um jovem resolve desafiar a “ciência” e decide ir até o topo da montanha, para encontrar os Deuses, como dizem as lendas. Ele sofrerá com a resistência dos “monges da matéria” e com a condenação da Igreja Oficial. Apesar de tudo, ele prossegue e percebe que os espertalhões foram desonestos, relataram suas experiências [e certezas] de um local restrito da montanha, ignorando o entorno e a continuação mais acima. Com muita dificuldade ele consegue chegar até o topo [e pode comprovar
que o fez], muito embora seu relato seja ignorado porque foge do padrão vigente.

Imagine que a experiência dele encoraje outros jovens a empreender a mesma missão. Imagine que essas experiências finalmente são consistentes e assim voltam a fazer parte do conhecimento científico. Você acharia justo se alguém subisse em um morro e exigisse ter o mesmo reconhecimento? Eu acho que não. Se você quer chegar até o alto da montanha, você vai ter que caminhar.

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