Arquivo mensal: maio 2018

Parcerias de terceiros

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos bagunçados.

Ao vivo é mais gostoso. Esse texto está sendo produzido nesse instante.

Eu passo pelas cortinas da coxia e entro no palco principal e fico estático no tablado avançado, bem debaixo do holofote principal, com o corpo coberto de gaze, colar cervical no pescoço e duas muletas. Sussurros surgem, cada vez mais audíveis da platéia.

– Respeitável público, não se preocupem, eu estou bem. Infelizmente nosso bom rabino Shimai não pode vir e estará afastado, em tratamento, na UTI do Hospital Albert Einstein. Nós os informaremos assim que ele estiver melhor para receber visitas.

Vamos ao que interessa. Siloque está em busca de candidatos, capacitados ou futuros, para a Grande Obra. O Ancião Hilel foi para a Terra dos Ancestrais. Dos Tetrarcas sucessores do Grande Basileu, sobrou apenas Herodes Antipas. Falta algo, um detalhe, mas é de um pequeno fósforo aceso que se inicia grande incêndios. Vamos nos debruças sobre Antipas, agora o monarca absoluto do reino de Judá, pouco depois de ver sua filha com Herodíades, que receberia o nome de Salomé. Ah! Quantas obras, poemas e músicas esta divina criatura inspirou! A esta eu pretendo fazer justiça também, mas vamos por partes.

– Parabéns, Vossa Majestade, parabéns duplo. Vossa Majestade recebeu a coroa que era vosso direito e vós agora tendes uma bela sucessora.

– Obrigado… Caifás, correto?

– Sim, Vossa Majestade. Eu me sinto honrado e lisonjeado por lembrar de minha mísera existência.

– Corte o papo furado, Caifás. Depois do Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e de Anás, que é teu sogro, tu és o mais influente e poderoso Sumo Sacerdote no Sanhedrin.

– Vossa Majestade está bem informado. Mas Vossa Majestade tem conhecimento das sociedades secretas que existem dentro do Sanhedrin, outrora mantidas pelo Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e que agora podem acabar nas mãos de meu sogro, Anás, ou pior, de Shimai?

– Você fala dos Messiânicos? Eu espero que Yahu Adonai não se importe se eu os mande fazer companhia para o Ancião na Terra dos Ancestrais.

– Eu vos desejo sucesso, Basileu, pois não são apenas vossos súditos comuns que estão nesse grupo sedicioso, ali tem ricos comerciantes, nobres, Hebreus e Romanos. Atrás dos “soldados” que agem e se identificam como Messiânicos existe a mão desse “governo oculto”, a Ordem de Melquisedeque.

– Ah… esses. Eu só agradeço a Yahu Adonai por ter confiado a coroa a mim, muito mais capacitado e habilitado para cuidar dessas sombras que vivem em meu reino. Conforme é o hábito, eu me declararei e me tornarei o Sumo Sacerdote, o Pontifex Maximus, como dizem os Romanos e eu irei expurgar o Sanhedrin das pragas que o parasitam.

– Bravos, bravos! Eu sei que Vossa Majestade possui alguma influência e crédito junto dos Romanos, eles certamente colaborarão mais do que o fizeram com vosso irmão, Herodes Arquelau, o Tetrarca exilado.

– Esse papo furado tem objetivo? Eu não gosto de rodeios. Vá direto ao assunto, Caifás.

– Vossa Majestade… e se eu vos garantir, de forma discreta, voz, voto e poder dentro do Sanhedrin?

– Eu diria que está louco, Caifás. O Sanhedrin é duramente disputado por Saduceus e Fariseus.

– Permita-me, Vossa Majestade, dizer aquilo que sabe ou desconfia. Essa contenda é para iludir os profanos. Meus irmãos de sacerdócio possuem uma agenda mantida pelo Círculo Interno, o local onde nós efetivamente nos reunimos e combinamos as farsas. Eu posso muito bem ser seus ouvidos, olhos e boca nesses encontros.

– Essa mania de falar por metáforas não cessa? Pouparia meu tempo precioso simplesmente me pedindo para torna-lo Primeiro Sumo Sacerdote enquanto sucessor do Ancião Hilel.

– Eu sabia que podia contra com a sabedoria de Vossa Majestade.

Tenham paciência, dileta audiência, eu ainda estou arrumando as peças para a sequência, para a segunda fase. Enquanto isso, vamos voltar para a Loja de Bethlehem, para resolvermos um certo… “probleminha” que acometeu Myrian Nazarena.

Para a presente cena, eu trouxe Zacarias e Isabel, trazendo o seu filho recém nascido, para visitar a gravidíssima Myrian Nazarena.

– Eu vim assim que eu pude. O fruto que está em teu ventre é o Messias?

– Sim e não. O Deus do Mundo manifestou a Vontade dele, mas algo interferiu e eu carrego apenas parte do espírito. Magdalena, para todos os fins, é Cristo.

– Onde está Shimai? Ele explicou que isso é arriscado e perigoso para nós e para a Grande Obra?

A coitada da Myrian olha para mim, porque esta era a deixa para Shimai fazer a parte dele, mas eu tive que reescrever [com lápis] o roteiro por motivos de força maior.

– “Shimai foi para Edom, para averiguar conflitos que boatos disseram ter atingido sacerdotisas estrangeiras”. Esse é a minha linha? Francamente, escriba. Shimai foi atrás de Sulamita… essa é a linha narrativa?

– Eeehhh… e quanto a Yonah e Magdalena? Onde elas estão?

– “Yonah foi para Samaria e Magdalena foi para Jerusalem. As lojas dali pediram pela presença delas para avaliarem candidatos e completarem o treinamento”. Isso não faz o menor sentido, escriba. Elas me deixaram sozinha, grávida?

– Eeehhh… nós soubemos dos esforços que as lojas estão tendo e de sua condição. A Loja de Bethlehem tem que cuidar para que esse fruto possa cumprir com a missão que o aguarda. Para tanto, nós te trouxemos um parente que irá se apresentar ao público como teu marido.

Myrian tenta levantar, indignada, mas a gravidez a mantém sentada. Ela me fulmina com os olhos e eu só consigo imaginar a multidão de xingamentos e maldições que se passam naquela bela cabecinha. Para salvar esta apresentação e minha pele, o bebê fala.

– Bendita sois tu entre todas as mulheres, Myrian Nazarena, pois achastes graça diante do Senhor. Eis que tereis um filho e lhe dareis o nome de Yeshua. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

– Ora, vejam só! O anjo de Deus fala pelo filho de vocês! Que nome darão à ele?

– Iohannes, Yokhanan HaMatbil.

– Sendo filho de vocês, deve ter recebido a santidade que vocês compartilham diante do Senhor.

– Sim, embora nós constantemente temos sonhos felizes e tristes com ele, em idade adulta, ao lado desse que vai nascer.

Agora sim, nós colocamos outros personagens e peças desse xadrez cósmico. Mas falta alguma coisa… ou melhor dizer que falta alguém? Falta a Sombra de Deus [não o Deus do Mundo], essa entidade, esse anjo que, para agradar seu mestre, seu professor, Cristo, para derrubar o Usurpador [IHVH] do trono do Firmamento, aceitou o papel mais ingrato e incompreendido em dezenove séculos ou mais.

– Olá pessoal. Meu nome é Satan. Eu percebo olhares intrigados e desconfiados. Muitos aqui esperavam que minha aparência fosse outra, mas saibam, essa é a imagem construída pela Igreja para atingir os objetivos [de poder, riqueza e prestígio] dela e foi calcada, copiada, inspirada no Deus Verdadeiro, o Mestre do Sabat.

– Satan! Você está adiantando o assunto!

– Mesmo? Eu imaginei ter dito isso diversas vezes, de formas diversas, pelos diálogos de outros personagens.

– Não deixe o pessoal mais confuso do que deixei. Para eles, você é o Diabo, o Mal.

– Eu sou um anjo. Eu sou um espelho. Aquilo que virem em mim é reflexo de vossas almas. A Maldade está dentro de vós.

– Mas Satan… não é Lucifer expulso do Paraíso construído por Deus?

– Hahaha… me fazes rir, escriba, eu gosto disso. Pode me usar para provocar e estimular tua platéia. Você é o Amado daquela de quem eu não posso ousar dizer o Nome. Mas vede, platéia, Lucifer é Cristo, é a Estrela da Manhã, também chamada de… Venus! Ela [ou Ele] foi a autora da libertação de Adão e Eva do Jardim do Eden, indevidamente apossado dos Deuses Antigos por Jeová . Esse que é chamado de Caminho são suas escamas, porque a Verdade, a Vida, a Luz vem dEla, a Deusa Primordial, a Deusa Serpente.

Tremores, comichões e suores percorrem meu corpo toda vez que eu deixo escapar algo que não deveria ter dito. Escrever cria uma bolha de cristal que me mantém calmo e seguro. Quando eu mergulho dentro do Mistério é impossível não sentir o calor e maciez da pele, carne e corpo dEla. Isso as religiões da Deusa, o Dianismo predominante no Paganismo Moderno jamais irá compreender. Quem pode entrar, atravessar os véus sagrados? Somente Ele, o Touro. Quem é o Guardião do santo dos Santos? Somente Ele, o Bode. Quem é que pode nos guiar pelas intrincadas trilhas do Caminho, pelas ferramentas do Ofício? Somente Ele, o Antigo.

– Está passando bem, escriba? Ou perdeu novamente o foi da meada?

– Não. Eu só não sei como eu vou te encaixar no diálogo que Siloque terá com o espirito que ele encontrou no caminho para Damasco.

– Deixe isso comigo e minha emissária. Ela tem sido bem util na evolução humana, depois que Cristo a libertou das correntes que a seguravam. Ela, a Primeira Mulher, a Consorte de Adão, descendente direta da Deusa, confundida com um mero demônio, um mero espírito malfazejo encarregado de cuidar de abortos, conhecida por Lilith, esta mesmo, que primeiro te beijou e te preparou para as revelações que te despertaram.

– Olá, meu escriba preferido, meu bichinho, meu amado, meu herói. Eu ainda tenho as marcas de nosso primeiro encontro. Eu fiquei impressionada, escriba. O que nós fizemos abalou as doze dimensões. E nós não seremos esquecidos [e perdoados] tão cedo. Francamente, escriba, nenhum de nós esperava tanto.

Eu vou ser sincero e honesto com vocês, distinta platéia [mentira!]. Nem eu consigo entender por que eu fui escolhido. Eu não posso considerar isso que eu apresento a vocês como arte, teatro e literatura. Meu corpo está no limite, eu temo não poder fornecer as doses diárias de testosterona que minhas amigas me pedem. De onde eu tirei essa minha vontade, essa dedicação, essa loucura, essa força? Eu não sei as respostas, mesmo porque eu me encontro perdido nesse labirinto, maldito até por aqueles que se intitulam bruxos. Estas linhas estariam sendo melhor traçadas por outro. Inúmeros outros teriam mais capacidade e competência para satisfazer a Deusa e seriam melhores sacerdotes do Ofício diante do Deus.

Para minha sorte [ou azar], não existe aposentadoria. Uma vez pisado nesse chão, uma vez tendo visto a beleza do Caminho dos Bosques Sagrados, isso se torna o Propósito Maior. Se passarem pelo meu esqueleto, deixem uma prece.

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Eis o corpo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Sem rumo.

Aproveitando que o Caos está prestes a desembarcar no Brasil, o público presente permita-me lembrar de um casuísmo intrigante, considerando que nosso país é [supostamente] um Estado Laico: dia 31 de junho o brasileiro vai ter feriado prolongado devido a comemoração de Corpus Christi. Eu só estou imaginando as cenas das estradas, com milhões de paulistanos saindo dessa imitação barata de Gotham City. Sim, a despeito dos caminhoneiros bloqueando estradas, da falta de combustível e de outros insumos, o paulistano vai dar seus “pulos” para aproveitar o feriado prolongado. Essa é a nossa reputação no exterior, dos países “em desenvolvimento”, ou do “Terceiro Mundo”, nós somos vistos como preguiçosos e traiçoeiros [em termos comerciais e econômicos]. Não é uma reputação que se possa querer manter, especialmente em pleno século XXI, mas o brasileiro geral também é conservador e católico [ou outra vertente do Cristianismo]. Enquanto no Primeiro Mundo se discute a Quarta Revolução Industrial, nós ainda estamos na fase do Capitalismo Selvagem.

Seu padre ou pastor terão horror se vocês perguntarem, mas como euzinho nada tenho com eles e com as organizações religiosas de quem são funcionários [eu sou pagão], eu vou perguntar e provocar assim mesmo. Onde está o corpo de Cristo? Esta apresentação pretende dar pistas e indícios que irão desafiar os conceitos religiosos que constituem a “programação básica” do Cristianismo. A distinta plateia pode optar por dar “reboot” ou instalar outra programação. Eu só espero que possam se libertar desses vigaristas, farsantes, falsários e estelionatários que são lobos em pele de cordeiro. Mas voltemos ao assunto: o corpo de Cristo. Ou, para ser mais exato, o “nascimento” de Cristo.

Eu sou testemunha quando o Mestre do Sabat manifestou sua Vontade e o Emissário escolhido incorporou em Myrian Magdalena, mas parte desse espírito encarnou no fruto que crescia no ventre de Myrian Nazarena. No entanto este ainda não é o Demiurgo que manifestaria o Aeon de Peixes e aí que começa o nosso problema. Foram necessários muitos séculos para que fosse produzido “Zeitgeist” [Termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo].

Vamos deixar de lado as lacunas e falhas do filme e vamos para a verdade inconveniente: na época dos “fatos” exitiam muitas pessoas que se apresentaram e se identificavam como sendo o Cristo. Aqui nessa encenação, eu inventei o grupo dos Messiânicos, embora baseado em fenômeno que apereceu entre os Judeus e, certamente, essas pessoas se organizavam em grupos, geralmente com um líder, que fazia sermões em praça pública, tal como os Profetas, conclamando os Judeus a se arrepender dos pecados, renegar a idolatria e voltar para o Deus Verdadeiro. Parece familiar? Não existe coincidência. O que não convém ao seu padre e pastor lhe dizer é que esse Cristo da Igreja não é Cristo, mas a egrégora criada para satisfazer o Demiurgo. Eu espero esmuiçar melhor essa ideia conforme eu for escrevendo os capítulos.

Mas vamos ao que interessa e dar continuidade a esse teatro. Yonah estava satisfeita com suas noviças e Sulamita praticamente fazia seus planos para viajar até Alexandria ou Esmirna, mas Shimai não estava muito contente.

– Eu senti que esta noviça tem um fruto crescendo no ventre dela.

– Não era esse o objetivo do culto? Tornar possível a encarnação do Messias?

– Antes de acabar o ritual, o Deus do Mundo mostrou-me que aquele que nós chamamos de Messias incorporou em Myrian Magdalena.

– Nós estamos confusas, Shimai. Qual a diferença de qual vaso o Messias está presente?

– Muitas. Todas. E eu me sinto parcialmente responsável por isso, como um dos Sumo Sacerdotes do Templo Sagrado. Meus antecessores cometeram a piedosa fraude de contar ao povo a lenda do Êxodo, bem como disseminaram as palavras dos Profetas sobre o Messias que exige que seja homem e descendente de Jessé e Davi. Nosso povo não irá aceitar que Cristo seja mulher e sacerdotisa da Deusa. E nós corremos um enorme risco se o povo souber que Myrian Nazarena está grávida, tão jovem e sem marido.

– Não há um homem que possa apresentar-se ao público representando Cristo, falando em nome dela?

– Sim… isso é possivel e é uma excelente ideia. Eu acho que Siloque e Zacarias ainda estão nas dependências da loja ou perto. Eu vou pedir a eles que convoquem os irmãos que estejam capacitados para essa tarefa.

– Eu te acompanho, Shimai. O Mestre do Sabat quer que eu vá para Esmirna ou Alexandria. Minha presença aqui não é mais necessária, teu povo tem minha irmã Yonah e em breve terá duas sacerdotisas que irão ensinar o Caminho a todos.

[olhando de forma sugestiva]- Eu gostaria muito que ficasse, mas nós temos que obedecer a Vontade de Deus.

Conforme eu tinha prometido [depois de uma árdua “negociação”] para Sulamita, ela encenará papel diferente do que ela foi destinada anteriormente [em “Hieródulo”], então ao invés de direciona-la para Edom, ela pode ir para Esmirna, onde eu posso inserir outra interferência textual. Isso conta como spoiler?

– Siloque, onde está Zacarias?

– Ele teve que ir embora. Um de nossos irmãos veio aqui chama-lo, pois Isabel está para dar à luz.

Casuísmo que pode ou não ter conexão com nossa apresentação. Antipas, pouco depois de receber a coroa que pertencia ao seu pai, o Grande Basileu, apressou-se para ficar ao lado de Herodíades, prestes a dar à luz. Algo que não se vê em peças de teatro é o “nascimento” de um personagem e estes influenciarão o andamento do roteiro de forma marcante [spoiler!].

– Faça o seu melhor e espalhe a notícia para todas as lojas que nós precisaremos reunir todos os potenciais Messias que temos e eu quero lista de todos os potenciais Messias que podemos vir a ter. Esse recurso de pessoal será necessário para concluirmos a Grande Obra.

Siloque acena afirmativamente e despede-se de Sulamita com leve reverência. Esse sistema de conecção e comunicação entre as lojas também exercerá papel crucial conforme o desenrolar do roteiro… mais spoiler?

– Eu não direi adeus, Shimai, mas até breve. Feliz partida, feliz reencontro.

– Feliz partida, feliz reencontro. Que Fortuna sorria mais uma vez em minha direção e eu possa revê-la.

– Eu prefiro não abusar e confiar nos caprichos do Destino e da Fortuna, mas quem sabe? Todos nós nos veremos novamente, em outra reencarnação, ou na Terra dos Ancestrais.

Shimai acompanha com lágrimas nos olhos o vulto de Sulamita acompanhar o pôr do sol, sem poder esconder e disfarçar sua evidente ereção.

– Por Yahu Adonai, escriba… precisa denunciar o que está visível? Isso é inconveniente. Eu sou um homem de Deus.

– Eu também sou homem de Deus, embora eu reconheça o Mestre do Sabat como o Deus Verdadeiro. Nós que pertencemos ao Caminho não temos vergonha ou acanhamento em demonstrar nossa apreciação às inúmeras manifestações da Deusa, como você pode perceber facilmente.

– Hei, meninos, o roteiro acabou. Que tal fazermos algumas cenas extras nós três? Seria um enorme desperdício e pecado se eu não aproveitar estes talentos que brotaram de vocês.

– O que me diz, Shimai? Acha que nós dois damos conta do apetite dela?

– Por Yahu Adonai… que eu morra tentando!

Gentil platéia, perdoem-nos por baixar as cortinas, mas este será um ritual particular que olhos comuns, profanos, não podem testemunhar.

A plenitude da existência

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos híbridos.

Respeitável público, nós estamos transmitindo esta imagem via satélite, para que vocês acompanhem nossa saga onde quer que você esteja. Essa é a parte boa do ser humano, não importa o que esteja acontecendo, o espetáculo deve continuar.

Falando em teatro e novela, o brasileiro está craque nisso. Desde 2015 tem vivido dentro de uma novela, que mistura comédia e tragédia. Eu estaria cometendo erro dizendo que isso que acontece é fruto de uma conspiração. Quando se olha para o fenômeno das Jornadas de Junho [2013] a sensação é que movimentos e manifestações ganham uma cinética própria, completamente fora do controle de quem as idealizou.

Esse novo capítulo chamado de Crise dos Caminhoneiros [que está longe de acabar] mostra, de forma incômoda, como o mundo contemporâneo é dependente de petróleo e derivados. A outra coisa que se percebe é o chamado tecido social, onde nós todos somos afetados pelas ações de um indivíduo ou grupo. Parece papo de guru paraguaio, mas todos nós estamos conectados, mas o imediatismo e o egoísmo nos fazem preferir ganhos imediatos ao custo de arriscar o futuro de todos.

Todo esse prolegômenos é a forma que eu encontrei para explicar porque tem tantas inserções de “rumos secundários” e de “rumos híbridos”, não há como dizer ou afirmar quem ou o quê efetivamente causou ou influenciou determinado acontecimento histórico, inúmeros outros fatores, agentes e circunstâncias contribuíram, direta ou indiretamente, proposital ou voluntariamente, para o desfecho que “alterou” o rumo da história humana, ou assim é como nos fazem querer acreditar. Ao invés de idealizações românticas, eu prefiro realismo pragmático. Não há futuro, como dizem os punks e não há, pois só há o hoje e não se pode dizer objetivamente em qual direção vai o “progresso”.

Coloquemos isso em mente ao recapitular as apresentações até o momento expostas. A perspectiva que Herodes [o Grande Basileu] tinha no exílio era viver cada dia com a sensação de ter uma espada no pescoço. Os sucessores dele, os Tetrarcas, estavam confiantes de que haviam achado a sorte grande, confiando demais nos caprichos da Fortuna e sobrou apenas Antipas. A situação dele em nossa narrativa, como eu tinha dito, é dúbia, ele tanto é o protagonista quanto o antagonista. O papel que ele encena é visto como o do malvado, mas eu ouso coloca-lo como herói. O que nos leva ao “outro lado” dessa narrativa, o outro protagonista/antagonista, cujas ações marcarão inúmeros destinos.

Aqui eu devo lembrar que eu não estou querendo te ofender nem interferir com sua crença, cristão branco ocidental. Eu prefiro deixar essa pecha de intolerância religiosa nas mãos de suas organizações religiosas. Verdade seja dita, o que esta apresentação pretende é exibir a ideia louca e revolucionária de que o Cristianismo identifica a pessoa errada como Cristo.

Mas antes de trazer Cristo a este teatro, nós temos… eu tenho que acertar o roteiro de Sulamita. Isso requer a participação de Yonah e suas noviças. E isso envolve as “notícias recentes” da destituição de Arquelau e Traconítide, juntamente com o anúncio da coroação de Antipas como monarca absoluto de Judá. Cenário: Loja de Bethlehem. Evento: celebração do shabat, em sua forma original, como culto de Ishtar.

– Senhoras sagradas, eu as chamei aqui porque eu acredito que a ascensão de Herodes Antipas como monarca absoluto de Judá é o sinal de que a vinda de Cristo é iminente.

– Isso nós entendemos ao receber teu convite, Sumo Sacerdote Shimai, o que não entendemos é onde o culto de Ishtar encaixa-se no shabat que seu povo celebra.

– Nosso shabat é resquício do culto de Ishtar, tal como nossos antepassados e ancestrais celebravam, enquanto faziam parte do Império Babilônico. Isso é de conhecimento entre as escolas de mistério, a correlação entre a lua, o sétimo dia da semana e Ishtar. Nós apenas ocultamos e omitimos isso do público em geral, aferroado nessa crença de que Deus [IHVH] é Único e Verdadeiro.

– Então a nossa presença, obrigação e função aqui hoje é a de tornar possível a encarnação ou possessão de Cristo, que vai “corrigir” esse erro.

– Precisamente, senhoras sagradas. E considerando que estas noviças são as mais capacitadas que temos para esta ocasião, elas também participarão.

Yonah confia em suas noviças e Sulamita está curiosa para saber se um rabino hebreu consegue evocar figuras divinas distintas das que acredita. As duas Myrians estavam eufóricas, elas estariam presidindo o primeiro ritual de suas vidas e de seus sacerdócios. Um pequeno adendo casuístico: o shabat judaico tem início na sexta feira, depois do pôr do sol, algo em torno de 18:30. Geralmente o rabino entoa preces diante do santuário, mas nesta noite de sexta [dia da semana conectada com a Deusa Vênus], Shimai conduz o procedimento que seria considerado blasfêmia e heresia, se fosse visto pelo Sanhedrin.

As sacerdotisas observam Shimai traçar no chão um quadrado em volta delas e depois dois círculos. Meus votos de sigilo me impedem de entrar com mais detalhes. Sulamita reconhece as presenças que se manifestam dentro dos círculos marcados, ela indica para Yonah os Nomes que somente podem ser proferidos [e ensinados] para iniciados e nos rituais. Para as noviças, a experiência é aterrorizante; para as veteranas, é algo esperado e inevitável.

Aqui eu tenho que introduzir alguns conceitos do Paganismo. Para as religiões monoteístas [especialmente as abraãmicas] Deus é transcendente, mas para as inúmeras religiões antigas o divino está presente em toda a natureza, ao nosso redor, dentro de nós, em todo mundo, em todo o universo. Então eu espero e peço ao distinto público que não fique escandalizado quando eu uso a palavra Deus do Mundo, Deus da Floresta, Deus das Bruxas, o Mestre do Sabat, o Bode de Mendes. Ele é o Antigo, o Consorte, Amado da Deusa.

– Veja, Magdalena! Nós estamos diante de Yahu Adonai!

– Oh, não, minhas filhas. Este que vocês adoram é um de meus enviados, um Demiurgo, para cultivar e colonizar o meu reino.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Yahu Adonai não é Deus?

– Veja bem, minhas filhas, Deus é um titulo, não aquele quem o porta. Então do ponto de vista da Eternidade, o Deus de vosso povo porta este título, embora muitos de nós discordemos.

– Então existem vários Deuses?

– Ah, sim, minhas filhas. Aqui em Gaia não são várias as espécies que aqui habitam? Vosso mundo é um pequeno pedaço de poeira na imensidão do universo, em um pequeno ponto de confluência dentre milhares de outras que acontecem nas doze dimensões.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Deus é um tipo de espécie?

– Sim, queridas filhas. De onde eu vejo, a existência física, carnal, é exceção, não a regra, diante da Eternidade. Eu, que sou o Rei, Senhor e Deus deste mundo, manifesto e propago minha luz a todos os seres que aqui habitam.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Vós sois o Deus, mas não sois Vós quem os rabinos evocam no templo sagrado. Então quem é Yahu Adonai?

– Ele é um de meus muitos filhos. Eu confiei a ele o seu povo.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Por que nós ouvimos que Yahu Adonai é o Deus Único Verdadeiro?

– Este foi o acordo, o contrato, que Jeová firmou com Abraão. Era para os dois iniciarem um culto familiar, era para ele se tornar um Deus tutelar. O estresse dele em exigir ser reconhecido como Deus Único Verdadeiro somente faz sentido quando há outros. Para vosso povo foi fundamental, para formar a consciência de unidade étnica necessária para vossa sobrevivência.

– Meu Senhor, por que enviou este e não outro para cuidar de nosso povo? Por que não o destituiu quando ele abusou do poder e autoridade que lhe foram confiados?

O Mestre do Sabat sorriu e o salão ficou completamente iluminado.

– Por que vós sois ele e ele é vós. Este é o propósito no qual eu os gerei com a ajuda de minha Amada. Sim, minhas filhas e meus filhos, vós sois descendentes do divino e nós confiamos a vós a dura e árdua tarefa de crescer e evoluir por esforço próprio. Essa é uma das Leis Universais. Dentro de vós existe potencial para criar e destruir. Minha fagulha, minha essência, queima em vossos corações, mas vós tendes que refinar a vossa existência carnal. Nisso consiste o Mistério da Queda do Homem. Do Caos, emergiu o Casal Primordial, destes toda a Eternidade e os inúmeros seres espirituais. Mais afeiçoados ao Caos, os Titãs querem destruir a Ordem, mesmo que com isso consuma o Universo. Eu escolhi aqueles que lutaram e venceram contra os Titãs e foi o Homem [andrógino, hermafrodita, “feito à nossa imagem e semelhança”] quem escolheu e pediu para receber as cinzas dos Titãs para que estes pudessem ser melhorados, purificados, refinados, eis porque vós vivestes sempre em contenda com vossa natureza carnal. Isso também resume todas as crenças que formulastes: vosso desejo é o de retornar ao nosso convívio, retornar ao seu estado de graça.

– Meu Senhor, como nós, meros mortais, podemos concluir esta provação?

– Eu enviarei meu emissário, como fiz anteriormente. Ele ou ela entregará para todos que tiverem ouvidos e entendimento a formula, cifrada, do Caminho que vós conheceis. Isso está de acordo com a Lei Universal. O que está oculto, deve ser revelado; o que se encontra escondido, deve vir à luz.

O Deus do Mundo colocou sua Vontade na Myrian Magdalena, mas as Forças que ensejam pelo Caos interferiram e parte do espírito do Emissário acomodou-se no fruto que crescia no ventre de Myrian Nazarena.

Antes de terminar o culto, o Mestre do Sabat apresentou a Deusa e solicitou para Sulamita dirigir-se para o Alexandria ou Esmirna, onde ela será necessária para os dias que virão.

O rei de espadas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos híbridos.

Esta apresentação confunde-se com as narrativas principais e assessórias. [pergunta da plateia] Sim, distinto público, vocês também fazem parte da encenação. Existe pouca ou nenhuma diferença, todos nós interpretamos diversos papéis. A verdade é que não há distinção entre teatro e vida, entre ficção e realidade. Mas não percamos o foco, dos quatro Tetrarcas, um desistiu sem sequer receber a coroa, outro foi “convidado” a se retirar e o terceiro tratou de buscar exílio. Sobrou um herdeiro de Herodes, o Grande Basileu, o tetrarca da Galileia, Herodes Antipas que está, nesse momento, tamborilando o espaldar do trono com os dedos, impaciente.

– Onde está o roteiro? As cortinas estão abertas e eu não tenho discurso para proferir ao público.

– Só um instante, Vossa Majestade. Eu vou ver com o escriba.

Antipas mede dos pés à cabeça a fêmea zoomórfica e acena com a mão, como que a dispensando. Riley agradece, faz reverência e começa a escarafunchar nos bastidores do teatro, tentando me encontrar. Em algum ponto dos camarins, ela ouve o som de madeira rangendo, metal guinchando, seguindo ritmicamente os gemidos de uma voz feminina. Mesmo sabendo o que vai ver, Riley avança e flagra Sulamita me cavalgando, feliz, mordiscando os lábios, olhos voltados para o teto, provavelmente vendo inúmeras estrelas pipocando, possivelmente por ela ter chegado ao segundo orgasmo múltiplo antes de eu inundar o ventre dela com minha essência. Eu não sou de me gabar [mentira!], mas se nosso mundo fosse sexualmente saudável, todos nós teríamos vidas sexuais muito mais satisfatórias.

– Se… senhor escriba, perdoe-me por interromper suas… negociações com Sulamita, mas Antipas precisa do roteiro.

– Sem problema, Riley. Por favor, pegue o roteiro em minha escrivaninha e leve para Antipas.

Eu nem notei que, com a atividade e atrito entre meu corpo e o de Sulamita espalhou as páginas do roteiro no chão, onde se encontravam, cobertas e melecadas com nossos líquidos corporais. Ela pega as páginas e vai saindo, com inveja e ciúme nos olhos.

– Senhora sagrada, por favor, não esgote o escriba. Ele ainda tem muito trabalho.

– Lamento, Riley, mas isso está fora de nosso alcance.

Riley ainda olha de esguelha antes de começar a correr, envergonhada, por ver a expressão de Sulamita quando eu começo a “trabalhar” nos quadris dela. Os demais funcionários tentam ignorar a sinfonia que fazemos.

– Com licença, Vossa Majestade. Eis o roteiro.

Antipas recebe o calhamaço de folhas, indiferente ao estado grudento que se encontram, salvo por um comentário.

– Riley, certo? [acena afirmativamente] Pelo visto nosso estimado escriba está bastante ocupado “negociando” com as atrizes. [escaneamento] Você é uma criatura zoomórfica de hiena, certo? [acena afirmativamente, acanhada] Sua figura me agrada. E não entenda isso como assédio sexual. Seja uma boa menina e avise que eu estou pronto.

– Sim, Vossa Majestade. Obrigada, Vossa Majestade. Oquei, pessoal, isso não é um teste, nem um exercício! Todos à postos! Iniciando em três, dois, um…

Saudação de novo, distinta audiência. Não se preocupem com minhas pernas trêmulas, a falta de fôlego ou minha fraqueza. Eis no centro do palco, no holofote principal, o personagem que importa nessa apresentação. Os boatos chegaram até o palácio do governo da Galileia, mas Antipas, prudente e pragmático, aguarda ansiosamente que algum mensageiro do governador da província da Síria traga a ele a proclama oficial. Que entre o mensageiro… mensageiro?

– Desculpe, gente. Façam de conta que eu sou o mensageiro. O ator teve dor de barriga e não pode vir. Ahem… Vossa Majestade, Tetrarca da Galiléia, em nome do cônsul da província da Síria, eu Vos trago o decreto oficial.

Riley sai de trás da coxia, completamente descaracterizada e entrega o rolo de pergaminho para Antipas que pisca para ela e a deixa roxa de vergonha.

– Vejamos o que tem no decreto… “Cônsul, blablabla, nomeado blablabla, em nome de blablabla, tendo em vista blablabla, declaro Herodes Arquelau DESTITUIDO de todos os privilégios, títulos e posses, blablabla, rogo que compareça ao conciliábulo no qual será REPARTIDO o reino da Judéia entre os legítimos sucessores do Grande Basileu”. Excelente. Menos um empecilho ao meu projeto. Só falta remover meu amado irmão Traconítide.

– Ah, sim! O ator que faz o segundo mensageiro também não pode vir com a greve dos caminhoneiros. A fala dele é igual a do outro, então, Vossa Majestade, poderia receber o pergaminho com o segundo decreto oficial?

Dessa vez é Riley quem provoca com olhares e bocas o Tetrarca da Galileia, que sequer titubeou.

– Muito bem, vamos abrir o segundo pergaminho. “E o Oscar vai para…” Eu sempre quis dizer isso. Mais blablabla. Os Romanos são mesmo loucos. Permitam-me, distinta audiência, resumir o assunto. O governador da província da Síria está me avisando que meu amado irmão, o Tetrarca da Idumeia, evadiu-se de suas funções e está em lugar incerto e não sabido. Tendo isso em consideração, o cônsul romano solicita minha presença para que eu receba a coroa dos demais reinos. Eu, euzinho, o mais detestado e rejeitado entre os herodianos, receberei a coroa que outrora pertencia a meu pai. Minha vingança está consolidada.

– Parabéns, Vossa Majestade! [saltitos, aplausos e felicitações]

– Muito agradecido, senhorita Riley. Como monarca de todo o reino de Judá, eu terei que montar a minha corte e precisarei de muitos conselheiros e ministros. Por acaso a senhorita estaria interessada em aceitar um cargo?

– E… eu, Vossa Majestade? Ma… mas… eu…

– Sim, senhorita Riley. Eu estou avaliando superficialmente, mas eu creio que você tem… talentos interessantes. Evidentemente, eu terei que fazer uma… avaliação mais detalhada.

– Vo… vossa Majestade! Vós estais querendo insinuar…

– Exatamente, Riley. O escriba não é o único que pode se divertir aqui. O que tu me dizes?

Riley, com a gentileza típica dela, agarra, arrasta o pobre do Antipas para algum lugar, no meio das sombras dos bastidores e gemidos assustadores ressoam pela campânula do teatro. Sejam quais forem os pecados atribuídos ao Tetrarca da Galileia, ele está expiando todos eles, sofrendo nas mãos da Riley. Um bom sofrimento, eu devo dizer. Especialmente a tortura que ela faz, espremendo suas vítimas entre suas coxas.

Cai o rei de paus

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Dois anos que o Brasil vive uma verdadeira novela que começou após a reeleição de Dilma Rousseff. Antes que a audiência comece xingamentos e agressividade, eu não sou petista, eu sou de esquerda e legalista. A Mídia Oficial, em conjunção com o Congresso [e com os EUA, eu suspeito] montaram uma conspiração que ensejou no processo [ilegal e ilegítimo] do impeachment que afastou a presidente legitimamente eleita para então entregar o poder para um fantoche mais sintonizado com os interesses do Mercado [daí porque falamos em golpe].

Eu vejo espaços vazios no auditório, a mesma greve dos caminhoneiros que foi manipulada para impulsionar o impeachment/golpe voltou, agora para impulsionar o impeachment/golpe contra as eleições de outubro de 2018. A greve está repercutindo na falta de combustíveis e no abastecimento de víveres. O pessoal da direita e os analfabetos políticos adoram falar que o Brasil nunca será uma Venezuela. Eis que o Brasil, o paraíso neoliberal, está se tornando uma Venezuela.

Eu sou da geração que nasceu na Ditadura Civil-Militar e nós ainda temos que lidar com essa herança maldita, nosso povo não foi educado nem conscientizado politicamente e nossa educação ainda é marcantemente de direita, tradicionalista e católica. Isso que a Mídia dissemina é continuação da “educação política” do brasileiro, que o transformou em um analfabeto político, que tem orgulho de se dizer apolítico, de ser anti-político, então era esperado que candidatos que se apresentam como “gestores” e não como políticos fizessem sucesso, da mesma forma como o radicalismo tem também feito sucesso porque o brasileiro médio comum acredita na historiografia oficial contando um paraíso dourado durante os Anos de Chumbo.

Eu tenho que esboçar um sorriso amarelo, apesar de eu ter essa percepção trágica de que nós somos ovelhas que se comprazem em ser presas dos lobos, porque o espetáculo tem que continuar.

Vamos falar disso que os conservadores moralistas hipócritas chamam de bons tempos e dos valores morais dos nossos antepassados e ancestrais. No mundo contemporâneo a monarquia não faz mais o menor sentido, o regime republicando é o mais adotado, mas houve um tempo em que a monarquia fazia sentido porque existia a noção de que o rei era representante legal de Deus, indicado pelo Altíssimo. Essa é meia verdade, o que não se contam nas escolas e eu tive que descobrir sozinho, estudando a história antiga e a mitologia, é a verdadeira fonte do poder e da majestade na qual o rei se investe. Está ali, bem claro, mas só para quem tiver ouvidos para ouvir e entendimento para entender. Deuses e reis uniam-se em matrimônio com suas próprias mães, irmãs, primas, cunhadas e filhas por um único motivo: a verdadeira majestade e poder são passados por linhagem MATERNAL, nossos ancestrais e antepassados construíram cidades, reinos e culturas na antiguidade a partir de uma sociedade matrilinear. O patriarcado e os regimes advindos dele é uma “invenção recente”, que apareceu juntamente com o banimento das religiões ancestrais, o estabelecimento dos Deuses Pais no ápice da hierarquia divina, a demonização dos Deuses Antigos [especialmente das Deusas Antigas e de suas manifestações como serpente ou dragão] e a imposição da linhagem patrilinear. As religiões oficiais, mantidas e incentivadas pelo regime [monarquia e república] obviamente seguem e refletem esse padrão, então as principais religiões majoritárias são calcadas e estruturadas a partir da imagem de Deus, o Pai do Céu, o Deus Único, sozinho, solitário, no Paraíso. Eu não me espanto que a manifestação desse Deus seja tão agressiva, ciumenta, violenta, abusiva, arbitrária, possessiva; não me espanto que seus “representantes” disseminem tanto ódio, intolerância, medo, discriminação e segregação; não me espanto que as organizações religiosas que “representam” esse Deus tenham cometido tantos crimes contra a humanidade.

Antes de voltarmos para a narrativa principal, se é que eu posso falar nisso, vamos nos debruçar um pouco para vermos outra alma, cujo destino está enredado com a trama principal. Vejamos para onde e o que fez o Tetrarca da Iduméia, Herodes Traconítide, depois que se divertiu pelas ruas de Bethlehem com seu irmão mais velho, Herodes Arquelau. Eis os dois, ainda empapados em sangue, no palácio do governo da Judéia. [reclamação da plateia] Não, caro público, não há erro, nós é que estamos mal acostumados em acreditar que o tempo transcorre linearmente. Na quinta dimensão o tempo é mais uma espiral que flutua ao sabor de inúmeras outras forças. Sim, distinta audiência, na quinta dimensão o tempo é líquido. Mas vamos para a encenação.

– Por Yahu Adonai, meu irmão! Eu não me divertia tanto assim há anos!

– Eu também, meu irmão. Qual de nós matou mais ratos nessa noite? Eu acho que eu ganhei.

– Ah, meu bom e velho irmão, eu tenho que discordar [Arquelau arregala os olhos, espantado] Sim, eu sei que falam que eu sou um reflexo seu, que eu te imito em tudo, mas confundem minha admiração e respeito devido ao irmão mais velho com submissão. Nós não contamos as cabeças que sacamos, mas eu reclamo o mérito dessa noite.

– Que seja, meu primeiro irmão. Eu estou tão feliz e contente com nossa façanha que eu reconheço tua vitória. Venha, vamos comer, beber, fazer música e amor em algum dos santuários que eu mantenho em segredo aqui em Bethlehem.

– Eu agradeço, meu bom e velho irmão, mas eu devo retornar ao meu reino e deixa-lo reinar o teu.

Surpreendentemente, Traconítide tem vontade própria e capacidade de decidir. A despeito da insistência e protestos de Arquelau, o Tetrarca da Iduméia junta-se à comitiva que o tem acompanhado desde seu território para, então, traçar a rota de volta ao seu lar. Tamanha consciência de responsabilidade nós não veremos entre nossos governantes e políticos.

Antes de sair de Bethlehem, Traconítide considera a ideia de levar consigo a tão afamada sacerdotisa Sulamita, um acréscimo que viria a calhar para sua coroa e seus templos. Fraco de memória e ensinamento, o rei pouco ou nada recorda de sua infância com tal imensa beldade, cujo corpo certamente atiçou seu apetite. Mas os destinos de Sulamita e de Traconítide não se cruzariam novamente [spoiler!].

– Senhor escriba, perdoe minha interrupção ao seu discurso diante do público, mas eu preciso tratar contigo, urgente.

– Ah! Eis, senhoras e senhores, Sulamita! [acena, reverência, joga beijos] Em tempos como o que nós vivemos, uma beldade dessas, com tantos e tão fartos talentos, encontraria problemas com a repressão e opressão sexual em que vivemos, causados tanto por conservadores quanto por feministas. Sim, distinto público, essa mulher é sacerdotisa de Astarté, ela tem relações sexuais com qualquer pessoa que fizer oferenda para a Deusa, algo que é atualmente considerado crime, tanto por conservadores quanto por feministas.

– Será que eu posso me dirigir ao público e falar algumas palavras sobre minha profissão?

– Fique à vontade. Com vocês, a Suma Sacerdotisa Sulamita! [aplausos esfuziantes]

Eu passo o microfone e não consigo não ficar excitado em ver aqueles lábios perfeitos, carnudos, rútilos, se aproximando do microfone.

– Muitíssimo obrigada, senhoras e senhores. Eu falo por mim mesma, eu não preciso que outra pessoa fale por mim. Essa é a minha verdade. Desde que eu me dei por gente, eu me vejo e me sinto mulher, sensual, fêmea. E eu gosto de homens, então eu me sentiria rejeitada e ofendida se não for desejada por homens, mas eu não rejeito o desejo que recebo de mulheres também. Eu nasci, cresci e fui criada no templo de Astarté. Eu acredito que eu fui criada para ser assim e eu entrego meu corpo a quem quiser oferecer sacrifício para minha Deusa. Eu friso bem: eu entrego, a vontade e decisão é minha, não da Deusa, não da minha crença, não do templo que eu ministro. Essa sou eu, eu fui criada para ser assim, seria um enorme pecado não utilizar meus talentos [eu começo a babar] para dar e receber prazer. Então eu peço a vocês que respeitem e reconheçam o trabalho de minhas irmãs que tem, nesse tempo, nessa sociedade, nesse mundo contemporâneo, a mesma ocupação que a minha. Obrigada por me ouvirem, obrigada pela atenção. [aplausos ensurdecedores]

– Bravo, bravo! Se eu tivesse dito algo assim, eu seria apedrejado, até por esses que se dizem liberais, progressistas, feministas e de esquerda. Mas sobre o que quer falar comigo?

– Senhor escriba, tendo a audiência como testemunha, eu te peço que dê outro destino para mim. Eu não gostei do papel que eu tive que encenar no roteiro “Hieródulo”. [Sulamita ginga, faz biquinho e posições provocantes]

– Bom… hã… [totalmente excitado] eu acredito que nós conseguimos chegar em um… acordo…

– Obrigada, senhor escriba! [beijo, abraço] Eu estarei te aguardando no camarim para… discutirmos melhor… [sai rebolando] [assovios, elogios, piadinhas de duplo sentido, buquê de flores são atirados pela plateia]

– Hã… onde eu estava mesmo? [alguém cochicha da plateia] Ah, sim! Sua vez, Tetrarca da Iduméia.

– Até que enfim! Eu não sei o que você, escriba pagão, vê tão de especial em uma mulher. Muito bem, eu estou em meu palácio do governo da Iduméia. Siga a narrativa desse ponto.

Sim, respeitável público, Traconítide está em sua escrivaninha, tentando parecer tão ocupado quanto seu irmão. [protesto] Eis que se passam alguns dias e o Tetrarca da Idumeia nota, incomodado, aumentar tanto o número das patrulhas romanas, quanto da presença dos Messiânicos em suas terras. Inseguro e instável como pessoa, governante e rei [protesto], a cartada final foi dada quando chegou o mensageiro do cônsul da Síria, com o seguinte decreto:

“Cônsul Caio Senso Saturnino, nomeado pelo Senado da República de Roma como governador da província da Síria, faz saber à Vossa Majestade que, por atos de traição e desgoverno, declaro Herodes Arquelau, Tetrarca da Judéia, destituído de todos os privilégios, títulos e posses. Eu rogo à Vossa Majestade que compareça ao conciliábulo no qual, juntamente com o Tetrarca da Galiléia, o território do reino da Judéia será repartido entre os legítimos sucessores do Grande Basileu.”

Temendo por sua vida mais do que por suas posses e riquezas, [protesto] Traconítide recolhe alguns itens pessoais e sai, sem dizer em que direção ou destino parte, deixando seus súditos e funcionários à mercê da Fortuna. Dizem os boatos que ele foi visto em Alexandria, pronto para embarcar para Roma, onde pretende viver em exílio com [Herodes] Felipe [chamado Romano].

Sombras da noite

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Respeitável público, seja bem vindos ao Circo das Palavras! Eu, o malabarista favorito de distinta audiência, está inteiro, como podem ver. Eu terminei de forma abrupta a narrativa e acredito que nós precisamos nos debruçar sobre essas almas e os destinos que seguiram.

Voltemos para a cena em que Yonah e Sulamita tem o feliz reencontro, na Loja de Bethlehem. Ali nós temos a presença de dois Tetrarcas e de Zacarias, mas eu notei a falta de Siloque. Sua natureza cautelosa e pragmática fez com que ele ficasse de fora da Loja de Bethlehem, vigiando as ruas. Siloque estava visivelmente consternado por encontrar com dois Tetrarcas, acompanhados de soldados locais [mercenários] cobertos com manchas de sangue. Seria muito ruim para sua reputação se as viajantes sob sua responsabilidade ficassem feridas.

Yonah reconheceu Sulamita entre os soldados e as sagradas senhoras ajudaram a esclarecer a ocorrência. Zacarias trocou os sinais e cifras que o identificavam como sendo um “irmão” de Siloque e, enquanto os tetrarcas seguiram com a caçada, Siloque tratou de garantir a segurança de todos fazendo-os entrar na Loja de Bethlehem. Ali, ninguém menos que Shimai, um dos sumos sacerdotes do Sanhedrin e pretenso adversário do Ancião Hilel os recebe.

– Por Yahu Adonai, entrem, entrem! Não é seguro ficarmos na rua, mesmo porque nos aproximamos do shabat.

Siloque entra por ultimo, para se certificar que ninguém os tinha seguido ou os visto entrarem por aquela porta suspeita. Fechada a porta, Siloque percebe que Zacarias e Shimai estão adiantando o assunto em pauta e as sacerdotisas passeiam pelo largo salão da loja, observando os símbolos, signos, sigilos e outras parafernálias. As duas noviças reagem de forma intrigante, ora curiosas e maravilhadas, ora amedrontadas e escandalizadas. Siloque se pega perguntando se o Círculo Interno errou em indicar essas noviças para realizar a Grande Obra.

– Irmão Siloque, da Loja de Cafarnaum, correto?

– Sim, Grão Mestre Shimai da Loja de Bethlehem.

– Nós somos todos irmãos e iguais diante de Deus, Siloque. Nosso irmão Zacarias, da Loja de Jerusalém, confirmou uma notícia triste.

– Exatamente, irmãos. Eu estava presente quando o Ancião Hilel faleceu em episódio inusitado. Eu sou o autor do exílio da sacerdotisa Sulamita no reino da Iduméia e eu sou o responsável por trazê-la aqui.

– O que a nossa Fraternitas agradece e saberá recompensá-lo. A presença dessas sagradas senhoras acontece de acordo com a Vontade de Deus e nós temos que dar graças por sermos bons Ferramenteiros. O que eu gostaria de saber de vocês, irmãos, é onde as noviças serão encaixadas e até que ponto as nossas colaboradoras estão cientes da Grande Obra.

– Eu creio que falo por nós dois, mas na ausência do Ancião, o sumo sacerdote Anás é o que conhece todo o alcance e amplitude da Grande Obra. Eu sei o que me foi autorizado saber e esse deve ser o caso das sagradas senhoras.

– Permita-me discordar, mestre Siloque. Ainda que eu seja mero rabino, na qualidade de secretário do Ancião e tendo estado presente em diversas confabulações entre ele e Anás, eu creio ter captado mais do que é recomendável saber. Eu estou ciente da existência da Ordem de Melquisedeque e dos vínculos que esta organização secreta tem com o Sanhedrin e com nossas lojas.

– Nesse caso, nós somos dois. Depois do Ancião e Anás, nós talvez sejamos os únicos a saber dos detalhes da Grande Obra. Para que nossos objetivos alcancem eficiência, nós teremos que expor às nossas colaboradoras os detalhes do que sabemos.

Siloque acena positivamente a cabeça, traz as noviças para onde ficam as cadeiras da assembleia e solicita a presença das sacerdotisas. Rapidamente, as cadeiras são tiradas de suas posições ridiculamente alinhadas e as sete pessoas fazem, inadvertidamente, um círculo.

– Senhores, senhoras, senhoritas, o que será dito aqui deve ser mantido em sigilo e somente proferido aos iniciados. Desde os Profetas, desde o Cativeiro da Babilônia, o Povo de Israel, o Povo Escolhido de Deus, sonha em voltar para a Terra Prometida, sonha com a vinda do Reino de Deus. Na ocasião que nós nos erguemos e lutamos contra o domínio helênico, Jonathas, o rei guerreiro e rabino, na Revolta dos Macabeus, fundou esta que é conhecida como a Ordem de Melquisedeque. Yehuda Makabi, o líder dos Macabeus, queria extirpar toda a presença helênica da Terra Santa, mas Jonathas sabiamente preferia resguardar aquilo que nossa crença tem em comum com a dos Gentios, chamado de Caminho que nos conduz ao Conhecimento. O maior propósito da Ordem de Melquisedeque é chamada de Grande Obra na qual nós estamos empenhados e que consiste em providenciar para que o Messias venha a encarnar ou incorporar em nosso tempo. De forma oculta e secreta, Jonathas escolheu e indicou os primeiros irmãos, os Patriarcas de nossas Lojas, ao mesmo tempo em que instituiu os milicianos conhecidos como Messiânicos, praticamente uma milícia devotada em identificar, localizar, prender e destruir os templos pagãos. [Yonah e Sulamita ficam agitadas] Eu lhes garanto, sagradas senhoras, nossa intenção não é vos causar dano ou mal. Como eu disse, nós temos muito mais em comum do que o povo comum imagina. Nós queremos garantir que o Conhecimento seja conservado e transmitido para o maior número de pessoas possível. Para que isso possa acontecer, nós temos que aproximar e unificar todos os povos, tarefa que o Grande Conquistador mostrou ser possível. Não existe separação entre Ocidente e Oriente, entre Judeu e Gentio, somos todos filhos e filhas do mesmo Deus. Não fosse assim, nós não tentaríamos nos aproximar das Escolas de Mistérios, Religiões Iniciáticas e inúmeros templos se não fosse para aprender, assimilar e sintetizar um sistema no qual todos possam ingressar. Por isso que eu estou sendo extremamente sincero e honesto com as senhoras e rogo que continuem a colaborar conosco. [Yonah e Sulamita ficam céticas] Nós admitimos que nossa cultura e crença devem muito aos nossos antepassados e ancestrais, cuja origem é tão vasta e misturada quanto a de todos os povos desse mundo. No reino que nós idealizamos e construímos, não tínhamos como e onde termos, entre nosso povo, sacerdotisas da Deusa como vós sois… bom, até hoje, não. Eu fico feliz em ver que os esforços de nossos irmãos da Loja de Cafarnaum foram frutíferos, agora nós temos duas de nosso povo que podem se tornar o vaso do Messias. Retomando, nós recolhemos em segredo muitas de vossas irmãs e apenas destruímos vossos templos para agradar os líderes revoltosos. Creiam-me, casos de vítimas são pontuais e nós visamos, da melhor maneira possível, remover apenas aquelas que agiam como espiãs do Sanhedrin ou dos Macabeus. [como se qualquer forma de execução fosse explicável e justificável]. Nisso nossas lojas vieram a se mostrar providenciais, pois tem servido como santuários para vossas irmãs, centros de instrução e locais apropriados para a execução do Hiero Gamos, de onde nós esperamos poder ser bem sucedidos em produzir o Messias. Então as senhoras sagradas podem imaginar a minha alegria em conhecer essas noviças que são da nossa gente.

– Muito bem, eu fico grata por nos dar a noção de nossa situação, senhor Shimai. Eu e Yonah somos colegas da mesma turma que aprendeu o Caminho em Bizâncio com nossa amada Suma Sacerdotisa Semiramis. Nossas veteranas e irmãs viviam se queixando e reclamando que os templos estavam vazios e que pelo maldito macedônio em breve os Deuses seriam esquecidos. A helenização do mundo conhecido disseminou o conhecimento da Academia, dos Neoplatônicos e todo o esoterismo dessa ciência e filosofia. Aquilo que antes pertencia exclusivamente aos templos e ao sacerdócio, era discutido e distribuído nos tratados escritos dos pensadores helênicos. Eu e muitas ficamos igualmente receosas, mas contentes quando começaram a surgir alunos Hebreus e eu pessoalmente sou grata por isso, de outra forma eu não teria conhecido o meu maior amor. No entanto tem algo que não faz sentido, porque é necessário que o Messias nasça entre sua gente se todos nós somos filhos e filhas do mesmo Deus?

– Essa é a parte mais difícil e delicada. Vós sois herdeiras de povos que receberam a graça do Caminho. Entre vosso povo a educação e leitura são parte de uma rica e abundante cultura. Vosso povo, mesmo diante da mudança dos poderes do mundo, mantiveram as crenças, ritos e Deuses. Nosso povo, eu receio ter que admitir, nasceu, cresceu e foi criado no ambiente da servidão, da escravidão. Eu posso contar nos dedos quantos de nós podem ler e escrever. O pouco que aprendemos com os Egípcios, Babilônicos e Persas não chega ao público em geral, em sua maioria ainda vivendo conforme superstições e tradições tribais. Nossos reis e doutores da Lei cuidaram para que o nosso povo adquirisse enorme rancor e mágoa do mundo e de nossa condição carnal. Por isso que nós mantemos certos assuntos restritos ao que nós designamos como Círculo Interno, porque nós sabemos que existem grupos de rabinos que utilizam e exploram a ignorância, medo e insegurança do povo comum para angariar poder, prestígio, influência e riqueza. Eu diria mesmo que, inevitavelmente, tenham muitos agentes infiltrados entre nós e que são os verdadeiros autores das barbaridades que vitimaram muitas de suas irmãs. Para dar fim a isso, para acabar com o poder do Sanhedrin e de seus grupos secretos internos, adversários da Grande Obra e da evolução humana, nós temos que ter certeza de que Cristo encarne ou incorpore como um de nós. No devido tempo, a mensagem do Messias derrubará esse sistema e nós poderemos, então, ingressar no Aeon de Peixes.

Sulamita quedou pensativa e Yonah parecia preocupada com suas alunas. Realmente, elas, como sacerdotisas de Astarté, emprestar o ventre para gerar o Emissário dos Deuses era praticamente uma obrigação e inevitável conclusão da consumação do Hiero Gamos. Mas suas alunas, por mais brilhantes e dedicadas que eram, ainda tinham nascido e sido criadas dentro de uma cultura que via tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo, como algo daninho, pecaminoso, demoníaco. Elas estariam prontas para a iniciação, conhecer o Antigo, incorporar a Deusa e receber a essência divina, devidamente implantada dentro de seus ventres, pela penetração do pênis através de seus portões mais sagrados e íntimos? Yonah tem calafrios, pois lembrou que sua noviça, Nazarena, encontrava-se devidamente engravidada por um “acidente de percurso”. Uma pequena ventania, diante do furacão que se aproxima.

Recapitulando a bagunça

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Roma, ao tomar para si a herança deixada por Alexandre, o Grande, para combater o reino dos Partas, sediou suas tropas na província da Síria, outrora o Império Selêucida, que por sua vez havia tomado essa região do Império Aquemênida [mais conhecido como Império Persa].

Roma tomou a Judéia como parte do “pacote”, ainda que o povo de Israel tenha reconquistado a independência e restaurou sua soberania como reino após a Revolta Macabéia.

“Os Macabeus foram os integrantes de um exército rebelde judeu que assumiu o controle de partes da Terra de Israel, até então um Estado-cliente do Império Selêucida. Os Macabeus fundaram a dinastia dos Hasmoneus, que governou de 164 A.C. a 37 A.C., reimpuseram a religião judaica, expandiram as fronteiras de Israel e reduziram no país a influência da cultura helenística.

Com a proibição em 167 A.C. da prática do judaísmo pelo decreto de Antíoco IV e com a introdução do culto do Zeus Olímpico no Templo de Jerusalém, muitos judeus que decidem resistir a esta assimilação acabam sendo perseguidos e mortos.

Entre os judeus que permanecem fiéis à Torá, está o sacerdote Matatias, chamado de Hasmoneu devido ao nome do patriarca de sua linhagem (Hasmon). Recusando-se a servir no templo profanado, Matatias se exila com sua família em sua propriedade em Modin. Matatias tem cinco filhos: João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. Convocados para os sacrifícios sacrílegos, Matatias acaba matando o emissário real e um sacerdote que se propõe a oficiar os sacrifícios. Convoca então os judeus fiéis à Torá e foge com seus filhos para as montanhas, iniciando o movimento de resistência contra o domínio estrangeiro, destruindo altares, circuncidando meninos à força e recuperando a Torá das mãos dos gentios.

Matatias morre em 166 A.C., e seu filho Judas assume a liderança da resistência. Judas desenvolve técnicas de guerrilha, que vence as contínuas tropas selêucidas enviadas. Apesar de alguns explicarem tal como “intervenção divina”, Antíoco também tinha de se preocupar com outras revoltas em seu império. Em 164 A.C., Judas e seus homens conseguem tomar Jerusalém e rededicar o Templo, no que ficaria conhecida como a Festa de Chanucá.

Com a morte de Antíoco IV em 164 A.C., a luta de resistência prossegue contra Antíoco V (164-162 A.C.), seu filho, e o regente Lísias e, a seguir, contra Demétrio I Sóter (161-150 A.C.).

Com a morte de Judas, a liderança da família e da revolta contra o Império Selêucida passa para o seu irmão Jônatas. Jônatas faz vários acordos e alianças com vários países, como Esparta e inclusive com a potência da época, a República Romana, para que fosse reconhecido a situação de Israel como nação livre perante o império selêucida. Jônatas prossegue com a revolta, até que no ano de 153 A.C. ganha o cargo de sumo sacerdote de Israel por decreto de Alexandre Balas, rei selêucida. Jônatas se aliara a Alexandre, na tentativa deste de usurpar o trono de Demétrio I Sóter. Quando Alexandre consegue o trono, ele recompensa Jônatas, a qual permite governar quase que com total independência a Judeia. Entretanto, o rei sucessor de Alexandre, o rei Antíoco VI, torna-se hostil aos judeus, o que provoca nova guerra, dessa vez liderada por Simão, irmão de Jônatas e sumo sacerdote.

Por fim, a real independência da Judeia vem no governo de João Hircano I, filho de Simão, que se tornou sumo sacerdote e foi coroado rei da Judeia. João Hircano ainda enfrentou uma nova tentativa de invasão do Império Selêucida sob o comando do rei Antíoco VII. De acordo com a lenda, o rei João Hircano I, abriu o sepulcro do Rei Davi e de lá retirou três mil talentos, que entregou a Sideta para que esse poupasse Jerusalém. Antíoco, então, atacou a Pártia, apoiado pelos judeus, e, por um curto tempo, recuperou a Mesopotâmia, Babilônia e a região dos Medos, antes de cair em uma emboscada e ser morto por Fraates II de Pártia. O reino Selêucida, então, se restringiu à Síria. Com isso a independência da Judeia como um reino independente sob a dinastia Hasmoneia é assegurada.

Durante o reinado de João Hicarno I e de Alexandre Janeu, há uma expansão do reino judeu, que incorpora regiões importantes da Palestina, como Mádaba, Samega, Siquém, Adora, Marisa e a Idumeia. Nesse processo, há uma judaização forçada das populações conquistadas. Por essa época é que surgem os três grandes partidos políticos da Judeia: Fariseus, Saduceus e os Essênios. As crueldades cometidas por João Hircano I contra as cidades conquistadas e as populações forçadamente judaizadas provocam a primeira reação dos Fariseus contra os governantes Macabeus. A partir deste momento João Hircano I alia-se aos saduceus e rompe com os fariseus. Durante os próximos reinados, de Alexandre Janeu (103-76 A.C.) e de Aristóbulo I (104-103 A.C.), os governantes Hasmoneus se apoiam nos Saduceus contra os Fariseus. Entretanto, durante o reinado da rainha Salomé Alexandra (76-66 A.C.), há uma aproximação da monarca com o partido Fariseu, em detrimento dos Saduceus.

A relativa independência dos judeus termina com a ascensão de Aristóbulo II ao trono. Seu irmão, João Hircano II, inicia uma guerra civil que termina com a intervenção do general romano Pompeu no ano de 63 A.C., sob o pretexto de pacificar a região. Pompeu coloca Hircano II como sumo sacerdote, entretanto lhe retira o título real e transforma a Judeia em um reino cliente subordinado a um procurador romano. No ano de 37 A.C., Marco António executa Antígono e entrega o trono da Judeia a Herodes, o Grande, um príncipe idumeu filho do procurador romano, Antipater. Para se legitimar no trono, Herodes se casa com Mariana, a única filha e herdeira do sumo sacerdote Hasmoneu Antigono, filho de Aristóbulo II. Entretanto, com medo de conspirações por parte da elite judaica e dos seus filhos com Mariana, manda executar a esposa e acusa seus filhos, Alexandre e Aristóbulo IV de alta traição, que são julgados e executados em 7 A.C.”.[Wikipédia]

Esse é o cenário no qual essa apresentação teve início, então a Revolta Macabéia foi onde teve início da resistência do povo de Israel contra a helenização forçada e, por extensão, houve um reavivamento na restauração da religião monoteísta, centrada no Deus de Israel [IHVH] e conduzida pelo Templo [que é gerenciado pelo Sanhedrin].

Pode-se até justificar e entender a crescente violência e agressividade do povo de Israel contra a “religião dos Gentios”, mas a história do povo de Israel demonstra que os Hebreus foram, originalmente, politeístas como seus vizinhos e foi por influência de seu contato com os Persas que os rabinos “divorciaram” IHVH de sua Consorte, Asherah e começaram a banir os cultos consagrados à “Rainha dos Céus”, um escândalo denunciado desde a época dos Profetas, durante o Cativeiro da Babilônia. Os templos, que outrora conviviam em paz e harmonia entre os Hebreus, começaram a ser atacados, depredados e destruídos. As sacerdotisas que estavam consagradas a Asherah foram presas [e coisas piores], depois a perseguição estendeu-se às sacerdotisas de Astarté e incluiu as [poucas] sacerdotisas restantes do culto voltado à Ishtar.

Paralelamente e/ou em conjunto com a Revolta Macabéia, em grupos secretos, ligados a círculos restritos dentro do Sanhedrin, o projeto de restauração do Reino de Israel reascendeu o interesse desses grupos com as profecias dos Profetas que anunciavam a vinda do Messias, sem o que o Reino de Israel não poderia ser reconstruído, nem haveria o Dia do Juízo Final, no qual, o Povo Escolhido por Deus [IHVH] faria justiça contra o “mundo maligno” [mundo dos gentios, mundo dos pagãos, mundo dominado por Satan] e então Deus [IHVH] instauraria o Reino de Deus [a “Nova Jerusalém”], no qual o Povo de Israel receberia o mundo como herança.

Esse sentimento de repulsa, rejeição, que se manifesta com ódio, agressividade e violência contra tudo que é considerado “mundano” e “carnal” foi assimilado e ampliado na seita que surgiu e cresceu entre servos e escravos e se tornou, pelas mãos de Roma, na religião de massas que dominou e oprimiu a humanidade nos últimos dezenove séculos, o Cristianismo.

O que eu pretendo lançar nessa apresentação não é ofender a crença do cristão, mas a de esclarecê-lo que isso que ele segue não é Cristianismo e nada tem com o que Cristo ensinou. Essa é a forma que o Cristianismo tomou depois da piedosa fraude conduzida pelos padres e pastores, sacerdotes cristãos. Esta é a parte que eu insisto, inclusive com o descrente: a religião não é a fonte dos problemas, mas as organizações religiosas que surgem a partir da sistematização das crenças.

O que eu pretendo apresentar aqui é a concepção revolucionária que Cristo não era Yeshua ben Ioachim, filho de Myriam Nazarena, mas sim Myriam Magdalena e o Caminho que ela tentou ensinar tinha mais a ver com as Escolas de Mistério, Religiões Iniciáticas, Hermetismo e Gnosticismo do que isso que o Cristianismo se tornou.