Arquivo mensal: março 2018

Fate/Major Arcana – XVII

Começa a Semana Santa onde o mundo ocidental cristão se prepara para a Páscoa, que vai cair nesse ano no dia 1º de abril, dia que também se comemora o Dia da Mentira. Não existem coincidências.

Eu estou inexplicavelmente intacto, minha cabeça dói [ressaca] e minhas partes intimas estão latejando [eu devo ter participado de alguma orgia em homenagem à Venera Sama]. O pior de meu ofício não é aturar o fardo [benção e maldição] de escrever, o pior é ser jogado de um mundo a outro. Desta vez eu estou no Mundo Humano, mundo onde o ódio, a violência e a agressividade são a norma. Não nos enganemos, somente nós mesmos somos os culpados e responsáveis por este mundo ser assim.

Eu estou, como milhares de paulistanos, em direção ao meu trabalho, a bordo de um coletivo. Conforme a viagem se desenrola, eu uso meu celular para contatar a Companhia de Teatro e a resposta é aquela voz automática de que o número está fora de área ou desligado. Considerado a maravilha tecnológica do mundo contemporâneo, o celular só aumentou sua capacidade [e importância] ao assimilar a internet [e, com isso, as redes sociais e aplicativos de mensagens]. Eu, como inúmeros usuários, credito a falha à operadora de telefonia que, como os outros meios de comunicação, não acompanham a evolução tecnológica. Diga-se de passagem que, tecnologicamente, nós estamos avançados, mas devemos [e muito] no avanço de nossa humanidade.

Notadamente, a tecnologia sofre com o excesso de presença humana. Tome, por exemplo, a internet, criada e surgida para ser um meio de comunicação [integração] entre usuários de computadores através da rede mundial. Tal como a América, considerada a Terra da Liberdade, a internet virou uma vovozinha carola, que eu chamo de Netnanny, querendo condicionar, filtrar, proibir e censurar aquilo que o usuário pode ou não acessar [produzir, publicar, etc]. Casos de infração à lei devem ser denunciados na polícia e resolvidos na justiça.

Nós falamos, com certo tom de humor, que nós não trabalhamos, nós “cumprimos sentença”. Evidente que não é a mesma coisa que estar detido ou preso em uma unidade correcional, nós temos a nossa “liberdade”, muito embora a custo de cumprir, ao menos, 35 anos de trabalho para então poder se aposentar. Eu creio que não tenha do que me queixar, sendo funcionário público e ganhando um salário decente. Eu posso utilizar o computador do serviço para meus acessos pessoais e escrever meus textos.

Durante meu expediente eu acesso páginas [apesar da restrição da autarquia] e uso os recursos que eu disponho para contatar a Sociedade Zvezda, mas o Grande Irmão [Google] avisa que a página está inacessível [existe até códigos de erro, divertidíssimos]. Eu fico bolado, porque eu passei por ocorrências onde a Companhia de Teatro tinha sumido e a Sociedade Zvezda tinha me abandonado [e isso considerando que vivemos em uma democracia e em um Estado de Direito, faz lembrar as inúmeras ditaduras fascistas que dominaram a América Latina por muitos anos].

Após horas de tortura, eu saio do serviço [sursis?] e vou pelas ruas da cidade que sonha em ser uma Nova Iorque, mas ficamos só na imitação barata. Eu faço uso de recursos extras para dobrar a dimensão e avanço pelo multiverso, indo em direção de onde eu acho que está a sede da Sociedade Zvezda, mas encontro somente um terreno baldio, como se nada tivesse sido construído [ou existido] ali por muito tempo. Minha cabeça queima, não com a possibilidade de abandono e rejeição, isso são coisas às quais eu nasci, cresci e fui ensinado, eu me acostumei e desenvolvi resistência a tais situações. Minha cabeça queima porque eu estou com uma ideia de conto querendo encarnar em texto. Essa é a parte engraçada, porque eu me engano e iludo, como todo viciado, que eu consigo parar, que este é o ultimo conto, mas no fundo eu sei que minha benção e maldição estarão presentes permanentemente até findarem meus dias.

O inchaço na cabeça incomoda e dói, o sofrimento faz com que nós alteremos as prioridades. Cansado de ser feito de brinquedo por Venera Sama [até parece] eu continuo minha caminhada em direção ao ator que cabe perfeitamente como protagonista do próximo conto. Por ruas pouco ou nada populares, eu sigo pelas sombras, por caminhos que poucos conhecem e ousam percorrer até o cemitério. Eu bato no pesado portal de bronze onde eu espero encontrar Dudu, o ghoul que se tornou de estimação da Sociedade.

– Sim? Quem é? Um instante! Eu vou te atender!

Eu reconheço a suave voz feminina e meus olhos confirmam assim que o dossel se abre. Diante de mim eu vejo Miralia vestida com um traje exíguo.

– Pa… papai?

– Quem é, Mira?

Saindo da parte mais interna da cripta, Dudu sai completamente nu. Ele está maior e mais maduro que antes, mas mesmo assim é perfeito para o papel.

– Sou eu, Dudu. Eu tenho um roteiro para você.

Miralia está toda encolhida, envergonhada e confusa. Eu estou aliviado em saber que ela e ele estão juntos. Minha reputação não precisa piorar.

– Mas… o que está fazendo aqui, escriba? Você deveria estar no estúdio.

– Eu não consigo entrar em contato com a Companhia de Teatro ou com a Sociedade.

– Você não recebeu o link novo? [Dudu profere palavras que eu imagino serem impropérios em alemão]. Vamos, nós não temos muito tempo. Eu te levo lá.

Eu sou arrebatado pelos céus, nas asas de um enorme morcego e consigo acenar adeus para Miralia. Seja lá o que quer que ela sentisse por mim, desapareceu com os anos e o coração dela achou um parceiro mais adequado. Eu devo acreditar nela para achar sozinha o caminho de superação. Eu devo dar um voto de confiança para o Dudu. Ele é quem é a pessoa mais importante para ela. Ele certamente irá ajuda-la e apoia-la.

– Chegamos. O pessoal vai começar a encenação. Eu estou surpreso de ver sua capacidade em escrever roteiro, escriba. Nós recebemos os roteiros dos demais cinco capítulos adiantados.

Eu somente dou um suspiro, dou de ombros e viro os olhos. Eu vou poupar Dudu e não vou dizer que não fui eu quem escreveu os roteiros. Provavelmente foi escrito por uma Inteligência Artificial, um ciborgue, um androide, um robô. E certamente escreveu melhor do que eu. Eu assisto a encenação a título de despedida. Na altura dos fatos, eu estou demitido.

– Todos a postos! Luzes! Câmera! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproximem-se, identifiquem-se e apresentem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus.

[Kiritsugu Emiya]- Eu sou o Mestre que representa os Cátaros, uma associação independente [chame de hereges, se quiser] que luta para que a humanidade conheça o Deus Verdadeiro e o Cristo Verdadeiro. Esta é minha Serva, Arturia Pendragon, [incorretamente chamada de Artur Pendragon, mas que para a lenda e a memória heroica, assimilou e aceitou ter seu sexo e gênero trocados], classe Saber.

[Alexander Bildeberg] – Eu sou Alexander Bildeberg, Primeiro Ministro do Reino Unido e Presidente Executivo do Banco Mundial. Eu sou o Mestre que representa a Coroa Britânica e este é meu Servo, Nestor Ornellas, classe Mercenário.

Arturia encara seu adversário, seus braços, pernas e espada tremem, fazendo o metal tilintar. Emiya, experiente, nota que o espírito de luta de sua serva está inconstante.

[Emiya]- Algum problema, Arturia?

[Arturia]- E… eu não estou certa… eu acho… eu te conheci antes, Mercenário?

[flashback]

Duas crianças órfãs brincando e sobrevivendo pelas ruas de Lundun [atual Londres]. Um feirante enfurecido providenciou para que um defendesse o outro.

– O… obrigada.

– Nar Varro. Esse é meu nome. [significa Filho do Leão, no Idioma Antigo]

– M… meu nome… é Ar Dur. [significa Filho do Urso, no Idioma Antigo]

– Prazer em te conhecer, Filha do Urso.

– Vo… você percebeu? Você também é do Círculo?

– Todo mundo está no Círculo. A nossa diferença é que nós estamos despertos.

Duas crianças órfãs tornam-se melhores amigos em segundos. Felizes e contentes por terem encontrado alguém semelhante, vão até uma escola de mistérios local. A Alta Sacerdotisa os recebe e os avisa de algo importante.

– Vocês se conheceram há muito tempo.

– Santa Senhora, nós nos conhecemos minutos atrás!

– Vocês ainda são jovens e iniciantes. Ainda não perceberam que suas almas são antigas e tem um destino, um propósito. Ah… perdoem essa velha por chorar, mas suas vidas atuais, passadas e futuras estão marcadas pelo Arcano da Fortuna.

– O… o que isso significa, Santa Senhora?

– Vocês vão descobrir por si mesmos. Infelizmente assim é o Caminho. O aprendizado deve ser pessoal e por experiência dolorosa.

As crianças não entenderam. Cresceram e amadureceram. Nar Varro tornou-se um dos guerreiros que tornariam a Península Hibérica a Terra dos Íberos. Ar Dur aceitou a pesada capa que a lenda lhe concedeu e tornou-se o lendário Rei Artur, Rei da Bretanha e considerado o Rei dos Reis. Ambos cessaram essa existência com uma morte em batalha, honrada, mas violenta.

[flashback]

– Sim, Arturia. Nós nos conhecemos desde que o Deus Touro e a Deusa Serpente nos geraram. Eu sou o Filho do Leão e você é a Filha do Urso. Eu jurei meu amor e fidelidade eternos a você, Dama da Lua. Eu só aceitei entrar na Batalha do Graal com a esperança de poder reencontra-la, refazer meus votos e te prometer que eu vou livrar a todos nós, Servos, dessa escravidão aos Mestres Magos.

– Do que você está falando, Mercenário? Eu te trouxe de volta à vida a um preço alto. Está na hora de você mostrar que valeu o esforço. Destrua Arturia.

– Sim. Está na hora. Eu devo pagar pelo seu empenho.

Nestor encara seu mestre e, sem titubear, o levanta do chão com uma mão apenas e, sem hesitar, abre um corte profundo. Desesperado, morrendo, Alexander tenta usar os três selos de comando no seu servo, sem sucesso. Arturia observa assustada e surpresa, pois nenhum servo é capaz de resistir diante da ativação de um selo de comando. As mãos de Alexander sossegam, pendem em direção ao chão, onde o sangue dele se acumula em uma poça. Acabou.

– Louco… você é louco… servos não podem existir sem seu mestre.

– Errado, Arturia. Eu provei isso para Lucrécia e eu estou provando isso para você. Aquele que se arrogava “meu mestre” findou e mesmo assim eu estou intacto.

– Isso… isso é impossível!

– Lucrécia também disse isso. Então você tem uma opção. Continue servindo seu mestre ou lute comigo.

– Essa conversa está me entediando. Pelo poder do Primeiro Selo de Comando, Arturia, ataque Nestor!

Possessa, Arturia ataca Nestor com força, poder, velocidade e arte. Arturia foi cinco vezes campeã consecutiva nas Batalhas do Graal, mas inexplicavelmente não consegue os mesmos resultados em sua luta contra o Mercenário. Nestor tem inúmeras chances de quebrar o ataque, inúmeras brechas para romper a defesa, mas ele só se defende com um sorriso enigmático no rosto.

– Basta de brincadeira, Arturia! Pelo poder do Segundo Selo de Comando, use a Excalibur e desfira o ataque com seu Fantasma Heróico!

Arturia sente terríveis dores, no corpo e na alma. Ela não tem como resistir. Ela não consegue resistir. Com lágrimas nos olhos, ativa a Excalibur e desfere o poderoso ataque com seu Fantasma Heróico. Frações de segundo passam lentamente. Nestor não esquiva, não bloqueia, não reage. Ele abre os braços e aceita morrer pelas mãos de sua amada.

Todos da companhia começam a chorar ruidosamente. Essa deve ser a cena mais linda que eu não escrevi. No entanto, eu percebo que Lucrécia está com o mesmo sorriso enigmático no rosto.

Subitamente, Arturia remove um pedaço de papel [um roteiro!] em branco de algum receptáculo contido no peitoral de sua armadura. Digamos que seja um trunfo.

– Não pense, ó rei, nessa mentira: Que Tu deves Morrer: em verdade não morrerás, mas viverás.

Nestor ressuscita. Todos cessam o choro, ficam assombrados e Lucrécia começa a chorar.

– Ela fez. Eu achei que ela não teria coragem. Mas teve. Boa garota.

Quem morre é Emiya. Nestor consegue vencer a verdadeira batalha. E consegue o verdadeiro prêmio. Arturia leva Nestor embora, para fora da Batalha do Graal, para a Ilha de Avalon, onde viverão pela eternidade. O coitado do Astolfo tenta entender o que aconteceu ao mesmo tempo que tenta segurar a raiva, ciúme e inveja de Arturia.

– Que bobão. Escriba, avise o Astolfo que ele também pode viver conosco na Ilha de Avalon, se ele quiser. Todos os que vivem verdadeiramente, por Amor, estão morando nessa ilha.

Eu acho que posso fazer isso. Será uma boa e bela forma de encerrar minha benção e maldição como escriba. Sim, eu vou aposentar-me e viver em paz, pela eternidade, cercado daquelas que eu amo e sendo amado por elas.

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Fate/ Major Arcana – XVI

“Morrer; dormir; só isso. E com o sono – dizem – extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável. Morrer – dormir – dormir! Talvez sonhar.” [William Shakespeare – Hamlet]

Caro leitor [plateia/audiência – eventual ou ilusória] sabe distinguir o sonho do real? Perdoa-me por fazer pergunta tão enfadonha, mas não acorda sobressaltado com o sonho tão vívido que poderia jurar que foi real? Nisso consiste o todo da benção e maldição do escritor. Vive sonhando ou sonha vivendo. Nós vemos e ouvimos, coisas e seres, que seriam proibidos ou rechaçados pelo descrente. Falam contra a crença e a religião, mas atinge igualmente a arte, a literatura, a música, a poesia, o teatro. Então eu lanço novamente a pergunta: leitor, sabe distinguir o que existe do que não existe? Isso é problemático, pois vamos ao cinema ver filmes e mergulhamos em realidades alternativas. O que chamamos de “real” pode muito bem ser uma mera projeção, um holograma, resultado da conversão de energias em um determinado ponto espaço-tempo.

Então, quando eu desperto, eu primeiro tento me localizar. Eu estou em meu escritório e alcova, no multiverso, cercado de livros, papéis e textos. Eu ouço o leve ronronar ao meu lado e me deparo com Arturia dormindo sossegada, com um enorme sorriso de satisfação desenhado no rosto e com suas nádegas ainda cobertas com aquele líquido quente, pegajoso e esbranquiçado que costuma causar gravidez. Esta tem sido a minha “rotina” no multiverso desde que eu fui “contratado” pela Companhia de Teatro. Momentos assim me fazem querer largar tudo no Mundo Humano e me mudar para o multiverso.

– Hei, senhor escriba? Está decente?

Eu não tenho tempo de responder. Riley entra e fica encabulada coma cena que vê. Ela vira o rosto, entre ciumenta e invejosa, afinal, ela é uma das minhas visitantes que costumam vir para drenar meu sêmen.

– Hum… que horas são?

Arturia desperta e se levanta [ainda completamente nua] e se cobre assim que percebe a presença de Riley.

– N… não é nada do que está pensando, assistente de elenco… eu e o senhor escriba… somos apenas bons amigos.

– Não precisa se explicar, Arturia. Eu sei bem o que esse… animal… provoca em nós. Alexis, nossa diretora pediu para ver se está pronto o capítulo. Nós estamos cansados e temos seis [ou sete] capítulos a encenar.

Arturia encolheu-se mais debaixo do lençol [eu estou atrasado porque eu estava “ocupado” treinando a encenação com Arturia]. Eu devo admitir que eu estou trapaceando com o leitor [plateia/audiência], eu estou fazendo o mesmo que meus outros companheiros de ofício fazem – eu simplesmente reaproveito enormes trechos de outros textos para rechear a obra. Eu só tenho o trabalho de pegar os chumaços de páginas, ordenar de forma a fazer sentido e entrego para Riley.

– Bom… hã… assim que vocês estiverem limpos, vestidos e prontos, nós podemos rodar a encenação.

Riley sai de cena [sim, você está vendo uma cena] batendo a porta com estrondo, demonstrando estar chateada [eu nem quero ver o que ela faz quando está brava].

– Bom… hã… senhor escriba… eu agradeço as dicas e orientações. Eu tenho que ir embora para me preparar para encenar o capítulo 17. Nos veremos novamente.

Arturia toma banho, se arruma e sai caminhando de meu escritório/alcova com os gestos típicos de mulher. Sozinho [temporariamente] eu começo a dar risada por lembrar que Arturia teve outra encarnação como Joana D’Arc, algo que ficou sutilmente sugerido por Kinoku Naso na temporada Fate/Apocripha.

– Hei, escriba… pronto para a encenação do presente capítulo?

Descendo do teto [devidamente aberto por um providencial portal] eu recebo a visita de Venera Sama, estranhamente trajada [como se seu uniforme fosse algo normal].

– Algum problema, escriba?

– Eu estou tentando entender o que significa suas vestes.

– Você sabe que nós estamos próximos do MEU aniversário?

– Hã… sim… a festa que o ocidente chama de Páscoa/Easter.

– Precisamente. Mas sua gente não se decide como comemorar o meu aniversário. Chamam de equinócio de primavera ou de equinócio de outono. Para agradar aos meus inúmeros adoradores, eu estou com essa roupa que contém elementos de ambas as estações.

Venera Sama está linda e animada como sempre. Difícil manter o foco observando a Musa que me inspira em trajes tão sensuais.

– Contente-se e agradeça por eu ter vindo. Eu te darei ajuda neste capítulo. Eu trouxe a carta do tarô que rege esta encenação. Você consegue adivinhar qual é o arcano?

Eu devo dizer que Venera Sama é a razão de ser desse blog, da Sociedade Zvezda e da minha vida. Eu devo ter deixado pistas da “verdadeira” identidade de Venera Sama [Ishtar, Vênus, Afrodite, Lucifer, para os mais preguiçosos]. O nome da sociedade é “estrela” em russo. Portanto, este capítulo é regido pelo Arcano da Estrela.

Diante dos nossos olhos [meus e teus, leitor] o cenário do meu quarto/escritório/alcova é substituído pelas ásperas e duras pedras de granito que compõem a extensão dimensional de Stonehenge.

Na frente, aparece Astolfo, assustado e intrigado. Na direita estão Durak [minha outra manifestação] e Karen [que é a Riley, ainda chateada comigo pela forma como evita me olhar]. Na esquerda estão Nestor [também manifestação de meu espírito] e Alexander.

[Astolfo]- O… o que significa isso? Eu vejo três homens diferentes, mas compartilhando o mesmo espírito.

[Venera]- Não se irrite, garotinha. [protestos] Eu vou conduzir a cena. Não se preocupe com a Organização Caldéia ou a Vontade do Graal. Essa luta é o resumo da luta de todo ser humano. Nosso maior e mais perigoso inimigo somos nós mesmos. Eu irei decidir a luta final, pois eu sou a Deusa Benevolente. Eu sou aquela que é amada por Deuses e Homens, eu sou aquela que porta as Pedras do Poder e do Destino. Eu sou a Porta que se abre para a Terra da Juventude e eu sou a Taça de Vinho da Vida. Saibam que de mim todas as coisas vem e a mim todas as coisas retornam. Eu concedo a Vida ao mundo e eu lhes dou o Conhecimento. Eu lhes concedo a paz na morte e a reunião com aqueles que partiram antes. Eu me mostro branca como a lua porque pálida é a face da Morte. Eu me mostro escura como a noite porque a cor do Amor é negro. Vinde a mim, pois eu os conheço desde o princípio. Eu os gerei em meu próprio ventre e eu os receberei quando sua peregrinação neste mundo cessar.

[narrador/escriba, possuído]- Oh, Rainha do Firmamento! Quem poderá Vos conhecer por inteiro?

[Venera]- Ah… vocês mesmos. Eu os gerei. Vocês são todos meus filhos e filhas. Os descendentes conhecem e sabem quem são seus genitores. Sim, vocês podem entrar em meu mistério mais profundo e lá encontrarão o meu Amado, o Deus Verdadeiro, o Verdadeiro Criador, o Verdadeiro Senhor, o Antigo, o Deus das Florestas. Agradeçam a Ele, por terem nascido, por terem um mundo, por terem uma natureza, por terem um corpo. Ele, na forma do Touro, do Leão, da Águia, do Lobo, do Bode, o único que pode abrir meu ventre, arar a terra e fazer as plantas brotarem e os bichos procriarem. Ele é o Escolhido, o que garante a Fertilidade e a Fecundidade da Natureza. Sigam os sinais que Ele lhes deixou e ensinou, mas saibam, se aquilo que buscam não encontrarem dentro de vocês, jamais encontrarão fora de vocês.

[Astolfo, possuído]- Eu… eu não entendo… mas minha alma chora e canta. O que é isso que sentimos? Qual é o real sentido da Batalha do Graal?

[Venera]- Eu creio que a hora chegou. A humanidade receberá a Revelação. Inúmeros Deuses, heróis, reis e magos procuraram o Graal e o que dizem disso? Acreditam que o Graal é o Cálice onde Cristo derramou seu sangue. Buscam no Graal a Cura, a Vida Eterna, a Redenção. Esta é uma meia-verdade. Qual a forma do Graal? Dizem que é um cálice, uma tigela. Esta é uma meia-verdade. O Graal deve ser conhecido pelo seu nome: Sangue Real [que se corrompeu até tornar-se SanGraal]. O Graal deve ser visto pela sua forma: uma ânfora, ou melhor, meu ventre. O que tantos buscam e procuram é a herança que eu concedo pelo sangue. Originalmente, a realeza, a majestade, o sacerdócio, era passado por linhagem maternal… a MINHA linhagem, a linhagem transmitida desde a Deusa Serpente. Somente pode conceder Vida Eterna quem a tem. Somente pode conceder Poder quem o tem. Sim, isso vos foi dito, mas não souberam ouvir, então eu grito. Foi Cristo quem esteve no Eden para lhes conceder o Conhecimento. Foi Cristo quem tomou a forma de Serpente para os libertar. Foi Cristo quem lhes ensinou o Ofício [em suas inúmeras formas]. Foi Cristo quem lhes concedeu o Caminho. Cristo esteve entre vós na forma de Maha Maya, não de Sidarta Gautama. Cristo esteve entre vós na forma de Maria Magdala, não como Yheshua ben Yoseph. Cristo esteve entre vós na forma de Aisha binte Abu Baquir, não como Abul Alcacim Maomé ibne Abdalá ibne Abdal Mutalibe ibne Haxim. Eu voltei a conviver entre vós, como Aradia [ou outro nome], não como Charles Leland [ou Gerald Gardner]. Novamente, eu lhes dei o Conhecimento. O Conhecimento deve ser vivido e praticado. Seja mestre de si mesmo. Disciplina é Liberdade. O mundo não é o inimigo, o corpo não é o inimigo, o desejo e o prazer [sexual incluso] não são o inimigo, todas estas coisas são ferramentas que podem [e devem] ser usadas. Novamente, vocês estão deturpando o Conhecimento e causando ruína a vocês mesmos. Abandonai toda crença, religião ou espiritualidade. Quando o Conhecimento é restringido, manipulado, controlado, vocês se tornam prisioneiros de uma formula, de uma organização, de um grupo.

[narador/escriba, possuído]- Dizei-nos, Rainha do Firmamento, qual é o Caminho, a Vida e a Verdade?

[Venera]- Vinde e ouçam a minha voz que chama por suas almas, o Caminho que os conduz de volta para casa está bem diante de vós, na Natureza. Cantem, dancem, façam música e amor. Então reunam-se debaixo da lua cheia, vistam-se de céu, queimem incensos e façam bolos debaixo de minhas estrelas. Que haja entre vós beleza, força, poder, compaixão, honra, humildade, júbilo e reverência. Então vocês devem amar, pois saibam que todos os atos de amor e prazer são meus rituais. Amor é o Todo da Lei.

Fate/Major Arcana – XV

Eu sinto uma presença e me viro. Leila [que eu chamo de madame] está bem atrás de mim.

– Está perdido na trama, escriba?

– Eu creio que, nessa altura da trama, os leitores [eventuais ou ilusórios] devem ter sacado que eu estou enchendo linguiça. Esta peça tem 22 capítulos, cada qual regido por um arcano do tarô. Então eu tenho que tentar criar uma narrativa que possa ser compatível com o arcano do tarô.

– E precisa arremeter com alguma introdução para introduzir o leitor na trama. Vamos! Não seja acanhado! Vamos dar um espetáculo para os leitores!

Madame arranca suas roupas e as minhas. Satisfazer o apetite de minhas amigas por testosterona não é ruim, mas madame tem o hábito de morder, arranhar e arrancar pedaço. Eu tenho que memorizar cenas assim para o próximo conto.

– Ah! Escriba! Teu sangue e sêmen tem sabor delicioso como sempre. Agora que eu te nutri com inspiração, aguarde a visita do próximo espírito.

Como assim, “próximo espírito”? Eu estou em um cenário de Charles Dickens, em um Conto de Natal, devidamente designado como o Avarento Scrooge? Eu sou ranzinza [tanto que meu apelido na faculdade era “velhinho”], não avarento.

– Então é nessa espelunca de onde saem as obras da infâmia? Tu és aquele que dizem ser o escriba?

Um homem aparentando ter muitos séculos de vida, barbas e cabelos brancos, envolto em um pesada vestimenta e cuja face ocultada parcialmente por um capuz me observa com expressão com um misto de curiosidade e nojo. Eu me sinto acuado, pois este pode muito bem ser o Destino. O ancião levanta o lençol e avalia meu “talento”.

– Hum. Eu não vejo o que ou em que minha irmã, Fortuna, tanto compraz.

Bingo. Destino veio em minha alcova que eu chamo de escritório.

– Eu vim te fazer um favor, escriba. Esteja grato. Eu te ajudarei a conduzir o presente capítulo.

– Vais ditar-me o que escrever, Destino?

– Evidente. Eu sempre faço isso. O que deixa mais engraçado meu ofício é que sua gente acredita piamente no tal do “livre-arbítrio”. Muito bem, venha comigo e vamos desenrolar essa encenação.

Destino me arranca da cama, do meu lar, da minha cidade, do meu Estado, do meu País [e não é que é uma boa ideia?] e me carrega nas dobras de seu robe como se eu fosse um bicho de pelúcia. Eu vejo minha pessoa no estúdio, cercado com os funcionários da companhia de teatro, atores, cenários, mas parece que minha presença ocorre em um plano separado.

-Veja como um profissional faz, escriba.

Destino maneia os dedos e os personagens vão, mecanicamente, ocupando seus lugares. Levantando o dedo mindinho, Destino inicia a encenação.

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproximem-se, apresentem-se e identifiquem-se pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Destino solta um riso]- Será que eles sabem do que estão falando?

[escriba/narrador]- Eu tento mostrar aos humanos que estão adorando um Deus falso, um Cristo falso e estão perdidos em uma crença falsa.

[Destino]- Se está querendo me agradar, está perdendo seu tempo. Sigamos com a encenação.

[James Maddox]- Eu sou o Mestre que representa o Governo dos EUA e este é meu Servo, Caio Júlio César, classe Saber.

[Kiritsugu Emiya]- Eu sou o Mestre que representa os Cátaros, uma associação independente [chame de hereges, se quiser] que luta para que a humanidade conheça o Deus Verdadeiro e o Cristo Verdadeiro. Esta é minha Serva, Arturia Pendragon, [incorretamente chamada de Artur Pendragon, mas que para a lenda e a memória heroica, assimilou e aceitou ter seu sexo e gênero trocados], classe Saber.

[Destino solta um riso]- Será que eles sabem do que estão falando?

[escriba/narrador]- Não quer declamar, ó Fatalidade Inescapável, a quem nós devemos reconhecer como Deus?

Destino parece abalado e eu acho ver algo parecido com bochechas rosadas debaixo do véu. Fortuna havia me dito que Destino é apenas uma criança. Tudo aquilo que ele aparenta é apenas isso: disfarce.

[Destino]- Do… do que está falando, escriba? Eu sou Destino! Meu poder excede o das estrelas! Basta um capricho de minha Vontade para alterar toda essa baboseira que sua gente chama de História!

[escriba/narrador]- Nós estamos perdendo o fio da meada.

Destino volta seu foco para a encenação e eu acho que eu não terei uma revelação divina.

[César]- Mestre, nós temos que estabelecer uma excelente estratégia.

[James]- O que teme, Divino General? Nós lutamos e vencemos Alexandre o Grande!

[César]- Nós vencemos por pouco. Nossa vitória foi um presente de Vênus. Eu sinto um enorme espírito de luta nessa Serva. Eu tenho, por obrigação, de deixa-lo alerta, pois o resultado pode nos ser adverso.

[James]- Então se aposse de toda a energia vital que eu possuo. Perder não é uma opção, Divino General.

[Emiya]- O que acha de nosso desafiante, Rei dos Reis?

[Arturia]- Eu pressinto um antigo e poderoso espírito heroico. Uma sensação estranha… eu sinto que eu o conheci quando eu existi como humana.

[Emiya]- Oh… então nós teremos dificuldade em vencer?

[Arturia]- Não, Mestre. Eu fui cinco vezes campeã da Batalha do Graal. Não teremos dificuldade, empecilho ou aborrecimento algum em decidir essa luta.

[Destino]- O que acha, escriba? Cada lado está confiante de seu sucesso. Acreditam mesmo que são eles quem decidem o transcurso dos fatos. Agora veja, eu seguro uma carta em minha mão, o Arcano da Estrela. Eu, ativando esta carta, vou decidir o futuro dessas vidas. Eu faço isso sempre. Por isso sua gente me chama de Destino. De forma muito menor, você, ao escrever, faz o mesmo, ao combinar palavras em linhas… você determina e decide os rumos de seus personagens.

A confluência de explosões, sons, luzes e cores parecem pegar Destino de surpresa [opa]. Como um mecanismo acionado que movimenta-se por “vontade própria”, a encenação prossegue coma luta entre César e Arturia. Quando baixa a poeira, quem permanece em pé é Arturia. Eu tenho sangramento nasal, pois o corpo de Arturia é facilmente avistável, pela condição em que suas roupas se encontram.

[César]- Mestre… eu falhei.

[James]- Não, Divino General, eu sou culpado. Eu não tive força suficiente.

[César]- Lamento, Mestre. Eu desejei que nossas vidas pudessem coexistir juntas, tais como Alexandre e Hefáistos convivem, nos Campos Elíseos.

[James]- Cale a boca e me abrace, César. Eu quero ir até o barqueiro Caronte contigo ao meu lado.

[Destino]- Não! Como? Isso não é possível! Eu estava no controle! Eu tenho a carta na mão!

Eu cubro o corpo nu de Arturia e tento consolar Destino.

[escriba/narrador]- Fatalidade Inescapável… a carta… em Vossas mãos…

[Destino]- Hm? O que tem a carta?

Destino arregala os olhos e profere palavras que eu não ouso repetir. Eu sinto o perfume inconfundível de Fortuna. A carta que Destino segura em suas mãos é o Arcano da Morte. Sim, o mensageiro que Destino nos envia no momento preciso, que nós tanto tememos e tentamos evitar, não é ruim nem uma ameaça. Morte não é o fim, é um estado, uma circunstância, uma passagem. Coisas precisam morrer para que coisas possam [re]nascer.

[Astolfo]- Eu decreto que o Mestre representante do Governo dos EUA está derrotado e eu decreto a vitória do Mestre representante dos Cátaros.

Todos me encaram assustados e surpresos. Eu havia coberto Arturia, então ela percebeu minha presença primeiro, mas os demais me fitavam, pois eu “apareci” do nada em meio ao estúdio e da encenação.

[Arturia]- O… obrigada… eu acho… que você é o escriba… certo?

[escriba/narrador]- Sim, Rei dos Reis. Eu estou ao seu serviço.

[Arturia]- Não cometa tamanha heresia e blasfêmia. Eu sou serva de Deus, nós devemos servir apenas a Deus.

[escriba/narrador]- Mesmo servos devem ser servidos. Se não for de vosso desagrado, Rei dos Reis, aceite minha vassalagem.

[Arturia]- P… pare com isso… está me constrangendo… não fique de joelhos diante de mim, uma mera Serva. Eu não posso aceitar sua vassalagem… senão… como ficará a narrativa?

[escriba/narrador]- Que se dane a narrativa. Minha existência nesta encenação, tripartida, só tem um único objetivo: amar-te.

Arturia se vê envolvida em braços, abraços e perde o fôlego com meu beijo. Eu acho que eu vou interromper para poder treinar um pouco com ela as cenas de sexo explícito que nós teremos.

Fate/Major Arcana – XIV

Eu sinto algo pesando e eu tenho dificuldades de respirar. Eu acordo assustado e me deparo com a Deusa Fortuna me cavalgando.

– Ah… você acordou. Eu sinto que você está perdido, escriba. Meu irmãozinho [Destino] está contrariado com sua incapacidade em seguir os desígnios dele. Lembre-se, você tem 22 capítulos, um para cada arcano do tarô.

Toda vez que eu tenho ereção matinal acontece isso. Fortuna [ou outra Deusa] vem, sobe em mim e me cavalga até conseguir a oferenda na forma do líquido quente, viscoso e branco que sai de minha extensão. Fortuna vira os olhos quando atinge o orgasmo e eu [coitadinho de mim] morro dentro dela.

– Francamente, escriba! Eu ainda me espanto com sua gentil e farta oferenda. Eu me espanto por não ver as fêmeas humanas aproveitando de seu talento. Vamos! Venha comigo! Vamos desenrolar o presente capitulo!

Fortuna salta e se põe em pé rapidamente. Ela parece apressada e segue [completamente nua] pelo caminho que traçou, ainda com meu sêmen escorrendo de suas coxas grossas. Eu não sei quanto ao dileto [eventual ou ilusório] leitor, mas andar e correr completamente nu no meio da multidão deve fazer parte dos pesadelos de muitos humanos. Quando eu leio [do meu jeito] o mitologema [comédia e tragédia] do Eden [a Queda da Humanidade], eu aponto o casuísmo de que Deus [Jeová] mentiu quando afirmou que o Casal primordial morreria se comesse o Fruto do Conhecimento [dado pela Serpente – uma cena que remete a um mistério iniciático], mas o “pecado” mesmo não foi comer o fruto [nem o de tentar empurrar a responsabilidade para outro], o verdadeiro pecado consistiu em ter vergonha da nudez [normal, natural e saudável] e começar a usar roupas. Mas isso eu deixo para outra ocasião. [Eu tenho outros textos que resvalam no assunto e eu tenho uma ideia de livro – que morreu ao nascer – abordando os aspectos do Cristianismo
como Religião de Mistérios].

Fortuna se detém em meio ao cenário que a companhia de teatro montou, onde nós temos sediado as encenações simulando Stonehenge [e os megalíticos]. Alexis [com Zoltar, evidente] e Miralia [nossa “filha”] estão com os problemas de sempre, com a equipe de luz, de efeitos e de som. Nós chegamos no momento em que os atores/personagens estão lendo e ensaiando este capítulo que você [leitor] está lendo. Será que Fortuna quer conduzir uma live action?

– Ah! Nossa! Então é isso que vocês chamam de teatro?

Fortuna saltita de um lado a outro, olhando cada parte do palco, as cortinas, os cenários, os elementos de cena. Ela faz questão de cumprimentar cada um dos funcionários da companhia e atores. Riley [Karen]não para de ficar me encarando [e comparando com minhas outras “manifestações” dentro da encenação] e Miralia fica enrubescida.

– Eu gostaria de assistir a encenação. Eu prometo que não vou atrapalhar nem interferir.

Alexis e Miralia não acreditam no que Fortuna lhes promete e Zoltar acena vigorosamente com os braços, como se estivesse cortando com as mãos algo invisível.

– Muito bem, pessoal, vamos prosseguir. Nós estamos atrasados. Vamos seguir com o roteiro. [Inclusive isso tudo que você leu até agora é parte do roteiro – pegadinha do Mallandro].

– Todos em suas posições! Luzes! Câmeras! Ação!

Lucrécia e Bonifácio perambulam entre o cenário [feito de papier machê], fazendo caras e bocas, como se estivessem perdidos no meio do labirinto que o Graal gerou em Stonehenge.

[Lucrécia]- Pelo Impronunciável e Santo Nome de Deus! Eu estou exausta! Quando que nós vamos chegar na próxima arena?

[Bonifácio]- Nós podemos aproveitar para conversar sobre esse seu vício por sexo. Como uma devotada e fiel serva de Deus, sabe que isso desagrada a Deus.

[Lucrécia]- Vossa Santidade me perdoe por minha ousadia, mas eu discordo. A primeira lei que Deus nos deu foi: crescei-vos e multiplicai-vos.

[Bonifácio]- Minha gentil criança, Adão e Eva estavam, para todos os fins, comprometidos e casados um com outro.

[Lucrécia, abafando o riso]- Vossa Santidade, eu espero que não esteja fazendo o mesmo que os seguidores de Lutero e interpretando o texto sagrado literalmente. Adão e Eva não estavam casados [e nem precisavam disso]. Quando Adão viu Eva, ele disse: agora sim, desta vez, esta é sangue de meu sangue. Então teve outra… ou outras. Eva foi o “consolo” que Deus deu a Adão para esquecer-se da verdadeira [e primeira] mulher.

[Bonifácio, começando a ficar confuso]- Bom… isso não é de conhecimento público e nem é admitido pela Igreja, mas mesmo assim isso aconteceu antes do Pecado Original e da Expulsão do Casal Primordial do Eden.

[Lucrécia, rindo indiscretamente]- Que, convenhamos, não é nada original. Vossa Santidade não acredita que nossos Patriarcas foram expulsos do Paraíso porque comeram o Fruto do Conhecimento [algo que , por sinal, foi criado e colocado no
Eden por Deus]?

[Bonifácio, tentando desviar do assunto]- Bom… hã… é isso o que ensinamos.

[Lucrécia, indisposta e decepcionada]- Eu não me incomodo que a Igreja assim o faça com o populacho ignorante. Essa gentalha precisa e depende que alguém os domine, os conduza, os submeta. Mas Vossa Santidade está me ofendendo com isso. Como espera me convencer de algo se não tem bases para seu sermão?

[Bonifácio, desesperado]- Lucrécia… nós não podemos revelar…

[Lucrécia, gritando, furiosa e irritada]- Por Deus! Sim, nós podemos! Eu fui amaldiçoada, perseguida e até presa porque a Igreja que eu defendi e protegi ainda não admite nem aceita falar a Verdade! O verdadeiro pecado não foi comer o Fruto do Conhecimento, mas o de não confessar a responsabilidade e, pior, tentar atribuir a culpa a outro! Sim, vergonha é a marca do pecado, vergonha que é bem sinalizada quando nossos Patriarcas tiveram consciência de que estavam em seu estado normal, natural e saudável [nudez] e se cobriram com roupas! Forma expulsos porque adquiriram o Conhecimento naquele momento, não antes, porque seriam culpados e condenados por um ato que sequer tinham consciência das consequências? Foram expulsos pelo Jardineiro [Jeová], não por Deus! O maior mentiroso é Jeová, que se vangloriou e se arrogou a posição que cabia somente a Deus! Sim, Jeová mentiu, pois nossos Patriarcas comeram do Fruto do Conhecimento e não morreram! Foram expulsos por que Jeová sabia que, se comessem do Fruto da Vida Eterna, tornar-se-iam Deuses como ele! Então nós deveríamos agradecer a Serpente, aquela que é verdadeiramente amiga da humanidade e colaboradora para os planos de Deus!

[Bonifácio, aterrorizado]- Lucrécia! Por Deus! A Igreja está falida, mas não faltam esses, o populacho ignorante que, convencido pela doutrina, podem nos prender, torturar e matar por heresia.

[Lucrécia, roxa de raiva]- Ah! E quem são os responsáveis? A Igreja! E ainda querem dar sermões de moral?

[Bonifácio, enxugando a testa, tentando conter o nervosismo]- Lucrécia, a Igreja não teve outra opção, o mundo estava perdido em religiões pagãs, heresias e inúmeros pecados.

[Lucrécia, respirando fundo e tentando se acalmar]- Isso também é algo a ser esclarecido. A Igreja nasceu e surgiu graças a estas inúmeras religiões pagãs. O erro da Igreja foi quando se afastou da mensagem de Cristo e criou uma religião organizada na qual ela convenientemente se pôs como única e legítima representante. A bem da verdade, a Igreja é uma heresia que deu certo e foi bem sucedida porque valeu-se do poder e das armas concedidas pelo Império Romano. Não foi de estranhar que muitas vertentes do Povo do Caminho rejeitaram e romperam com a Igreja após o Concílio de Nicéia. Não foi de estranhar que inúmeras “heresias” inevitavelmente surgiram e foram combatidas por essa Ditadura Eclesiástica. Quando uma instituição religiosa usa da força e do medo para conquistar o poder político e social, esta admite que não seja legítima representante de Deus.

[Bonifácio, torcendo o lenço, empapado de suor]- Mas o pecado… o pecado é real. Você deve ser capaz de reconhecer seu pecado, Lucrécia, para poder pedir perdão a Deus.

[Lucrécia, mais calma, pensativa]- Hum… pecado. Eu não posso negar que, por nossa condição carnal, nós cometemos atos que constituem uma falha, diante de Deus. Mas Deus não nos condena nem nos amaldiçoa. Somos nós que percebemos, por essa noção de certo e de errado, de Bem e de Mal, que está em nossa natureza, que certas ações causam dano a nós, ao nosso próximo e à comunidade. A maldade [assim como a bondade] está em nosso coração. A piedade [assim como a compaixão e penitência] então depende que nós tenhamos consciência de nossos atos, aceitemos a responsabilidade e procuremos [individualmente] por compensar a Deus, ao próximo e à comunidade por esta falha que cometemos.

[Bonifácio, rindo amarelo]- Precisamente, Lucrécia. Há de convir que os momentos em que você viveu enquanto humana foram repletos de atos criminosos. Quantos você matou com suas Artes Negras?

[Lucrécia, fazendo pose de inocência]- Euzinha? Ora, Vossa Santidade sabe da minha história. Eu fiz o que fiz para defender a Igreja… e a meu pai, o Papa Alexandre VI. Eu fui uma mera serva e ferramenta de Deus… assassina, sem dúvida, mas por ordem de Deus, tal como inúmeros padres o foram. E eu aprendi minha Arte Negra [Veneficium – algo pouco comentado e admitido por estes que alegam serem bruxos e sacerdotes da Velha Religião] com a Igreja.

[Bonifácio, voltando a ficar nervoso]- Bom, eu vou deixar isso para depois, afinal sua habilidade é necessária para as batalhas. Mas… e quanto ao seu vício de sexo?

[Lucrécia, provocativa]- Eu não acho que Deus considere minha diversão como pecado. Como poderia? Afinal, os grandes Patriarcas não tiveram inúmeras cortesãs? Quantos reis e até Papas não tiveram verdadeiros haréns? Por que euzinha não posso me divertir? Só porque eu sou mulher e devo, como reza o catecismo, ser submissa ao homem? Mas eu só fiz isso, Vossa Santidade, exatamente porque eu acatei com o papel que me cabia! Eu não tenho culpa que Deus tenha me feito assim tão… gostosa, apetitosa, deliciosa.

[Bonifácio, tentando não ficar excitado com a provocação de Lucrécia]- Mesmo assim, Lucrécia. Deus instituiu o matrimônio. O que você faz é… promiscuidade.

[Lucrécia abre o decote e levanta a barra da saia]-Ah! Sim! Eu sou! Porque Deus me criou assim! Bendito seja Deus! Eu sou só uma puta bem vulgar que Deus colocou no mundo unicamente para satisfazer os desejos do homem!

[Bonifácio, envergonhado e excitado]- Por Deus, Lucrécia! Não profira o Santo Nome em vão!

[Lucrécia, voltando ao modo recatado – para o desespero e protesto da plateia masculina]- Seja justo, Vossa Santidade… mesmo o Sumo Pontífice não consegue manter a postura diante da glória de Deus que meu corpo reflete. Pessoas se unem desde que o mundo é mundo, sem precisar de leis, governos ou sacerdotes. Mas a Igreja, o Estado e a Sociedade dependem para que haja um sistema onde as pessoas possam ser controladas. Essas regras que Vossa Santidade trata com tanto zelo… matrimônio, casamento, fidelidade, monogamia… são apenas isso, regras que existem para reprimir e oprimir o populacho, regras que vocês acreditam condicionar, limitar e controlar as pessoas através do corpo… não, Vossa Santidade, ninguém pode controlar nossos corpos senão nós mesmos. Nosso corpo vai sempre encontrar meios de seguir a Lei Natural e aqui, amor, desejo e prazer, não possui regras, limites e condições, somente dois corpos que se atraem mutuamente.

[diretora de cena]-Corta! Equipe de cenário, toca de cena! Equipe de luz e som! A postos! Equipe de contrarregra pronta? Muito bem, equipe de encenação, vamos para a segunda cena. Hei… quem deixou essa carta na mesa de mixagem? Oquei, quem foi o engraçadinho que deixou o Arcano da Imperatriz aqui? [luz vermelha, sirene] Ah, tanto faz. Nós estamos atrasados. Luzes! Câmera! Claquete! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproxime-se, mostrem-se e identifiquem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Kayneth Archibald]- Eu sou o Mestre que veio representar a Sociedade da Torre do Relógio. Muito embora nós sejamos parte da Associação de Magos, nossa Sociedade acredita que nós devemos nos tornar uma associação livre e independente. Este é o meu Servo, Ulisses, classe Raider.

[Bonifácio Cantebury]-Eu sou o Mestre que está aqui para representar a Santa Igreja. Eu fui conhecido como Papa Dionísio II e esta é minha Serva, Lucrécia, classe Assassin.

[eu corto a sequência desnecessária de coreografia imitando uma luta].

Lucrécia começa a ficar cansada. Ulisses aparentemente só se esquiva de seus ataques, usando odres contendo óleo aromático que espalham por ambos. Isso não é bom sinal, nenhuma de suas emulsões está funcionando como costumam e ela não consegue atingir o Mestre do Servo.

[Ulisses]- Grato pela dança, criança. Mas agora está no momento de lutar a sério. Não tome isso como algo pessoal, mas eu vou acabar com essa luta com um único golpe.

Ulisses arremete Lucrécia contra as pilastras laterais [granito, lembra?]. Pelo roteiro, os pecados de Lucrécia e a proteção de Deus faz com que ela crie uma cratera no local onde se chocou e fique presa. Close na Lucrécia. Expressão de medo, arrependimento e incerteza. Ulisses salta com uma lança em mãos, pronto para o golpe final e Lucrécia só consegue encarar o emissário da morte acenando para ela. Naquilo que ela acredita ser seus últimos segundos ainda viva, Lucrécia entende [revelação
divina] que os óleos aromáticos neutralizaram todos os seus venenos. Em luta mano-a-mano, Lucrécia não possui nem arma nem técnica suficiente para enfrentar o grande Ulisses. Lucrécia sente a mesma sensação que suas vítima provavelmente sentiram: de estar indefeso, imóvel e incapaz de reagir. Lucrécia fecha os olhos, pronta para sentir o aguilhão, torcendo para que não doa muito, para que a passagem seja rápida e que ela sinta o mesmo prazer que o êxtase e a morte trazem.

Algo brilha, passa uma sombra, um vulto, algo indefinível e inaudito, surgindo de algum lugar do meio das trevas, pula, se joga e intercepta Ulisses em pleno voo, choque este forte o suficiente para causar um enorme estrondo e o som de pedras rachando em algum ponto na lateral da arena [granito, lembra?]. Intrigada e curiosa, Lucrécia consegue sair de seu casulo [de granito, abalado pelo choque] e olha para onde parte da parede e pilastras estão acumuladas, em ruínas. Parece impossível que algo [ou alguém] possa sobreviver a isso, mas algo [alguém] sai do meio das ruinas.

[Nestor]- Você está bem, princesa?

[Lucrécia]-M… mercenário? Por que você fez isso?

[Nestor]-Perdoe-me por mostrar-te isso… [aponta para o corpo morto do Bonifácio].

[Lucrécia]- M… mas… como? Eu deveria ter desaparecido!

[Nestor]- Eu vou te pedir que confie em mim, princesa. Eu vou libertar todos nós dessa escravidão. Nós, Servos, podemos continuar a viver, mesmo sem Mestres.

[Lucrécia]- C… como… isso pode ser feito?

[Nestor]- Amor, Lucrécia. Astolfo continuou vivo mesmo quando Sigfrid virou dragão graças ao amor. Você vai continuar viva porque eu te salvei por amor.

[Lucrécia]-A…amo[unf] [diálogo interrompido por um tórrido beijo]. E… espere… meus venenos…

[Nestor]- Eu sou naturalmente imune a todo tipo de veneno, Lucrécia. Eu só não resisto a teus lábios e teu corpo.

[eu também vou poupar o leitor de uma sequência desnecessária de sexo explicito].

[Astolfo, irritado, contrariado e ciumento]- O… o Servo e Mestre da Sociedade da Torre foram derrotados! Eu decreto a vitória da Serva Lucrécia, classe Assassin. No entanto, pelas regras, você não pode continuar na Batalha do Graal, Lucrécia, pois não tem mais Mestre.

[Nestor]- Seja uma boa menina e leve sua irmã para a central da Ordem Caldéia, Astolfo. Assim eu posso voltar para vocês duas, sãs e salvas.

Astolfo protesta, faz birra, faz cena de ciúme, mas tem que concordar. Pela regra, quem não está na luta é observador/a e deve ficar na central da Ordem Caldéia.

Fate/Major Arcana – XIII

Gentil leitor/audiência/plateia, eu lamento por voltar para a mesma cena. Eu fui instado a fazê-lo pela produção que percebeu, tardiamente, a falha no encerramento da cena e eu abandonei os personagens na encenação. Eu saio correndo, com as calças na mão [Fortuna está viciada em receber injeção de testosterona], direto ao estúdio, onde eu encontrei [Karen] andando de um lado a outro, como se procurasse algo, enquanto Cure Black e Durak dormiam placidamente no solo.

Súbito, de dentre as duras pedras que compõem os megalíticos, abre-se uma claraboia de onde se projeta, desequilibrado, o corpo do árbitro, que reclama e se dói de dores nos quartos pelo choque com o granito.

[Astolfo]- Ai, meu precioso traseiro. O que aconteceu? O que eu perdi?

[narrador]- Não estava presente na cena? Eu fiz as Pretty Cure lutarem com Karen e Durak, para conseguirem passar na prova de classificação para a Batalha do Graal.

[Astolfo, com dedo em riste diante do meu nariz]- Bem, eu creio que este é o SEU trabalho, escriba. Eu não posso estar presente [nem testemunhar a cena] se VOCÊ não me coloca na encenação.

[Karen, decepcionada e indignada]- E agora? Nós tivemos tanto trabalho para encenar essa luta… por nada?

[Cure Black, acordando]- Eu não diria isso. Eu posso falar com as Pretty Cure e nós podemos reprisar as cenas filmadas.

[Durak, se recompondo]- Eu posso falar com a Sociedade Zvezda. Venera Sama pode dar o testemunho necessário. Certamente a Organização Caldéia terá que aceitar a palavra de Venera Sama.

[Astolfo, visivelmente contrariado e irritado]- E eu? Fico como? Esse arremedo não vai consertar o fato de que eu não estava presente. Pelas regras, a luta não valeu. Não deveria sequer ter começado sem que eu estivesse presente.

[Cure Black, cobrindo-se com seu uniforme]- Pelas regras, ninguém viu o que aconteceu. Somente nós cinco estamos cientes do fato. Então nosso relatório é que valerá. Pelas regras, se nós dizemos que você estava aqui e testemunhou a luta, ela foi válida.

[Durak, rodeando o árbitro]- E eu posso cuidar para que você tenha participação mais destacada na encenação, Astolfo. Aliás… onde você estava que não estava por perto?

[Astolfo, perdendo a pose, ficando envergonhado e tentando trocar de assunto]- Eu? Hã… por que pergunta? Eu… estava decorando e treinando minhas falas e encenação.

[Karen, examinando mais de perto]- Hum… sua expressão [e cheiro] indicam que você estava muito ocupado [e provavelmente se divertindo].

[Astolfo, visivelmente encabulado]- He… hei… eu sou apenas um dos atores e personagens. O responsável aqui é o escriba, lembra?

[Karen, dando de ombros e encerrando a pendência]- Está claro que a responsabilidade é do escriba. Nós somos os atores e personagens da encenação. Então vamos voltar ao que realmente interessa e seguir esse teatro. Pode prosseguir, narrador?

Os demais atores/personagens riem efusivamente [exceto Astolfo, ainda irritado e contrariado]. Para encerrar devidamente o capitulo desastroso, eu delineio o discurso do árbitro.

[Astolfo]- Eh… eeeeh… ahem… Equipe Pretty Cure está declarada derrotada. Vitória da Equipe da ONU. A Equipe da ONU pode prosseguir para a próxima arena, onde irá enfrentar outro desafiante.

[Cure Black]- Eu tenho que voltar agora, Durak. Boa sorte, meu querido e muito amado.[beijo]

[Durak, retribuindo o beijo]- Eu voltarei a te ver em breve, Nagisa chan. Eu voltarei com o troféu dessa disputa, pode acreditar.

[Astolfo, voltando ao normal]- Hei, antes disso trate de cumprir a promessa que me fez.

[Durak, piscando de forma provocativa]- Claro, Astolfo. Você pode segurar essa carta e mostra-la ao final dessa encenação. Isso vai definir a próxima cena de luta.

Durak e [Karen] somem dentro dos corredores formados nas entranhas dos megalíticos. Astolfo, intrigado e curioso, olha a carta e então muda sua expressão para medo e espanto. Em suas mãos trêmulas, o conteúdo do envelope é o que rege este capítulo: vede, pois eis o Arcano do Diabo. Agora, se o árbitro nos escusar, cumpre-me pagar por minha dívida, passando para o próximo cenário. Está pronto, Astolfo?

[Astolfo, tentando entrar no clima da cena] – Eehhh… desafiantes da Batalha do Graal, adiantem-se, apresentem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus.

[Rolando]- Vamos acabar com essa farsa. Isso acaba aqui e agora. Eu sou Rolando, o maior cavaleiro e paladino de Carlos Magno.

[Astolfo]- Ro… ro… Rolando?

[Rolando]- A Organização Caldéia também tem seus superiores, Astolfo. Nós, da Grande Ordem dos Merovíngeos, legítimos portadores da Linhagem do Graal, viemos acabar com esse erro.

[Astolfo]- Ma… mas… como… por quê?

[Rolando]- Isso está bastante óbvio, Astolfo. Isto [apontando o mercenário] é razão suficiente.

[Mercenário]- Isto tem nome, bonequinha bonitinha. Só o Grande Graal pode encerrar uma Batalha do Graal depois de iniciada. Se quiserem que a Batalha acabe, devem entrar em luta e ganhar o embate. Qual das bonecas vai querer lutar comigo?

[Rolando]- Besta inominável! Irá se arrepender de tamanha ousadia e ofensa! Pela Grande Ordem dos Merovíngeos, Mestre Tokiomi Tohsaka, Servo Gilgamesh, classe Archer, erradique esse erro que envergonha o Graal!

[Gilgamesh]- Até que enfim. Vamos, Mestre. Eu enfrentei e ganhei a Terceira Batalha do Graal. Isso vai ser um passeio.

[Alexander sussurrando]- Nós vamos lutar contra Gilgamesh!

[Mercenário respondendo]- Eu esperava por isso, Mestre. Olhe, aguarde e observe de um lugar seguro. Vencer Gilgamesh é necessário se eu quero rever a Dama da Lua. Eu não gosto de fazer isso, mas eu terei que evocar uma de minhas outras formas. Mas antes… Astolfo… se eu vencer esse embate, eu irei querer meu prêmio por te libertar desse falso líder [enrosca o braço na cintura de Astolfo].

[Astolfo, fingindo resistir, mas no fundo gostando]- Me… me… me… Mercenário! Eu sou o árbitro e exijo respeito! Desafiantes! Em suas posições!

[Gilgamesh]- Ultimas palavras, Fera? Eu te mandarei tão rápido para o barqueiro Caronte que até Hércules ficará para trás!

[Mercenário]- Sim, garotinho prepotente, arrogante e presunçoso. Você acha mesmo que tem algum poder? Então vejamos como se sai contra um Deus de verdade. Ouça e venha, oh minha memória divina, assuma sua forma como Marduk.

Gilgamesh sente medo, algo que ele acreditava ser impossível. O mundo ocidental conhece as façanhas de Hércules, mas há tempos esqueceu que ele foi chamado de Heracles, Mehercle, Merodaque, Marduk. Até a Epopéia Enuma Elish é uma pálida imitação dos atos, feitos e poderes de Marduk, o Deus que desafiou e venceu a temível Tiamat!

[Tokiomi]- O que aconteceu, Gilgamesh? Adiante! Avance! Ataque!

[Gilgamesh]- N… não dá… ele… é Marduk!

Mesmo como todo o poder que Gilgamesh tinha [mesmo ativando o Fantasma Nobre], Marduk tinha muito mais poder em um único dedo. O ataque mais forte de Gilgamesh [Portões da Babilônia] é como pirotecnia barata.

[Mercenário]- Você deve conhecer este ataque, Gilgamesh. Outros Deuses me imitaram. Zeus, Apolo… você me imitou. Este é o poder que me foi conferido pelo Grande Anu. O Arpão da Luz. Você vai sentir, por alguns segundos, enquanto seu corpo aguentar, até ser extinto, o mesmo poder que eu usei para atingir e matar Tiamat. Lamento, Gilgamesh, mas estava na hora de você aprender sua lição e perceber onde é o seu devido lugar.

Algo refulge na ponta do dedo de Marduk. Sim, Zeus, Apolo [e eu diria até Thor] manejaram [com dificuldade] uma pequena parcela desse poder quando precisaram, para vencerem as formas da Antiga Deusa Serpente. Grosseiramente comparado a relâmpagos e trovões, o Arpão de Luz são raios de sol direcionados. Cada uma daquelas “setas” [ou lanças] são como milhares de mísseis atômicos que irrompem como estrelas [e podem, inclusive, matar estrelas]. Cinco segundos depois, os megalíticos estão mais uma vez em brasas. Dos presentes, miraculosamente somente os adversários foram vaporizados, nada acontecendo com Alexander ou Astolfo.

[Astolfo]- E… eu ainda estou vivo? M… muito bem… os representantes da Grande Ordem dos Merovíngeos estão declarados derrotados! Os representantes da Coroa Britânica são os vencedores e podem prosseguir para a próxima arena…

[Mercenário, rodeando Astolfo]- Antes disso, Fonfon… meu prêmio.

[Astolfo, fingindo resistir, mas no fundo gostando]- O… o que é isso, Mercenário? O que você acha que está fa… unf [discurso interrompido por um beijo apaixonado].

[Mercenário]- Vamos lá, Fonfon, como nós “ensaiamos” antes, mas desta vez é para valer.

[Astolfo, prestes a sucumbir]- N… não… não é apropriado… eu sou [unf] o árbitro… eu… nós… não podemos… [os olhos de Astolfo formam dois corações rosados]… eu sou menino…

[Mercenário]- Quando duas pessoas se gostam, se querem, não existem fronteiras, limites ou regras. Seu corpo pode ter a configuração de um menino, mas sua identidade é de menina que gosta de meninos. Sua condição nunca te impediu de amar, Astolfo.

Astolfo tenta falar, responder, resistir, mas seu corpo está completamente entregue. Sua mente mergulha profundamente na sensação divina do êxtase enquanto sua consciência se dissipa quando Astolfo tem seus rins recheados com o tronco do mercenário que investe, firme e ritmicamente, tal como aríete contra os portões do castelo.