Arquivo mensal: novembro 2018

Amor e crime – VI

Por algum motivo eu comecei a registrar esses dias intrigantes de minha vida. Eu não tive esse interesse nas ocorrências anteriores e sinceramente eu prefiro esquecer os eventos com meu pai verdadeiro e os que aconteceram com Shiou.

Eu fiquei sabendo que fizeram um anime baseado no que foi publicado nos tabloides sensacionalistas, o que me proporcionou muitas risadas. Mas perdeu toda a graça quando nós tivemos que mudar novamente e por coincidência [isso não existe] eu e minha mãe viemos parar nessa cidade cujo nome constantemente me lembra de meu relacionamento com Shiou.

Talvez venha a calhar para fazer sentido nessas memórias falar de Shiou e Shouko. Isso foi quando nós morávamos em Yukai. Mamãe estava com seu terceiro homem, meu quase futuro segundo padrasto. Foi ali, no Colégio Horonigai que eu conheci Shiou. Eu desenvolvi uma paixão doentia por ela, especialmente depois que eu descobri que ela era abusada pelo pai, meu quase futuro padrasto. Para protegê-la, eu provoquei um incêndio, coloquei em perigo a vida de minha tia, eu quase morri, mas acabei com a vida daquele lixo.

Os autores do anime até que fizeram uma boa trama, mas erraram ao acreditarem que eu morri. Realmente, eu pulei do telhado do cortiço [cinco andares] onde eu morava com minha tia, mas isso não me mataria. E definitivamente eu não mataria Shouko. Eu conheci Shouko [que estudava no Colégio Makikou] durante uma excursão escolar. Foi graças a ela que eu percebi que o que eu sentia por Shiou não era amor, era doença. Meus terapeutas [gente tão desarranjada quanto eu] disseram que isso foi uma forma de projeção, eu via em Shiou uma forma de resgatar minha infância e é aí que entra a minha história com meu pai verdadeiro.

Eu tive uma infância aparentemente normal, mas conforme eu amadurecia, meu pai também se transformava. Ou isso ou a maturidade me fez perceber sua identidade verdadeira. Para ser bem sutil, meu pai era o típico machão, beberrão, violento e abusado. Então o meu corpo amadureceu e a atenção dele começou a focar em mim. Até que, seja pela bebida, ou por causa da minha mãe e da sociedade constantemente fechar os olhos para seu caráter duvidoso e criminoso, meu pai abusou de mim.

Naquele dia, eu achei que era castigo, alguma coisa que eu tinha feito, que era culpa minha. Se fosse algo mutuo, consensual, eu mesma teria tido a inciativa, como muitos casos que depois eu fiquei conhecendo, mas como acontece com frequência, abuso sexual de menor ocorre com gente da família ou parente. Não é a melhor forma de começar a vida sexual de pessoa alguma. Eu senti dor, medo, vergonha, mas isso aparentemente apenas estimulou meu pai, que se revirava dentro de mim. Eu só via uma enorme escuridão em minha volta, Buda não parecia estar me ouvindo. Então eu ouvi uma voz… aquela voz.

– Satou chan… isso não está certo… isso não pode continuar… a justiça precisa ser feita.

[pensando]- Quem… quem está aí… quem está falando?

– Você pode me chamar de Tanathos, Satou chan.

– Tanathos Sama… o que eu posso fazer? Eu sou apenas uma garota…

– Não, Satou chan, você é mais do que apenas uma garota. Em você corre o mesmo sangue das Deusas, minhas esposas, mães, irmãs e filhas. Libere seu poder.

– Como… como eu posso fazer isso, Tanathos Sama?

– Você consegue, Satou chan. Sinta seu verdadeiro Espírito. Desencadeie sua alma divina.

Eu senti… em algum lugar no meio da escuridão… algo quente… luminoso… intenso… chamando por mim… era eu mesma. Quando eu recobrei minha consciência, o corpo de meu pai [o verdadeiro, original], agonizava em minhas mãos.

Entre isso e a família Asahina, muitas coisas, pessoas e circunstâncias aconteceram, eu conheci e passei por esses eventos que ajudaram a me conhecer, me fortalecer, me preparar para ser a assassina [que digam psicopata, eu não ligo] mais perfeita que eu conheço, depois de Ran Mao, diga-se de passagem.

Então eu me vejo envolvida com a família Asahina e esses homens peculiares que estão quebrando todos os padrões que eu julgava serem perpétuos. O funeral duplo foi, eu devo admitir, o evento que concluiu a transformação que estava acontecendo em mim e em minha vida.

Eu não sou a pessoa mais sociável do mundo, mas eu tive que me esforçar para não surtar. Como previsto, familiares e parentes compareceram, assim como conhecidos e sócios. Da família Asahina eu tive que decorar cerca de sessenta nomes, dos parentes, mais oitenta. Com conhecidos e sócios, eu devo ter decorado trezentos nomes. Eu era praticamente uma estranha, mas eu me senti mais bem vinda entre essas pessoas do que entre meus familiares e parentes, esses ilustres desconhecidos, com que eu apenas compartilho a linhagem sanguínea.

– Satou!

A voz inconfundível, a aparência e o cheiro de Shouko são um balsamo. Eu fico imaginando mil planos para ter alguns instantes de intimidade com ela.

– Oi Shouko. Que bom que você veio.

– Eu não poderia faltar, né? Meus pêsames.

– Obrigada. Mas eu ainda não sou oficialmente parte dessa família.

– É sim, é sim! Satou ne chan é minha one san!

Wataru me abraça de forma tão sincera e calorosa que eu acabo retribuindo. Eu estou amolecendo.

– Shouko ne chan veio também! Oba!

– Oi Wataru. Meus pêsames.

– Obrigado Shouko ne chan. Olha, Fuuto está cantando! Vamos dançar?

Shouko balança a cabeça enquanto Wataru a conduz para perto do palco no qual Fuuto canta e casais dançam. Nem parece funeral. Fuuto fica fazendo caras e bocas quando olha na minha direção, eu percebo que Kaname faz sinais para ele [coisa entre irmãos] e ele finge que seus trejeitos é para todas as mulheres [casadas ou solteiras] que estão na cerimônia.

– Seria um enorme desperdício não aproveitar a oportunidade. Satou ne chan, aceita dançar comigo?

– Subaru?

– Hai. Só uma dança. Depois Yusuke quer dançar também. Nós dois estamos lidando com a dor. Mas nós estamos felizes por você e Shouko.

– Yusuke te contou né?

– Sim. Por favor, me perdoe, mas eu contei para Azusa. Ele fez uma expressão de incrédulo, mas aceitou e apoiou sua opção.

[risadas]- Vocês são fofoqueiros hem?

[riso contido]- Está surpresa por nós termos aceitado e nos conformado?

[séria]- Subaru… eu não conheço vocês e tem muito que vocês não sabem sobre mim. Mas eu acho que ao conhecer Luiz e Hikaru fez com que eu me desarmasse.

[sério]- Isso não importa, Satou ne chan. Daqui há algumas semanas, você será nossa irmã e nós seremos seus irmãos. [abraçando] Nós teremos muitas oportunidades para nos conhecer.

O abraço de Subaru é quente, acolhedor. Que coisa esquisita. Eu me sinto confortável.

– Hei, chega, agora é a minha vez.

Subaru faz uma reverência e passa a vez para Yusuke. Eu estou me estranhando cada vez mais, pois eu não me sinto ofendida, mas elogiada.

– Desculpe, Satou ne chan, mas eu fiquei com ciúmes ao te ver dançando com Subaru.

[sorrindo]- Eu acho que é inevitável. Vocês me amam.

-Sim. Azusa pelo visto também foi flechado pelo Cupido com o seu nome. O linguarudo do Subaru falou para ele sobre você e Shouko.

– Eu devo dizer que fiquei feliz com a reação de vocês. Eu acho que eu devo agradecer ao Luis e ao Hikaru.

– Sim, talvez. Você não sente ciúme de Shouko dançando com Wataru?

– Só um pouco. Mas eu não sou possessiva.

– Talvez seja bom falar com Wataru sobre vocês.

[sorrindo]- Eu sei que Shouko irá falar com ele. E conhecendo vocês, mesmo que só um pouco, eu sei que Wataru também vai aceitar.

[surpreso]- Não vai ficar chateada se Shouko e Wataru namorarem?

[risos]- Se isso acontecer, eu vou ter que aceitar.

[risos]- Falando em falar… eu acho que ainda falta Masaomi, Ukio e Natsume.

[fingindo inocência]- E Kaname.

– Conhecendo Kaname, ele deve ter percebido ou aprendido que ele está fora do páreo diretamente de você.

[riso abafado]- Assim eu fico parecendo uma conquistadora irresistível.

[sério]- Não foi minha intenção, Satou ne chan. Eu devo admitir que nós somos predadores. Nós puxamos ao nosso pai.

[séria]- O pai de vocês… Rintarou… meu futuro padrasto.

[mais sério]- Sim… isso pode vir a ser um problema.

– Assim eu fico assustada, Yusuke ni san.

– Não se preocupe. Nós iremos te proteger. [música parou] Satou ne chan… por favor, eu posso te dar um beijo?

– Sim… eu acho que sim…

Yusuke deu um beijo, um selinho. Eu fiquei intrigada por ter sentido algo.

– Perdoe-me por isso, Satou ne chan. Eu quis te dar um beijo por que eu não pude aceitar que Subaru recebeu um beijo seu.

– Tudo bem, Yusuke. Está tudo bem. Eu gosto muito de vocês dois.

Os demais casais que dançavam aplaudem vigorosamente. No centro do salão, Shouko ainda está beijando Wataru. Isso me deixa alegre e animada. Wataru cai no chão, estonteado. Todos riem. Eu compreendo Wataru e percebo que ele tem bom gosto. O beijo de Shouko é uma bomba atômica.

– Hei, seu folgado! Levante daí! Não é assim que um homem faz quando recebe um beijo!

– Aaaah, Yusuke ni san! Shouko ne chan me beijou!

– Sim, eu sei, Wataru. Eu conheço essa sensação incrível de beijar a mulher que você ama. Mas isso que você fez é grosseiro. Levante, peça desculpas e agradeça a senhorita Hida pela dança.

– Poxa… como é complicado… Shouko ne chan, desculpe por meu comportamento e obrigado pela dança.

– Hai, hai! Eu é que te agradeço, Wataru.

– Isso quer dizer que nós somos namorados, Shouko ne chan?

– Wataruuuuu!

[risos]- Vamos dizer que você ganhou um ponto.

– Uaaau! Um ponto! Quantos pontos eu tenho que ter?

– Wataruuuuu!

[risos]- Cem pontos, Wataru. Mas saber disso vai te custar um ponto.

– Quêêê? Cem pontos? E eu voltei ao zero? Isso não é justo!

– Wataruuuuu!

Eu e Shouko caímos na risada enquanto Yusuke chamava a atenção de Wataru. Shouko dá uma piscadinha na minha direção enquanto mostra a língua. Eu sei, pode ser ou não sério, isso não me incomoda. Eu sei que no “Sistema Shouko” eu tenho um milhão de pontos.

A cerimônia acabou e o salão vai esvaziando aos poucos. Eu respiro fundo e solto o ar. Talvez não seja o momento certo, mas eu tenho que “sair do armário” como dizem por aí.

Luiz e Hikaru foram fáceis. Eles sabiam. Do jeito deles, sabiam. Dificil foi Kaname e Natsume. Eles ficaram em choque. Masaomi e Ukio ficaram surpresos, mas ao sorrirem, eu vi que isso era irrelevante. Só faltava Wataru. Mas o choro dele mostrou que Shouko disse quem era o amor dela. Ele é um bom garoto. No ritmo que minha vida tem mudado, eu realmente cogito em dividir a Shouko com Wataru. E isso é o que me assusta.

Poderia ter acabado aqui. Isso seria perfeito. Seria o final feliz que as pessoas tanto aguardam quando leem estórias. Mas a história da minha vida tem que ter drama e suspense. Duas da manhã, barulho na cozinha, todos dormindo pesado, meus instintos tinindo. Alguém estava invadindo a casa. Meu sangue começou a ferver. Sabe-se lá por que eu queria defender os meus irmãos.

– Parado! Eu chamei a polícia! Você não vai conseguir roubar ou fazer mal a meus irmãos!

[gargalhadas]- Você deve ser Satou chan, a adorável filha da minha Zetsubo. Como eu posso roubar algo que me pertence, minha enteada?

Foi a primeira vez que eu vi aquele que estava para ser meu padrasto e ele me parecia incomodamente familiar.

– Algum problema, Satou? Viu um fantasma? Ah, verdade, nós ainda não fomos formalmente apresentados. Eu sou Rintaro, seu futuro padrasto. Você não deve se lembrar de mim, mas eu te conheci antes.

– Você me conheceu antes… quando? Como?

[sorriso maníaco]- Ah, Satou chan… eu quase fico magoado por você não se lembrar de mim. Eu sou irmão de seu pai, Yopparai.

Aquele era meu tio Shitsugyo. Isso explica tudo. A sensação de nojo. A fúria. De algum jeito ele trocou de nome, mudou a aparência, mas sua essência era igual a de meu finado pai original. Bêbado, violento, abusado, machista.

– Isso não faz sentido.

– O que não faz sentido? Eu ter uma família maravilhosa? Família que você poderia ter mas jogou fora? Meus filhos devem estar te tratando bem, aproveite, pois em breve eu contarei a eles a verdade.

– Qual verdade? Que seu irmão me estuprou e, quando eu lutei por minha vida, aconteceu um acidente e ele morreu?

– Essa é a mentira que você conta e convence, Satou chan? Então o trabalho que eu tive para mudar de nome, mudar de aparência e criar meus filhos valeu a pena. Isso praticamente me deixou falido, mas a pensão que eu irei ganhar após o trágico acidente com a minha futura esposa será o suficiente para recomeçar. Eu pretendia te deixar por ultimo, depois de estupra-la, mas eu posso adiantar a sua parte.

Soltando a gargalhada insana que é igual a de meu finado pai [original], Rintaro/Shitsugyo avança para me atacar, certamente com intenção de me matar. Os movimentos dele não seguia um padrão, algo que pode surpreender lutadores, mas este tipo de técnica eu conheço bem. Eu deixo ele brincar como quer, deixo que a falsa sensação de superioridade faça com que ele me subestime e abaixe a guarda.

– Qual o problema Satou chan? Não consegue me acertar? Eu sei tudo que você sabe. Eu conheço todos os seus truques. Você não tem como vencer.

Isso eu posso deixar de conselho. Nunca, jamais, diga a um psicopata ou assassino que vai fracassar. Gente como eu tem vontade e força sobre-humanas, não precisa de mais estímulo. Não deve ser novidade para qualquer assassino, psicopata, soldado ou guerreiro que toda luta é um xadrez, o que conta é a técnica e a estratégia, não a força, tamanho ou velocidade. Deliberadamente eu o deixo rasgar partes da minha roupa, só esperando o momento certo.

– Hehe. Meus filhos devem estar tendo ótimos momentos com você. Vai ser um desperdício, mas paciência. Está no momento de sua vida ter fim, Satou chan.

Nossa luta acirrada dá início a um incêndio que se espalha rapidamente. Inexplicavelmente eu fico preocupada com meus irmãos. Isso tem que parar. Não é muito bonito e agradável de ver ou descrever, mas o resultado, quando eu levo a sério, é sempre o mesmo. Rintaro/Shitsugyo está semiconsciente no chão e é uma questão de tempo até sua vida esvair. Meu foco passa para salvar meus irmãos e isso é surpreendente, vindo de mim.

No caminho, subindo pelas escadas, eu encontrei os mais velhos, despertados pelo barulho, calor e fumaça. Os mais dorminhocos são sacudidos e sou eu quem colhe Wataru, desacordado, provavelmente intoxicado pela fumaça. Pela primeira vez em minha vida eu senti dor no coração e saí correndo com ele, para fora, torcendo para não ser tarde demais. Meus olhos lacrimejam e eu tusso. Do lado de fora, bombeiros e equipes de resgate estão à postos. Eu mal vejo Wataru sendo levado. Mais dois minutos e nós dois teríamos morrido. Então eu perdi a consciência.

– Senhorita Matsuzaka? Está conosco?

Com dificuldade, eu sinalizo que sim.

– Ótimo, senhorita Matsuzaka. Continue conosco. Respire lentamente.

– Wa… Wataru… meu irmão…

– Ele está bem. Tem uma leve intoxicação com fumaça, mas está estável.

Eu sorrio e a porta da ambulância abre repentinamente.

– Satou ne chan?

Barulhentos, Yusuke e Subaru disputam o curto espaço no interior da ambulância, legitimamente preocupados mais com o meu bem estar.

– Oi pessoal [tosse]. Eu estou bem [tosse]. Como estão os outros? [tosse]

[dueto]- Todos estão bem, mas estão preocupados, perguntando de você.

No fim da tarde, após o rescaldo, os bombeiros confirmaram a identidade do corpo encontrado na mansão como o do proprietário. O delegado tentou falar comigo, mas o médico que me atendia não liberou. Eu acho que ele ficaria contrariado se soubesse que o doutor abriu exceção para Shouko que veio, afogueada, arfando e chorando.

– Satoooou!

Choradeira atrás de choradeira. Eu fui liberada pelo médico três dias depois, quando ficou programado o funeral de Rintaro. Estavam todos lá e meus quase irmãos ficaram ao meu lado todo tempo. Evidente, mamãe não casou e vai ficar de molho por algumas semanas. Isso aparentemente não importava, eles ainda me tratavam como irmã deles.

No fim da cerimônia, quando sobravam só os Asahina, mamãe, eu e Shouko, alguém [provavelmente Wataru] jogou a ideia de que deveria acontecer um casamento. Mas dessa vez entre eu e Shouko. Shouko começou a chorar copiosamente e eu fiquei lá, pasma, passada, empacada. Kaname nos casou e abençoou nossa união. Wataru fez questão de ser o padrinho e levar as alianças. Os demais fizeram uma coleta e nós recebemos de presente uma casa inteiramente mobiliada.

Então, tia, eu e Shouko estamos oficialmente casadas e temos nossa própria casa. Mesmo sem que mamãe tenha se casado, eu e Shouko fomos adotadas pela família Asahina. Que fique entre nós, mas eu tive que deixar todos no verde, fora da lista. Como eu te disse antes, algo mudou. Eu acho que, agora sim, eu posso dizer que eu tive meu final feliz.

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Amor e crime – V

Com a precisão de um relógio suíço eu acordo e vejo que Luiz e Hikaru roncam em dueto. Se a intenção deles é de serem meus guarda-costas, falharam. Se bem que eu não precise. Eu desenvolvi e descobri uma força sobre humana em mim desde aquela conversa que eu tive com meu pai… bom, o verdadeiro, o original.

Três dos meus irmãos estavam na cozinha, outros estavam trabalhando ou providenciando os arranjos do funeral de Tsubaki. Eles estavam mais sérios e graves do que antes.

[encenando]- Gente… isso aconteceu mesmo?

– Infelizmente sim, Satou.

– Eu… eu estou arrasada. Eu perdi mais um irmão.

[chorando]- Satou one san promete que você não vai sumir?

[sorrindo]- Não se preocupe, Wataru, eu não vou sumir.

[fungando]- Promete?

[sorrindo]- Eu prometo. Agora, pare de chorar. O que Shouko diria se te visse assim?

[enxugando o rosto]- É mesmo! Eu prometi para Shouko chan que eu seria um homem honesto, decente e honrado.

[sorrindo]- Isso mesmo. Quem sabe você tenha chance de ser namorado dela?

[animado]- Sim! Sim! Eu vou conseguir!

– Claro que vai, Wataru. Satou, poderia ir com Azusa para buscar Subaru no ginásio? Ele era mais apegado ao Iori do que nós e recebeu a notícia depois do jogo oficial do time da Universidade de Meiji.

Eu aceitei pensando em formas de analisar Azusa. Eu também quero conhecer a Universidade de Meiji, onde pretendo ingressar.

– Satou ne chan, aconteceu algo entre você e Yusuke?

– Não que eu saiba, Azusa ni san.

– Que bom. Yusuke é esquisito, até para nosso tipo de família. Mas ficou mais esquisito nos últimos dias. Eu acho que eu o ouvi falar o seu nome depois de vários suspiros.

– Ah, isso. Yusuke é um doce. Ele se confessou para mim. Como se vocês não fossem meus irmãos.

– Satou ne chan, eu me sinto à vontade para conversar com você porque você é direta, lógica e inteligente como eu. Então eu confio em seu bom senso, pois eu sei bem o que Yusuke sente. Eu nunca senti algo assim antes. Eu tenho certeza de que meus outros irmãos também foram impactados por sua beleza. Yusuke não fala como costumava, então permita-me perguntar se tem alguém de quem você gosta.

– Que é isso, Azusa! Do jeito que fala até parece que eu sou uma miss universo. Eu sou uma garota comum.

– Permita-me discordar, Satou ne chan. Você exala uma aura de enorme poder. Eu quase desejo que nossos pais não se casem, para que eu possa lutar pelo seu amor.

– Eu fico lisonjeada, Azusa, mas meu coração está preenchido.

– Entendo. Isso faz sentido. Isso explica a melancolia de Yusuke. Nesse caso, eu te peço que seja gentil e fale isso para Subaru. Ele é mais fechado e tímido de nós, mas ele deve estar apaixonado por você.

– Eu não sei, Azusa… falar disso, sem mais nem menos… não é cruel?

– Sim, especialmente se tratando de Subaru. Eu vou sutilmente dar uma deixa com a qual você ou ele podem começar a conversar. Na pior das hipóteses, ele vai ficar melancólico como Yusuke.

– Obrigada, Azusa. Mas… e você?

– Eu estou bem. Coração apertado e doído, mas eu estou bem.

Nós entramos pelo ginásio de basquete da Universidade de Meiji e inevitavelmente o treino parou, todos os presentes esqueceram-se do treino e ficaram me olhando. Subaru era o mais avermelhado do time.

– Oi Subaru ni san. Eu vim te buscar.

Assovios, aplausos e uivos. O coitado ficou mais roxo que berinjela quando eu o abracei. Azusa ficou evidentemente contrariado.

– Que é isso, pessoal? Essa é minha irmãzinha, Satou.

– Irmãzinha, né?

– Bem que eu gostaria de ouvi-la falar oni san no meu ouvido.

– Pois eu dispensaria todas as minhas namoradas para ficar cinco minutos com ela.

Muitos risos, piadas, bobagens. Depois os homens não sabem por que é tão difícil achar uma namorada. Homem que se preza tem elegância e discrição. Nós três saímos daquele Clube do Bolinha e Azusa deu uma desculpa bem fraquinha para deixar eu e Subaru à sós. Eu respirei fundo e exalei.

– Eles… eles te chatearam, Satou ne chan?

– Tudo bem, Subaru, eu estou acostumada. Palavras não podem me atingir.

– Mas palavras escondem intenções que podem virar ação. Eu não quero que você se machuque.

– Awww… meu irmãozão está preocupado comigo…

– Sa… Satou! Não fique me abraçando desse jeito!

– Abraço de irmãos! Awww…. não fique assim, Subaru. Eu sei que você gosta de mim, como todos os outros.

– Pode ter certeza disso… muito embora eu só conheça um que sente o mesmo que eu… Yusuke… ele certamente te ama… mas não mais do que eu.

– Su… Subaru… essa é a coisa mais linda que eu ouvi hoje…

Não deve ser surpresa ou novidade para quem quer que seja que a mulher em geral diz aquilo que o outro quer ouvir. Eu dei um beijo, um selinho no Subaru, suas orelhas pareciam chaminés, ele tremia inteiro, suava bastante e algo aumentou entre suas pernas. Eu devo ter dado o primeiro beijo da vida dele.

– Subaru, eu gosto muito de você. Você é gentil, atencioso, educado. Mas nós somos irmãos e eu tenho um amor. Então eu não posso corresponder ao amor que você tem por mim.

Em seus dois metros de altura, Subaru despenca como se fosse um vaso trincado. Chorou, chorou, mais do que Yusuke. Eu só não sei por que isso acabou me incomodando. Eu devo estar amolecendo.

[resfolegando]- Eu… eu sabia… não tem como uma mulher linda como você não ter alguém no coração. [enxugando as lágrimas] Satou ne chan, você precisa falar isso para Yusuke.

– Oh… bem… desculpe sua irmãzinha, mas eu e Yusuke nos acertamos antes.

[surpreso]- Yusuke… se declarou? [sinal positivo] Heh… bem a cara do Yusuke. Bom, lágrimas não vão resolver coisa alguma. Vamos irmãzinha, vamos voltar para casa.

– Ahn… Subaru… tem algo que você precisa saber.

[sério]- Tudo bem, Satou ne chan. Eu aguento. Pode falar.

– Iori ni san morreu.

Subaru baqueou mas não caiu. Ele sentiu mais a minha “perda” do que a morte do Iori. Eu vou considerar isso um elogio. Talvez eu deixe Subaru fora da minha lista, definitivamente, tal como Yusuke.

Miraculosamente Azusa reaparece e cogitam em me deixar no colégio, mas perfeita como sempre, Shouko me liga e avisa que o colégio me dispensou para que eu cuidasse do funeral. Isso quase me faz gostar de verdade da família Asahina. Esperta, Shouko se ofereceu de levar para mim as matérias e lições todos os dias que eu precisar ficar afastada. Ao menos eu não ficarei entediada.

– Nesse caso, nós devemos voltar para casa. Agora nós teremos um funeral duplo para realizar. Será o dobro de preparativos e planejamentos.

Alguém liga para Azusa. Kaname pede carona para casa. Ele quer trazer seus colegas de templo para o funeral, mas precisa acertar os detalhes com a família. Foi dessa forma que eu me vi no banco de trás com o monge, voltando para a mansão Asahina.

– Bom dia irmãzinha. Você não devia estar no colégio?

– O colégio dispensou-a, para cuidar do funeral.

– Entendo. Eu dedicarei uma oração de agradecimento ao colégio por liberar nossa irmãzinha. Satou ne chan, você pode desabafar comigo sua tristeza pela perda de seus irmãos.

Kaname envolveu-me em seu braço com aquela intimidade e intenção sexual que, provavelmente, está acostumado a ter com as mulheres que frequentam o templo onde ele trabalha. Eu só precisei dar uma encarada pala ele recuar, assustado. Ele e Fuuto estão no amarelo. Eu não decidi sobre Masaomi e Ukio. Eu ainda me recuso a fichar o Wataru. Realmente, eu estou amolecendo.

Quando chegamos em casa, tinha vários veículos e muitas pessoas indo e vindo apressadamente. Luis e Hikaru coordenavam as equipes de profissionais e fornecedores, deixando Ukio e Masaomi para decidir nos momentos que a coisa empacava. Sabe se lá saindo de onde, eu fiquei animada e me pus a, voluntariamente, ajudar naquilo que eu podia. Quando eu ficava canada ou desanimada, bastava eu olhar para Wataru para recobrar o animo. Pouco depois chegaram Yusuke e Natsume, juntamente com Kaname e seus colegas de monastério. Tudo acertado, conseguimos fechar a lista com duzentas pessoas. Eu estava esgotada, mas foi só Shouko chegar [deixando Wataru muito feliz] que o cansaço sumiu.

– Shouko ne chan! Olha só! Eu fiz um monte de coisa para o funeral!

– Nossa, Wataru! [beijo na testa] Olha, se você continuar assim, eu sou capaz de me apaixonar por você!

[animado]- Uaaaau! Shouko ne chan me deu um beijo!

Eu fico me estranhando por não sentir ciúme de Wataru. Eu deixo escapar uma risadinha abafada. Wataru tem toda razão, o beijo de Shouko é uma delícia. Yusuke parece cochichar algo para Subaru. Ele arregala os olhos por alguns segundos em nossa direção, mas assim como Yusuke, aceitou e se conformou. Ele fez positivo na minha direção. Com isso são dois de meus irmãos que sabem e apoiam o meu amor com Shouko. Será que eu estou indo em direção a um final feliz?

Amor e crime – IV

Ao contrário de meus irmãos, eu tive uma excelente noite de sono. Eu tive um sonho esquisito onde eu e Shouko nos casávamos e acabei acordando molhada. Eu pude perceber facilmente que eles estavam todos na cozinha, ainda lastimando, choramingando. Como presidente do clube de teatro do colégio, eu fui fazer a minha cena.

[snif]- Gente… eu não consegui dormir. E vocês?

– Bom dia, Satou chan. Eu acho que falo em nome de todos quando digo que nós todos estamos chocados.

– Sem dúvida. Eu fiquei desanimado até para preparar o desjejum de todos.

– Ah! Ukio oni san! Você preparou algo né?

[rindo]- Claro que sim, Wataru. No entanto eu só preparei panquecas e cobertura de melaço ou chocolate. Eu espero que seja o suficiente.

– Ooobaaa! Itadakimasu!

O animo e o apetite de Wataru dissiparam o clima pesado.

– Wataru sempre encontra uma forma de nos animar. Satou, eu te agradeço por sua preocupação.

– Não por isso, Masaomi. Afinal, nós em breve seremos uma família.

– Falando nisso, hoje chegarão nossos outros irmãos que ainda ficaram de ser apresentados, Luis, Hikaru e Fuuto.

– Vocês chamaram?

Iori entra e traz com ele os três dos meus irmãos que ainda não conhecia.

– Uau! Então essa é a nossa futura irmã? Valeu a pena escapar da turnê para te conhecer. Muito prazer, eu sou Fuuto.

– Hã… o prazer é meu. Eu sou Satou Matsuzaka.

– Fuuto é o mais conhecido pelo público. Você deve ter visto algum de seus videoclipes.

Sim, infelizmente eu o reconheci. Não existe uma garota do colégio que não suspira, cantarola as músicas ou coleciona imagens desse ídolo pop.

– Ukio que não nos ouça mas Fuuto, depois de Natsume, é o que mais vive ocupado. Você ainda não o conheceu porque ele vive sozinho.

Não importa. As mãos de Fuuto são gordurosas e delicadas. O máximo de esforço que ele faz é segurar o microfone, entoar aquelas letras desagradavelmente açucaradas e fazer aquela pose que agrada o público feminino influenciável. Mesmo se eu gostasse de homens, ele estaria riscado de minha lista.

– Hei a irmã não é só de vocês, sabiam? Muito prazer, eu sou Luis e esta figura vestida de mulher é Hikaru.

[risos]- Sim, eu sou cross-dresser e sou afeminado. Ao contrário de meu irmão Luis, eu não tenho vergonha em admitir que eu sou homossexual.

– Hei… quem ajudou quem a sair do armário?

– Isso é uma competição?

Os dois caem na risada. Fuuto é o que merece minha atenção. Luis e Hikaru não constituem qualquer ameaça. O maior risco que eu corro com eles é de quererem mexer na minha maquiagem e vestuário. O som de um celular nos faz voltar ao assunto.

– Alô? Natsume? Sim, sou eu, Masaomi. Ah. Entendo. Ótima notícia. Nós te aguardamos na cozinha. Só falta você conhecer nossa irmã. Hã? Como ela é? Venha ver pessoalmente. Puxa… que grosseiro. Desligou na minha cara.

– Finalmente o ermitão dá as caras.

– Gente, desculpe trazer esse assunto de volta, mas nós temos que nos organizar para o funeral de Tsubaki. A parte religiosa nós podemos deixar com Kaname, ele se ofereceu para fazer o ritual budista gratuitamente.

– Vantagens da família Asahina ter seu próprio monge.

– Mas tem a parte civil. Onde e como nós faremos a recepção para os parentes e familiares?

– Hai. Eu tenho o salão.

– E eu posso providenciar o serviço de buffet.

– E eu posso fazer um espetáculo privativo.

– Obrigado a todos. Eu só espero que a presença de Fuuto não cause uma comoção em todo o bairro.

– Ah, poxa, Masaomi, não estraga meu momento.

[risos]- Pena que a família Asahina não tenha um delegado de polícia para ajudar na segurança e bloqueio.

Todos começam a rir e trocar piadas, a despeito da gravidade do assunto. Eu não tinha ideia de que existia família assim ou homem assim. Eu não sei por que eu fico constrangida por não ter algo a colaborar. Afinal, fui eu quem matou Tsubaki. A campainha da porta torna-me útil.

– Deixa que eu atendo.

Eu abro a porta e minhas mãos tem bastante material para se ocuparem. Shouko veio me buscar. Então algo parece envolver meu quadril, meu sangue começa a ferver.

– One chan Shouko! Você vai no funeral do Tsubaki, né?

– Hã? Que? Ah, oi Wataru. Eu não sei… eu considero Satou minha irmã, mas eu não sei se eu posso ir.

Estranhamente minha fúria arrefece. Meus sentimentos são confusos e conflitantes quanto a Wataru. Eu não sei se ele tem essa excessiva liberdade e intimidade comigo por ser imaturo ou se está se aproveitando, pois idade não define maturidade. O peso de uma mão no meu ombro provoca outra sensação, de tranquilidade, eu diria que foi um toque paternal.

– Claro que pode vir, senhorita Hida. Eu endosso que a senhorita é sempre bem vinda em nossa casa.

– Masaomi oni san, você também gostou da Shouko chan, né?

[riso curto e abafado]- Não fale isso, Wataru. Não seja mal-educado e indiscreto. O que nossa irmã vai pensar de nós? Nós não somos lobos famintos.

[choramingando]- De… desculpe one san.

[risos]- Não tem problema, Wataru. Vamos combinar assim. Se, quando você crescer e amadurecer, você for um homem bom, decente e honrado, pode ser que eu me interesse por você, que tal?

[olhos brilhando]- Mesmo? [cabeça dizendo sim] Ueba! Viu, viu, Masaomi oni san?

[risos]- Wataru… você não tem jeito.

Eu não sei por que eu sinto vontade de rir junto. Shouko está animada e parece falar sério. Eu sinto uma pontada de ciúme. Quase tristeza diante da expectativa de ser traída pela mulher que eu amo. Eu fico intrigada por sentir que isso é irrelevante. Eu volto para a cena coma chegada de um carro e de alguém desembarcando com pressa.

– Masaomi! Eu cheguei! Conte-me tudo!

[estressado]- Natsume… apressado, como sempre. Isso não muda o fato de que você é um Asahina. Tenha modos e comprimente nossa irmã e sua adorável amiga.

Mais um homem elegante e educado. Eu custo crer que existam homens assim. Ele estende a mão para mim e faz a apresentação formal.

– Muito prazer. Eu sou Natsume.

– O prazer é meu. Satou Matsuzaka. Como sabia que eu sou sua irmã?

– Wataru deu uma boa dica. Ele é um bom garoto, mas só tem essa excessiva intimidade com quem é da família.

Ah, sim. Wataru ainda estava enganchado em mim. Shouko riu e fez piada. Eu fico aborrecida, mas não chateada. Eu mal consigo me reconhecer.

– E esta donzela, quem é?

– Hai! Muito prazer, eu sou Shouko Hida, a melhor amiga da Satou.

– O prazer é meu. Os outros devem estar na cozinha, comendo as coisas preparadas por Ukio.

– Sim, estão.

– Senhorita Hida, está com fome?

[acanhada]- Bom… só um pouquinho…

– Hei, seus esfomeados, guarde um pouco e tenham modos. Eu estou entrando junto com a senhorita Hida.

Muita bagunça, arruaça, risadas, piadas. Natsume conduz Shouko com educação e distinção. Eu não percebo um único sinal de intenção sexual. Esses homens estão quebrando muitos padrões. Ou será que eu estou sendo preconceituosa? Eu fico mais intrigada por não sentir ciúme de Shouko saltitando ao lado de Natsume. Parece a irmã nova andando com o irmão mais velho. Eu estou passando por várias novidades e surpresas, inclusive a meu respeito. Eu volto para dentro, acompanhada por Wataru e Shouko encontra-se totalmente enturmada e com a boca cheia de guloseimas. Eu tento acompanhar o ritmo, mas isso é impossível, ninguém consegue acompanhar Shouko, o que torna verdadeiro mistério de como ela não engorda um grama.

– Chega por hoje, né, Shouko? Nós temos que ir à escola. Nós vamos perder o ônibus.

Shouko e Yusuke arregalam os olhos lembrando-se do horário do ônibus escolar. Isso ambos têm em comum.

– Não se preocupem. Eu levo vocês.

– Obrigado Iori oni san.

Eu me vi dentro do carro praticamente sozinha com Iori, pois Yusuke e Shouko dormiam pesadamente no banco de trás devido à comilança. Iori está quase terminando a terceira série e pode-se dizer que tem um pé em qualquer faculdade que quiser cursar. Eu sei que a coisa não vai acabar bem pelas músicas que ele deixa tocar no mp3player.

– Satou chan, eu devo dizer que eu estou impressionado contigo.

– Hai?

– Eu devo me formar em breve, mas não tem um único colega meu que não fale de você e agora eu vejo o motivo. Meus irmãos devem estar sofrendo bastante, assim como eu, com toda essa beleza natural irresistível.

Quando eu entrei no Colégio Makikou, a fama de Iori como conquistador foi a primeira coisa que eu aprendi. Eu perdi as contas de quantas garotas e professoras choraram por causa dele. Eu não posso criticar, pois eu fui assim com relação aos meninos e professores durante a primeira série. Se eu ouvi sobre a fama dele, ele deve ter ouvido algo sobre a minha fama. Dissimulado, fingindo que vai trocar de marcha [câmbio automático] ele repousa a mão em minha coxa e fica com aquela expressão plastificada, com uma resposta pronta caso eu reclamasse. Eu só o encarei e sinalizei com meu dedo indicador deslizando de um lado a outro do meu pescoço, deixando claro o que aconteceria se ele não parasse.

– Você é mesmo uma graça, irmãzinha. Eu só fico imaginando a expressão que meus irmãos irão fazer quando descobrirem sobre seu passado promíscuo no colégio.

– No momento certo, eu mesmo irei falar, se for conveniente. Ao contrário de você, irmão, eu não tenho medo ou vergonha de meus atos, eu sou consciente e responsável.

[gargalhada]- Claro, irmãzinha, claro.

Iori breca bruscamente o carro, despertando Shouko e Yusuke. Nós desembarcamos calados e emburrados.

– Boa aula, meus irmãos e senhorita Hida. Satou one chan, eu venho te buscar às cinco da tarde, oquei?

– Como quiser, Iori oni san.

– Ah, sim, eu quero. [piscada indiscreta]

Eu tive todo o período de aulas para pensar e planejar em como eu iria aumentar a minha conta de vítimas. O que me empacou foi quando eu comecei a pensar em quantos eu colocaria na lista. Eu sentia arrepio quando pensava em Wataru. Quando eu pensava em Yusuke e Subaru, minha cabeça ficava girando. Luis e Hikaru estavam totalmente fora. Eu me recusava a pensar em Masaomi e Ukio. Eu não tinha opinião formada sobre Fuuto. Essa era a novidade que me incomodava.

– Satou? Você está aérea. Aconteceu algo?

– Quê? Ah! Shouko, não é nada. Eu só estou preocupada. O casamento de mamãe, agora a morte de Tsubaki.

– Fique tranquila. Tudo vai ficar bem.

Shouko me abraça e acaricia meus cabelos. Eu queria arrancar a roupa dela e come-la ali mesmo, mas tem muita gente olhando. Shouko é a base do plano que vai lidar com meu irmão Iori. Perdoe-me Shouko, por envolvê-la.

Pontualmente Iori estaciona na frente da escola e Shouko faz a parte dela. Iori me procura onde recebeu a indicação, mas colaboradores inocentes declaram que me viram partir no ônibus escolar. Iori ficou irritado e eu contava com isso, distraído, foi tentar interceptar o ônibus escolar sem que tenha visto os ajustes que eu tinha feito no carro.

Como eu havia previsto, o motorista dirige até a junção com a linha férrea, mas o carro de Iori tem uma falha misteriosa que faz com que o veículo seja colhido em cheio pelo trem das cinco. Eu estava a poucos metros dali quando o pessoal no ônibus escolar começou a gritar, horrorizados com a tragédia que testemunharam. Policiais e o resgate chegaram relativamente rápido, mas não tinha muito que fazer. Eu comecei a rir desenfreadamente enquanto os policiais tentavam colher os pedaços do que era meu irmão.

O motorista e os alunos foram levados para a delegacia de polícia. Tanta gente, tanta confusão, somando os repórteres, ninguém percebeu quando eu entrei e me juntei aos demais alunos.

– Satou chan!

– Ah… Shouko chan.

[snif]- Ah, Satou… [snif] que horrível… [snif] que tragédia… [snif] que bom que você está bem.

– Sim, Princesa, eu estou bem. Você está bem?

– Eu estou bem. Eu estava no ônibus seguinte. Deve ter sido terrível para você ter visto tamanha tragédia.

– Eu estava no fundo do ônibus, estava cheio de alunos, então eu não vi muita coisa. Eu só sei que houve uma colisão.

– Ohmeudeus… então você não viu, não sabe?

– Sei o que Shouko chan?

[snif]- Satou… você terá que ser forte… por Wataru.

– Diga logo, por favor!

[snif]- Satou… Iori morreu!

Senhores da Academia de Cinema, reservem um Oscar para mim. Eu mereço por minha excelente atuação. Yusuke chegou pouco depois e eu fiquei pasma por ele estar mais preocupada com o meu bem estar. Ele murmurou algo sobre Iori ter recebido diversas ameaças de morte por namorados e maridos. Ah, Tanathos, eu te devo mais uma.

O delegado nos levou de volta para casa. Masaomi estava arrasado, mas aliviado por me ver intacta. Wataru grudou em mim como se eu fosse sumir. Luis e Hikaru fizeram questão de dormir comigo e eu aceitei. Eu tive que ficar uma noite sem minha Shouko, mas tal como Tsubaki, a morte de Iori funcionou como sonífero e eu tive sonhos maravilhosos.

Meu porco, minhas regras

Hellen é psiquiatra, psicóloga, psicanalista e terapeuta em Cartoonland. Ela atende junto com seus colegas cerca de vinte a trinta personagens por dia. A vida dos personagens em Cartoonland é estressante e os cidadãos têm crises de identidade e de ética constantemente.

Por profissionalismo e ética, Hellen sempre deixa bem claro que atende conforme a ordem de chegada. Seu nicho tem vinte e cinco fichas e ainda são oito da manhã. Ela prepara seu consultório com música relaxante, atiça um incenso e liga as câmeras de segurança.

Os casos e os clientes vão passando pela análise e atendimento na clínica, pausa para o almoço e retomada. Hellen está aborrecida e desanimada, os casos são comuns, banais, problemas que seriam facilmente evitados [ou resolvidos] se os clientes tivessem recebido de seus pais [ou responsáveis] algum corretivo educativo [a moda agora é educar sem dar palmada, gerando crianças e adolescentes problemáticos].

Quase no fim do expediente [17h] Hellen pega a ultima ficha. Um sorriso surge em seu rosto. Conforme ela se dirige à sala de espera, seus colegas [homens e mulheres] abrem as portas para vê-la passar.

– Senhor Squigley?

– Aqui!

– Por aqui, senhor Squigley.

Conforme Hellen retorna, uivos, assovios, vindo dos homens, mas também de algumas mulheres. Squigley a acompanha excitado, mas controlado.

– Por favor entre, senhor Squigley e sente-se.

O cliente entra e senta normalmente. Uma evolução considerável.

– Como o senhor se sente hoje, senhor Squigley?

– Eu acho que eu estou bem. Eu não sinto mais culpa por consumir pornô. Nem tenho mais tanta compulsão em consumir.

[batendo palma]- Excelente, senhor Squigley. O senhor conseguiu perceber e estabelecer qual é, onde está e como controlar aquilo que foi estabelecido como problema. Hoje nós tentaremos desproblematizar a pornografia e, com sorte, nós podemos trabalhar com sua autoestima.

– A senhorita não acha que a pornografia é um problema?

– No mundo contemporâneo existe uma profissão que carece, urgentemente, de legalização e regulamentação: a do trabalhador do sexo. Todo tipo de ocupação humana é igualmente digna e todo tipo de ocupação humana é exercida mediante pagamento, mas o trabalho do sexo ainda está cercado de tabus, proibições e estigmas. Centenas de pessoas humanas são relegadas à clandestinidade simplesmente porque alugam seu tempo de serviço e sua ferramenta [o corpo] para suprir a necessidade humana de sexo. Essa função carrega consigo o estigma da sociedade porque nossa cultura sofre com a influência da religiosidade judaico-cristã que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como coisas pecaminosas.

– Ma… mas… os estudos mostram as consequências prejudiciais da pornografia…

– A princípio a pornografia foi duramente combatida pelos governos, mas depois tolerada, por que era rentável e fornecia meios para endossar o sistema de repressão e opressão sexual. A pornografia, ou a escrita da prostituição, recebeu a pecha de coisa vulgar, suja, imprópria, impura, pois exacerbava aquilo que ainda hoje são tabus na cultura ocidental cristã: amor, sexo, relacionamento, desejo, prazer e o corpo. A pornografia foi usada pelo Estado, pela Sociedade e pela Igreja para manter o patriarcado, a misoginia, a monogamia e a heteronormatividade. O curioso é que quando o Feminismo Radical contesta e protesta contra a pornografia, acaba endossando o discurso oficial.

– Então há correlação entre pornografia e prostituição?

– Tanto a pornografia quanto a prostituição são expressões bem antigas, embora tenham recebido outros conteúdos, contextos e conceitos, em outras épocas. Houve uma época onde existiam as prostitutas sagradas, houve uma época onde a cortesã recebia alguma estima social. A prostituição desceu na escala das ocupações na Era Vitoriana e seu Puritanismo. A pornografia desceu na escala das expressões artísticas na Era Moderna, com as ditas revistas masculinas adultas. Entretanto, em torno da revista ou da prostituta existem diversos outros profissionais que, da mesma forma, estão no trabalho do sexo, mas que são relegados ao mesmo substrato social. Para melhorar a condição destes profissionais, torna-se urgente e necessário a legalização e regulamentação desse trabalho.

– Mas nos dias de hoje, a pornografia e a prostituição não são formas de exploração e escravização da mulher, não patrocinam o tráfico humano?

– O problema está na sua forma, no seu conteúdo, ou na sua produção? Inúmeras artistas foram consagradas pelo público exatamente através da exploração do seu corpo, sua sensualidade, não pessoas escravizadas. Inúmeros jogadores de futebol são comprados e vendidos entre times de diversos países, mas são considerados atletas bem sucedidos, não vítimas de tráfico humano. Então essa contestação, esse protesto e movimento para criminalizar a pornografia tem outro objeto [problema] e objetivo [solução].

– E… então… não há coação… opressão… supremacia masculina… sexismo?

– Existem, de formas bastante distintas e diversas, inclusive vindo de grupos e organizações sociais e políticas que supostamente existem e que estão “defendendo a mulher”.

[intrigado]- Eu não entendi.

[sorrindo]- Isso se chama biopolítica. O corpo é o lugar onde se exerce a política. Quem controla o corpo tem o controle político. Quando [e se] o indivíduo retomar a posse, o poder e a autonomia sobre seu corpo, nós teremos a base para uma sociedade melhor. O corpo é um território a ser reconquistado. Nenhuma outra pessoa ou grupo deve ter o poder sobre o seu corpo. O que esses grupos estão realmente falando é que você [ou eu] não é suficientemente maduro ou consciente sobre como deve viver seu desejo, seu prazer, sua sexualidade. Este é o sentido da biopolítica, quando o Estado trata o sexo, de assunto privado, torna-se assunto público. O modo de produção capitalista/consumista/industrial precisa manter a máquina humana em funcionamento e [re]produzindo. Para isso, políticas de controle populacional, tecnologias de contracepção e tratamentos médicos para doenças sexualmente transmissíveis surgiram.

– Mas… e o tráfico humano? A escravidão?

– Ora, fiscalização e punição das pessoas e empresas que o fazem. Querer criminalizar a pornografia e prostituição alegando que promovem a escravidão e o tráfico humano só atinge aqueles que são as vítimas. Acredite, escravidão e tráfico de pessoas vão continuar a existir, mesmo sem a pornografia e a prostituição.

[pensativo]- Criminalizar a pornografia e a prostituição resulta em mais repressão e opressão sexual?

[levantando os braços]- Bingo! O problema deixou de ser problema para ser uma ferramenta de resistência e contestação. Então vem a calhar pensar por que a pornografia [e a prostituição] se transformou em problema para você, senhor Squigley.

[constrangido]- Bom… eeehh… sabe como é… eu vejo aquelas mulheres, em boates, nas esquinas, tendo que trabalhar em condições precárias, alugando seu corpo para satisfação sexual de estranhos…

[sorrindo]- Isso é problema na relação de trabalho, coisas que são corrigidas exatamente com a legalização e regulamentação dessa ocupação. Veja bem, pessoas que trabalham no campo estão assim, pessoas que trabalham em confecção estão assim, por que só criminalizar a prostituição?

– Mas… essas mulheres… não estão em situação de fragilidade e acabam sendo agenciadas por falta de opção?

[séria]- Pessoas em situação de fragilidade vendem bala nos faróis, fazem bico como entregador, armam barraquinhas com produtos de origem duvidosa, contrabandeiam mercadorias… por que só as que alugam seu corpo são visadas? Criminalizar a prostituição [e a pornografia] só irá complicar seu estado de fragilidade.

[engolindo seco]- Ma… mas… eu não consigo evitar… elas devem ser mães, irmãs, filhas de alguém…

[rindo]- Sim… muitas são casadas, noivas ou tem namorados. Assim como os clientes delas são esposos, pais, filhos ou irmãos de alguma mulher. Isso não os impede de procurar pelo serviço. Se isso fosse realmente um problema, um vício, como querem te fazer crer, acha mesmo que essas mulheres não pressionariam a seus homens [conforme a ligação de relacionamento] a não usarem desse serviço, ou melhor, não dariam elas mesmas o alívio que tanto procuram?

[arregalando os olhos]- Ma… mas isso é….

[cortando]- Pecado? Pois é esse o verdadeiro motivo pelo qual tem tanta gente querendo criminalizar a pornografia e a prostituição. A despeito do discurso e das boas intenções, não passa do mesmo falso moralismo hipócrita do fundamentalismo cristão que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como algo ruim, sujo, errado, pecaminoso.

[engolindo seco]- E… eu não pensei nisso…

[suspirando]- Está tudo bem, senhor Squigley. Poucas pessoas são capazes de perceber e analisar a complexidade da pornografia e da prostituição. O meu interesse é o de fazer com que supere esse trauma que adquiriu por conta da forma como você supre sua necessidade normal, natural e saudável por relações sexuais. Talvez nós devamos deixar para outra sessão sobre onde, como e por que o senhor adquiriu esse trauma. Hoje vamos explorar sua relação com o sexo e como você atende essa necessidade.

[cismado]- O… oquei.

[sorrindo]- Senhor Squigley, qual a imagem que o senhor tem de você?

[cabisbaixo]- Ah… bem… eu sou um porco. Baixinho, gordinho, egoísta e hedonista. O criador [Tasuya Ishida] me fez como uma forma [não sutil] de criticar o machismo [porco chauvinista].

[séria]- Senhor Squigley, essa é a forma como você se vê ou é a forma como as pessoas te veem?

– Hein?

[encarando]- Senhor Squigley, é muito comum nós permitirmos que as opiniões dos outros interfira [e defina] a imagem que nós temos a nosso respeito. Pare de se olhar pelos olhos dos outros. Quer que eu te ajude a se ver como você é?

– Hã… sim?

Hellen parece vasculhar por algo, deixando seu corpo em uma posição que deixou seu traseiro empinado, provocando reação imediata.

– Pronto, senhor Squigley. Olhe bem para este espelho. O que vê?

– Eeeeh… eu vejo um porco.

[franzindo a testa]- Senhor Squigley, faça um esforço.

[amedrontado]- Eeeeeh… espera… eu estou vendo meus pais, meus avôs…

– Excelente. Continue.

– Mas… que truque é esse? Eu vejo vários porcos, com roupas de épocas distantes. Opa… epa… quem é esse?

– Descreva, senhor Squigley.

– Eu vejo um bicho enorme, peludo, cerca de 1,80 cm, 200 kg. Ele tem uma expressão ameaçadora, com aqueles dois caninos saindo de seu maxilar inferior.

– Senhor Squigley, esse é seu ancestral, o javali. Quando os javalis andavam em grupo, até os lobos os temiam. Este é o espírito do seu clã. Você tem o sangue desse guerreiro forte e poderoso.

– Me… mesmo? Eu… tenho?

– Sim, senhor Squigley. Respire fundo. Sinta seu sangue fluir. Evoque seu espírito ancestral.

Uma névoa volteia em torno do Squigley, cada vez mais densa e luminosa. Acontece um facho de luz e Squigley se vê como realmente é.

– Ma… mas… como? Esse sou eu?

[lambendo os lábios]- Sim, senhor Squigley. Debaixo da imagem que você deixou que as opiniões alheias te fizeram acreditar, esse é seu verdadeiro eu.

– Ca… caramba… eu nunca percebi como eu sou atlético e simpático.

[alisando]- Eu SEMPRE vi o senhor assim, senhor Squigley.

[babando]- Se… senhorita Hellen…

[abrindo o zíper]- Senhor Squigley, como parte de seu tratamento, agora eu irei dar início à minha terapia. Lembre-se, controle.

O rosto de Squigley rapidamente adquire tons cada vez mais avermelhados conforme o suor lhe escorre pela testa. Seus olhos ficam embaçados, giram de um lado a outro, conforme seus gemidos escapam junto com o vapor saindo de sua boca. O coitado consegue resistir bravamente por alguns minutos, mas o conjunto de massagens com lábios, língua, mãos e seios excedem o limite até dos Deuses do Olimpo. Squigley urra e seu sêmen jorra abundantemente em golfadas.

[risos]- Parabéns, senhor Squigley. Você está progredindo.

[arfando]- Senhorita Hellen… perdoe-me…

[surpresa]- Mas por que ou pelo que, senhor Squigley?

– Bom… hã… por essa meleca bagunçada que eu fiz em seu escritório.

[risos]- Não se preocupe com isso, senhor Squigley. Foque no seu tratamento e progresso.

[confuso]- Mas senhorita Hellen, por que eu?

[surpresa]- Como assim? Por acaso eu [ou qualquer outra mulher/fêmea] precisa de algum motivo especial para querer trepar gostoso com um homem [macho] saudável? [séria] Eu acho que vou precisar de mais sessões com o senhor, senhor Squigley.

[cabisbaixo]- De… desculpe. Eu devo ser um estorvo e um incômodo.

[sorrindo]- Nada disso, senhor Squigley. Você é meu cliente. Sua satisfação e tratamento são meus objetivos. Eu te atendo com todo prazer. Literalmente falando.

[animado] – Bom… hã… nesse caso… a senhorita atende fora da clínica?

[maliciosa]- O que tem em mente, senhor Squigley?

[mordendo a isca]- Se for possível, atendimento em domicílio. Ou podemos ir a um motel.

[sensualizando]- Senhor Squigley… eu só faço atendimentos como profissional.

– Sim, sim, claro, super profissional!

[risos]- Senhor Squigley, se continuarmos nesse ritmo, eu posso ficar grávida. Está disposto a assumir a responsabilidade?

[engole seco]- Eeeh… sim?

[risos]- Muito bem, senhor Squigley. Passe na secretaria, marque as datas e acerte os valores.

Amor e crime – III

O sol se esgueira lentamente pelo meu quarto, passando pelo belo vitrô e a luminosidade multicolorida me desperta. Eu observo o dossel e o teto acima dele, ainda custando a acreditar que eu estou vivendo um sonho de princesa. Eu solto um urro de bocejo e olho em volta. Shouko não está presente. O cheiro vem convidativo da cozinha, mas antes eu preciso de um banho urgente. Trôpega, ainda não totalmente acordada, eu me arrasto pelo corredor, entro no elevador e sigo pelo quinto andar até o banheiro, certa e confiante que está livre, pois ou meus irmãos estão na cozinha, ou na escola, ou no trabalho. Meu corpo está parcamente coberto com meu roupão, eu simplesmente abro a porta e entro.

– Ah! Quem é? Sa… Satou chan? Irmã?

[bocejando]- Bom dia. Eu preciso tomar banho.

Eu passo seminua a poucos centímetros do coitado do Subaru, roxo de vergonha, se encolhendo próximo da pia, segurando com força a toalha que envolve o quadril de seu corpo nu. Eu removo meu roupão e o jogo displicentemente em cima do meu irmão que esbugalha os olhos por cinco segundos, mas logo vira os olhos para não ficar encarando meu corpo completamente nu. Eu deslizo a divisória e ligo o chuveiro. Temperatura perfeita. Eu reparo que eu tenho várias opções de sabonetes, shampoos e óleos corporais. Eu nem me dei conta que eu me despi para o Subaru, ou eu estava testando ele inconscientemente.

– Bo… bom dia, irmã. Fique à vontade. Eu… eu terminei aqui. Eu vou descer e separo seu desjejum, oquei?

– Hai.

A água ajuda a recobrar a consciência. Que sensação estranha. Eu não sinto medo ou vergonha de ter ficado nua diante do Subaru. Som de roupas farfalhando e o vulto dele através da divisória atiçam minha curiosidade. Discreta e lentamente, eu abro uma brecha e espio. Que esquisito. Subaru vestiu primeiro a camiseta. Eu consigo ver o seu treco. Nada mal. Talvez eu me permita brincar um pouco com isso antes de mata-lo. Não que eu goste de meninos ou homens. Mas também não os odeio. Antes de me descobrir, antes de começar a me relacionar com meninas, antes de conhecer Shouko, eu era a garota mais vadia do colégio. Eu devo ter tido tantos homens quanto tive de vítimas. Subaru termina de se vestir e sai, fechando a porta com gentileza. Novamente sozinha, no chuveiro, eu só consigo pensar em Shouko. Eu vou ter que fazer aquela mágica com os dedos.

[gemendo]- Sho… Shouko…

Eu sinto como se eletricidade tivesse passado por minha espinha. Estrelas pipocam por onde eu olho. As pernas bambeiam e eu tenho que me ajoelhar e sentar no chão do chuveiro. Meu corpo inteiro treme, minha pulsação e respiração estão aceleradas. Consegue ver o que você faz comigo, Shouko?

Um relógio em algum ponto dessa mansão soa oito vezes. A diversão vai ter que esperar. Eu tenho que ir para a escola. Shouko certamente vai me ajudar nisso, com grande alegria. Eu escovo o cabelo, faço tranças, coloco lacinhos e presilhas. Eu borrifo um tiquinho de perfume. Eu apronto meu rosto com maquiagem básica. Eu me enfio no uniforme, caprichosamente limpo e dobrado, tal como eu deixei em cima do cesto de roupa. Eu saio saltitando pelo corredor, cantarolando alguma música, como se eu fosse uma garota normal. Eu capricho em minha expressão de menininha inocente e ingênua quando eu entro na cozinha.

– Bom dia, pessoal!

[coro]- Bom dia, irmã!

– Bo… bom dia.

Subaru vira o rosto e olha para o chão, com o rosto avermelhado. Ele deve ter gostado do que viu. Eu vou considerar um elogio. Eu disperso a atenção desnecessária dos demais, comentando e elogiando a refeição matinal preparada e servida por Ukio. A conversa virou rapidamente aquelas trivialidades que gente normal troca. Subaru pega no tranco e consegue esquecer o embaraço.

– Drogadrogadroga! Eu estou atrasado!

– Yusuke…

O cabelo vermelho de Yusuke parece uma tocha, com o movimento agitado dele. Ukio faz aquela expressão séria e grave enquanto Yusuke enfia vários biscoitos na boca e verte o achocolatado garganta abaixo. Eu não sei por que eu começo a dar risada. Isso é raro. Shouko vai ficar com ciúmes se souber.

– Chega de brigas e discussões, pessoal. Yusuke, pelo menos leve sua irmã na escola dentro do horário.

[resmungando]- Hai.

Alguns minutos depois eu e Yusuke estamos no portão da frente, esperando chegar o ônibus escolar. Eu acho esquisito, não faz sentido Yusuke ir para o colégio de ônibus escolar, sendo de família rica, mas é regra da casa, cada filho tem que fazer por merecer, trabalhar e comprar. Nós embarcamos no ônibus e Yusuke puxa conversa.

– Então… Satou chan…

– Hai, Yusuke kun?

[engole seco]- Pois é… nós somos alunos do mesmo colégio. Em que turma você está?

– Eu sou da Turma 4B.

[surpreso]- Eu estou na 4D. Você deve ser muito inteligente.

– Hai. Você é gentil Yusuke.

[embaraçado]- Você não estranha?

– Eu? Estranhar o que?

[constrangido]- Bom… do nada você morando em uma casa cheia de homens.

– Não. Nadinha. Vocês são meus queridos irmãos.

[incomodado]- Você é uma boa garota, Satou. Mas você tem que ter cuidado. Principalmente com Iori. Tsubaki é um babaca, mas só gosta de provocar. Iori é mais perigoso.

[sorrindo]- Obrigada pela dica, Yusuke kun! [aperto os braços dele entre meus seios, deixando ele roxo]

– C… claro… não há de quê… só não fique tão perto assim de mim. Eu também sou perigoso.

– Awww… Yusuke kun… você só diz isso porque gosta de mim, né?

Eu fico mais próxima e aperto ainda mais o braço dele entre meus seios. Eu sinto a temperatura do corpo dele subir exponencialmente, assim como o volume em suas calças.

– Po… pois então… é por isso que nós temos que conversar. Nós somos alunos do mesmo colégio e estamos no mesmo ano letivo. Se você ficar perto assim de mim, nossos parceiros vão comentar, os professores vão comentar. Boatos sujos vão surgir falando coisas sobre nós.

– Deixem que digam, que falem. Por meus irmãos eu sou capaz de fazer qual-quer-coi-sa.

Eu soletro as sílabas vagarosamente, fazendo biquinho, para ressaltar meus lábios, a poucos centímetros do rosto de Yusuke. Ele está trêmulo, seu corpo parece uma caldeira, suor escorre pela testa dele e o volume em suas calças aumenta. Homens são muito previsíveis. Eles são o sexo fraco.

– Nã… não fique falando bobagens nem prometendo coisas. Eu posso levar a sério.

– Awww… Yusuke kun… assim eu fico ofendida. Eu sempre falo sério. Eu sempre cumpro o que prometo.

[bufando]- Bo… bom… nós chegamos no colégio. Depois nós conversamos mais sobre isso, oquei?

– Hai!

Eu tenho que segurar a risada. Yusuke cambaleia entre tantos alunos, tentando disfarçar a ereção com a mochila. Eu não sei se ele vai conseguir segurar, pois nossa primeira aula é de inglês e a professora da turma dele adora caprichar no decote. O busto dela é tamanho D e ela não costuma usar sutiã. Todos os meninos ficam com as calças molhadas no fim da aula.

– Satou chan!

Eu sou envolta em uma brisa de primavera, morna, perfumada. Minha boca se enche de água assim que eu vejo Shouko se aproximar. Essa é a vantagem de ser mulher. Dá para disfarçar a excitação.

– Hai, Shouko chan! Vamos para a sala de aula?

– Hai!

Nós caminhamos pelas dependências do colégio de dedinhos entrelaçados, o máximo que é permitido. Os professores vêm e vão. Completamente inúteis. Eu assisto as aulas porque eu sou obrigada. Quando eu quero aprender realmente algo, eu vou à biblioteca. Animação só acontece no intervalo. Uma explosão de pessoas correndo para fora das salas de aula. O pátio fica preenchido com o burburinho das conversas. Os quiosques faturam alto com comida, bebida, cigarro e outras coisas menos lícitas. Em um canto, os valentões resolvem as diferenças. Em outro canto, os amantes fazem uma luta diferente. Eu e Shouko estamos em nosso lugar favorito, dando comida uma à outra na boca [nota: no Japão, isso é sinal de intimidade amorosa].

– Com licença. Boa tarde, senhorita Hida. Pode me emprestar minha irmã?

– Hã? Ah! Oi, Yusuke kun!

Shouko é bastante compreensiva ou desligada. Eu sou “cedida” e Yusuke me leva até uma das laterais da biblioteca, um local que provavelmente eu sou a única que conhece e frequenta.

– Satou chan, eu acredito que você é séria. Saiba que eu também sou sério.

– Hai, Yusuke. Eu sei que você é sério.

Yusuke chapa a palma da mão na parede ao lado do meu rosto e me encara.

– Satou chan, nós nos conhecemos desde o primeiro ano da segunda série. Eu me apaixonei por você na primeira vez que eu te vi.

– Eu sei disso, Yusuke. Você não é bom em esconder seus sentimentos.

– Eu tive que juntar toda a coragem que eu tenho para te dizer isso. Por favor, me escute. Daqui a alguns dias, nós seremos parentes, familiares. Você deve ter sentido que conviver com meus irmãos é muito arriscado para você. Eu sou capaz de jurar que devem estar apostando quem vai ser o primeiro a te foder. Isso é certo, todos eles querem te foder.

– Vo… você também, Yusuke kun?

[bravo]- Preste atenção! Isso é muito sério! [bufando] Ouça muito bem, Satou. Eu te amo. O único jeito de você ficar livre de ser estuprada pelos meus doze irmãos é você se tornando minha namorada. O que me diz?

Eu respiro fundo e solto o ar. Eu tinha colocado Tsubaki como primeiro na minha lista, mas felizmente eu sempre preparo planos secundários. Isso vai adiantar minha agenda, mas eu ainda estou dentro do controle de segurança.

– Yusuke kun, agora quem fala sou eu e você escuta. Eu te agradeço por ser gentil e sincero. Mas veja bem, nós vamos ser irmãos. Como se isso não bastasse, meu coração está preenchido.

Lágrimas começam a correr pelo rosto de Yusuke. Que sensação esquisita. Eu estou sentindo pena e compaixão?

– É… é a Shouko, não é? Eu ouvi vários boatos, mas é só olhar para vocês que qualquer um vê que vocês se amam. Eu espero que a Shouko seja forte. Por que isso não vai fazer a menor diferença para meus irmãos. Na verdade, isso só vai estimula-los e torna-los mais violentos.

Yusuke enxuga as lágrimas e recupera a compostura.

– Muito bem. Você fez sua escolha. Eu tenho que aceitar e te apoiar. Eu vou sofrer muito, mas meu amor por você é mais forte. Era o que eu tinha a dizer. Vamos voltar.

Quando voltamos onde Shouko estava, ela estava raspando o fundo do bentô. Shouko gulosa.

– Senhorita Hida, obrigado. Eu deixo a minha irmã aos seus cuidados. Ame-a tanto ou mais do que eu a amo. Isso é tudo. Obrigado.

Yusuke dá meia volta e sai andando com classe e elegância. Existem homens honrados assim?

– Ué… eu entendi direito? Yusuke está abençoando nosso amor?

– Parece que sim… hei, Shouko, sobrou algo do bentô?

– Hihihihi… tarááá!

Shouko faz surgir um bentô igualzinho ao que ela tinha comido tudo.

– Ma… mas como?

– Um garotinho que se diz chamar Wataru apareceu e entregou esse bentô que, segundo ele, foi feito por um tal de Ukio. Eles são seus irmãos, né?

Minhas emoções estão em confusão. Eu custo a crer que existam homens assim. Meu estômago ronca, então eu desisto de tentar entender.

Exatamente às cinco da tarde o colégio soa o sinal que concede alforria aos alunos. Eu não encontro Shouko. A mãe dela deve ter vindo busca-la. Os ônibus escolares estão mais lotados do que as linhas suburbanas. Enquanto eu penso em rotas alternativas, um carro buzina e pisca os faróis.

– Irmãzinha? Sou eu, Tsubaki. Venha, eu te dou carona.

Eu não sei por que eu olho em volta, tentando achar Yusuke. Eu devo agradecer a Thanatos adequadamente por essa oportunidade.

– Hai! Obrigada, Tsubaki kun.

Eu entro e, com é de se esperar, ele começa aquela ladainha que eu conheço de cor.

– Sabe, Satou chan? Eu gostaria muito que você me perdoasse. Não foi a minha intenção te assustar ou te magoar. O caso é que eu sou assim, carinhoso. Você pode me perdoar, minha querida irmã?

– Hai! Na verdade, sou eu quem deve te pedir desculpas. Eu reagi sem pensar.

– Muito obrigado, Satou chan. Será que eu posso te dar um beijo, de reconciliação?

– Hai! Pode sim, Tsubaki. Afinal, nós somos irmãos.

A borboleta revoa sem se dar conta da teia da aranha até ser tarde demais. Tsubaki inclinou-se e caprichou no beijo de língua enquanto sua mão direita se agitava entre minhas coxas. Eu não sinto coisa alguma. Ele beija muito mal e não sabe usar a mão. Ele recua, surpreso e irritado, percebendo que eu não estava excitada.

– Você é mesmo uma vadia bem puta, né, irmãzinha?

– Hai?

– Não me venha com essa. Você não me engana com essa falsa inocência e ingenuidade. Eu sei tudo sobre você, irmãzinha. Eu sei que você foi a vadia mais puta do primeiro ano do segundo grau.

– E se eu fui? O que você tem com isso?

[gargalhada]- Nada. Absolutamente nada. Para falar a verdade, eu fico aliviado. Quer saber de uma coisa, irmãzinha? Nesse exato momento tem uma aposta rolando entre nós para saber quem vai ser o primeiro. Os outros vão ficar decepcionados quando souberem que você é rodada, mas o que me interessa é ganhar o dinheiro da aposta. Talvez, se eu gostar, se você for boa, eu deixe você viva para ser estuprada pelos outros.

– Tsubaki kun, não siga por este caminho. Volte, você ainda tem tempo.

[gargalhada insana]- Acha mesmo que pode mandar em mim, irmãzinha?

Tsubaki freia o carro em um lugar ermo.

– Garotinha… eu posso quebrar seu pescoço com uma mão só.

Tsubaki envolve meu pescoço com a mão que estava entre minhas coxas e seus dedos vão se estreitando, fazendo força. Ele gargalha enquanto faz um esforço considerável tentando me esganar. Cinco minutos depois ele para de gargalhar. A mão esquerda se junta à mão direita. Ele está bastante dedicado. Mas está irritado e contrariado. Por mais força que ele faça, eu estou completamente tranquila.

– Ma… mas que Diabo? Que truque é esse? Como isso é possível?

– Tsubaki kun, meu pobre irmão, você disse que sabia tudo sobre mim, mas não sabe coisa alguma.

Eu abro o porta-luvas do carro e pego o calibre 38, uma das coisinhas que eu achei em minhas explorações. Eu aponto, miro e aperto o gatilho. A cabeça de Tsubaki pipoca, pedaços de crânio, cérebro e sangue se espalham pelo vidro do lado do motorista. Eu suspiro. Não foi uma obra prima. Mas dá para ajeitar. Eu coloco o revolver na mão de Tsubaki e aperto por cima da mão dele, assim as impressões digitais dele ficam gravadas no cabo. A cereja no bolo. Eu removo as luvas de silicone que eu sempre uso nas mãos. A parte fácil, sair e limpar as maçanetas. Eu vou caminhando pelas ruas em direção ao meu novo lar. Com toda tranquilidade, eu abro a porta e me deparo com todos na sala de jogos, vendo as notícias no telão. Todos parecem tensos e concentrados.

“Atenção para a notícia de ultima hora do Jornal da Tarde. Foi encontrado hoje o corpo do jovem Tsubaki Asahina nas cercanias de Hell’s Kitchen. Segundo informe da Polícia, o jovem foi encontrado morto com um tiro na cabeça, supostamente disparado pelo mesmo. A Polícia continuará a investigar, mas a primeira hipótese é de suicídio. Mais informações a qualquer hora”.

A melhor parte da minha arte acontece agora. As expressões naqueles rostos. Horror. Medo. Indignação. Tristeza. Dor. Luto. Eu cubro meus olhos e até consigo derramar algumas lágrimas. Um disfarce necessário para esconder que eu atingi o orgasmo. Shouko… perdoe-me por desperdiçar meu mel.

Amor e crime – II

O som suave e harmonioso que ressoa pelos corredores faz com que eu acorde e eu olho ainda incrédula para o dossel acima da cama enrolado com suaves tecidos brancos de seda. Eu ainda custo crer que eu estou vivendo esse sonho de princesa. Eu perdi completamente a noção de tempo, descansando nesse colchão forrado com lã de carneiro e alpaca.

– Hei, preguiçosa, acorda! Esse deve ser o sinal para o chá de confraternização onde você vai conhecer seus futuros irmãos.

Shouko está fechando o zíper da saia quando alguém bate na porta.

– Irmã? Está acordada? Está vestida? O chá está pronto!

Desligada como sempre, Shouko abre a porta e eu tenho que me enrolar com aquele caríssimo lençol de cetim.

– Oi! Wataru né? Ela vai estra pronta em cinco minutos, né, Satou?

– Pois é. Eu sou rápida.

– Oba! Shouko chan também vai vir?

– Infelizmente eu não vou poder ir, Wataru. Eu tenho que ir à escola. Eu vou avisar para a secretaria que você vai faltar hoje, ocupada com a mudança, combinado, Satou?

– Não se esqueça de me trazer a matéria e as tarefas de hoje, lá pelas seis da tarde.

– Hai! Tchauzinho.

Shouko se vai e eu me sinto terrivelmente sozinha e abandonada. Não tenho muita opção senão me arrumar. Então eu noto que minhas coisas estão “milagrosamente” guardadas no lugar. Boa garota, Shouko. Meu cabelo está horrível, mas vai ter que aguardar. Eu visto o conjunto de blusa, saia, meias e cinto mais fuleiro que eu tenho, eu não tenho tempo para me produzir. Eu pego o mapa, uma vez que eu vou ter que me achar por conta própria. Eu aciono o elevador, o monitor mostra a seta subindo e a cadência dos andares quando eu sinto aquele nojo instintivo.

– Boa tarde, bela do dia. Você deve ser a nossa futura irmã, né?

Eu me viro para encarar a fonte daquela fedentina, mas ele está perto demais. Eu só sinto os braços dele me envolvendo. Um homem desconhecido te abraçando. Não é necessário muito raciocínio. Meu joelho acerta as bolas dele em cheio. Ele se contorce no chão, tentando recuperar o fôlego.

– Tsubaki? Você não está importunando nossa irmã, está?

Outro chega e eu acho que estou vendo dobrado, pois o que está no chão é igual ao que acabou de chegar, salvo alguns detalhes.

-Tsc. Tsubaki, você não tem jeito. Veio importunar nossa irmã. Recebeu o que merece. Saudações, eu sou Azusa e este no chão é meu irmão gêmeo, Tsubaki. Por favor, não nos jugue mal só por causa de meu irmão imaturo.

Eu sei o suficiente sobre homens e o que eles têm na cabeça. Quando as coisas não saem como planejado, eles dizem que era só brincadeira. Quando querem tentar ser gentis. Falam coisas bem piores.

– Hei, eu ouvi som de coisas quebrando. Quem está brigando?

– Oi Subaru. Tsubaki levou uma boa de nossa irmã.

– Mesmo? Parabéns, irmã. Faz tempo que ele merecia levar uma surra.

-Hei vocês aí em cima? Vão descer ou ficar brigando?

– Hunf. Lá vem o Masaomi dar uma de pai. Melhor nós descermos. Ukyo não gosta de atrasados.

O elevador abre com um leve sinal de campainha. Os dois que estão em pé revezam os olhares entre eu, o abusado e o elevador.

– Eu concordo. Vamos. Mas sem esse lixo, por favor. Muito prazer, meu nome é Satou Matsuzaka.

Eu entro no elevador e aperto o andar térreo. Os outros dois entram junto. Eu nem olho para eles. Curiosamente eu não sinto coisa alguma deles. Eu sou muito boa nisso. Será que existem homens que conseguem esconder muito bem suas intenções? O elevador abre quase na entrada da cozinha. Uma vez eu vi em um filme a cozinha de um hotel de luxo. Parece a padaria da esquina comparada com essa cozinha.

– Boa tarde, atrasados. Vocês vão ficar sem pudim.

– Não seja cruel, Ukio. Tsubaki nos atrasou.

– Desculpa não aceitas, Azusa. Ele é seu irmão gêmeo. Você deveria disciplina-lo.

– Eu vi tudo. Como é de se esperar de Tsubaki, ele foi importunar nossa irmã.

– Ah. Entendo. Nesse caso, eu vou abrir exceção. Mas só dessa vez. Por nossa irmã.

Eu estou com uma sensação estranha e esquisita. Ou será vontade de rir em ver aquele homem, todo engravatado, vestindo um avental, fazendo e servindo comida? Eu estou passando por muitas novidades.

– Ah, sim, Yusuke ligou avisando que vai se atrasar. Ele está estudando para as provas semestrais.

– Wataru também ligou dizendo que está preso no trânsito.

– Francamente. Eu não sei por que eu ainda aceito essas desculpas esfarrapadas.

– Porque você é nosso irmão, Ukio.

– E porque você é justo, como o advogado da família.

Os três riem e eu fico sem entender coisa alguma.

– Oi pessoal. O que eu perdi? Eu consegui trazer o Kaname.

– Que todos os seres encontrem a felicidade e as causas da felicidade. Que todos os seres se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento. Que todos os seres encontrem a felicidade livre de sofrimento. Que todos os seres vivam em equanimidade, livres de paixões, de agressões e de preconceitos.

– Oh, bem, pelo menos Masaomi e Kaname estão presentes. Eu espero que isso seja aceitável para você, irmã.

Silêncio. Minha mente está espaçando. Quanto mais inimigos eu terei que enfrentar?

– Hã? Ah… claro, sem problema. Nós temos muito tempo para nos conhecer. Prazer em conhecer a todos. Eu sou Satou Matsuzaka.

Os cinco riem e eu fico sem entender coisa alguma. Minhas emoções, sensações e intuições estão bagunçadas. Eu nunca tinha conhecido homens tão diferentes. Minha cabeça roda, tentando compreender como podem ser irmãos. O chá é incrivelmente saboroso. Os biscoitos são crocantes e explodem sabor pela minha boca. Eu nunca comi um bolo tão gostoso como esse. Seria tudo isso uma estratégia para baixar a minha guarda? Eu tento conter a enorme fome, mas meu estômago me denuncia. Ninguém me repreende. Mais biscoitos e mais bolo enchem meu prato. Eu não sei por que eu fico embaraçada com isso.

– Fuaa! Eu consegui!

– Wataru, está muito atrasado. Vai ficar sem pudim.

– O que? Sério? Ah, dá um tempo! Eu fui com Luis buscar o Iori e o Yusuke.

– Isso é verdade. Eu sou testemunha. E nós conseguimos trazer Iori e Yusuke.

– Hai. Presente.

– Eu também.

– Com atraso, também. Com isso só ficam faltando Hikaru e Fuuto. Que não podem estar presentes porque estão trabalhando.

– Hei e o Tsubaki?

– Ele deve se juntar a nós, assim que recuperar o fôlego e a masculinidade.

– Como assim? O que nós perdemos?

– Nossa linda e adorável irmã deu a lição que o Tsubaki merecia há tempos.

Os olhares de todos se voltam para mim. Eu não gosto de ser o centro das atenções. Os olhos de Wataru brilham com admiração. Luis não para de reparar meu cabelo. Iori parece incrédulo. Yusuke está embasbacado – eu acho que nós nos conhecemos do colégio. Masaomi parece intrigado. Kaname apenas sorri. Será que é possível acabar esse dia agora?

Aos poucos, eles ficam dispersos, conversando de outros assuntos. Eu respiro aliviada. Eu quase não percebi que Tsubaki juntou-se a nós, mas teve o bom senso de sentar longe e ficar [quase] fora da minha vista. Garoto esperto. Infelizmente você é o primeiro na minha lista.

Rápido como se reuniram, também se separaram. Cada qual foi cuidar dos assuntos pessoais ou das tarefas domésticas. Eu sinto que em algum momento eu vou receber uma cartela com a agenda das minhas tarefas domésticas. Eu estou estufada de chá, biscoito e bolos. Entediada, resolvo explorar a mansão e conhecer cada canto e detalhe. Conhecer o território é crucial para qualquer assassino. Eu encontrei coisas muito interessantes nessa minha exploração, coisas que não aparecem no mapa. Novamente aquele som suave e harmonioso [embora com outras notas musicais] ressoa. Uma voz [Masaomi?] abafada pede para atender a porta. Eu estava mais perto. Eu grito algo e abro a porta.

– Oi Satou. Aqui estou eu, como prometi. Eu te trouxe a matéria do dia e as tarefas da escola.

Ah, Tanathos! Que alívio e satisfação em rever Shouko! Eu a agarro [com firmeza, mas com delicadeza], a arrasto para meu quarto, arranco as roupas dela e nós passamos a noite inteira brincando.

Porco ao divã

Hellen é psiquiatra, psicóloga, psicanalista e terapeuta em Cartoonland. Ela atende junto com seus colegas cerca de vinte a trinta personagens por dia. A vida dos personagens em Cartoonland é estressante e os cidadãos têm crises de identidade e de ética constantemente.

Com pontualidade britânica, Hellen chega para mais um dia de atendimento. A clínica ainda nem abriu e tem uma longa fila de personagens aguardando serem atendidos. Mecanicamente, registra sua entrada no ponto biométrico e desfila, vaporosa e diáfana, pelos corredores da clínica, ignorando os olhares dos homens, seus uivos, assovios e sangramentos nasais. Inevitável, suas medidas 90 x 60 x 90 tiram qualquer homem do sério. Isso e seus dois olhos verde esmeralda e cabelos vermelhos.

O som elétrico e seco indica que a porta de entrada foi liberada. Passos, burburinho, a recepção faz o que pode para anotar os nomes e os dados. Alguns clientes protestam com alguma violência, diante da exigência de captura de retrato. Direitos de imagem ou para evitar os paparazzi. Felizmente jamais aconteceu de ser divulgada qualquer visita na clínica. Superado os ânimos mais exaltados, as fichas enchem os nichos dos profissionais, cada qual recebe, em ordem de chegada, quase a mesma quantidade de fichas. Só os clientes mais frequentes pedem preferência de atendimento e geralmente pedem por Hellen.

Por profissionalismo e ética, Hellen sempre deixa bem claro que atende conforme a ordem de chegada. Seu nicho tem vinte e cinco fichas e ainda são oito da manhã. Ela prepara seu consultório com música relaxante, atiça um incenso e liga as câmeras de segurança. Munida apenas com lápis e caderno de anotação, ela chama pelo cliente da primeira ficha.

– Senhor Squigley?

– Aqui!

– Por aqui, senhor Squigley.

A saia de Hellen faz menos barulho do que a salivação constante do cliente. Algumas portas da clínica ficam abertas para verem Hellen passar, a maioria, dos consultórios dos homens, mas também tem algumas mulheres.

– Por favor entre, senhor Squigley e sente-se.

O cliente tateia o consultório com as mãos, pois os olhos arregalados não conseguem desviar a atenção de Hellen. A língua do cliente está quase tocando o chão, onde baba começa a formar uma poça.

– Senhor Squigley, eu vejo por sua ficha que o senhor passou por esta clínica algumas vezes por causa de sua dependência à cannabis sativa e derivados. Como está sua reabilitação?

[baba]- Quê? Reabilitação? Ah, sim, eu estou sóbrio há sete semanas.

– Excelente, senhor Squigley. O que o traz a esta clínica hoje?

[sacudindo a cabeça]- Eh… hoje eu vim para tratar do meu vício… sabe… aquele vício.

– Não, eu não sei, senhor Squigley. Você tem que me dizer.

[baixando a cabeça]- Eu… eu admito… eu… [lágrimas] eu sou viciado… [cobrindo o rosto com as mãos] eu sou viciado em pornô!

– Eu acho que eu não entendi, senhor Squigley. Como o senhor chegou à conclusão que é viciado em pornô? Quando e como consumir pornô se tornou um problema?

– Ah, a senhora… [encarada] quer dizer, a senhorita sabe… a pornografia explora a mulher, a torna um objeto, uma coisa, um produto.

– Eu acho que estou começando a entender e perceber seu caso, senhor Squigley. Em algum momento de sua vida, pessoal ou profissional, o senhor passou por uma experiência que, de alguma forma, virou um trauma.

– Eu… hã… eu não entendi.

– Senhor Squigley, seres humanos [ou humanoides] produzem coisas e não existe produção sem alguma forma de exploração. Sempre haverá exploração, de matéria prima ou do trabalho.

– Ma… mas a pornografia… o corpo da mulher…

– Senhor Squigley, o corpo feminino em seu estado natural, a nudez, foi representado de diversas formas, por incontáveis eras e culturas. Por que só agora é um problema?

– Ma… mas… a indústria pornográfica… escraviza a mulher… como a prostituição.

– Senhor Squigley, meu índice de aproveitamento e aprovação sempre foi de 100%. O senhor tem que progredir, não regredir. O problema está no senhor ou na indústria pornográfica?

– Eeeh… em ambos?

[suspiro estressado]- Senhor Squigley, empresas e indústrias de inúmeras atividades existem porque [e para] atende uma necessidade, uma demanda. Simples assim. Se nós vamos criminalizar a pornografia por causa de uma suposta exploração e escravização da mulher, nós temos que criminalizar igualmente a indústria da moda, só para citar um exemplo. Então o problema não é a exploração, mas a exposição pública da nudez do corpo feminino, da insinuação sexual, da sugestão subliminar de que a mulher é uma fera sempre disposta a ter relações sexuais. Não me leve a mal, mas isso torna os homens seres inocentes, ingênuos, imaturos e influenciáveis. Pornô só atiça e estimula pré-adolescentes e adolescentes. Gente que não sabe o que é sexo, o que é uma mulher. Homem maduro não consome pornografia. Homem maduro faz pornografia com uma mulher.

– Ma… mas… eu… eu consumo pornô. Meu consumo alimenta a indústria da pornografia e da prostituição, que alicia e induz a mulher a se sujeitar a essa objetificação e sexismo que sustenta o [regime do] patriarcado.

– Eu vou deixar para outra sessão esse trabalho com sua pouca autoestima. Vamos nos ater ao problema imediato. Esse seu falso moralismo a respeito da pornografia e prostituição, que certamente foi assimilada ou adquirida após alguma experiência que se tornou esse trauma.

[indignado]- Fa… falso moralismo?

[séria]- Sim, senhor Squigley. O apelo à moral é recurso barato utilizado por conservadores e radicais para amealhar simpatizantes à causa. Mas a coisa é mais complicada do que isso. O discurso que tenta criminalizar a pornografia e a prostituição [tendo como base o falso moralismo] acaba criminalizando todos os profissionais do sexo, de todos os gêneros. Ou seja, atinge somente aquele [ou aquela] que supostamente é a vítima. Para começar, a falta de liberdade sexual, da liberdade de expressão, só favorecem aos grupos que supostamente as feministas radicais combatem. O discurso feito em cima da “exploração e escravização da mulher” apena escamoteia o falso moralismo que nega à mulher o domínio e vontade sobre seu corpo, endossando a opressão e repressão sexual. No fim das contas, o discurso radical só agrada aos grupos conservadores e religiosos.

[embaraçado]- E… eu não sabia…

[sorrindo]- Não fique embaraçado, senhor Squigley. O senhor apenas foi manipulado, induzido, doutrinado.

[envergonhado]- E… eu não tinha ideia… eu não tinha percebido…

[consolando]- Está tudo bem, senhor Squigley. Nós podemos deixar para outra sessão para explorar essa experiência que resultou em trauma.

[levantando a cabeça]- E… então… eu não tenho um problema? Consumir pornô não é um vício, um erro?

[surpresa]- Senhor Squigley, você parece um padre ou pastor falando.

[triste]- De… desculpe.

[suspirando]- Eu queria deixar para outra sessão, mas vamos lá. [levantando] O que você sente quando olha para o meu corpo?

[frases indecifráveis, entremeadas com salivação]

– Exatamente, senhor Squigley. O senhor é um homem [humanoide] normal, saudável, é mais do que natural você sentir atração sexual pelo meu corpo, por mim. Mas por algum motivo você se restringe e se inibe. Eu arriscaria dizer que isso é sintoma da repressão e opressão sexual advinda da cultura cristã, mas pode ter algo mais. Você consegue articular palavras para dizer como se sente, sem ser deselegante, indiscreto, inconveniente?

– Hã… a senhorita quer dizer aquelas frases requintadas e elaboradas que são ditas por galãs em filmes?

– Não é uma boa referência, mas tente algo nesse sentido.

[pigarro]- Se… senhorita Hellen… seu corpo é tão perfeito que deveria estar em uma galeria de arte.

[batendo palmas]- Parabéns, você conseguiu. Viu como não foi difícil? Viu como não machucou? O máximo que pode acontecer é você ouvir não. O melhor que pode acontecer é você ouvir sim. Mas criminalizar a pornografia tornaria a minha “performance” impossível na galeria de arte.

– E… eu acho que entendo.

– Ótimo. Podemos passar para a próxima fase [abre a blusa]. O que acha disso?

[com esforço, consegue controlar os impulsos]- Se… senhorita Hellen… seus seios… ahmeudeus… a senhorita está sem sutiã… eles… são… lindos, redondos, perfeitos…

– Muito bem, senhor Squigley, muito melhor. Você está mantendo autocontrole. Isso é importante. Confie em mim. Quer toca-los?

[olhos ficam vermelhos e inchados]- Se… senhorita Hellen… sim, eu quero… mas eu não sei se consigo me controlar.

– Você consegue, senhor Squigley. Eu confio no senhor. Vá em frente. Toque meus seios.

Lenta e cautelosamente Squigley estende e direciona sua mão [direita] para o seio [esquerdo] de Hellen. O coitado sente pela primeira vez o toque quente e macio de um seio. As pupilas dos olhos têm espasmos repentinos e repetitivos. Um volume se forma entre suas pernas.

– Excelente, senhor Squigley. Você está indo bem. Agora, mexa e massageie meu seio até que eu fique estimulada.

Obediente e aplicado, Squigley move o seio de Hellen. A mão esquerda rapidamente se encarrega do outro. O volume em sua calça só aumenta. Hellen começa a gemer e seu rosto começa a ganhar tons de rosados para avermelhados.

[geme]- E… excelente… [geme] senhor Squigley [geme]. O senhor conseguiu [geme] me deixar molhadinha… [geme] quer ver?

As orelhas de Squigley pareciam dois gêiseres prestes a explodir. Hellen removeu a saia e nada mais tinha para cobrir seu corpo. A calça do coitado não tinha mais para onde esticar.

[risos]- Deve estar incomodando o coitadinho preso aí. Deixe-me colocar seu amiguinho para fora, senhor Squigley. Eu quero ver o quanto o senhor aprecia meu corpo.

Com rapidez e habilidade, Hellen faz a calça de Squigley desaparecer e um troço brota grande, rígido, avermelhado.

[olhos brilhando]- Impressionante, senhor Squigley. Eu creio estar diante de um javali [risos]. Lembre-se, autocontrole. Senão a brincadeira acaba cedo. O senhor disse ser um consumidor contumaz de pornô. Está na hora de você por em prática o que aprendeu na teoria.

Por meia hora, Hellen e Squigley rolam pelo chão. Eu até diria que parece Jiu-Jitsu. Squigley está suando feito porco [piada não intencional], seus olhos estão embaçados, seus braços e pernas tremem. Hellen está em cima dele, satisfeita e triunfante. Algo dentro dela esguicha fartos jorros daquele líquido quente, gelatinoso e esbranquiçado que costuma causar aquele efeito colateral chamado gravidez.

[risos]- Excelente, senhor Squigley. Você se saiu bem. Nossa ginástica teria sido impossível se a pornografia fosse criminalizada. Essa minha terapia seria proibida se a prostituição fosse criminalizada.

[arfando]- Eu… morri e fui para o Paraíso?

[risos]- De certa forma, sim.

Hellen se levanta, fazendo com que o excedente do enorme volume de sêmen se esparramasse pelo chão.

[curiosa]- Ora… mas… que coisa.

[começando a retomar a consciência]- O que foi?

[maliciosa]- Senhor Squigley… não vai querer me dizer que você era virgem e eu fui sua primeira, vai?

[embaraçado]- Eueueueeueueu…

[risos]- Não fique assim. Você se saiu bem. Vejamos… quando você pode voltar na clínica? Afinal, para a terapia ser efetiva e eficiente, eu calculo que você vai precisar de, no mínimo, duzentas sessões.

[voltando a si]- Du… duzentas?

[risos]- Sim, senhor Squigley. Você ainda tem que desenvolver o autocontrole. E tem outros exercícios que você precisa praticar. Isso não será problema para o poderoso javali, será? Por agora, fica o aprendizado que a mulher gosta tanto de pornô [ver e fazer] quanto o homem.