Fate/Major Arcana – IX

Quem souber, calcule, pois o numero e o nome da Deusa é Nove. Nove é o Arcano do Ermitão. Esta é a carta que rege o presente capítulo. A figura mostra um homem [aparentemente velho] com as feições ocultas por um capuz, um cajado na mão esquerda e uma candeia na mão direita, prestes a entrar em uma caverna ou labirinto. Este é o Arcano que rege a vida do Buscador. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Dizem que o rei Minos ordenou a Dédalo que construísse o maior e melhor labirinto debaixo de seu palácio situado em Cnossos. Dizem também que ali o rei Minos escondeu Astério, o Filho de Zeus com Europa [e seu irmão]. Dizem que Teseu foi escolhido para entrar no labirinto e matar a Besta. Tal é a vida, intrincado labirinto sem paredes, nossos atos definem o nosso destino e a fortuna daqueles que nos são próximos.

O sábio diz que a civilização humana é construída sobre os ossos de inúmeros sacrifícios humanos. As eras passam e das antigas civilizações sobraram ruínas, no final o destino dos grandes se equipara aos comuns. Ninguém está isento do poder do Destino e da Fortuna. Eu, pobre narrador/escriba, prefiro enlouquecer olhando as generosas formas da Deusa Fortuna. Ela vem e sopra em minhas orelhas: escreva.

Alexander tenta seguir o mercenário através dos incontáveis pilares, magicamente estendidos e interligados, formando um complexo desenho geométrico. Nestor segue o cheiro, doce e convidativo, do sangue prometido ser derramado em batalha. Por vezes, Alexander dá-se por perdido, é recuperado, volta a tentar acompanhar seu Servo através de enigmáticos corredores que, por cuja superfície granítica, ficam completamente indistintos.

– Por Deus… isso não acaba nunca?

– Coragem, Mestre. Nós estamos perto.

Um puxão [ou empurrão, como queiram] e presto. Mestre e Servo chegam na enorme clareira em forma de arena, cercada por monólitos maiores do que o Empire States Building. Na direção oposta, aguardando-os dois homens da Igreja. Kirei e Risei Kotomine. Na direção transversal, aparece o árbitro [Ruler] Astolfo de GrandRose.

– Parabéns, Mestres e Servos. Vocês são os dois primeiros times que alcançam o ponto de convergência. Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldeia e por Deus, eu irei testemunhar e decidir o resultado desta batalha. Os desafiantes tem alguma pergunta?

– Eu. Se eu entendi as regras, somente é um Mestre para um Servo. Mas eu vejo dois Mestres.

– Eu concordo, senhor Alexander. Não tenha medo ou receio. Esta batalha será travada apenas por meu pai, Risei Kotomine. Agora responda a minha questão. Quem é seu Servo e qual a classe dele?

– O desafiante da Inglaterra pode responder.

– Este é meu Servo. Ele foi conhecido como Nestor Ornellas e ele é da classe Mercenário.

– Eu vos saúdo, homens da Igreja. Eu considero bom augúrio enfrentar um Servo ordenado pela Igreja. Minhas mãos mandaram muitos das almas dos seus de volta para Deus.

– Classe Mercenário? Eu nunca ouvi falar dessa classe em nenhuma outra Batalha do Graal. Eu peço explicações, árbitro.

– E… eeehhh… isso foi discutido, solucionado e acertado. Como árbitro designado eu tenho a autorização da Organização Caldéia e de Deus para inscrever os desafiantes escolhidos pelo próprio Graal.

– Em breve isso não fará diferença alguma. Meu pai, apresente o Servo com o qual nós seremos os campeões desse torneio.

– Com prazer. Senhores, ouçam, estremeçam e orem para que Deus acolha suas pobres almas. Ouçam bem o nome do meu Servo, para que possam dar conta ao barqueiro Caronte. Ele foi conhecido como Charles de Batz-Castelmore, conde de Artagnan, da classe Saber [esgrimista].

[mercenário bate palmas]- Oh, sim, muito propício e conveniente. Houve uma época em que eu lutei pelo rei da França, mas não por esta coroa, mas sim pelo apelo que me foi feito pela Dama da Lua. Eu poderei, ainda que parcialmente, vingar nesse garoto por toda traição que eu e a Dama da Lua sofremos em nome da Coroa Francesa.

[conde expressa desprezo]- Meu pobre homem, deve ser tão insignificante que seu nome não é conhecido nem citado nas lendas. A despeito de sua prepotência e arrogância, meu caráter nobre e honrado irá exterminar a causa de suas dores sem sofrimento.

[mercenário acende o espirito de luta]- Ah, janotinha… você é igual a centenas de milhares de heróis que eu fiz implorar por suas vidas. O bom soldado faz o que deve ser feito, sem almejar por honras e glórias efêmeras, pois minha existência consiste em servir ao Altíssimo.

– Eeehhh… muito bem, senhores… as apresentações [e provocações] foram feitas. Fiquem em suas posições… preparados… comecem!

O conde puxa o florete da bainha e assume a postura que ele se acostumou quando era humano, uma postura inédita e revolucionária que garantiu a ele incontáveis vitórias. Mas isso só funcionou naquele tempo, contra os espadachins do cardeal. O mercenário parte para cima dele com tudo, desvairado. Por experiência em assistir ou participar de outras lutas na Batalha do Graal, então presume que o ataque é do tipo Berserker [Possuído] e adota a estratégia mais adequada. O conde consegue, com dificuldade, bloquear e desviar alguns dos golpes, mas sua visão periféria percebe, tardiamente, o golpe vindo do que se chama, em luta, de zona fantasma. O chute lateral circular acerta o conde em cheio, o jogando por três metros de distância.

– I… isso é impossível… eu sou conhecido como o melhor espadachim! Eu tenho o ataque perfeito e a defesa perfeita!

O instinto faz o conde pular, hastes cravam no chão segundos depois. Charles tenta entender o que está acontecendo, mas não há tempo, mais hastes vêm em sua direção, forçando-o a tentar repelir o ataque, mas a despeito de seus enormes esforços, seu ombro direito, sua mão esquerda e sua perna direita são atingidos.

– I… isso é impossivel… essas são estratégias tanto de Archer [arqueiro] quanto de Lancer [lanceiro].

– Qual o problema, janota? Vai desistir? Eu só estou esquentando.

Isso não vai bem. Servo sempre tem um tipo de classe e um tipo de ataque conforme a classe. O conde não consegue definir a estratégia mais adequada para vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Primeiro Selo de Comando, eu ordeno que use seu ataque mais forte!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o ataque mais forte nos primeiros movimentos. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. O conde terá que enrolar até conseguir elevar seu espírito de luta. Ele vai ter que usar alguma distração.

– Eu devo admitir que me pegou de surpresa, mercenário. Diga-me seu nome para que todos saibam quem quase derrotou o maior espadachim de toda história.

– O maior espadachim da história! Ha! Piada! Eu conheci vários imensamente melhores do que você! Meu nome não importa, aceite sua morte iminente.

– Isso não é justo, mercenário. Como eu poderei me apresentar ao barqueiro Caronte sem saber o nome de quem me mandou para o Mundo dos Mortos? As gerações futuras merecem saber, para sua honra e glória, o nome de quem venceu o conde de Artagnan.

– Está surdo, janota? Eu não faço o que faço pelo meu nome, por minha honra, por minha glória. Eu não faço o que faço pelo meu Mestre ou pelo Graal. Eu sirvo ao Altíssimo e eu luto aqui e agora para reencontrar a Dama da Lua.

– Eu estou intrigado. Quem é a Dama da Lua?

– Alguém cuja existência inefável nos torna indignos de pronunciar seu delicado nome.

A fraqueza de todo homem é o amor pela mulher. O conde percebe uma brecha e faz seu ataque.

– Avante! Cinq Pétales de la Fleur de Lys!

O conde permite-se sorrir ao ver gotas de sangue pelo chão. Ele acha que acertou. A dor lancinante o faz mudar de ideia. Ele é quem foi acertado. Sua perna direita e seu braço esquerdo estão completamente inutilizados. O conde cai no chão, quase sem conseguir respirar, fraco e sangrando.

– I… isso é impossível! Esse ataque é perfeito! Eu levei anos para aperfeiçoa-lo! Ele é indefensável! Impossível de esquivar!

– Mas que coisa, janota! Não foi nada honrado e nobre de sua parte tentar usar uma estratégia tão covarde! Tentou me distrair, dissimular seu ataque. Até poderia ter dado certo, se não tivesse feito eu me lembrar e falar da Dama da Lua. Agora meu espírito de luta está incendiado. Chega de brincar. Prepare-se, pois eu vou lutar sério.

Isso não é bom. Se a luta foi uma brincadeira até este momento e foi difícil acompanhar o ritmo, o conde sabe que vai ser impossível vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Segundo Selo de Comando, eu ordeno que use seu Espirito Heróico!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o Espírito Heróico na metade da luta. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. Charles tem que redirecionar parte da energia dos selos de comando para juntar energia espiritual. Não é muito, mas deve ser o suficiente.

– Avante! Esprit de Mille Mousquetaires!

Ao redor do conde, os espíritos de mil mosqueteiros aparecem, floretes empunhados, prontos para o ataque. Alinhado ao lado do conde, surgem Portos, Atos e Aramis, os Três Mosqueteiros, seus amigos, em trajes de gala real, sorrindo e emprestando para Charles seus Espíritos Heróicos, tornando assim o ataque quatro vezes mais forte.

– Un Pour Tous et Tous Pour Un!

O conde ficou feliz nesses poucos segundos, revendo seus amigos e estando entre os mosqueteiros mais uma vez. No entanto a expressão de seus amigos era de medo, pavor e desespero. Charles voltou-se para o alvo e compreendeu, sentiu medo, pavor e desespero ao se depara com o monstro. Onde estava o mercenário, uma criatura enorme como uma montanha, pelos negros e espessos como de urso e dois enormes chifres os encaravam com desdém. Como se tal imagem não fosse suficiente para tirar a coragem até do maior herói, um fogo fátuo brotava de sua testa. A garganta abriu-se em um rugido terrífico, mostrando enormes mandíbulas e uma energia brotando de seu interior. Dizer “bola de energia” não faz justiça. Das mandíbulas e garganta da Besta saia o próprio sol, em todo seu poder e magnitude. Não dá. Impossível. O conde só torce para não sentir muita dor antes de morrer de novo.

Cinco segundos depois, as coisas voltam ao “normal”, por assim dizer. Mesmo as paredes de granito ficaram em brasas como se fosse uma caldeira. O chão ficou completamente calcinado. Curiosamente Alexander, Astolfo e Kirei não sofreram nenhum arranhão. Mas tiveram que testemunhar o chão forrado com mil e um esqueletos alvos como a neve.

– Eu acho que a luta acabou.

– Eee…eeehhh… vitória ao Servo Mercenário. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

Um dos monólitos [mesmo em brasa] abre a passagem por onde Alexander e Nestor seguem.

– Árbitro… como responsável você deve alertar a Organização Caldéia sobre a presença de criaturas sobre-humanas na Batalha do Graal.

– N… não me ensine meu serviço! O senhor deveria pensar em como vencer suas lutas!

Kirei é puxado por um vortex sem poder retrucar. Nem poderia. A instituição que ele representa está falida e não pode interferir, tendo mais de um representante na Batalha do Graal. Não muito longe dali, Bonifácio, que fora aclamado como Papa Dionísio II, está prestes a testar sua Serva em arena, em luta a ser testemunhada pelo árbitro Astolfo de GrandRose. Deixemos a cena para o próximo capítulo.

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