Arquivo mensal: abril 2018

A Ordem de Melquisedeque

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

“Quando Abraão vinha voltando para a terra de Canaã, depois de ter resgatado o seu sobrinho Ló e o povo de Sodoma, um Sacerdote de Salém, chamado Melquisedeque, veio encontrar com ele.

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

O nome Hebraico מַלְכִּי־צֶדֶק “malkiy-tsedeq“, significa “meu rei é justiça“. A tradição Judaica associa Melquisedeque com o filho de Noé, chamado Sem.

O Sacerdócio de Melquisedeque é anterior ao sacerdócio Levítico, assim como foi o sacerdócio de Noé e de Jetro, o sogro de Moisés.

A “ordem de Melquisedeque” não se refere a algum tipo de sociedade secreta ou mística como a Rosa Cruz, os Maçons ou os Templários. Não é alguma organização preservada desde a antigüidade, nem uma classe de sacerdotes na igreja do Senhor. A expressão “segundo a ordem de Melquisedeque” significa que o sacerdócio do Messias é do mesmo tipo, ou parecido com, o sacerdócio de Melquisedeque.”

A cidade de Cafarnaum tem vida dupla. Ora mostrava seu lado piedoso e endossava os decretos do Sanhedrin, ora os desprezava e, mesmo que secretamente, mantinha diversas ordens, templos e sectos. O que não faltavam eram abastados comerciantes, de diversas origens, com dinheiro e tempo ocioso o bastante para se interessarem por tudo que recebia a pecha de Oculto.

Nas sombras, escondidos do Sanhedrin, judeus helenizados mantém escolas de mistérios juntamente com gentios. Em tempos difíceis, complicados ou perigosos, as ordens seguem as cinco máximas [saber, ousar, querer, ouvir e calar]. Então a estratégia usualmente empregada é cultivar pequenas células, com no máximo treze membros, que se reúnem em locais e horários certos. Cada membro sabe e conhece seu irmão ou irmã de célula, mas combinam certos sinais, senhas e dizeres para reconhecerem outros membros de sectos semelhantes, afiliados ou simpáticos.

A forma mais útil e eficaz de fazer tal plano funcionar é sempre utilizar o quarto ou salão anexo de um estabelecimento comercial que, por suas características, ficou conhecido como “loja”. Essa terminação foi utilizada e assimilada por todos os demais sectos e ordens. A cidade de Cafarnaum tem inúmeros bairros e ruas comerciais, então é grande a concentração de “lojas” onde os “Buscadores” como começaram a se denominar, poderiam se reunir.

O pedestre se desvencilha da multidão, entra por uma passagem estreita que dá para os fundos do comércio, onde tem duas portas, uma bastante comum, de entrada de empregados e outra, sinistra e suspeita. Três batidas ritmadas no ponto exato, no intrincado símbolo feito em um único pedaço de madeira especial.

– Bassário.

– Baqueu.

O homem que fala por detrás da segunda porta abre a mesma, acena para o visitante, que entra rapidamente. O “porteiro” olha para os lados e se certifica que ninguém os viu ali no beco, tão pouco entrando pela segunda porta.

– Por Yahu Adonai, Siloque, não é o melhor momento para nos procurar.

– Eu gostaria de vir aqui em melhores circunstâncias, Zadoque, mas eu fui intimado a trazer a mensagem da Grande Loja.

– A… a Grande Loja? Deve ser algo importante. Ainda bem que, com os Romanos em volta, nossa loja está conseguindo operar com mais liberdade. Use os mensageiros de meu estabelecimento comercial, convoque nossos irmãos e irmãs para reunião urgente.

Tem uma atração no circo onde aparece, no picadeiro, um carro, com cores espalhafatosas e começam a sair inúmeros palhaços, em numero impossível para caber naquele veículo. A Loja de Cafarnaum ficou exatamente assim, quando começaram a sair os mensageiros. Impaciente, Zadoque lê a mensagem que veio da Grande Loja.

– Então? O que acha?

– Você se certificou de que essa é uma mensagem oficial?

– Evidente que sim, para ambos os casos.

– Isso é bom e é ruim. Segundo os Anciões, a chegada da Era de Peixes é iminente. Os acontecimentos turbulentos que vem se sucedendo confirmam isso.

– Pois eu vejo excelente oportunidade. Tem notícias de nossas aprendizes que foram até Bizâncio, onde fica a Grande Loja?

– Hum. Eu entendo onde quer chegar. Nós teremos que planejar nossos próximos passos com muito cálculo e prudência. Nossa comunidade tem problemas o suficiente com os sectos messiânicos que tem aparecido.

Em cinco minutos o salão do anexo do comércio [a Loja de Cafarnaum] fica lotada. Outros círculos, ordens e células ficaram sabendo do ocorrido e enviaram representantes para ouvir a mensagem trazida direto da Grande Loja. Ninguém queria ficar de fora, nem ficar por último. Como presidente daquela célula, evidente que Zadoque tinha a preferência e ele irá usar isso para aumentar e reafirmar a soberania da sua Loja sobre as demais.

– Senhores, eu fico lisonjeado e honrado com a presença de todos. Eu considero a presença de tantos irmãos e irmãs, de outros círculos, ordens e células, aqui nessa humilde Loja, para ouvir a proclamação que nos foi enviada pela Grande Loja.

[sussurrando] – Você pretende usar isso para seus objetivos pessoais, não vai?

[sussurrando] – Ora Siloque, você mesmo disse que era uma oportunidade. Se eu não aproveitar, outro o fará.

– Grão Mestre de Cafarnaum, é verdade que finalmente o Messias chegará para restaurar a Casa de Israel?

– Permitam-me ler todo o conteúdo da mensagem, Grão Mestre da Galiléia e cada um poderá fazer as conclusões.

– Mesmo assim, nós queremos saber! Pode nos confirmar que estão vindo magos de terras distantes unicamente para encontrar com o Messias?

– Ahem… eis o que está escrito, como meu secretário Siloque pode atestar, esta é um documento oficial e legítimo da Grande Loja. “Eis que Uranos e Nix, com suas estrelas, nos enviam sinais dos tempos que hão de vir. Desde os primórdios da civilização, do alto de zigurates, nossos antecessores observavam os astros para vaticinar sobre as Forças que governam esse mundo. Nós, que compartilhamos do sangue de Tubal Caim, Nimrod, Hirão Abife e inúmeros outros, congratulamos a vós, irmãos e irmãs que habitam o reino de Judá. O domínio romano não deve ser encarado como um castigo ou provação, mas exatamente o contrário, esta circunstância é reflexo direto da Vontade. Nós temos a satisfação de vos anunciar que a Era de Peixes está mais próxima do que se imagina e, em breve, o Demiurgo, o Mensageiro do Aeon, incorporará ou irá encarnar no meio de vós. Para tanto, nós aguardamos notícias dos progressos que suas células tem feito, para que toda a humanidade possa viver uma era de paz, amor, harmonia e verdade. Nós enviamos esta mensagem para Cafarnaum para que dali se espalhe a Boa Nova. Nós aguardamos, ansiosamente, as respostas de nossos irmãos e irmãs que, a despeito de viverem por uma crença de servos, estejam buscando a Verdade. Esta é uma enorme tarefa e responsabilidade, mas assim são os desígnios misteriosos das Forças que governam o mundo. Em nome da Grande Loja de Bizâncio nós, Suma Sacerdotisa Semiramis, os saudamos.”

[sussurando] – Crença de servos? Isso foi muito duro.

[sussurando] – Duro, mas a verdade. Nosso povo conviveu com inúmeros povos como servo e escravo. A Grande Loja é reconhecida entre nós como arrogante e prepotente, por ter mais membros seculares, judeus helenizados e gentios. Foi uma enorme luta para que nossas células fossem reconhecidas e admitidas nas Escolas de Mistérios e isso somente foi possível graças à Ordem de Melquisedeque, uma subordem tão secreta e tão influente que até mesmo o Sanhedrin a teme.

[sussurrando]- Nesse caso, eu devo investigar quem são e quais são os objetivos dessa tal Ordem de Melquisedeque.

[sussurrando] – Melhor não mexer com isso, Siloque. Vamos focar nossos esforços naquilo que temos que fazer.

– Ahem… este é o inteiro teor da mensagem, irmãos e irmãs. Será mais rápido e mais eficiente se cada qual transmitir em suas células a Boa Nova.

– Ah! Então é verdade! O Messias vem! Hosana! Nós iremos testemunhar a volta do Reino de Deus! Nós testemunharemos Deus julgando e condenando os ímpios e nós, o Povo Escolhido, herdaremos o mundo!

Zadoque e Siloque tentam contornar o entusiasmo, mas a enorme massa está fora de controle. Quando o salão voltou a ficar vazio, Zadoque estava com a mão na cabeça e Siloque estava desesperado. Em poucos minutos, toda a confiança que lhes foi depositada pela Grande Loja estava perdida.

– Siloque! Por Yahu Adonai! O que faremos? Se os Romanos ouvirem isso ou boatos chegarem até eles… nós seremos caçados, presos, torturados e crucificados!

– Nós precisamos usar esse potencial todo de alguma forma… algo para direcionar ou manobrar tamanha energia para o Propósito Maior. Zadoque… aquelas noviças foram enviadas para Bizâncio?

– Sim… elas são as mais promissoras. Elas foram escolhidas depois de um cansativo e longo processo seletivo. Uma é chamada de Nazarena e a outra é chamada de Magdalena. Pelo que eu fiquei sabendo, estão se direcionando para Damasco, com a Suma Sacerdotisa Yonah, onde pretendem inaugurar o templo de Astarté. O que pretende?

– Isso só Yahu Adonai poderá julgar. Se tudo der certo, eu as trarei aqui para conduzirem o templo de Asherah, que permaneceu intocado desde o tempo do Rei Salomão e nosso povo celebra, sem receio da perseguição dos fundamentalistas, a Rainha do Céu.

– Vá com a benção de Yahu Adonai. Tens nas mãos o destino não apenas de Cafarnaum, do reino de Judá, mas de toda a humanidade.

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Coração alado

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Yonah morde os dedos de pura ansiedade. Ela foi chamada de volta a Bizâncio, pela Suma Sacerdotisa Semiramis em pessoa. Ela receia que não tenha bons motivos para estar lá. Sua carreira como sacerdotisa da Deusa tem sido constantemente atribulada, para ser sutil. Ela é da mesma turma de onde a famigerada Sulamita foi ordenada, ela , mais do que muitas de suas irmãs e noviças, sente o peso da enorme responsabilidade e cobrança para tentar chegar ao mesmo nível da legendária sacerdotisa. Ela também esteve, em dois momentos, diante do Grande Basileu, a primeira, quando era noviça, no templo em Damasco, quando a Suma Sacerdotisa Semiramis ministrou aula e iniciou o Grande Basileu; a segunda, quando o Grande Basileu a visitou no templo de Astarté em Edom, quando ela pode experimentar a mesma sensação sentida por sua Suma Sacerdotisa.

– Yonah, a Suma sacerdotisa Semiramis vai te receber agora.

– A… ah? Ah, sim. Obrigada, irmã Shekinah.

Yonah passa pelas imensas abóbadas decoradas do templo de Astarté em Bizâncio, até o momento intocável, preservado por séculos, tendo sobrevivido ao domínio Assírio, Persa, Macedônico e Romano. Impassível diante da passagem do tempo e incólume diante da passagem dos senhores do mundo, o tesouro contido nos salões do templo mantém o mesmo colorido, os detalhes em metal e pedras preciosas continuam intactos e é impossível ficar imune aos efeitos dos inúmeros símbolos, sinais e signos inscritos em cada canto, quadro, parede, pedestal e arco.

– Aplacando a saudade ou refrescando a memória, Yonah?

– A… ah! Suma Sacerdotisa Semiramis, mil perdões. Aqui eu estou, como vós pedistes.

– Pelo Antigo, irmã! Descuidaste da prevenção! Há quanto tempo carrega este fruto? A quem atribui tal feito?

– E… eu não tenho certeza… minha regras… atrasaram e eu não contei as luas e eu não tenho certeza…

Semiramis repousa a mão no ventre de Yonah. Das alunas que ela formou em Damasco, aquela tinha potencial e poderia ter sido a melhor da turma se não fosse por Sulamita. Semiramis sente a vida que está formando-se naquele ventre e reconhece a energia espiritual que a formou, bastante familiar para ela, a do rei exilado, o Hebreu, com quem ela surpreendentemente sentiu prazer.

– Pelo Antigo, irmã! Conheceste o Grande Basileu?

– Sim, Suma Sacerdotisa Semiramis. Eu conheci o Grande Basileu. [nota – existe na sabedoria antiga a insinuação de que “conhecer” é o mesmo que “ter relações sexuais”]

– Isso explica seu estado, irmã. [removendo a mão do ventre] Aquele velho safado colocou seu fruto dentro do meu ventre também. Você tem três semanas para decidir se vai gerar esse fruto ou não. Independentemente de sua decisão, isso altera seu status em nossa irmandade. Você terá que dar início ao templo de Astarté como Suma Sacerdotisa, terá que abrir suas portas a todos os que buscarem o Caminho e lhes oferecer o Conhecimento. Está ciente e pronta para este encargo?

– E… eeeh… eeeu?

– Sim, irmã. Você tem a nossa autorização para abrir seu próprio templo em Edom. Ou se preferir, Damasco. Isso fica ao seu critério, só não se esqueça de nos escrever, convidando para a festa de inauguração. Mas não é por isso que eu te chamei. Eu tenho uma missão que, eu vejo, agora, te será dolorosa e sofrida.

– Ah… Suma Sace… [Semiramis pigarreia, indicando que dispensa tal tratamento] eeeh… irmã Semiramis… qual é a missão que me foi destinada?

– Chegou-nos ontem. O mensageiro romano estava com aspecto grave e pesado. Este é o comunicado oficial do governador da Província da Síria. Leia-o.

– “Vossa Sagrada Pessoa, nós temos o triste dever de vos anunciar que…” Ah! Morreu! Não! Não pode ser! Meu rei morreu!

– infelizmente é verdade, irmã [snif]. Nosso amado rei morreu [snif]. Aquele velho safado, sem vergonha, deixou esse mundo e deve estar correndo, feliz e alegre, atrás das ninfas, no Mundo dos Ancestrais.

– Ah! Não! Por que, Deuses? Por que tanta dor, sofrimento? Por que tiraste a fonte de nossa alegria, satisfação e prazer?

– Eu sinto a mesma dor que a sua, irmã, mas nós não devemos imprecar contra os Deuses. Nós somos mortais, carnais, nossa existência é efêmera. Nós somos parte da natureza que é o corpo de Gaia, nós não podemos exigir que tenhamos tratamento diferenciado.

– Pois bem, eu decidi para onde eu vou. Eu decidi abrir meu templo de Astarté em Bethlehem, depois que eu fizer as exéquias do Grande Basileu.

– Bravos! Era este exatamente a missão que nós tínhamos planejado para você, irmã. Ali os Hebreus chamam de Asherah a Deusa e ali encontrará muitos que celebram a Rainha do Firmamento com igual devoção com que adoram Yahu Adonai. Infelizmente também encontrará resistência, agressividade e violência por parte dos fundamentalistas.

– Eu não os temo [que me matem, pois tiraram o meu rei].

– Excelente [não faça nada estúpido]. Para te ajudar e facilitar a ambientação, eu te dou suas duas primeiras alunas, que vieram do reino de Judá para aprender o Caminho. Elas são Myriam [sim, as duas] e nós chamamos uma de Nazarena [por vir de Nazaré] e a outra de Magdalena [por vir de Magdala].

– Suma Sacerdotisa Yonah, nós estamos ao seu dispor. Por favor, cuide de nós, nos ensine e nos instrua.

– Mas que gracinhas! Vamos, meninas, nós temos muito que empacotar e carregar para nossa viagem.

Mal sabiam Semiramis e Yonah que aquelas duas noviças fariam a ponte entre o Caminho e a Ordem de Melquisedeque. Essa narrativa vos exporá e explicará a inusitada circunstância na qual o reino de Judá estava, durante o reinado de Herodes e ao longo do reinado da Tetrarquia, necessário para entendermos a confusão que resultou na Guerra Romano- Judaica e o secto que sobreviveu dessas batalhas. Este secto pode ser considerado o protagonista e o antagonista principal dessa narrativa, mas eu estaria cometendo um enorme erro e exagero. Nesse Teatro do Absurdo, nós teremos e veremos outros personagens que somarão, acrescentarão e ampliarão essa tragicomédia. Eu vos aguardo no próximo capitulo.

Encontros improváveis

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Na província da Anatólia, na região da Bitínia, na praça pública [ágora] de Bizâncio, Cícero encontra com Aristóteles. Os dois gênios da humanidade não conseguem se conter, abraçam-se e colhem a assinatura um do outro.

– Grande orador do Senado, a quem eu devo a satisfação de encontra-lo em tal local tão inusitado?

– Ora, ora, Pai da Ciência, eu sequer sou digno de te amarrar a sandália.

– Ah, eu que prefiro combater com os Platônicos antes de confrontar sua mente. Mas vamos nos sentar. Nós estamos em Bizâncio, uma cidade peculiar, por sua origem e influência em nossos povos.

– Sim, nos sentemos, por Jove, que esse calor é maior do que eu presenciei na Trácia. Servo, traga-nos o melhor prato e a melhor bebida. Mas diga-me, mestre, o que há de tão peculiar em Bizâncio?

– Diga-me grande orador, com sua mente astuta, estamos nós na Europa, na Ásia ou no Oriente Médio?

– Esta é a questão que respondida me custaria o pescoço. Vede que coisa, mestre, nós alegamos sermos oriundos da trágica Troia, cidade mítica que, crê-se, estava localizada em algum ponto da planície da Anatólia. Nós nos orgulhamos de nosso Patriarca Enéias, a quem confiamos linhagem divina por parte da Deusa [chamada de Vênus por Romanos, conhecida como Afrodite por Helênicos, imensamente reconhecida por inúmeros povos como Astarté e Ishtar]. Nós alocamos Roma, a Cidade do Mundo, na Europa, sendo que esta Deusa tem origem fenícia. Nós trouxemos, em júbilo, a estátua da Magna Mater Dea, Cibele, sendo que esta Deusa tem origem frígia. Então, quem somos nós? Nossos antepassados e ancestrais vieram de diferentes regiões, de diferentes povos e tinham outros Deuses e Deusas. Eu chego à conclusão que todos nós somos imigrantes e mestiços, não existe a gens, bobagem na qual baseamos o direito de uma pessoa se declarar patrício legítimo.

– Precisamente, grande orador, precisamente! Meus concidadãos não são diferentes, eu te digo. O governo que tanto assombra o mundo, a chamada Democracia, invenção nossa, concede o direito somente a poucos. Nós deixamos de lado os aborígenes, os escravos, as mulheres e os estrangeiros. Nós alegamos sermos descendentes de Heleno, tal como vosso Romulo, o Patriarca Mítico, semelhantemente atribuída linhagem divina, muito embora nossa origem seja diversa. Nós somos Pelágios, Aqueus, Eólios, Dórios, Jônios e Minóicos. Nossos Deuses e Deusas são tão assimétricos quanto nós, foi por obra de Homero que nossas crenças forma organizadas e dali pode-se dizer que apareceu a religião dos Helênicos, dominada pelo Dodecatheon, regidos por Zeus. Não obstante, cada acrópole é soberana e constantemente está competindo com suas “irmãs”, então enquanto Atena é celebrada massivamente na acrópole que recebe seu nome, em Chipre Afrodite é soberana. Mesmo o tão aclamado e dito Rei dos Deuses, Zeus, está reduzido em forma de Naos Bouleus, em nossas colônias asiáticas e semíticas.

– Quer ouvir o mais hilário? Nós, que agora nos consideramos os conquistadores do mundo, nós adotamos e assimilamos vossos Deuses e Deusas e os “repatriamos” dando-lhes nomes latinos. Nós tornamos Jove igual a Zeus, Marte igual a Ares, Vênus igual à Afrodite e assim por diante.

– E cá nós estamos quase aos pés do templo de Astarté, assemelhada à Vênus, Afrodite e mesmo estas Deusas são reflexos, cópias ou filhas da Grande Deusa, Ishtar. Nomes diferentes para as mesmas pessoas divinas?

– Eu escrevi um tratado sobre isso chamado De Natura Deorum. Eu fui mal compreendido e acusaram-me de impiedade. O que eu expus foi que a nossa percepção do divino é limitada e superficial, eu jamais aleguei que o divino é inexistente.

– Eu ouvi pensadores na ágora afirmando que todas as coisas são formadas de elementos minúsculos chamados átomos e nada mais. Estes até estão utilizando de forma indevida o meu método de observação. Eu sinto vontade de empurrar as cabeças deles dentro das estátuas para que eles procurem ali o átomo da arte, do talento, da inspiração e da ideia.

– Não foi teu conterrâneo, Platão, que diz que as coisas vêm do Mundo das Ideias?

– Eu considero esse o extremo oposto. Eu vejo, repugnado, surgir a dita Escola Neoplatônica, onde a observação séria da natureza se mistura com o pior tipo de misticismo.

– No entanto a observação da natureza não indica a ação de forças conscientes?

– Esta é exatamente o motivo de minha presença em Bizâncio. No meu lar em Estagira, eu ouvia o público falar e comentar de um homem que dizem ter morrido e ressuscitado, a quem são atribuídas obras que desafiam a ordem natural, o tal de Orfeu.

– Pois de minha doce Arpino, eu investiguei as obras das Sibilinas e não encontrei explicação racional para o que eu testemunhei. Por desígnios igualmente misteriosos, eu atravessei longa jornada até Bizâncio pelo mesmo motivo que o teu. Tem sido preocupação constante no Senado o aparecimento e crescimento de sectos, credos, sociedades e grupos, com certas mensagens, práticas e atitudes que podem vir a se tornar ameaça à República de Roma. Credes que possamos encontrar os ditos magoi?

– Tudo é possível, até que se encontre melhor explicação, indício ou evidência. Eu estimo que, ao menos, consigamos apreciar o Velho Mundo [nota – para a presente ficção, a Europa é o Mundo Novo].

– Ah! Eu estou farto! Excelente comida e bebida. Meus cumprimentos ao estalajadeiro. Acompanha-me até o templo de Astarté? Depois de laudo refeição, o apotecário recomenda exercício e, por Jove, façamos a ginástica de Eros e Afrodite, com auxílio das sacerdotisas.

– Por vossa Vênus, adiante! Eu tenho cá comigo infusões que garantem efeitos impressionantes para estimular o corpo e prevenir efeitos colaterais oriundos do contato corporal.

– Quanto a isso, mestre, eu posso te garantir que nestas terras e entre estes povos, nós encontraremos “tecnologia” avançada que nos capacitará sabores inesquecíveis.

– Nada mais justo. Afinal, nós estamos nos Jardins da Deusa. Como nós poderíamos render as devidas homenagens sem ter as ferramentas necessárias para tanto? Vamos então revirar entranhas até secar nossa essência.

O senador romano e o artífice helênico marcham, rindo e cantando, até as longas escadarias de mármore do templo de Astarté. As sacerdotisas percebem a vinda dos viajantes e os recebem alegremente. Uma pequena adaptação de dialeto e conseguem se entender perfeitamente. Cícero e Aristóteles são conduzidos ao salão principal, no qual encontram diversos nichos contendo inúmeras infusões e emplastros. A Suma Sacerdotisa anota [discretamente] os nomes, de onde vem e o que procuram os visitantes.

Cícero escolhe uma noviça, cabelos amarelos como trigo, pele alva e olhos azuis que diz vir da Saxônia e alega ser inexperiente. Aristóteles escolhe uma veterana, cabelos encarapitados, pele negra e olhos cor de âmbar que diz vir da Numídia. Diante da estátua de Astarté, Cícero oferta seiscentos sestércios de ouro e completa com cem sestércios de ouro a modesta contribuição de Aristóteles.

As escolhidas conduzem os penitentes para suas alcovas, levando infusões, emplastros e tripas de carneiro costuradas. Esboçando um sorriso cínico, Cícero admoesta Aristóteles.

– Mestre, por acaso carrega contigo algum de seus artifícios mecânicos? Eu temo por tua vida, cavalgando em tal grande felina africana.

– Nefertari garantiu-me que o que temos é o suficiente. Eu vou dar crédito a ela, afinal, ela é experiente. Eu, por meu lado, preocupo-me contigo, orador. Eu rogo a Réia que teus concidadãos jamais saibam que conduzes ao sacrifício tão jovem nubente que poderia muito bem ser tua neta. Eu espero que tu tenhas tanto talento na ginástica de Eros e Afrodite quanto é talentoso na Oratória.

– Eu te garanto, mestre, esta ninfa falará por ela mesma… ou melhor… seus gemidos serão mais eloquentes do que Catilina.

Os gênios da humanidade riem e troçam um do outro. Nisso eles se igualam ao homem comum. Duvidar da capacidade e masculinidade alheia é a forma mais elegante de afirmar a própria. Mas o jogo muda de mando, assim que adentram nas alcovas. Como dizem os sábios, o Homem é dono do mundo, mas capitula diante do poder da Mulher. Cícero emudece assim que Ingrid desvela o esplendor de seu corpo. Aristóteles não encontra fórmula para descrever a perfeição das formas de Nefertari. Os boatos contam que o templo ficou extremamente barulhento e que dois catres ficaram quebrados. Inertes, vencidos, conquistados, o artífice helênico e o senador romano são carregados para o apotecário mais próximo. Estão esgotados, em estado de inanição, drenados até os ossos.

– Francamente, Nefertari e Ingrid! Mais alguns minutos e vocês teriam matado os coitados!

[dueto]- Mil perdões, Suma Sacerdotisa Semiramis.

– Pelo Antigo, vocês duas lembram muito minha mais querida e promissora aluna, Sulamita.

As sacerdotisas se entreolham, abrem amplo sorriso, riem e comemoram. As demais ficam chateadas e contrariadas. A Suma Sacerdotisa fica surpreendida, mas tentar chegar à perfeição da legendária Sulamita é o sonho e objetivo de todas as sacerdotisas.

– He… hei! Eu as estou repreendendo, não elogiando!

– Suma Sacerdotisa Semiramis! Dizem que Sulamita deitou-se com o Antigo! Isso é verdade?

– Pela Suma Sacerdotisa Enheduanna! Vocês não podem acreditar e espalhar boatos assim! Vocês não tem a menor ideia do que é encarar o Antigo!

– Oho! Suma Sacerdotisa Semiramis! Isso quer dizer que a senhora viu o Antigo? Ah, por favor, conte para nós!

Semiramis recorda do tempo em que era noviça e, mesmo naquela época, não suportava atitudes infantis, mas eis ela ali, diante de suas alunas, no mesmo rebuliço típico de garotas jovens. A tarefa de ensinar como é a Deusa e de como incorpora-la constitui grande desafio. Mas ensinar e falar sobre o Antigo [e de como Ele incorpora o sacerdote] está [talvez] além de suas capacidades, no atual estágio de suas alunas. Vai demorar mais do que um ano e um dia. Principalmente que ela ainda não encontrou um homem capaz para incorporar o Antigo. Semiramis tenta acalmar suas alunas, mas perde-se em pensamentos, principalmente em lembrar-se de seu encontro com o Antigo. A sensação imensa de sentir a total plenitude da existência. O medo, a insegurança e a ansiedade diante do Antigo, por que não confiava na capacidade que tinha, mas… era inevitável não pensar, não recear diante de tamanho e imenso… poder.

Aos poucos, suas alunas vão perdendo o interesse e a curiosidade. Mais visitantes vão chegando, elas se dispersam e vão cuidar de seus ofícios sagrados. Sem poder se conter, Semiramis, assim que o templo encerrou as atividades, recolheu-se no seus aposentos particulares. Ela estava toda molhada, excitada, por ter pensado no Antigo e teria muito trabalho para saciar aquela chama.

– Ah… Touro Divino, Deus Primordial, oh, Antigo, oh, meu Senhor, Soberano do Universo! Quando eu vou poder rever-Vos? Eu quero… eu preciso… sentir-Vos mais uma vez dentro de mim.

– Eu estou aqui, minha querida filha.

No dia seguinte, tarefeiros e artífices foram ao templo de Astarté para reformar o piso e a parede que ruíram.

O dever de fazer o que deve ser feito

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada na história antiga.

Rumos secundários.

As casas do subúrbio de Ecrom são como seus habitantes. Multicoloridas, apinhadas e agitadas. Agora quem manda são os Romanos, algo que aparentemente não surte efeito algum nos habitantes. Orgulhosos e teimosos como seus antepassados, os Filisteus sabem que o poder é como a maré, muda constantemente de lado, direção e volume.

Na parte superior do cortiço, Sulamita atende, discretamente, habitantes locais e visitantes, das mais diversas etnias. Não que os Romanos sejam rigorosos, mas ultimamente os templos antigos e seus sacerdotes têm sofrido ataques. Ela sabe [ou desconfia] que sejam Hebreus fundamentalistas, com sua pregação sobre pecado, sobre arrependimento, sobre salvação e sobre o Deus Único. Quando ela era ministra do Grande Basileu Herodes, ela tinha visto esse tipo de agitação no meio do populacho. O povo, pobre, ignorante, era explorado facilmente por rabinos, escribas e supostos messias, através do medo insuflado por mensagens sobre o Fim do Mundo.

– Mãe! Estão falando de novo que eu sou filho do rei maldito!

– De novo, Aragon? Quantas vezes eu tenho que te dizer? Não importa o que os outros digam de você, mas o que você pensa sobre si mesmo.

– Mas mãe, o que eu digo quando difamarem o nome do meu pai se eu não sei quem me gerou?

– Diga que você é meu filho. Disso eu posso te assegurar. Se quiser um nome para dar a seu pai, diga a quem te perguntar ou quem tenta te ofender que teu pai é o Antigo.

– Oh! Eu sou filho do Antigo! Obrigado, mãe!

Sulamita suspira enquanto vê Aragon voltar para a Escola dos Helênicos. Ele está naquela fase de querer saber quem é, de onde veio, para onde vai. Esse é o mistério pelo qual atravessamos por Gaia e somente quando solucionamos é que passamos pelo Portal. A vida consiste em procurar e descobrir o mistério. Finalmente o homem que observava na esquina se aproxima.

– Sagrada senhora, eu vos suplico…

– Minha cama está interditada para ti.

– Mas sagrada senhora, eu tenho dinheiro…

– O senhor é estulto? Nunca faço meu serviço por dinheiro. Eu tenho mais do que o suficiente. Eu faço por que esse é meu ofício, meu dever sagrado [e eu até diria prazer, mas não no seu caso].

– Sagrada senhora… eu pago mais…

– Tu és surdo? Minha cama está interditada para ti. Use esse dinheiro para distribuir a teus conhecidos, amigos, parentes, para que saibam que eles também estão interditados, enquanto seus filhos continuarem a ofender a mim ou a meu filho.

O homem arregala os olhos e, como se fosse um punguista pego em flagrante, olha para os lados, assustado e trata de correr em disparada, antes de ser visto por alguém conhecido. As coisas chegaram nesse ponto. A cada dia, hieródulos são fechados e sacerdotisas são presas. Em alguns anos a prostituição sagrada se tornará crime. Os anciãos e sábios que a visitam [os poucos, que valem a pena, que lhe dão prazer] dizem que se aproxima uma Nova Era, um novo Aeon. Algo está vindo e não é bom. Sulamita agoniza, preocupada com o destino da humanidade. Ela treme em pensar no futuro de seu filho Aragon. Sobretudo porque ele tem expressado interesse vívido em entrar para a Legião Romana. As Armas de Roma sempre tem vagas. Não faltam aventureiros, fugitivos e bandidos que se apresentam nos batalhões para tentar mudar a fortuna de suas vidas. Meninos perdidos, com couraças, escudos e espadas, jogados nas frentes de batalha. Meninos perdidos, enviados para morrer em terras longínquas e estranhas. Devem ficar confusos, desorientados, andando a esmo, com olhar faminto… olhar como o do estranho viajante, andando sozinho, pelas ruas do subúrbio… melhor ela fazer algo, antes que o coitado seja roubado ou morto.

– Estás perdido, forasteiro?

– Ah! Perdões mil. Eu falar latim pouco. Eu procurar casa santa de Deusa Estrela.

Sulamita tenta falar em diversos idiomas conhecidos e usados em Ecrom até achar algo que o estranho viajante pareça compreender. Ele parece estar familiarizado com algum tipo de dialeto Gaulês.

– Ah! Podemos nos entender. Eu estou procurando o templo de Astarté.

– De onde vem, estrangeiro?

– Do norte. Além de Roma. Eu sou da região chamada Hispânia. Eu sou Íbero.

– Viajaste por léguas, estrangeiro. Eu lastimo te informar que o templo local da Deusa foi fechado, depois que foi atacado por bandidos.

– Isso é terrível! Os sábios e anciãos do meu povo contam tantas estórias da Terra dos Patriarcas, de como aqui é possível, ainda encontrar o Caminho em seu estado mais pristino… eu vos rogo, santa senhora, indique onde eu posso encontrar os remanescentes do Caminho, para que eu possa estudar e receber o Conhecimento!

Sulamita fica impressionada com o estranho viajante que, em poucos minutos, percebeu que ela é uma sacerdotisa da Deusa. Ele certamente recebeu instrução, pode-se perceber pela forma como se comporta e trata com as palavras. Sulamita avalia seu visitante inesperado, fazendo a leitura da aura que emana da alma e vê que ele não recebeu a iniciação formal, mas recebeu algo muito mais valioso e raro, que é a benção direta do Antigo e da Deusa.

– Meu nobre irmão, não necessita de mais instrução. O que tu sabes é mais do que muito dito sacerdote diz saber.

– Eu não estou questionando vossa gentileza, sagrada senhora, mas eu sou perseguido, renegado e rejeitado por aqueles que se intitulam sacerdotes do Caminho porque eu não recebi o treinamento e iniciação formais. Vossa sagrada pessoa deve conhecer onde eu posso encontra uma escola de mistérios para que eu conclua minha busca.

Sulamita admira e aprecia tamanha dedicação e empenho. Ele lembra muito de seus alunos, em especial Herodes, quando ela o conheceu em Antioquia, Província da Síria. Os outros alunos fizeram da estadia dele na escola de mistérios um tormento, por sua origem e língua.

Sulamita era noviça, iniciada, praticamente estava começando o sacerdócio e ficou intrigada com a forma como a Suma Sacerdotisa cuidava e olhava por ele. Tal como seus outros irmãos e irmãs, Sulamita teve ciúmes e inveja, assim como seus irmãos e irmãs ela não aceitava que um Hebreu recebesse as chaves de acesso ao Conhecimento. A despeito de todas as dificuldades e percalços, Herodes foi um dos poucos que concluíram o período integral de treinamento e iniciação formal. Em sua formatura, a Suma Sacerdotisa apenas sorriu e aceitou quando ela se ofereceu para ser a iniciadora dele. Disso ela lembra perfeitamente. Foi ali, debaixo de Herodes, enquanto executavam o Hiero Gamos, que ela cometeu a única falha que é necessária evitar: ela tinha se apaixonado por ele.

Foi o momento de maior tristeza quando ela teve que partir, acompanhar seu senhor, seu coração, ao exílio em Heliópolis, como sua serva. Sulamita chora ao lembrar-se de como ela fez sua Suma Sacerdotisa chorar. Talvez tanto quanto senão mais do que ela mesma chorou quando teve que fugir do reino de Judá, pouco depois da coroação, quando sentiu os primeiros sinais de que ela carregava o fruto de sua união com Herodes. Sulamita funga e enxuga as lágrimas, essa é a Lei da Reciprocidade, ela está “pagando” por seus erros.

Erros não são, necessariamente, coisas ruins, disso nasceu Aragon, seu orgulho, seu filho. Ela teve incontáveis amantes e homens, mas ela sabe muito bem que foi Herodes quem soube ama-la melhor que muitos. Ah, sim, aquele velho sacana sabia muito bem como atingir o seu âmago. Quantas outras mulheres aquele velho safado deve ter preenchido os quadris? Quantos ventres receberam sua nobre essência? Quantos irmãos ou irmãs [bastardos] Aragon tem espalhado por aí? Ah! Velho safado! Tarado! Insaciável! Maldito! Será que… você… está bem?

– Sagrada senhora… o que te aflige? Seus olhos estão distantes, ausentes.

– Meu nobre irmão, tu vês que eu tenho meus momentos de fraqueza. Eu estava navegando em antigas memórias, lembranças de pessoas e circunstâncias. Meu nobre irmão, não carregue consigo o que não necessita. Só há o hoje, o aqui, o agora, eterno. Deixe o ontem para os mortos e o amanhã para a esperança.

– Eu tentarei compreender essa lição, sagrada senhora. No momento, eu vos rogo que indique a direção que eu devo ir.

– Ah, sim! Que cabeça a minha! Tu procuras uma escola de mistério para concluir sua busca. [Sulamita reavalia o estranho viajante, com desejo] Eu vou te poupar mais esforços desnecessários. Venha, vinde em minha casa. Eu vou te ensinar tudo o que você precisa saber em uma hora.

– U… uma hora? Isso é possível? Dizem que é necessário um ano e um dia para concluir o treinamento e iniciação formais!

– Confie em mim, nobre irmão. Eu estimo que tu possuas a capacidade e a competência necessárias para receber esse… treinamento intensivo.

O estranho viajante engole seco enquanto Sulamita caminha de forma provocativa, balançando os quadris amplos e generosos. O andar superior onde Sulamita habita tem quatro cômodos, o quarto particular, o quarto de Aragon, a cozinha e o pequeno santuário onde ela pode realizar seu serviço. Tirando os aparatos e mobiliário sagrado, a peça principal do quarto é a suntuosa cama, bem no centro de um círculo desenhado no chão, repleto de signos e sinais.

– Muito bem, estranho viajante. Eu irei incorporar a Deusa e tu irás incorporar o Antigo. O que quer que aconteça aqui, deve permanecer aqui. O valor que irás ofertar é unicamente para sustentar o templo de Astarté e suas sacerdotisas. Não estás pagando por mim, não está me alugando. Eu me deito contigo por vontade própria, não por sujeição. Eu sirvo unicamente os Deuses. Não crie vínculos amorosos comigo, que eu não criarei vínculos amorosos contigo. Agora, aprecie bem meu corpo e demonstre como eu te desperto o desejo. Esta é tua prova de admissão, tu deves demonstrar nitidamente, por atos e palavras, que tu estás debaixo da Lei e a Lei estás submisso.

Sulamita remove as peças do vestuário lentamente e observa, satisfeita, a reação mais do que esperada e apropriada. Palavras são sussurradas em seu ouvido, mãos vagueiam pelos seus montes e vales. Sim, o estranho viajante está bem instruído. Ele lembra muito Herodes. Não, ele suplanta Herodes. Sulamita perde quase toda consciência enquanto sente a mente mergulhar no imenso mar rosado de prazer. Ela receia, tardiamente, em voltar a cometer a mesma falha e se apaixonar pelo estranho viajante. O receio desaparece por inteiro, assim que suas entranhas, revolvidas, recebem, repletas de alegria, enorme volume e quantidade da essência vital do estranho viajante. No exato momento em que atinge o orgasmo múltiplo, Sulamita tem a visão perfeita do Antigo e da Deusa, sorrindo e aplaudindo a façanha realizada.

Como encomendar a alma

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada na história antiga.

Os anos passaram como vento e o Grande Basileu faz a retrospectiva do que aconteceu durante 25 anos de seu reinado, pois tem algum tempo que ele sente em seu ombro a mão pesada do anjo da morte.

Discretamente, em roupas do povo comum, seguiu sem comitiva, sem guardas, desarmado, até a cidade de Jezrael, outrora chamada Endor, que o povo comum acredita que o rei Saul foi consultar uma “bruxa”. Herodes não consegue segurar o riso quando tenta conciliar o que ele sabe, o que os rabinos sabem e contrasta com o que o povo comum acreditava.

Indiscutivelmente, não há ferramenta mais útil para submeter o populacho do que a religião. Medo e ignorância ajudam bastante, mas isso funciona melhor quando envolve a religião. O populacho realmente acredita que são descendentes do “Povo de Deus”, o “Povo Escolhido”, simplesmente acreditam no Êxodo e que são, efetivamente, descendentes de Abraão, Isaque e Jacó. Há tempos que é impossível rastrear a linhagem de seu povo, há tempos que seus súditos deixaram de serem descendentes diretos de qualquer das Doze Tribos de Israel. Sim, o chamado “Cativeiro da Babilônia” teve marcas profundas na história dos Judeus e isso inclui os textos sagrados, o sacerdócio, o templo e quem vem a ser Deus.

Herodes sabe que o Sanhedrin somente o atura porque muitos ali ele mesmo nomeou. A aristocracia, feita na maioria por romanos, patrícios ou colonos, somente o aturam porque é lucrativo. Mas se fosse por aclamação ou voto popular, como ele ouvira falar de algumas cidades soberanas dos Helenos, ele seria, no máximo, escolhido para ser lançado do Aeródromo, por ser “imperfeito”.

Ali em Jezrael nada disso faz o menor sentido. Ele é uma pessoa como qualquer outra. Longe da influência dos rabinos, Jezrael guarda suas origens multiculturais, Fenícios, Filisteus, Persas, Assírios Helênicos e agora Romanos, tudo junto, misturado. Herodes não tem dificuldade em encontrar o templo de Astarté e solicitar o serviço da sacerdotisa.

– Evoe. Este pobre peregrino pede para que uma alma generosa alivie suas dores para a viagem que está para vir.

– Saudações, Grande Basileu. Vossa visita muito nos honra.

– Pelo Santo Nome! Eu fui facilmente descoberto!

– Nada tema, Grande Basileu, nossa irmandade recebe Vossa Majestade com alegria, pois nós fomos sempre bem tratados por Vossa Majestade.

– Nem poderia fazer diferente. Eu aprendi muito em minha juventude, com a Ordem de Pitágoras e devo muito de minha sabedoria a uma de suas irmãs. Infelizmente, em minha terra, eu não possa fazer mais pelos seguidores do Caminho.

– Nós apenas temos que agradecer pela honra e privilégio em ter tal nobre espírito entre nossos iniciados. Vossa Majestade quer fazer sua oferta de sempre para a Deusa?

– Ah… [Herodes cobiça o corpo da sacerdotisa] isso seria extremamente desejável e apreciável, mas desta vez o que eu busco é pela remissão de minhas falhas diante do divino.

– Vossa Majestade faz as cinco reverências diárias?

– Sim, sem falta.

– Vossa Majestade honra o nome de seus Ancestrais?

– Eu me lembro do nome de cada um deles.

– Vossa Majestade observa os solstícios e equinócios, entoando os hinos ao Antigo e à Deusa?

– Que meus ossos sequem se eu falhei alguma vez.

– Então não tema passar pelo Portal, Vossa Majestade. Para muitos, a passagem é antecipada de um enorme abismo, mas isso são projeções da alma que rejeita passar para o outro lado, por remorsos, mágoas e rancores. Vossa Majestade sabe que o divino não nos julga nem nos condena pelas falhas que cometemos durante nossa jornada.

– Eu sinto esse peso em minha alma. Eu te rogo que alivie o receio de minha alma.

– Embora não seja prática de nossa irmandade, eu posso preparar vossa alma para atravessar o Portal.

– Eu te suplico, santa senhora, alivie minha alma.

– Muito bem. Repouse vossa cabeça entre minhas coxas e aprecie meus seios firmes enquanto eu faço o exame de sua alma. Vós estais preparado, Vossa Majestade?

– Sim e, por favor, ignore minha ereção inconveniente.

– Meu sacerdócio e serviço seriam inúteis se Vossa Majestade não ficasse excitado. Muito bem, respire pausadamente e responda sem hesitação. Deixaste dívida?

– Não. Eu fiz com que o Tesouro Real aumentasse, a despeito dos investimentos na reconstrução do templo, na construção de meu palácio e na construção da colônia romana.

– Tiraste de outro aquilo que não vos pertencia?

– Não. Eu aumentei e garanti para que houvesse tribunos e defensores para garantir que tal coisa jamais acontecesse.

– Faltaste com a verdade ou a enfeitaste, com aparências e simulacros?

– Não. Eu vivo pela Verdade.

– Tomaste aquilo que pertence ao divino, seja oferenda ou vida?

– Pelo Santo Nome! Jamais!

– Tenha calma, Grande Basileu, eu não estou vos julgando.

– Mil perdões. Prossiga.

– Causastes algum dano, físico, emocional ou amoroso a outro?

– Eu levantei minha mão, armado de espada, contra aqueles que me ameaçavam, ou atentaram contra meu trono, meu reino e meu povo.

– Então deveis perdoar estes que assim fizeram.

– Eu perdoo porque eu sei que o divino sempre tem perdoado minhas falhas.

– Cometeste perjúrio, fazendo promessas, sem as cumprir?

– Eu sempre cumpro com o que eu prometo, ainda que seja eu prejudicado.

– Vós sabeis que nada perdeste?

– Sim, eu sei.

– Então prosseguimos. Acaso ofereceste amor indevidamente ou interferistes no amor?

– Eh… no momento minhas entranhas queimam de amor por ti, sacerdotisa, mesmo sabendo ser inconveniente, sendo casada com o Antigo.

– Isto se refere a pessoas comuns, Grande Basileu. Eu me sinto honrada e privilegiada por ser desejada por vós. Deseja interromper o exame de vossa alma e tomar meu corpo?

– Eh… no momento apropriado, Pombinha. O que é mister agora é que eu não ofereci amor indevidamente nem interferi no amor. Todas as mulheres que se deitaram comigo o fizeram de bom grado e por vontade própria.

– O que é mais do que correto, Grande Basileu e as considero benditas e abençoadas por receber vossa semente. Por mais que minhas entranhas também queimem, querendo vos sentir dentro de mim, eu devo prosseguir.

– Adiante, então.

– Vós usastes de vossas posses, posições, influências ou riquezas para difamar, caluniar ou desonrar outro?

– Não. Ainda que eu sofresse tal ato. Meus súditos me odeiam. Eu sei que falam que eu ordenei o massacre dos inocentes. Eu sei que isto é coisa do Sanhedrin, fazem comigo como fizeram com o faraó.

– Vós deveis perdoar aqueles que assim o fizeram.

– Oh, puxa… como isso é difícil… eu estou chorando?

– Sim, Vossa Majestade [snif]. Vós estais chorando.

– Ah! Pombinha! Não chore! Não por um velho como eu!

– Eu… eu estou bem, Vossa Majestade. Nós devemos prosseguir. Vós agistes com fúria, raiva, ódio, por atos ou palavras?

– Eu estive em batalha. Eu tive que lutar e matar. De outra forma, eu mesmo não poderia viver nem me tornar rei. Eu tive que matar Antígono e Hircânio. Praticamente, meus familiares.

– Vós deveis perdoar aqueles que assim o fizeram.

– Eu os perdoo. Senão, como eu poderei encara-los quando os encontrar no Mundo dos Ancestrais?

– Grande Basileu, essa parte é importante. Infringiste a Lei, dos Homens ou de Deus?

– Eu admito que eu tive que infringir a Lei do Homem, especialmente quando esta é falha e incompleta. Mas a Lei de Deus… a Grande Lei… pela qual o Universo é regido… esta eu jamais infringi.

– Eu vos escuso das infrações que cometeste contra a Lei dos Homens, se assim agiste por Justiça e Verdade.

– Ah, sim, Pombinha! Eu mantenho puro meu Ideal Elevado.

– Eu fico contente com isso, Grande Basileu. Vós atentastes contra a sagrada pessoa do rei, do sacerdote ou de Deus?

– Eh… eu matei meus irmãos, que eram reis. Eu tenho, constantemente, uma disputa de força com o Sanhedrin e, no momento de fraqueza, eu devo ter dito palavras duras. Eu acredito que eu só não consigo olhar Deus nos olhos, como fazem os Helenos e Romanos.

– Vós deveis perdoar os que assim fizeram. Eu vos escuso por terdes proferido blasfêmias contra o sagrado. Eu vos digo e espero que saibas: vós sois sagrados também. Vossos atos são sagrados. Eu vos peço que aceitais vosso encargo. Vós não deveis temer nem ajoelhar diante de Deus. Vós sois semelhante a Ele.

– Eh… então mesmo um deus tem que ser examinado quando sente chegar sua hora.

– Grande Basileu, como vós estais vos sentindo? Tem algo que deixou pendente? Alguma mágoa? Algum remorso ou rancor?

– Eu creio que você pulou a parte que me é perguntado se eu cometi certas práticas proibidas. Mas eis-me aqui, com a cabeça descansando em suas deliciosas coxas e me deleitando com seus formosos seios. Na minha terra, eu sou culpado e, se não fosse o rei, eu seria apedrejado até a morte.

– Não desvie do assunto, Grande Basileu! Eu estou ciente do vosso sentimento por mim e do que acontece no reino de Judá. Eu vos peço que responda as perguntas.

– Hum… alguma pendência? Eu estou sentindo a mão do anjo da morte no meu ombro. Eu devo assegurar a sucessão. Mágoa? Talvez apenas uma. Eu tive uma serva nabateana que eu apreciava muito, mas, pouco depois de minha coroação, ela começou a ficar ausente com frequência até que simplesmente desapareceu. Rancor? Hum… eu tive durante meu exílio e aqueles que me desafiaram foram mais cedo para a Terra dos Ancestrais. Remorso? Hum… sim… eu reformei o templo e dei ao Sanhedrin uma sede decente, mas mesmo assim eles são ingratos e espalham mentiras sobre mim.

– Grande Basileu, deveis saciar vossa alma. Vós não deveis procurar por vingança ou reparação. Vós deveis perdoar e compreender que estes o fazem porque são egoístas, ignorantes e covardes.

– Eu acho que eu consigo fazer isso, com a ajuda de Deus. Mas Sulamita… ah… por que ela me abandonou?

– Vossa Majestade, perdoe minha ousadia e audácia em vos repreender. Vós sabeis que as coisas não nos pertence, nada nos pode ser tirado ou perdido, então como podeis querer que esta serva vos pertencesse? Como vós podeis exigir que esta serva devotasse dedicação somente a vós? Como vós quereis ter a posse e o poder sobre o corpo e o amor que esta serva vos concedia voluntariamente?

– Isso, minha Pombinha, é o que me equipara com os homens. Sim, nós somos inseguros, medrosos e carentes. Nós estamos tão acostumados a um mundo tão cheio de violência e tão ausente de amor, que achamos que nós nunca mais iremos encontrar algo tão lindo e precioso quanto a mulher que amamos. O fato é que ela também não nos pertence. O amor não tem regras, limites, fronteiras… então ninguém tem poder sobre o amor. Nós, homens, temos que nos subjugar e nos submeter. Amor é o Todo da Lei. Como algo tão simples pode ser tão enigmático e indecifrável? O que nós, reles mortais, podemos fazer, senão arder em chamas e nos consumir?

– Não creiais, Grande Basileu, que irás morrer. Vós não deveis crer em tal mentira. Vós vivereis eternamente. Vós não deveis partir com qualquer peso na alma, pois eu não vi mácula alguma. Deixeis aos homens o que pertence aos homens. Entregueis ao divino o que pertence ao divino. Está feito. Vossa alma foi examinada. Eu vos considero mais do que digno de atravessar o Portal, Grande Basileu.

– Mesmo? Oh… puxa vida! Eu me sinto tão… leve, aliviado! Eu nem mais sinto tão pesada a mão do anjo da morte. Eu te sou muito grato, santa senhora. Quanto eu te devo?

– Eh… Grande Basileu… vossa ereção…

– Hm? Essa coisinha? Não ligue para ele.

– Grande Basileu… seria uma enorme blasfêmia… deixar Vossa Majestade em tal estado… depois de tantas palavras e demonstrações de apreço por esta serva da Deusa.

– Hum… entendo… isso não seria nada bom para minha alma. Este templo e a Deusa ficariam muito contrariados se eu não os honrasse, tomando seu corpo, certo?

– Eu vos peço, Grande Basileu… use meu corpo… tome meu corpo… possua meu corpo.

– Eu não tenho escolha, tenho? Afinal, eu sou um grande devoto da Deusa.

Herodes inclina-se, se dobra por cima e por dentro da sacerdotisa, que recebe e encomenda a alma do rei de Judá entre suas pernas, recebendo junto, em seu templo mais intimo, uma grande quantidade de sua essência. O tempo de Astarté ficou um milhão de sestércios de ouro mais rico. E a sacerdotisa com o fruto dessa união sagrada.

A coroação do impuro

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada na história antiga.

Região de Coele Siria, cidade de Heliópolis, rebatizada e reconstruída a partir das pedras que outrora formavam a inominável Baalbeque, onde ainda é possível ver a enorme estátua de Baal. No bairro nobre, afastado das ruas comerciais e do populacho, Herodes Idumeu estava com sua serva nabateana fazendo um “lanchinho”. Enquanto ela geme e se contorce em cima da mesa de cedro, Herodes contenta-se em aproveitar, pois ele teve o cuidado de proteger as “jóias da coroa” com tripa de carneiro costurada e o jarro repleto de balsamo de ervas abortivas, ter um bastardo no exílio é algo que o tornaria indesejado nessas terras de pagãos.

Herodes sente que está perto de seu limite quando soa o sinete do portal de entrada. Enquanto ele era governador da região da Galileia, seu pai, rei Antipater I, lhe providenciara inúmeros servos, mas agora, exilado, despossuído, somente os mais devotados ainda permanecem ao seu lado. Irritado e contrariado, ele tem que deixar seu “lanchinho” esperando.

– Pelo Santo Nome! Esse não é momento para visitas! Quem vem lá?

– Saudações, Herodes Basileu Magno!

– Que Baal te carregue, se isto é alguma sátira. Por Ha-Shem, Yahu Adonai, quem me bate à porta?

– Consul Marco Emílio Escauro Puer, Vossa Majestade.

Herodes tem que pensar rápido. Os poucos nobres e familiares que ainda mantém contato com ele dizem que nunca se pode ter certeza do que os Romanos querem. Os Romanos podem estar querendo captura-lo, por motivos financeiros ou políticos. Os Romanos podem muito bem estar recebendo soldo de Hircânio para mata-lo. Herodes não quer morrer, não ainda tendo que terminar com seu “lanchinho”.

– Então, por Jove, meu compatrício, o que o trouxe até Heliópolis?

Escauro treme inteiro. Ouvir de outro povo a saudação comum entre os Romanos lhe causa calafrios, enjôo e nojo. Enfim, ele tem uma tarefa a cumprir e assim o fará.

– Este servo de Roma tem a satisfação de trazer boas novas até Vossa Majestade. Eu vos peço que abra o portão para que eu possa consolidar a formalidade de entregar à Vossa Majestade o decreto vindo do Senado.

A porta atrás de Herodes guincha e algo parecido com alguém pigarreando denuncia que a presença de Herodes está sendo cobrada. Seu “lanchinho” está impaciente. Mentalmente Herodes anota que os Romanos, ao menos, são educados. Suas entranhas também estão impacientes para terminar o que elas começaram, então Herodes abre o portão, vestido parcialmente com sua túnica síria.

– Por Jove, essa maldita burocracia ainda vai causar a ruína da Capital do Mundo. Pronto, compatrício, cá estou e entrega-me de vez esse decreto.

Escauro, por piedade, prudência e recato, desvia o olhar. Seus comandados tapam os olhos ou viram o pescoço. Não que a nudez seja algo desconhecido ou proibido pela República de Roma, sabe-se que os nobres celebram inúmeros rituais vestidos apenas com o vento, homenageando os Deuses nas orgias, mas tal coisa é feita na privacidade do domus. Nudez em público, isso é algo mais comum entre os bárbaros, no meio da floresta, entre círculos feitos de pedras, enquanto eles evocam o Antigo.

– Perdoe-me, Vossa Majestade, por ter vindo em hora imprópria.

– Bobagens, consul Escauro. Nós estamos em meio aos pagãos. Aqui a nudez e o sexo são igualmente sagrados. Mas entrem! Os senhores devem estar cansados, com sede e fome após tal longa marcha, de Damasco até Heliópolis.

– Nós agradecemos sua hospitalidade, Vossa Majestade, mas nossa tarefa é apenas entregar o decreto e nos certificar que entendeu os termos. Caso Vossa Majestade compreenda e aceite os termos do decreto, nós voltaremos na próxima lua cheia para conduzi-lo de volta ao seu lar, ao seu trono.

-Ah, eu compreendo, consul. Meu latim é tão puro e perfeito como foi feito no Lácio. Eu concordo formalmente com os termos do decreto. Estes legionários que o acompanham são testemunhas. Quer que eu assine, aposte meu sinete e selo na contrafé?

– Isso não será necessário, Vossa Majestade. Como o Senado o reconheceu como legítimo sucessor do rei Antipater, vossa palavra é suficiente. Eu agora retorno para Damasco de onde eu enviarei mensagem para o senado apontando como bem sucedida nossa missão. Eu vou deixar Vossa majestade para terminar seus… negócios… interrompidos.

– Muito bem, que assim seja. Nós os dispensamos, para seguir o protocolo diplomático. No entanto, nós iremos solicitar suas presenças em nossa coroação.

– Muito agradecido, Vossa Majestade, por vossa imensa gentileza. Eu e meus comandados estaremos presentes em vossa coroação. Vossa Majestade pode contar com a minha colaboração, como governador da Província da Síria.

– Perfeito, perfeito. Que Mercúrio os acompanhe.

Herodes fingiu aquela expressão típica de regente enquanto o consul Escauro e seus comandados saudavam, giravam e marchavam de volta para Damasco. Segurando para não exagerar no sorriso cínico, Herodes também gira sobre os calcanhares depois que fecha o portão e encara sua serva nabateana.

– Sulamita, prepare-se, pois você vai receber o tratamento real de um rei.

A serva gargalha, provoca e corre para dentro da mansão. Mas não consegue fugir por muito tempo. Herodes, sem pressa, desfruta dessas carnes suculentas por quatro horas e depois desmaia, satisfeito.

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Duzentas léguas mais adiante, Escauro chega até Melqart e, de forma calculada, envia o mensageiro para Damasco com a mensagem para o Senado e aquartela-se ali, de onde fica mais prático e mais providencial, mover-se e retornar até Heliópolis para dali escoltar o agora rei da Judéia. Duas semanas depois, algo efetuado em tempo recorde, o mensageiro traz a resposta e o salvo conduto vindo do Senado. Calculo perfeito, ele e seus comandados conseguiriam chegar em Heliópolis exatamente na noite de lua cheia.

– Meu senhor? Meu rei?

– Hmmm… o que foi, Sulamita?

– Está na hora de se levantar, meu rei. Saia de dentro e de cima de mim, se vista e esteja preparado e pronto para quando os Romanos chegarem.

– Ora, vejam só, que coisa. Eu mal recebi minha coroa, meu trono e meu reino e meu coração manda mais do que eu.

– Ah… meu rei… não faça isso… eu fico louca…

– Eu sou seu rei. Veja meu cetro. Ele está em posição. Aceite e cuide de sua responsabilidade.

– Ah… meu rei… os Romanos… hmmmm…

Herodes aprendeu muito no exílio, especialmente com as sacerdotisas de Astarté. Considerado tabu e proibido, essas sacerdotisas são mestras em certas artes que tornam o corpo, o desejo, o prazer, em ferramentas para acessar o divino. A pobre serva nabateana fica à mercê de seus desígnios, completamente entregue e rendida, só consegue gemer e estremecer conforme sente as ondas de prazer inundar seu copro. Herodes sabe que ela está no limite e ele mesmo não consegue segurar. A pobre Sulamita vira os olhos e reclama quando seu reu a abandona, de novo, porque alguém está no portal, interrompendo no momento mais crucial.

– Pelo Santo Nome! Esse não é momento para visitas! Quem ousa me interromper? Esta é a segunda vez! Trata-se de ti, Escauro, meu consul?

– Sim, Vossa Majestade. Eu vos vim escoltar até sua terra e seu reino, tal como eu prometi.

– Bem na noite de lua cheia. Vocês, Romanos, são bem pontuais. Nós estamos prontos para partir, desde que tu não se importe se nós levarmos nossas… assessoras… conosco.

– Nós estamos com a carroça de campanha, Vossa Majestade. Com alguns ajustes nós podemos receber Vossa Majestade e vossas assessoras.

– Perfeito. Vemo-nos em vinte minutos.

Correria nos dois lados. Escauro faz o que pode para deixar a carroça de campanha o mais confortável possível para receber e conduzir o rei da Judeia. Herodes faz o que pode para que ele e Sulamita estejam vestidos e de malas prontas.

– Mas… meu rei… quer que eu vá contigo?

– Evidente, Sulamita. Eu não posso ir embora sem ter você comigo.

– Mas… meu rei… eu sou uma mera serva nabateana… eu não tenho nobreza… nem sabedoria…

– Arre, Sulamita! Eu quero você comigo. O que você tem excede e muito qualquer talento ou atributo que as aristocratas acham ter. Quanto aos seus títulos ou cargos, se isto te faz feliz, eu a nomeio minha Primeira Ministra e lhe concedo o governo da Galileia, está satisfeita?

Sulamita faz a expressão mais safada e tarada que uma mulher pode fazer. Agora devem se preparar para partir e viajar, mas seus olhos prometem diversas compensações ao rei, ao longo de todo o caminho, sendo indiferentes as condições da carroça de campanha. Sulamita não terá qualquer pudor no que fará e não terá compaixão dos pobres homens que estarão na escolta, só ouvindo os sons da orquestra regida por Eros e Afrodite.

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Sete dias e sete noites passaram, ligeiros. Herodes vasculha seus pertences, mas há tempos que suas infusões e emplastos com ervas tinham acabado, assim como as tripas de carneiro costuradas. Felizmente Sulamita dormia, cansada depois de tanta ginástica e da longa viagem. Herodes espia pela exígua fresta da carruagem de campanha e acredita estar reconhecendo a paisagem. Ele resolve sair do encouraçado para a parte externa, para respirar o ar de sua terra natal e para esticar os músculos.

– Boa Tarde, Vossa Majestade. Eu peço que olheis para leste, onde vós vereis vosso futuro palácio, que dizem ter sido construído pelo rei Salomão.

Ah, sim, Herodes se lembra do seu avô contando as lendas do rei Salomão que lhe inspirava admiração e temor. Admiração porque Salomão, seu longínquo antepassado, foi o precursor do reino de Israel mais moderno e cosmopolita. Temor, porque Salomão tinha a péssima reputação de ter tido ao seu dispor diversos demônios. Conforme Herodes cresceu e aprendeu, ele viu que Salomão simplesmente tentou reestabelecer a crença original dos Hebreus, onde Jeová e Asherat eram consortes. Salomão tentou também transmitir ao seu povo aquele que é chamado de Caminho, codificado e oculto nas diversas ordens místicas, religiões de mistério e religiões inciáticas. Herodes respirou fundo, pois ele teria que tentar dar continuidade a este projeto, algo que parecia fora de seu alcance, assim que ele viu a situação calamitosa que estavam seus súditos.

– Pelo Santo Nome, Ha-Shem, Yahu Adonai! O que houve com a Casa de Israel? Nem mesmo quando vivíamos como servos do faraó nós estávamos tão empobrecidos!

– Vossa Majestade pode contar com o apoio e o auxílio de Roma para reestruturar, restaurar e reerguer o seu reino.

– Nós agradecemos pelo apoio cedido por Roma. Evidente, nós saberemos devolver com reciprocidade. Nós esperamos que, ao menos, nosso reino ainda possua rabinos, para que nós possamos realizar a cerimônia de coroação.

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O estado do templo era desesperador, mas sim, o reino de Judá contava com o Sumo Sacerdote Anás para realizar a cerimônia de coroação. Evidente, o pátio externo era mais ideal para receber os convidados e não faltou a parentela para, fingidos e hipócritas, comparecer para lhe dar os comprimentos.

– Francamente… eu sinto nos meus ossos que eu não devo receber a benção do Sumo Sacerdote. Eu estou ridículo nesses andrajos, mesmo um sírio comum anda melhor do que isso em Damasco. O que me diz, Primeira Ministra Sulamita?

– Quer minha opinião como sua ministra ou como sua amante?

– Eu não vejo diferença, meu coração.

– Hmmm… meu rei… a coroação… vai se atrasar…

– Eles que esperem. Minha prioridade é te preencher.

O Sumo Sacerdote Anás sabia e sentia que isso não ia acabar bem. Os anciãos vivem dizendo que Herodes é a reencarnação de Saul, embora seja heresia dizer essas coisas. A memória de Israel não foi boa, quando um rei subiu ao trono por escolha dos líderes tribais, não por vocação ou unção de Yahu Adonai. Tudo indica que Herodes segue o mesmo caminho. Anás sente a cabeça latejando, sinal de que o futuro regente não é o mais indicado e, pelos boatos, ele deve se tornar um escândalo, com os hábitos e costumes dos gentios que trouxe com ele do exílio.

Com atraso, Herodes compareceu. Animado e entusiasmado por voltar ao seu país natal, ele se esqueceu dos cuidados tão preciosos, ele deixou de usar a tripa de carneiro costurada e deixou Sulamita sem a dose de ervas abortivas. Mal sabe ele que disso advirá não um bastardo, mas a doença que o mataria, trinta anos depois.

Os Filhos da Loba

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada na história antiga.

Preâmbulo.

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Republica de Roma, 676 AUC.

Cônsul Lúcio Licínio Lúculo, procônsul da Cilícia, ao Senado.

Votos de que Roma seja eterna, pois não bastasse os Helênicos nos atazanarem, eis que os Partas vêm em ajuda do reino do Ponto.

Bitínia, Calcedônia e Cízico estavam sob o domínio de Mitrídates. Imediatamente eis que este servo de Roma partiu de a Galácia e munido com as armas cedidas pela grandiosa Roma, eu cheguei até Temiscira, dali cerquei Amisos e Eupatória.

Com Lúcio Licínio Murena, nós enfrentamos os Helênicos em Caberia para então manter posição a partir da Capadócia. Com a força da Cavalaria, expulsamos os Partas para Comana, onde foram recebidos pelo rei Tigranes da Armênia, onde se estabeleceram os Partas. Eu vos digo, distintos senadores, se a província da Ásia cair na mão dos Partas, cairá toda a República de Roma.

Imediatamente nossos esforços receberam o apoio do reino da Capadócia, pelo que eu devoto agradecimento ao rei Ariobarnazes. Nós invadimos Tigranocerta, Ataxarta e Nísibis. O que foi acertado com nossa vitória é que o reino de Comagena aceitou ser um protetorado de Roma e, com isso a província da Síria foi entregue ao rei Antíoco Asiático.

Eu recebo agora ordens vindas do Senado para entregar meu comando ao meu irmão, Marco Licínio Lúculo, a quem eu confio a continuação desta campanha e recolho-me para meu domus em Roma, no monte Píncio. Volto para minha terra, tranquilo e sereno, de consciência tranquila por ter cumprido com meu dever e satisfeito por saber que Roma está enviando o Consul Cneu Pompeu Magno para enterrar a rebeldia dos Helenos.

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Republica de Roma, 687 AUC.

Consul Cneu Pompeu Magno, ao Senado.

Nobres representantes dos descendentes da Ilíria, cuja gens remonta até a saudosa Albion, em cujas veias correm o sangue de nossos Patriarcas, Rômulo e Remo, a vós, orgulhosos Filhos da Loba, saudações!

Este vosso servo envia-lhes notícias do enfrentamento diante da audácia do rei Mitrídates em desafiar nossa pungente pátria. Este rei que tem domínio sobre a Iônia e faz sua cidadela em Nicópolis, no rio Lico, onde outrora, nessa mesma planície da Anatólia, Odisseu venceu Tróia e de onde Enéias, nosso nobre Patriarca, transfugiu até as Sagradas Sete Colinas, onde se ergue Roma, orgulhosa de suas origens.

Move-me dizer que há engano em acreditar que sejam Frígios, Aqueus, Selêucidas, Persas ou Púnicos. Mitrídates apresenta-se como rei do reino do Ponto, atribuindo-se o direito de fato oriundo do próprio Iskander, o basileu da Macedônia, por ser descendente de Antígono e Seleuco. Disto eu posso atestar, este povo orgulha-se de serem Helênicos.

Nossa Sagrada Roma resistiu aos ataques covardemente perpetrados por Cartago. Não houve alternativa aos grandes generais Amílcar, Aníbal e Asdrúbal senão reconhecer que Roma é a Cidade Suprema. Sempre invejada e desejada, Roma brilha por sobre o mundo e, ao invés de esperarmos que outros povos quisessem morder da nossa fruta, pela sabedoria do senado fomos nós atacar antecipadamente, o ataque é a melhor defesa.

Helênicos, Macedônicos, Gregos, usufruem de um enorme reinado que herdaram de Iskander, tomado pela força das armas das mãos dos Persas. Quando Iskander teve que juntar-se aos Ancestrais, seus generais dividiram o imenso território nos reinos que estes governaram e deram origens a outras dinastias. Foi pela proteção de Jove e Juno que nossas terras ficaram fora das largas passadas dadas por Iskander, mas tornou-se uma questão de tempo até seus herdeiros e sucessores quererem igualmente morder Roma.

Então combatemos os Helênicos. Com muita satisfação eu comunico que venci o rei da Antioquia, anexando assim toda a Síria ao domínio de Roma. Que digam que eu abri a estrada de Roma para o Egito, a pérola há tanto tempo estimada por Roma e tão necessária para nossa conquista de Cartago.

Comunico a vós meu retorno ao bom lar, de onde eu tenho escutado boatos sobre a declaração de que Caio Júlio César foi aclamado como Dictator. Por meus concidadãos, pela República Romana, pela honra do Senado, eu retorno para restaurar a Lei.

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República de Roma, 690 AUC.

Em nome da República de Roma e por concordância do Senado, o Triunvirato, composto pelo Consul Caio Júlio César, Consul Cneu Pompeu Magno e Consul Marco Licínio Castro, determina e decreta ao Consul Marco Emílio Escauro Puer que assuma o posto de governante da Província da Síria.

Enviamos as Armas de Roma juntamente com Consul Aulo Galbinio e o Consul Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino para manter embate contra os Partos e seus aliados. Assegurem de que a Província da Judeia seja anexada na Província da Síria, cessando a instabilidade política da região, consolidando o poder de quem for o regente de fato, seja Edumeu ou Asmoneu.

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Província da Síria, no ano de Roma de 702 AUC.

Consul Marco Emílio Escauro Puer, ao Senado.

Contam-nos que o grande Odisseu deixou nas portas de Tróia tal peça, semelhante ao cavalo, supostamente como oferenda a Poseidon. Nossos ilustres e nobres Antepassados, ludibriados pelo gênio de Odisseu, acolheram tal peça e a deixaram em praça pública para os devidos rituais para Poseidon. Na calada da noite, os Helênicos, incrustrados na peça, começaram a tomar Tróia e, assim, a ruína veio trazida de fora.

Eu tenho o dever de prevenir que devamos manter atenção e vigilância na Província de Judéia para que nós, ao adentrar nela, não sejamos nós colhidos por esta armadilha. Pois esta terra árida está sendo ocmpetida por três reis, cada qual alegando legitimo direito.

Dos Asmodeanos, veio ao nosso conselho o rei Antígono Matatias, clamando pelo trono da Judéia por ser filho de Aristóbalos II. Competindo com ele, igualmente por parte dos Asmodeanos, o rei Iohanan Hircano II, que alega ser irmão mais velho de Aristóbaloe, portanto, com mais direito a herdar o trono deixado por Aristóbalos II.

Dos Edumeus, veio ao nosso conselho o rei Herodes, dito o Grande, que alega ter direito ao trono de Aristóbalo II porser filho do rei Antipater I. Eu vos digo que eu desisti ao tentar entender a quem é de direito a sucessão no trono, considerando que também existem dois reis predecessores em uma região que corresponde dois territórios, Israel ao norte e Samaria ao sul, cada qual com dinastias confusas e misturadas.

Este servo de Roma solicita por piedade que este digno Senado decida a quem nosso governo deve reconhecer como rei de toda Província da Judéia.

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República de Roma, 716 AUC.

Em nome da República de Roma e por concordância do Senado, o Triunvirato, composto pelo Consul Caio Júlio César Otaviano, o Consul Marco Antônio e do Consul Marco Emílio Lépido, determina e decreta ao Consul Marco Emílio Escauro Puer que se assegure de garantir e usar de todas as forças das Armas dadas por Roma para que acenda ao trono o Basileu Herodes, reconhecido pela República Romana como rei de direito e merecedor de ser chamado de Herodes I, o Grande.

Estabelecido no trono que lhe cabe, providencie para que o rei esteja agradecido com Roma, que ele acate que seu reino é cliente de Roma e deve reportar-se ao governador da Província da Síria nos assuntos que excederem suas atribuições ou que exigirem maiores deliberações de nossa augusta pátria.

Como garantias mútuas, uma divisão das Armas de Roma será sediada em Jerusalém, por onde providenciaremos reforços aos demais governadores vizinhos e de onde poderemos marchar em direção ao Egito.

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