Fate/Major Arcana – I

Uma lenda dentro de uma lenda, assim é a Busca do Graal dentro da Saga de Artur e o ser humano ouve ou lê sobre as lendas, as interpretando muito ao pé da letra. Até conseguiram achar uma pessoa, na história humana, o duque da Cornualha, Arthur Pendragon, que lutou contra os Anglos e Saxões, passando a ser considerado rei de toda Bretanha.

Outra invenção e exagero é dizer que o reino dele foi uma época de transição entre o Paganismo ( as Religiões Antigas) e o Cristianismo (que se tornou a unica religião oficial do Império Romano desde Constantino).

Tem uma enorme lacuna nas lendas que não citam o fim do Império Romano, nem as Invasões Bárbaras que aconteceram na mesma época em que Arthur existiu. A Lenda de Arthur não explica o motivo pela Busca do Graal, uma missão que todo cavaleiro (ou aspirante) sonha em realizar.

Aqui tem outra enorme lacuna, porque o Graal é uma lenda dentro da lenda de Cristo e o ser humano acredita que existiu uma cruz física, onde Cristo foi pendurado (estão enganados quanto à identidade de Cristo) e acredita que o sangue de Cristo foi colhido em um cálice, este, chamado de Santo Graal.

Muitos buracos. Afinal, passaram-se quatrocentos anos até a existência de Arthur e o Cristianismo sequer tinha esse nome e era mais uma seita entre inúmeras, era mais uma crença entre inúmeras e sua origem verdadeira tinha mais a ver com o Caminho Iniciático e as Religiões de Mistério do que acreditar que o Messias tinha vindo para salvar a humanidade do pecado e da morte.

Segurem-se em suas cadeiras, porque essa pequena peça, imerecedora da atenção de tal gentil platéia, pretende esclarecer e preencher essas lacunas.

[Abrem-se as cortinas]

No meio do Central Park, Nova Iorque, uma cigana solitária lê a sorte pelas cartas de tarô. Não tem um cliente na cadeira na frente dela, mas mesmo assim ela vai embaralhando e abrindo as cartas na mesa. As pessoas passeiam de um lado a outro, sem se dar conta da presença da cigana. Só o vigia do parque notou algo estranho e foi ver o que estava acontecendo.

– Está tudo bem, senhora?

– A revelação está chegando.

– Revelação?

– Tire uma carta.

– Heh… seu guarda, peça para ela dar o resultado da loteria.

– Cidadão, não se meta.

– A carta está virada. Tem início a revelação.

O vigia do parque olhou a cigana, mas não havia carta alguma na mesa. Ele não viu sequer o baralho. Aturdido, ele olhou de volta para a cigana, mas ela não estava mais lá. A mesa tinha sumido e as cadeiras. Nuvens encobriram o sol e a neve começou a cair.

[Mudança de cena]

Em algum lugar da Casa Branca, Washington, DC, James Maddox sai de seu banho e vai direto ao closet, abre uma das vinte portas e escolhe calmamente um entre centenas de ternos de alta costura. Ele quer escolher bem, pois o evento que ele vai será utilizado para suas próximas ações políticas e ele precisa de algo de impacto.

Este é o sétimo mês de seu mandato e a resistência tem aumentado exponencialmente, algo maior do que aconteceu com Donald Trump quando este foi o 45º presidente dos EUA. Houve uma amenização no ambiente político e econômico até 2030, quando o dólar perdeu para o yuan a preferência cambial no comércio internacional.

No meio da crise, em 2036, o Congresso Americano aprovou com unanimidade a lei que determinou que o presidente dos EUA seria chamado de Kaiser, espalhando inúmeros focos de manifestações e protestos no mundo todo, duramente reprimidos pelos governos.

A aposta é alta, um blefe talvez maior do que fez Trump diante da fanfarronice da extinta Coréia do Norte, mas séculos de alienação política deixaram o americano médio mai intolerante, mais ignorante, mas fácil de manipular.

Frio na espinha, pele empolada, cabelos eriçados. James vira, entre cismado e curioso, para trás, encontrando apenas o abajur de péssimo gosto que iluminava o saguão. Uma relíquia de Kennedy, o corta luz com aspecto da década de 50 [século XX] e o corpo imitando as formas de Marilyn Monroe. Nada sutil, essa relação foi inutilmente negada por décadas e seu fantasma ficou em Hollywood.

A sensação de que alguém o está observando ainda o deixa em alerta, mas essa presença não tem como ser física, os aposentos particulares do presidente dos EUA são mais seguros e resguardados do que o Forte Knox, ali tem tecnologia que sequer deveria existir.

– Senhor Kaiser? Algum problema? Os sensores detectaram alteração emocional no senhor.

– Está tudo em ordem, Brad. Foi uma sensação passageira uma intuição.

– O senhor está nervoso por causa da Comemoração do 100º Aniversário da Experiência Trinity?

– Deve ser, Brad. Deixe todos prontos. Eu estou saindo em cinco minutos.

Manhattan encontra-se sob uma pesada tempestade de neve, a alteração do clima global tornou-se uma realidade em 2022, mas o comboio de veículos militares pesados passam pelas colinas esbranquiçadas como se fossem isopor. O túnel privativo presidencial deixou de ser usado pouco depois que a crise eclodiu e não fazia mais sentido em mantê-lo, principalmente porque os únicos veículos que resistiram ao clima extremo foram os militares.

– Senhor Kaiser, o tempo previsto de viagem é de oito horas. O clima no Novo México está bom e claro, temperatura de 54º C. Eu tomei a liberdade em escrever seu discurso.

– Excelente, Brad. Todas as emissoras de conteúdo de mídia confirmaram presença?

– Somente as alinhadas com a OTAN. Aliados estão nos dando apoio no Velho Mundo, mas podemos contra com a resistência dos BRICS e países do Terceiro Mundo.

– Pois que berrem, esgoelem à vontade. Essa resistência, essa teimosia, terá fim, com o pacote de iniciativas que eu irei lançar nesse evento.

[Mudança de cena]

Faltando somente 1h 30 min para chegar em Novo México, o smartwatch de James vibra e emite luz, indicando que alguém estava tentando estabelecer contato. Considerado tecnologia obsoleta, artigo de museu para ser exibido ao lado dos smartphones, James manteve mais essa relíquia de outros presidentes unicamente por questões de segurança nacional. Uma leve pressão com o indicador é suficiente para acionar o aparelho, confirmar sua identidade e a origem da ligação.

– Kaiser Maddox falando.

– Senhor Kaiser, aqui é o Agente Mulder. Senhor, nós temos… uma situação.

– Se for protesto ou barricada, é só usar o procedimento padrão.

– Nós encontramos uma Singularidade, senhor.

– Descreva esta Singularidade, Agente Mulder.

– Nós encontramos uma carta e um arcano do tarô fixados no alto do obelisco que indica o Marco Zero.

– Uma… carta? Física? Com papel, envelope e selo?

– Sim, senhor Kaiser. Com postagem datada de 2017.

– Eu não ligo para essas superstições do século XX, mas essa “carta” tem remetente e destinatário?

– Sim, senhor Kaiser. O remetente é o então presidente Donald Trump. O destinatário consta: ao 52º presidente dos EUA, JM.

– Entendo. Por que Trump deixaria uma carta física nesse local? Como ele sabia as minhas iniciais? Por que ele deixaria um arcano do tarô junto?

– Talvez, senhor Kaiser, Trump queria confiar ao senhor este arcano, onde ele pôs sua assinatura. Trump, apesar da personagem que encenava, era parte do Círculo Interno do Governo Mundial. De alguma forma o Grande Irmão sabia que o senhor viria.

– Entendo. Qual arcano do tarô que Trump deixou para mim?

– O arcano do Imperador, senhor Kaiser.

Cartas físicas, com papel, envelope e selo, tornaram-se romantismo obsoleto no século XXI. Seu descendente mais direto, o e-mail, foi rapidamente substituído por aplicativos de mensagem e redes sociais. Então, boom, apareceu Michael Leary, descendente de Timothy Leary, com a rede neural, no qual a humanidade ficou, literalmente, ligada à “internet das coisas”, dispensando inúmeros equipamentos e interfaces. Foi o fim de inúmeras empresas, a rede neural transformou todo equipamento eletrônico em um acesso à rede mundial. O seu smartwatch tinha mais recursos, memória e capacidade de processamento do que a mais avançada CPU e aquilo era considerado peça de museu. Imagine uma luminúria contendo um arcano do tarô.

A parte simples foi isolar a área e dispensar a Imprensa. A parte complicada é chegar até o obelisco, o sol a 54º C, nenhuma sombra, ambiente desértico e o desafio de abrir a carta. James estudou na faculdade, sabia o que era e para que servia uma carta física, mas era outra coisa se deparar com esse “fóssil” e saber como usar ou acessar seu conteúdo.

Quando era jovem, em uma excursão ao museu, James teve a oportunidade de tocar esse material antigo chamado papel, mas manipular e mexer à vontade estava sendo uma experiência nova. O material cedeu em um trecho, esgarçando, por causa de sua natureza e antiguidade, James somente ampliou a brecha rasgada para chegar ao conteúdo.

O papel timbrado com a figura da Casa Branca [marca d’água], o carimbo presidencial e a assinatura confirmam que o material é autêntico e original. Surpreendentemente, não é uma missiva feita nos rigorosos padrões oficiais, mas sim algo manuscrito, pessoal, subjetivo, descrito com linhas feitas com caneta tinteiro, praticamente um achado arqueológico.

A luminúria parece ser deliberadamente uma simulação, uma imitação. O século XXI foi sempre o mote de discursos e debates acalorados na faculdade, pois foi a Era Dourada, em termos comerciais, do esoterismo de conveniência.

Matéria de antropologia, James era partidário de que o esoterismo tornou-se mais um produto de massas como reflexo da permissividade da década de 70 [século XX]. Alimentado pelo fluxo da Contracultura, inúmeras crenças e religiões alternativas ressuscitaram [ou tentaram] as escolas místicas da antiguidade. Nesse meio apareceu o Paganismo Moderno e sua “empresa” mais bem-sucedida, a Wicca. Na trilha desse neo-romantismo de fim de século e milênio, pessoas alegavam ser pagãos, bruxos e sacerdotes. A humanidade, faminta por novidades, por outros caminhos, simpatizou com essa gente e foi o estopim para que artigos esotéricos voltarem a ser produzidos, comercializados e divulgados como sabão em pó. Oferta e demanda em alta fez com que aparecessem lojas, editoras e artesãos especializados, resultando no esoterismo de conveniência. Os baralhos de tarô simplesmente seguiram a tendência, se desdobrando, se diversificando e se tornando acessíveis até em mercados populares.

O material da luminúria que James tinha em mãos era indiscernível, podia ser totalmente sintético e artificial como as cores com que foi impressa. Cercada com um caleidoscópio de símbolos e sigilos que simplesmente tinham perdido toda sua essência, seu centro ou cerne é dominado por uma figura masculina, trajes anacronicamente tidos como “nobres”, sentada em um trono, com um cetro na mão direita e o globo [terrestre] na mão esquerda, olha severamente para diante, como monarca coroado que representa. Em seu verso, o padrão geométrico decorativo comum em baralhos e a assinatura de Trump. Nada que não possa ser fraudado ou falsificado se… se não fosse por marcas discretas com o sigilo do nome com o qual o 45º presidente dos EUA era conhecido no Círculo Interno.

– Agente Mulder, Brad, eu tenho que voltar para a Casa Branca. peçam ao pessoal da TI para transmitirem a simulação do evento e o meu discurso.

– Sim, senhor Kaiser.

[Mudança de cena]

James retorna ao seu dormitório privado e desliga todos os sensores e aparelhos. Ele quer privacidade total. Depois ele explica ao Círculo Interno. O manuscrito de autoria de Trump teria que passar por uma decoupagem e a luminúria também deve ter algo mais que ele ainda não tinha a menor ideia de como ativar. Felizmente ele tem anotado as chaves dos códigos em sua agenda pessoal e as palavras Batalha do Graal e Sephirot acendem seus sinais de alerta que apitam alucinados com a volta daquela incômoda sensação de presença.

– Então você finalmente pegou o arcano.

– Quem está aí? Identifique-se!

Um homem velho sai do canto sombreado e fora do alcance dos sensores. Mostrou que não estava armado e se pôs a falar.

– Eu sou Shinji Ikari, o atual presidente da NERV, uma organização que é parte da SEELE, que praticamente manda na ONU. Digamos que nós somos a elite da polícia secreta da polícia secreta.

– Shinji Ikari?

– Sim… eu sei… eu dispenso piadas. Eu aturei mais do que a minha cota na infância e adolescência. Coisas do século XXI, quando pais ocidentais começaram a batizar sua progênie conforme seus personagens favoritos de anime.

– Então é mera coincidência que trabalhe para NERV, ramo da SEELE?

– Ah, não. NERV e SEELE existem de fato. Mas eu não vou discutir o gosto duvidoso de seus fundadores.

– Eu posso pressupor que há alguma conexão entre a Batalha do Graal e o Projeto de Instrumentalidade Humana?

– De certa forma. Os anjos são reais, mas não como são concebidos. Os EVAs existem, mas não da forma e jeito que foram imaginados. Mas isso fica para depois. Nós precisamos “abrir” o arcano.

– Mas como?

– A cifra rabuscada no canto do arcano. Ela marca a latitude e a longitude. Nesse ponto nós iremos ativar o arcano que irá desencadear a Batalha do Graal que nos abrirá as portas para as Sephirots.

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