Fate/Major Arcana – II

Dentro de uma entre inúmeras instalações do MI-8, equipamentos funcionam com capacidade máxima, alimentados por geradores elétricos industriais. Os funcionários estão agitados e nervosos, o experimento está em seu momento mais crítico e o doutor Strangelove não consegue disfarçar o brilho em seus olhos.

-Doutor, o senhor tem certeza de que vai funcionar?

-Evidente, senhor Primeiro Ministro.

-Eu devo lembrar ao senhor que a Coroa Britânica tem um crucial interesse no sucesso de seu empreendimento, doutor. Tem certeza de que esse… “servo”… vai atender aos anseios da Coroa Britânica na Batalha do Graal?

-Eu serei bem sincero, senhor Primeiro Ministro. Eu não sei sequer se eu serie bem sucedido nessa operação.

– Eu serei igualmente sincero, doutor, sua vida depende do sucesso dessa operação.

Estimulado por essa motivação, doutor Strangelove faz os acertos finais nos equipamentos na central de TI, sob o olhar perfurante de Alexander Bilderberg.

– Aqui está tudo pronto, senhor Primeiro Ministro. Agora eu vou precisar do material catalisador que o senhor ficou de me fornecer.

– Não me leve a mal, doutor, mas eu quero colocar o material catalisador no equipamento eu mesmo.

Contrariado mas resignado, o doutor faz uma firula em reverência e conduz o Primeiro Ministro até o núcleo de suas câmeras. Alexander parece estar concentrado, olhando as camadas e níveis entre a central de TI e o “núcleo” onde centenas de terminais emissores de energias desembocam. São sete divisórias resguardadas por enormes e pesadas comportas, revestidas com material ultrarresistente.

– Por gentileza, senhor Primeiro Ministro, deposite o catalisador dentro da área amarela cercada por tiras vermelhas.

Alexander deixou de lado a ironia do doutor, ele não era ignorante nem iletrado. O doutor olhou Alexander por cima de seus largos ombros. Ele notou que o Primeiro Ministro depositou um pedaço de pergaminho, provavelmente feito de couro de carneiro, ricamente decorado com a luminúria de um arcano do tarô.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Primeiro Ministro… mas… essa luminúria de um arcano do tarô é o nosso catalisador?

– Sim, doutor e não quero ouvir retórica descrente. Aqui mesmo existe uma tecnologia que beira o sobrenatural.

– Perdoe minha insistência, senhor Primeiro Ministro… o arcano… da Força?

– Sim, doutor. Eu até poderia te explicar os detalhes que me fizeram encontrar esse espírito heroico e porque eu escolhi o arcano da Força, mas eu teria que mata-lo depois.

– Ah… ahahahaha [risada nervosa]. Bom, o catalisador está no lugar. Voltemos ao nosso “bunquer”, onde estaremos isolados e seguros.

Na volta, Alexander reconta as camadas e níveis, reparando [como se tivesse algum conhecimento técnico] na superfície porosa e esbranquiçada do material cerâmico metálico. Sete câmeras repletas com esse material para garantir o sucesso da operação.

– Senhor Primeiro Ministro, por gentileza, faça as honras.

Alexander aperta “enter” e o enorme processador dá início às emissões de diversas energias que vão bombardeando o “núcleo”. As partículas, em choque, criam um redemoinho que rememora, em escala microscópica, algo similar ao Big Bang. No entanto, não há uma expansão ou retração da energia, mas ocorre a formação de um vulto, um corpo, que vai tomando forma e volume. Vinte segundos depois [uma eternidade, em termos atômicos] o enorme processador encerrar as emissões, os fótons e os íons vão voltando ao estado de entropia de inércia, a câmera central vai sendo esfriada até 20° C.

– Senhor Primeiro Ministro, eu tenho a satisfação de anunciar que nossa operação é um sucesso.

– Excelente, doutor. Conforme combinado, o senhor tem cinco bilhões de libras esterlinas em sua conta.

– Os sensores indicam que o “núcleo” está seguro. O senhor gostaria de verificar se o nosso “sujeito” está em condições?

– Não é por gosto, doutor, mas necessidade. Este espírito heroico deve me aceitar como seu Mestre. Eu não passei por um treinamento árduo nem tive minha pele marcada com metal em brasa para apenas “conversar” com esse herói. Para a Batalha do Graal que tem início, ele será meu Servo.

Na altura em que estava o evento, o doutor não tinha o que falar ou dizer. Ele tinha chego até aquele ponto, ele tinha que ir até o amargo final. Dando de ombros e rolando os olhos, novamente conduziu Alexander através das sete camadas, até o “núcleo”, até o “sujeito” que acabara de ser materializado.

[flashback]

– Atenção! Lá vêm os Saxões!

– Os malditos Borgonheses vêm juntos. Nós não podemos ter outra Agincourt.

– Nada temais, leais súditos do verdadeiro rei. Deus está conosco.

– Donzela de Domremy, estão dizendo que os Saxões estão trazendo os canhões holandeses.

– Que tragam os dragões do Inferno! Deus e seus anjos irão nos ajudar!

Cavaleiros, condes, duques, barões, que ali se ajuntavam para defender o rei Luiz XI e seu legítimo sucessor Carlos VII não entenderam tamanha fé, confiança ou esperança. Cantigas e lendas sobre gloriosas conquistas são o passatempo dos soldados comuns, os nobres aristocratas tinham uma visão extremamente prática e pragmática do campo de batalha e o que viam eram os Ingleses massacrando os Franceses. Estrondos e estampidos, como milhares de trovões, ressoam pelo firmamento que se tinge com o fogo e a fúria dos canhões. Os mais velhos e experientes fecham os olhos e torcem para não doer muito, mas os gritos de dor, desespero e medo vem do lado dos Ingleses.

– Com a breca… nós ainda estamos inteiros?

– Eh, Jean, olhe para o campo de batalha.

Bergerac apontava para enormes buracos onde antes estava a linha avançada dos Ingleses. Os “canhões holandeses” sequer tiveram tempo de berrar, lanceiros e cavaleiros recuavam em debandada, sendo seguidos e mortos por um exército que não estava com o uniforme francês.

– Quem são e de onde vêm essa provincial ajuda?

– Devem ser meus bons amigos da Companhia Livre de Navarra. Dizem que estes são os mercenários mais ferozes que existem.

– Eu vos disse, nobres senhores! Deus nos mandou ajuda!

– Com a breca, Bergerac… nós temos vinho suficiente para tantos mercenários?

– Nós podemos vender as propriedades e o ouro que os Saxões nos tomaram indevidamente, Jean.

Urros, cantorias e vivas pelos bastiões resguardados das muralhas de Orleans. Os Ingleses estavam vencidos. França estava salva. Os portões de Orleans se abrem aos seus salvadores e heróis, os Navarrenses.

– Bravos, bravos… Rodrigo de Villandro, meu bom amigo.

– Bergerac, meu amigo fresco [no dialeto de Navarra, francês e fresco são parecidos]. Nada me dá mais prazer do que chutar traseiros ingleses. Mas minha Alegre Companhia não pode levar todo o crédito. Permita-me apresenta-lo ao nosso Capitão: Nestor Ornellas. Sim, nobres senhores, descendentes de Carlos Magno, este bom homem é o segredo de nosso sucesso hoje.

– Deixai, nobres senhores, que eu conheça o Enviado por Deus!

– Eu não recomendo, Donzela de Domremy. Dizem que ele é o Diabo em pessoa.

– Eu correrei esse risco, senhor Villandro.

A mulher, que havia se tornada santa, portava o estandarte com o símbolo da Flor de Lis, o símbolo da Majestade, paramentava sua alva armadura repleta de filigranas dourados e – dizem – abençoada diretamente por Cristo. Rodrigo olhou para seus amigos franceses que somente viraram os olhos, isentando-se da responsabilidade. O velho mercenário dá de ombros, não é algo que vão fazer escândalo, mulheres ficam grávidas com frequência durante batalhas. Os demais mercenários tremem e abrem passagem, ninguém ousa impedir ou atrapalhar a passagem do Capitão. Os nobres franceses espicham o olhar e não acreditam no que veem. O mercenário veste pouco mais do que uma malha feita de algum tipo de couro e duas espadas presas em um suporte preso nas costas. Como um homem com tão pouco poderia ter enfrentado os Ingleses? Então os nobres franceses reparam algo no olhar, que anunciava que tinha algo mais ali do que um mero homem, o que os faz recuar assombrados.

Joana D’Arc olha para aquele homem, aquele soldado, aquele mercenário. Quando ela iniciou a batalha pelo seu rei, ela conheceu e acostumou-se ao duro ambiente militar, às exigências do campo de batalha, aos olhares masculinos por sobre sua pessoa. A despeito de toda sua experiência e unção especial, ela treme diante daquele homem. Ela é pequena, estatura normal para uma mulher, mas mesmo dentro de sua armadura, ela é pequena diante dos demais cavaleiros, mas diante deste mercenário ela sente-se miúda. Ela sente algo que ela achava que tinha sido controlado, banido, apagado, pelos sagrados sacramentos dados pelo bispo, mas nem mesmo Deus parece ouvir sua prece, tem algo mais, alguém mais, ali diante dela, algo ou alguém incomensuravelmente mais antigo e mais poderoso.

– Pra… prazer… e… eu sou Joana D’Arc, chamada de Donzela de Domremy.

Nestor, para surpresa de todos os presentes, ajoelha-se e beija a mão de Joana.

– Nos encontramos mais uma vez, Dama da Lua.

– Nós nos… conhecemos?

– Em outro tempo, outros nomes, outras circunstâncias. Por enquanto, até recuperar sua memória de sua verdadeira identidade, eu vos peço que use meu nome de guerra, Nestor Ornellas.

– E… encantada… senhor Ornellas. Assim como estes nobres aqui presentes, eu te peço que jure por este sagrado estandarte que lutará por nós, pela justiça e pela verdade.

– Este sempre foi o nosso pacto sagrado, desde nosso berço, Dama da Lua. O símbolo que porta é prova disso.

– Eu não sei quem é essa Dama da Lua de quem fala, mas se eu te lembro dela, eu aceito o elogio. Levante-se e apertemos as mãos, como companheiros de armas.

Dizem as lendas de que ocorreu um eclipse solar no exato instante em que Joana aperou a mão do mercenário. Certo é que desde então os Ingleses somente conheceram a derrota, os Franceses venceram a guerra e o legítimo rei da França pode receber a coroa, o cetro e o trono que lhe era de direito. Vencer a guerra não foi, necessariamente, bom para todos. Gilles de Rais teve sua honra e nobreza devastadas. Joana D’Arc foi traída e entregue aos Borgonheses, mancomunados com os Ingleses, sendo então julgada e condenada por bruxaria. As Companhias Livres tiveram o mesmo destino dos Cavaleiros Templários. Alguns anos mais tarde, a Renascença alcançaria seu auge em toda a Europa, preparando para mudanças profundas na história humana.

[flashback]

– Dama da Lua…

– Ah, ele despertou. Enfim! Servo, pelo selo de comando eu te ordeno que aceite nosso contrato.

– O que significa isso? Quem teve a audácia de me trazer de volta ao mundo humano?

– Eu mesmo, Presidente Executivo Chefe do Banco Mundial, Alexander Bilderberg.

– Seja quem você acredita ser, você não tem ideia do que fez. Minha manifestação causará um abalo nesse mundo.

– Eu estou contando com isso. Eu sou o Executivo Chefe do maior conglomerado banqueiro do mundo e nossa organização está cansada de intermediários. Nós governamos o mundo nas sombras por tempo demais, está no momento de sermos os governantes de fato.

– E você espera e acredita que pode me conter e subjugar com esse selo?

– Sim! Eu passei por anos em treinamento no Círculo Interno, eu aprendi as Artes Ocultas e eu estou apto a ser Magister na Batalha do Graal que começou.

– Batalha do Graal?

– Sim! A maior delas! Esta vai abrir as portas das Sephirots e o vencedor será Deus!

– Então… eu hei de reencontrá-la… a Dama da Lua.

– Garanta o meu desejo que eu garanto o seu!

– Fazer contrato comigo irá te conduzir ao sofrimento e loucura.

– Eu vencerei?

– Receberá o prêmio que te cabe. Isso eu posso afirmar.

O espírito mercenário heroico esboça um sorriso cínico e aperta a mão de Alexander. O pacto está selado.

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