Fate/Major Arcana – IV

Passos ressoam sobre o piso de mármore repleto de poeira daquele que outrora tinha sido a maior e mais importante construção, onde milhares de pessoas congregavam ou voltavam suas atenções. Agora mais um prédio vazio e em ruínas, a Basílica de São Pedro congrega somente pombos e ratos. O homem, quase calvo e com os poucos cabelos que restam grisalhos, não consegue segurar as lágrimas. Ele, que foi o ultimo a ocupar aquele complexo conhecido como Cidade do Vaticano, que foi o ultimo a receber a santa missão de continuar o legado de Pedro e de conduzir os Cristãos, tem que aturar o peso de ver aquela que foi a maior empresa multinacional religiosa falida, esquecida, degradada.

– Vossa Santidade, nós achamos.

– Obrigado, Juliano. Mas você não precisa usar o pronome de tratamento. Oficialmente, a Igreja Católica não existe mais.

– Nós somos o Povo de Cristo, mesmo debaixo da abominação pagã dos Filhos da Loba, não deixaremos de ser agora que o mundo é dominado pela Nova Babilônia.

– Ora, vamos, Juliano. Nós podemos contra nos dedos de nossas mãos os que ainda persistem como Seguidores de Cristo. Não há mais padres, bispos, cardeais… eu não existo mais.

– Momentaneamente, Vossa Santidade. Se nossa operação aqui for bem sucedida, nós teremos a grande chance de restaurar a Igreja Católica e restaurá-la à sua grandiosidade, poder e influência.

– Se nossa operação for bem sucedida, Juliano, eu terei que esquecer o que fizemos aqui. Por muito menos do que nós pretendemos fazer aqui, meus antecessores clamaram por uma Santa Cruzada.

– Vossa Santidade, não é segredo algum que nós convidamos e usamos das mesmas armas dos magos, bruxas e demônios para manter a Palavra de Deus.

– Os fins justificam os meios. Essa concepção filosófica é secular, não é eclesiástica. Quantas concessões mais vai fazer, Juliano?

– Todas, Vossa Santidade. Nós temos a obrigação de restaurar o Reino de Deus nesse mundo.

– Que seja. Se até no Livro Santo está escrito que o Rei Saul fez uso dessas Artes, então mesmo esses procedimentos ocorrem segundo a vontade de Deus.

Os vultos de quatro homens vão se embrenhando pelos corredores e escadas vazias das ruínas, cada vez mais para baixo, cada vez mais para o passado, atravessando as catacumbas onde os restos mortais dos primeiros cristãos repousam silentes, atravessando inclusive as colunas do antigo templo da era romana.

– Esse treco não tem fim?

– Mais um pouco, Vossa Santidade. Nós estamos perto.

Os homens, ocultos por hábitos escuros e encapuzados, cessam a perambulação com algo ainda mais antigo e anterior a Roma, à sua fundação pelos Filhos da Loba. Por milênios ignorava-se que os orgulhosos Romanos eram tão imigrantes e refugiados quando todos os povos europeus.

Quando se fala em Latino, a figura que mais vem à mente da mentalidade preconceituosa do homem branco cristão ocidental é a do Espanhol ou dos inúmeros descendentes que a Colonização [portuguesa e espanhola] formou no Novo Mundo. Latino, assim como o Celta, se refere a um conjunto de tribos que tinham em comum apenas a língua e alguns elementos religiosos.

Tal como os Gregos atribuíam sua origem ao mítico rei Heleno, os Romanos atribuíam sua origem ao mítico rei Latino. Tal como os Gregos, os Romanos atribuíam a esse patriarca mítico origem [descendência] divina.

Deram nome de Lácio à região onde fundaram a Alba Longa, local onde os sobreviventes de Tróia reuniram-se para reconstruírem suas vidas e reerguer suas cidades. O contato e convivência dos Latinos com os outros povos que ali habitavam nem sempre foram harmoniosos e pacíficos. Os Sabinos tornaram-se parte da família depois que, por falta de mulher, homens raptaram algumas sabinas [quase aconteceu uma guerra]. Os Etruscos não tiveram tanta sorte e foram conquistados pela união dos Latinos e Sabinos. Estava ali a raiz do sucesso, riqueza e fortuna que tornariam Roma em um dos maiores impérios da história antiga. Até aí, novidade alguma, reinos, impérios e grandes organizações foram fundadas em cima dos corpos de milhares de sacrifícios humanos.

– Então… chegamos? Esse é o local?

– Sim, Vossa Santidade.

O montículo de terra estava decorado com vasos, pratos e outros objetos de barro cozido. Bonifácio sabia que ali era, certamente, um antigo cemitério, provavelmente Etrusco. Não que os Etruscos tinham sido erradicados do mundo, sobreviventes da primeira guerra latina foram assimilados [e usados como servos]. A cultura, a tecnologia e o conhecimento dos Etruscos foram apropriados pelos Latinos. Governo, língua, alfabeto… foram apropriados. Rituais, sacerdotes e Deuses receberam roupagem latina e foram somados aos costumes latinos. Estelas funerárias que cercavam o montículo subscreviam em runas latinas os nomes dos finados e todos eram encimados pela Deusa dos Mortos. Que belo escândalo seria se os Cristãos soubessem que a Santa Igreja foi erigida em cima de um cemitério Etrusco e sua cidade tinha recebido o nome da Deusa Etrusca dos Mortos!

– Podemos acabar logo com isso? Eu estou começando a ficar sufocado.

– Perdoe-me por isso, Vossa Santidade. Por milênios nenhum ser humano pisou nesse solo e os fantasmas do passado guardam muitas mágoas e rancores.

– Poupe-me dos detalhes e explicações, Juliano. Vamos fazer o que viemos fazer.

– Sim, Vossa Santidade. Pode fazer as honras, sacerdote Pen Apple Pineapple?

Do grupo de encapuzados, um homem esquisito, que parecia ter saído de concurso de cosplay, faz alguns sons e movimentos. A sensação de falta de ar aumenta exponencialmente. Os fantasmas devem estar furiosos.

– Está tudo pronto e preparado. Eu preciso agora do item e do catalisador.

Juliano entrega algo embrulhado em um lenço de seda para o “sacerdote”. Bonifácio não consegue ver o que foi entregue, mas segura a risada enquanto o “sacerdote” prossegue com a pantomima ridícula. Os espíritos dos que ali jaziam passaram a ter forma e volume. Vultos caminhavam em volta dos homens que tremiam inteiros. O clima estava ficando mais tenso até para o “sacerdote”.

– Que papelão é esse? Juliano, quem é esse homem?

– Vossa Santidade, ele me garantiu que era sacerdote legítimo e conhecedor dos antigos rituais.

– Se ele é legítimo, eu sou o Apóstolo Pedro.

– Silêncio! Vocês estão interferindo no ritual!

– Criaturinha infame, é mais provável que nossos corpos e almas se juntem a essas sombras do passado.

Repentinamente, o montículo emana certa luminosidade. Os espíritos devem ter resolvido dar uma mãozinha. Dando o que esses humanos querem, eles poderão voltar a descansar. O item salta de dentro do lenço de seda. Uma mecha de cabelos louros trançados e amarrados com uma rica fita de cetim rosa. O catalisador faz sua aparição. Uma luminúria do arcano da Torre [conhecida também como a Mansão de Deus]. Acontece a fusão alquímica e no vórtice da energia formada, surge uma forma, um corpo… feminino… formosamente feminino.

– Onde… onde eu estou?

– Saudações, donzela temente de Deus. Nós te chamamos do seu descanso para lutar pela Santa Igreja na Batalha do Graal.

– Oh, por Santa Maria! Enfim, uma chance para me redimir de meus atos! Senhores, eu aceito tal gentil oferta, mas é necessário que o pacto seja consumido pelo Sumo Pontífice. Quem de vós sois o Papa?

– Este seria eu, criança. Bonifácio Canterbury. Até dez anos atrás eu atendia o cargo como Papa Dionísio II. No momento eu estou… como posso dizer… desempregado.

– Vossa Santidade, vós recebeste a unção de Deus. Isto é um fato. Eu me sinto honrada lisonjeada por vós terdes me escolhido. Faça dessa serva de Deus sua ferramenta.

– A senhorita é bem educada, cortês e civilizada. Por qual nome eu devo chama-la, criança?

– Vós podeis me chamar como vós aproveis, Vossa Santidade. Essa serva de Deus foi conhecida pelo maldito nome de Lucrécia Bórgia.

– Muito apropriado. Coincidência ou destino. Quem sabe o delírio de um escriba. Eu estou na casa dos cinquenta, mas sinto-me como um infante diante de ti, senhorita. A fortuna fez com que eu seja seu descendente, serva de Deus. Pelos extensos e desconhecidos mares do matrimônio, a família Canterbury descende da família Bórgia.

– Permita-me dizer, Vossa Santidade, que esta é a Providência Divina.

– Bravos! Os doutores da Igreja não diriam melhor.

– Vossa Santidade é muito generoso. Agora, Vossa Santidade… eu tenho um problema…

– Problema?

– Sim, Vossa Santidade. Eu tenho que… consumar o nosso contrato.

– Pois diga o que deve ser feito que nós providenciaremos.

– O problema é esse, Vossa Santidade. Meu antigo eu carnal não veria problema algum, mas como eu busco por minha redenção, eu… sinto vergonha… em consumar nosso contrato diante de testemunhas.

– Pois vivas ao pudor e à virtude. Ficaria mais à vontade se os cavalheiros nos deixassem em privado?

– Por gentileza, Vossa Santidade.

Três homens, sem dizer coisa alguma, saem do local, distanciando-se vários metros galeria para dentro. Juliano fica contrariado e com medo. Deixar o Papa com uma renomada assassina não é uma boa ideia.

– Muito bem, senhorita Lucrécia nós estamoooops!

– Que Deus me perdoe, Vossa Santidade, mas esse é o único meio de consumar o contrato. Vossa Santidade tem que entrar em mim e derramar sua sagrada semente em meu ventre.

– Oh… bem… chegamos até aqui… seria um pecado maior não irmos até o fim.

Lucrécia montou Bonifácio avidamente e não cessou até sentir seu ventre inteiro sendo regado por este líquido quente, esbranquiçado e viscoso que carrega as futuras gerações.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s