Pimpinella em Arcádia

[ATENÇÃO, NSFW!]

[Nota editorial: estava prevista mais partes dessa série de contos, mas para poupar os leitores de mais perturbações, passamos para o capítulo final]

[Final, mesmo. Eu não irei mais escrever]

Os primeiros raios do sol da primavera brilham e esquentam o terreno no qual eu estou estendido, respirando com dificuldade, semiconsciente. Meu estômago protesta tão alto que eu sou obrigado a acordar. Eu olho para meu lado e Judy [Hopps] não está mais ali, eu não vejo [Nick] Wilde ou a viatura que nos serviu de condução e fuga. O estômago ronca, furioso, eu então, com dificuldade, ergo parcialmente meu tronco, permanecendo sentado no chão arenoso, procurando por comida e por Pimpe.

– Ah, você acordou! Até que enfim. Vamos, venha comer. Nós temos apenas mais uma missão.

Pimpe estava admirando sua coleção de placas, cinco no total. Diferentes no conteúdo e no material utilizado, eu presumo que sejam cruciais para a conclusão da nossa missão.

– Para onde nós vamos?

– Nós vamos para Arcádia. Mas antes, nós vamos esperar a chegada de nossos amigos.

Eu sou o que menos sabe o que acontece. Eu estava ocupado engolindo a comida quando chegaram três presenças. Uma criatura de outra dimensão e dois seres das sombras.

– Eu suponho que você seja Pimpe.

– Oi Staubmann, oi Enzo, oi Abigail.

– Nós temos que esperar. Tem mais um casal que quer ir conosco.

– Devem chegar em breve. Eu os sinto por perto.

Eu não reconheço mais Pimpe. Quando e como ela mudou, eu não sei dizer. Mas isso é normal acontecer com todos que perambulam pelo Vale das Sombras e entra em contato com o Mundo dos Mortos.

– Oi pessoal. Desculpe a demora.

– Oi, meu sobrinho. Quando vai nascer o pequeno Landlord?

– Pela forma como ele me chuta, em breve.

– Ah, sim, apresentações. Pimpe, Sapo, este é Alphonse e Catarina Landlord. Alphonse é meu sobrinho pelo lado materno.

Eu tento entender e aceitar que um ser de outra dimensão não apenas tenha se apaixonado por uma humana [agora uma criatura das sombras], mas também tenha conseguido engravidá-la. Estranhos rituais ou fórmulas profanas devem ter tornado possível tal obra. Eu fico torcendo que isso possa ser possível entre Pimpe e eu, eventualmente.

– Estão todos presentes e prontos? Que bom. Eu faço ou você faz a gentileza de abrir o portal, Staubmann?

– Faça você. Eu nunca vi um portal sendo aberto por sua gente.

Por meus votos de segredo e sigilo, eu não vou descrever os sinais e palavras que foram executadas. Apesar de eu ter visto e testemunhado tantas vezes o que nós chamamos de “levantar o véu”, a experiência é sempre marcante.

– Satisfeito?

– Impressionado. Eu faço isso com facilidade, mas considerando que a transição é individual e eu seja uma criatura extradimensional, o ritual feito por sua gente é bem eficiente.

Nós estamos em um ambiente completamente diferente do anterior. Quente, mas úmido e repleto de plantas. Lembra bastante das minhas viagens pelo nordeste e norte do meu país. Nós fomos recebidos por criaturas antropomórficas.

– Saudações, embaixadores de Nous, familiares e associados. Sigam-nos, nós os levaremos até o doutor.

Nós seguimos nossos anfitriões e passamos pela área urbana, cujos habitantes eram todos seres antropomórficos. Eu não estranharia se vieram daqui muitos dos atores e coadjuvantes dos filmes de animação que fazem tanto sucesso no mundo humano.

– Podem entrar. O doutor os aguarda.

Eu achei que fosse o domicílio residencial do enigmático doutor, mas ao entrar eu vi espaço suficiente para um laboratório, uma faculdade, um restaurante e um hotel. Eu li na entrada: Instituto Moureau. Um senhor envelhecido e arqueado nos cumprimentou.

– Boa tarde, meninos e meninas. Eu deixei tudo preparado. Nós podemos começar quando quiserem.

O doutor parecia bastante intrigado e interessado em minha pessoa. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ele perguntou algo que me deixou constrangido.

– Desculpe a curiosidade desse velho cientista, mas você é uma criatura antropomórfica natural ou artificial?

Eu devo ter travado, pois não tinha a menor ideia do que ele falava ou de como responder. Alphonse veio me ajudar.

– Doutor, essa é uma pergunta capciosa. Afinal, não há nada de humano na humanidade.

– Isso é verdade, Alphonse. Eu comecei a perceber os indícios de que isso que se chama “ser humano” era um resultado genético ou casual ou deliberado. As fases de desenvolvimento e crescimento do feto humano demonstram similaridades demais com outras espécies.

– Eu não creio estar revelando uma novidade, mas sua gente é resultado de manipulação genética, minha gente chama sua gente de “Annunaki”, ou os “Filhos de Anu”. As estranhas configurações da aparência que povos mais antigos davam aos seus seres superiores, chamados de Deuses, foram retratos esquecidos das outras espécies antropoides e humanoides que surgiram [foram geradas] a partir da engenharia genética com os “Filhos das Estrelas”.

– Exato, exato! Eu fiquei bastante chocado quando eu vi que meus muitos filhos e filhas não constituíam algo novo ou revolucionário. Felizmente meu pequeno paraíso tornou-se santuário para todos os seres antropomórficos. Então eu fico curioso da origem de nosso amigo batráquio.

Essa é uma questão que eu não quero descobrir. Desde que eu me conheço por girino que eu habito Elphane e ali mesmo eu fui treinado na Arte, recebendo da Rainha Titânia minhas roupas e o alaúde. Quase como Taliesin, eu conheço as estrofes, os tons e as rimas secretas do Ofício. Por isso que meu canto ofende e ameaça estes que se intitulam bruxos e sacerdotes da Religião Antiga: por que eu ouso dizer sobre a Verdade, a Luz e o Amor.

– Apressem-se! Estão todos nos lugares e impacientes para começarmos o Rito.

Abigail dá meia volta e caminha saltitando, fazendo seus longos cachos dourados balançarem. Difícil dizer que ela é muito mais velha do que aparenta. Nós três entramos na sala de decoração simples e minimalista, com as placas fixadas em determinada posição e ordem, enquanto nossos amigos ficam na borda do círculo desenhado no chão.

– Isso é incrível. Eu achei que seria impossível reunir novamente as doze placas.

– Mas elas estão reunidas. O que achou da minha organização?

– Perfeita, Pimpe, perfeita. Gostaria de fazer a gentileza de entoar as palavras, Abigail?

– Será um prazer, Staubmann.

Quando eles levam minha alma para aquele lugar

Isso lhes dará o mistério do seu medo

Que é XAPIHP, AXPW, PPAWP, AWHPNEUPSAZPA.

E tu és de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. E agora você é de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. Tu és de outra raça, porque não és semelhante. E és misericordioso, porque és eterno. E o teu lugar é sobre uma raça, porque tu fizeste todos estes crescerem; e por causa da minha semente. Pois é você quem sabe, que o seu lugar é gerar. Mas eles são de outras raças, pois eles não são semelhantes. Mas o lugar deles é sobre outras raças, pois seu lugar é na vida. Tu és Mirotheos.

E ele trouxe o pensamento de sua grandeza à medida da insubstancialidade, até que ele os tornou insubstanciais. Pois ele é incompreensível. Através de seus membros ele, por si mesmo, fez um lugar para seus membros, que eles deveriam habitar nele e saber que ele é seu Pai, e que é ele quem os emanou em seu primeiro conceito: isto que se tornou um lugar. para eles, e os fez insubstanciais para que eles pudessem conhecê-lo. Pois ele era desconhecido por todos.

Diante de meus olhos, o ar no ponto central do círculo alterou sua natureza, começando a se comportar como a água de um lago, febrilmente ondulando. Mais afastados os espaços adjacentes atrás de meus amigos dobravam-se e desdobravam-se, como se fossem parte de um intrincado fractal, se formatando, se reconfigurando.

O ambiente foi tomado pelo agradável perfume semelhante a rosas enquanto era inteiramente preenchido por aquela luminosidade rosácea e púrpura, até não ter mais sombra alguma. Então apareceu Kate Hoshimiya, aliás, Venera Sama, mas na sua forma original.

– Meus parabéns, queridos. Vocês conseguiram quebrar as cadeias e derrubar as barreiras que separavam esse mundo da Realidade Divina. Com isso o Conhecimento voltará a ser único, não haverá mais distinção entre Ciência, Religião e Magia. A humanidade irá despertar e retomar sua essência divina. O Espírito do Tempo, o Demiurgo, perderá seu poder e dominação. A Grande Alquimia a tudo irá transformar.

– Com licença, Vossa Majestade Divina?

– O que foi, Pimpe querida?

– Eu acho que esse é o momento mais adequado e propício. Para celebrar a libertação e emancipação humana dos Ciclos dos Aeons [a armadilha de Chronos, o tempo, a maior ilusão de Maya], que tal um Hiero Gamos como sacrifício?

[risos]- Sim, isto é necessário. Eu sei que você se voluntaria, repleta de contentação. E você, Sapo? Gostaria de se oferecer como sacrifício?

[Intervalo para uma mensagem de nossos patrocinadores. Gentil audiência, tranquilizem-se, pois o Caos não é isso que dizem ser. Epicrato Magno Caos é a Consciência Coletiva Divina, indistinta, homogênea, em conflagração, energias que volteiam
em um furacão. De estruturas simples e básicas surgem estruturas derivantes e complexas. Somente pode surgir a Ordem onde há Caos, quando o Caso anula-se a si mesmo, fazendo de si mesmo Entropia. Desses oásis de aparente tranquilidade surgiram as Formas, primeira
consequência da Entropia e da Ordem. Luz é Forma, Escuridão é Forma, Tempo é Forma, Vida é Forma, Espaço é Forma, Mente é Forma. A construção da Eternidade depende da existência da Forma. Bendito sejam os Primeiros, o Antigo, quem não ousamos nomear e a Serpente,
quem não ousamos nomear. Do Casal Primordial são gerados os Deuses Antigos e as gerações seguintes. Os Deuses Antigos fizeram suas cidades, reinos, impérios. As doze dimensões e cada um dos cosmos contidos nessas esferas são projetos feitos em Nous. Atritos
entre reinos e impérios geram facções e eis que acontece a Guerra dos Deuses. Os vencedores são coroados, os vencidos são vilipendiados. Aqueles que foram degradados e diminuídos são lançados para encarnar como meros mortais no corpo de Gaia e desde então
esse pequeno torrão de terra ficou isolado, pois de colônia dos Deuses tornou-se presídio. Foi apenas pela enorme potência chamada Amor que estes, agora chamados humanos, tem sido sujeitos à atenção do Reino Divino e apenas por intercessão desta que não ousamos
nomear a humanidade é colocada de volta à ascensão.]

Eu hesito, dividido entre desejo e medo. Então eu recebo a ultima revelação daquela que eu mais amo, por toda a Eternidade.

– O que teme e hesita, meu querido, meu muito amado? Qual poder vence o Caos? Amor. Qual poder vence a Ordem? Amor. Você, mais do que todos, sabe disso. Amor é a Potência Divina que não é nem Caos, nem Ordem. Você pode dizer que é o Terceiro Partido [risos]. Deixe que seu Eu seja envolvido no arrebatamento do infinito. Deixe que o Amor consuma toda dúvida, dor, sofrimento, incerteza.

Nisto consiste o todo do Quinto Círculo do Caminho no Bosque Sagrado. Ser devorado, consumido, desintegrado. O mundo não é real. O tempo não é real. Esta consciência não é real. Este corpo não é real. Pimpe recebe-me, jubilosamente, através e por dentro de seu mistério e portal carnal. Não que eu tenha algo a reclamar, afinal, eu e Pimpe seremos um só. Todo meu ser, essência e existência são avidamente sorvidos. Eu não desejaria fim melhor do que esse para meu miserável ser.

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