Arquivo mensal: janeiro 2018

Fate/Major Arcana – V

Gaia é extensa, tem várias regiões e seus continentes contêm vários reinos. Embaixo [em outra dimensão] o Inferno, o Submundo, o Mundo dos Mortos também possui inúmeras regiões, continentes e reinos. O Firmamento não poderia ser diferente, a extensão do Mundo dos Deuses é incomparavelmente maior, sobretudo se levarmos em conta as doze dimensões da Eternidade. Por sobre o Mar Egeu nós encontramos o Olimpo e, em uma bela mansão ricamente feita com madeiras nobres e mármore, firmemente postado na Colina da Fatalidade, Destino está em seu ateliê, de onde ele pode desfrutar da bela paisagem dos Campos Elíseos. Destino está saltitando, olhos brilhando e ele até cantarola diante de sua mais recente obra.

Como narrador desta encenação, eu creio ser necessário fazer parêntesis e explicar algo que parece ter escapado da atenção do mundo ocidental. Esta encenação é baseada na série de animes que levam “Fate” como título. Isso deve dar um nó na cabeça, mas os japoneses criaram toda uma série de anime com base em ninguém mais senão no Destino. Os personagens estão todos nos mitos ocidentais e estão, de uma forma ou outra, irremediavelmente atrelados à Batalha do Graal. Eu peço paciência à distinta audiência, mas eu terei que ocultar o mistério do Graal por enquanto. Voltemos ao Destino e sua obra.

– Oh, sim, sim, sim! As peças estão no tabuleiro. Agora… eu vou começar a movimentação dos antagonistas.

[nota de protesto – estes que estão indicados como antagonistas, no ponto de vista dos personagens, são protagonistas]

– Eu vou colocar aqui nesse quadrado Illyasviel Von Einzbern. Neste outro eu vou colocar Rin Tohsaka. Agora vejamos… aqui em cima eu vou colocar Kiritsugu Emiya e no quadrado oposto, eu vou colocar Sieg Yggdmillennia.

[nota de esclarecimento – figuras em cerâmica, idênticas aos personagens/humanos, estão sendo dispostas em um enorme tablado decorado com padrão geométrico similar ao xadrez]

Sobressaltado com um ruído no saguão de entrada de sua mansão, Destino quase deixa cair a figura deste humilde escriba/narrador [hei, cuidado]. Vozes dissonantes, som de passos, algo quebrando. Assaltantes? Mas nem no Olimpo se está seguro?

– Heeei! Ô de casa! Tem geeente?

Destino reconhece a voz destes dois deuses. Eles são irritantemente familiares. Hermes e Dionísio. Sem dúvida, no mínimo, estão chegando da farra, cheios de problemas e confusões que ele, Destino, sempre tem que arrumar e limpar.

– Ooooi? Dedê? [som de algo quebrando] Ops. Eu espero que isso não tenha sido muito caro. Hehehe.

Destino sempre odiou a mania dos Deuses [velhos e novos] em dar apelido. Melhor ir ver o que querem antes que causem mais danos. Ao chegar no saguão, Destino vê, desolado, o que restou de seu precioso vaso Ming. Mas este não era o pior. A reboque, segurada pelos braços de Hermes e Dionísio, Destino viu sua irmã [mais velha] Fortuna. Para variar, ela estava completamente despida, bêbada e coberta de sêmen [por dentro e por fora].

– Fala Dedê. Nós estávamos… estávamos onde mesmo?

– Nós estávamos em minha casa Hermes… melhor dizendo, na minha floresta, cercado de Mênades, celebrando o equinócio de primavera.

– Isso… isso. Fortuna veio, chegou e se entrosou com todo mundo na festa…

– Todo mundo… mesmo…

– Isso… isso. Nós meio que perdemos a noção das coisas e…

– Para resumir, nós trouxemos Fortuna de volta para casa. Essa mina é doida. Até para os meus padrões.

– Isso… isso… agora nós temos… hã…

– Nós temos que voltar e apagar até o equinócio de outono. Nem eu aguento beber o que Fortuna bebe.

– Isso… isso… ah, desculpa nós termos quebrado suas coisas. Mande a conta… quando estivermos sóbrios.

Hermes e Dionísio saíram como entraram, mas não deram mais do que três passos e caíram no gramado do jardim e ali ficaram, ressoando, roncando, bêbados. Destino dá de ombros, rola os olhos e faz o que sempre faz. Com jeito, levanta Fortuna e [sozinho, coitado] a leva para sua imensa banheira de águas termais e jacuzzi. Destino perdeu as contas de quantas vezes fez isso quando ainda eram aspirantes à divindade, quando eram crianças. Agora tudo ficou mais delicado, mais complicado. Ele é adulto e as formas voluptuosas de Fortuna sempre causaram nele uma perturbação. Dar banho nela é uma tortura ainda maior, pois ela geme e se contorce de forma sugestiva, dependendo de onde ele ensaboa e enxagua.

Com cuidado, carinho e compaixão, Destino veste Fortuna com uma toga simples, a coloca na cama forrada com pena de ganso-dragão e a deixa dormir. Ele tem que continuar com sua obra. Quem Destino vai mover primeiro? O projeto de imperador? O empresário iludido? A garota refugiada?

– Heeei… Dedê… o que você está aprontando aí?

Destino arrepia, parece impossível, mas os fartos volumes dos seios de Fortuna são uma sensação inconfundível. Fortuna está bem atrás dele e bem desperta. Se ela… isso não pode acontecer… ela vai arruinar toda sua obra.

– N… nada… só uma maquete… isso… maquete!

– Hmmmm… maquete? Não está querendo esconder algo de mim, está, Dedê?

– N… não! Pelo Antigo! Eu sou incapaz disso! Dissimulação, engano, farsa… estes são atos mais próprios de você, Fortuna!

– Awww… se você não fosse meu irmãozinho adorado e gostoso [Fortuna começa a alisar Destino], eu poderia ficar ofendida.

– Fo… Fortuna! Po… por favor! Eu preciso ficar concentrado e atento! Essa é uma obra delicada!

– Hmmmm… você diz isso, mas seu corpo diz outra coisa… [Fortuna agarra o volume, cada vez maior, entre as pernas de Destino]

– Fo… Fortuna [ah]… isso é importante [aaah]… eu preciso acabar com minha obra! [os olhos de Destino indicam que ele começa a perder os sentidos e a consciência]

Incapaz de resistir aos encantos [inúmeros] de Fortuna, Destino é arrastado para a cama onde ele a havia deixado e ali afunda e afoga no imenso oceano de prazer e êxtase. Fortuna faz o que sabe fazer melhor e, com satisfação, deixa seu pequeno irmão satisfazer seu infindável apetite por sêmen. Destino trava sua luta com Fortuna e assim a Eternidade segue.

No tablado que Destino estava arrumando, aparece o sinal do início da Batalha do Graal. No centro do tablado, deliberadamente colocado em baixo de uma imitação do Graal, o Arcano da Temperança. Fortuna quer jogar esse jogo também. Que os Deuses nos protejam.

[corte de cena]

A forma de uma elegante e sofisticada aeronave sai do espaço aéreo dos EUA com o selo presidencial estampado em sua cauda. Em seu interior, James Maddox está inquieto, mesmo depois de sete doses de uísque e “canabbis medicinal” ele está agitado, olhando o smartwatch, como se esperasse alguma mensagem importante ou alguma bobeira que sempre aparece em redes sociais e aplicativos de mensagens.

– Senhor Kaiser, deseja algo mais forte para acalma-lo?

– Não, Juliano. Eu apenas queria que o Air Force One fosse mais rápido.

– Senhor Kaiser, mais rápido do que isso só se nós fossemos de Air Bus Spacial.

– Eu poderia sugerir usar um EVA, mas teoricamente e oficialmente eles não existem.

– Gah! Essa expectativa está me matando. Ajude-me a passar tempo, Shinji. Existe uma Asuka de verdade?

– Centenas.

– Rei?

– Milhares.

– Major Katsuragi?

– Especificamente major… eu conheço dez.

– Anjos? Existem anjos?

– Isso é uma pegadinha, Maddox?

– Senhor Kaiser, por favor.

– Juliano, eu não sou subordinado nem submisso.

– Deixe para lá, Juliano. Eu preciso de algo para tirar o estresse, não acrescentar.

– Agradeço, “senhor Kaiser”. Assim como o ”EVA” é informação classificada, “Anjos” é informação classificada.

– Mesmo levando em conta que eu pertença ao Círculo Interno?

– Sim, Maddox. Você está no grau 22. Você teria que estar no grau 33. Tem o problema dos demais tripulantes que são “profanos”.

– Mas você viu, você teve contato com os Anjos.

– Digamos que a tragicomédia da minha vida assemelha-se muito com a do personagem do anime que eu ganhei o nome. Quando se fala nesse… assunto… ver, ouvir, tocar ou sentir algo não é aplicável. O nível é bem maior, mais amplo, mais complexo.

– Nesse exato momento eu daria qualquer coisa para ter essa experiência. Eu estou morrendo de tédio.

– Eu só posso te pedir paciência, Maddox. Seu momento de teste e experiência está bem próximo.

[som de auto falante sendo ligado]

– Senhor Kaiser, distintos passageiros, nós estamos nos aproximando do Aeroporto Internacional de Roma. Voltem suas poltronas para a posição alinhada, recolham as bandejas de bordo, afivelem os cintos que nós estaremos aterrissando em breve.

Ainda entediado, James Maddox resolve, para desespero de Juliano, comer do cogumelo que ele ganhou do Primeiro Ministro da América do Sul. Shinji sorri e pode relaxar, por alguns minutos. Ele poderá conduzir o “pacote” sem distúrbios até o ponto pretendido.

Roma! O que falar desta cidade! Somente abalada por Cartago e Atenas! Tornou-se maior que Babilônia e Parsagada! Superou em nome seu berço, Tróia! Dominou o Egito e a Gália! Todo o Velho Mundo e o Novo Mundo existem, respiram e erguem-se pelos seus amplos ombros! No entanto, o que diriam seus nobres e míticos fundadores, Rômulo e Remo, se eles vissem como você está? Arrasada por duas pragas: o Cristianismo e as invasões bárbaras, Roma ficou fracionada até ser reunificada por Giuseppe Garibaldi para, pouco depois, conhecer novamente a decadência e agora é praticamente um país do Terceiro Mundo no Euro Grupo.

– Que cheiro é esse?

– Bem vindo de volta ao mundo factual, Maddox. Só para registro. Você me pergunta como é ter contato com Anjos, mas é experiente no consumo do maná índigo. Você sabe muito bem como é. Não precisava ficar me testando.

Aquele não era o melhor instante para discutir, James estava curtindo os efeitos da ressaca [no caso, inclua todas as drogas] e a expressão dele não era amistosa. Shinji suspira, não há o que fazer, senão tocar adiante. Diante de Shinji, um montículo era parcamente identificado com uma mera placa. Conforme os hábitos da época, os restos do grande Caio Júlio César foram repousados no centro do mundus, uma cova simples coberta com solo local e decorada com os dísticos da famiglia para facilitar o Culto aos Mortos, onde todos eramempilhados. O templo circundante veio posteriormente, quando César adquiriu o título de divino e, ainda assim, acanhado diante dos templos posteriormente erigidos pela Igreja do falso deus.

– Esteja pronto ou não, Maddox, eu vou começar a evocação.

Shinji deposita o arcano do Imperador [que Maddox “recebeu” de presente do presidente Donald Trump] e acrescenta um item [o catalisador] que auxiliaria a evocar esse espírito heroico. Felizmente SEELE e NERV tiveram o bom senso de inserir em sua memória [orgânica e cibernética] a forma correta [em latim] de evocar o grande general romano. A pronuncia e a tonalidade estão perfeitas e fazem efeito rapidamente. O mundus agita-se, flocos luminosos jorram em feixes de luz em torno do vulto e forma de uma pessoa, até consolidar-se em carne, sangue e ossos.

– Onde eu estou? [nota: “onde” pode se referir ao tempo, época] Quem me trouxe do Mundo dos Mortos?

– Grandioso César, aqui é [data perdida temporariamente]. Perdoe-me por perturbar Vosso merecido descanso, poderoso César. No entanto, como servo do mesmo Deus, eu Vos conclamo a servir como Dictator mais uma vez na Batalha do Graal.

– Tu me chamaste. Quem és tu?

– Shinji Ikari, Grandioso César.

– Tu não és romano.

– Confesso que eu sou indigno te tamanha honra, Grandioso César. Considerai-Vos que eu seja um mero servo do mesmo Deus, um facilitador, a quem foi confiado a missão de chamar-Vos unicamente para a Batalha do Graal.

– Isto ficou evidente, meu jovem. Então a quem eu serei confiado? Eu não posso servir senão alguém de estirpe e apto a conquistar a vitória.

– Permita-me Vos apresentar James Maddox, Grandioso César, aquele que ocupa o trono da maior potência do mundo atual.

César estreita os olhos, como se lançasse adagas deles e avalia o seu provável candidato a Mestre. Inevitavelmente, James estremece inteiro, sente sua alma invadida e vasculhada, a sensação é tão forte que os efeitos colaterais acabam, assim como qualquer resquício de entorpecimento.

– Eu percebo que muito mudou depois de milênios. Pelos votos sagrados que eu fiz em vida, eu não posso recusar o chamado de Roma. Em memória daquela que eu estimei mais que a vida, cuja lembrança encontra-se encerrada nessa relíquia, eu insto, James Maddox, a que apertemos as mãos e sejamos parceiros na Batalha do Graal.

Mãos se apertam e, voando no céu, canta uma águia, o que foi considerado bom augúrio. No Olimpo, na Colina da Fatalidade, de onde se vê a paisagem dos Campos Elísios, quem grita é Destino ao se deparar com suas “peças” desarrumadas. O mecanismo, depois de acionado, move-se por conta própria.

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Fate/Major Arcana – IV

Passos ressoam sobre o piso de mármore repleto de poeira daquele que outrora tinha sido a maior e mais importante construção, onde milhares de pessoas congregavam ou voltavam suas atenções. Agora mais um prédio vazio e em ruínas, a Basílica de São Pedro congrega somente pombos e ratos. O homem, quase calvo e com os poucos cabelos que restam grisalhos, não consegue segurar as lágrimas. Ele, que foi o ultimo a ocupar aquele complexo conhecido como Cidade do Vaticano, que foi o ultimo a receber a santa missão de continuar o legado de Pedro e de conduzir os Cristãos, tem que aturar o peso de ver aquela que foi a maior empresa multinacional religiosa falida, esquecida, degradada.

– Vossa Santidade, nós achamos.

– Obrigado, Juliano. Mas você não precisa usar o pronome de tratamento. Oficialmente, a Igreja Católica não existe mais.

– Nós somos o Povo de Cristo, mesmo debaixo da abominação pagã dos Filhos da Loba, não deixaremos de ser agora que o mundo é dominado pela Nova Babilônia.

– Ora, vamos, Juliano. Nós podemos contra nos dedos de nossas mãos os que ainda persistem como Seguidores de Cristo. Não há mais padres, bispos, cardeais… eu não existo mais.

– Momentaneamente, Vossa Santidade. Se nossa operação aqui for bem sucedida, nós teremos a grande chance de restaurar a Igreja Católica e restaurá-la à sua grandiosidade, poder e influência.

– Se nossa operação for bem sucedida, Juliano, eu terei que esquecer o que fizemos aqui. Por muito menos do que nós pretendemos fazer aqui, meus antecessores clamaram por uma Santa Cruzada.

– Vossa Santidade, não é segredo algum que nós convidamos e usamos das mesmas armas dos magos, bruxas e demônios para manter a Palavra de Deus.

– Os fins justificam os meios. Essa concepção filosófica é secular, não é eclesiástica. Quantas concessões mais vai fazer, Juliano?

– Todas, Vossa Santidade. Nós temos a obrigação de restaurar o Reino de Deus nesse mundo.

– Que seja. Se até no Livro Santo está escrito que o Rei Saul fez uso dessas Artes, então mesmo esses procedimentos ocorrem segundo a vontade de Deus.

Os vultos de quatro homens vão se embrenhando pelos corredores e escadas vazias das ruínas, cada vez mais para baixo, cada vez mais para o passado, atravessando as catacumbas onde os restos mortais dos primeiros cristãos repousam silentes, atravessando inclusive as colunas do antigo templo da era romana.

– Esse treco não tem fim?

– Mais um pouco, Vossa Santidade. Nós estamos perto.

Os homens, ocultos por hábitos escuros e encapuzados, cessam a perambulação com algo ainda mais antigo e anterior a Roma, à sua fundação pelos Filhos da Loba. Por milênios ignorava-se que os orgulhosos Romanos eram tão imigrantes e refugiados quando todos os povos europeus.

Quando se fala em Latino, a figura que mais vem à mente da mentalidade preconceituosa do homem branco cristão ocidental é a do Espanhol ou dos inúmeros descendentes que a Colonização [portuguesa e espanhola] formou no Novo Mundo. Latino, assim como o Celta, se refere a um conjunto de tribos que tinham em comum apenas a língua e alguns elementos religiosos.

Tal como os Gregos atribuíam sua origem ao mítico rei Heleno, os Romanos atribuíam sua origem ao mítico rei Latino. Tal como os Gregos, os Romanos atribuíam a esse patriarca mítico origem [descendência] divina.

Deram nome de Lácio à região onde fundaram a Alba Longa, local onde os sobreviventes de Tróia reuniram-se para reconstruírem suas vidas e reerguer suas cidades. O contato e convivência dos Latinos com os outros povos que ali habitavam nem sempre foram harmoniosos e pacíficos. Os Sabinos tornaram-se parte da família depois que, por falta de mulher, homens raptaram algumas sabinas [quase aconteceu uma guerra]. Os Etruscos não tiveram tanta sorte e foram conquistados pela união dos Latinos e Sabinos. Estava ali a raiz do sucesso, riqueza e fortuna que tornariam Roma em um dos maiores impérios da história antiga. Até aí, novidade alguma, reinos, impérios e grandes organizações foram fundadas em cima dos corpos de milhares de sacrifícios humanos.

– Então… chegamos? Esse é o local?

– Sim, Vossa Santidade.

O montículo de terra estava decorado com vasos, pratos e outros objetos de barro cozido. Bonifácio sabia que ali era, certamente, um antigo cemitério, provavelmente Etrusco. Não que os Etruscos tinham sido erradicados do mundo, sobreviventes da primeira guerra latina foram assimilados [e usados como servos]. A cultura, a tecnologia e o conhecimento dos Etruscos foram apropriados pelos Latinos. Governo, língua, alfabeto… foram apropriados. Rituais, sacerdotes e Deuses receberam roupagem latina e foram somados aos costumes latinos. Estelas funerárias que cercavam o montículo subscreviam em runas latinas os nomes dos finados e todos eram encimados pela Deusa dos Mortos. Que belo escândalo seria se os Cristãos soubessem que a Santa Igreja foi erigida em cima de um cemitério Etrusco e sua cidade tinha recebido o nome da Deusa Etrusca dos Mortos!

– Podemos acabar logo com isso? Eu estou começando a ficar sufocado.

– Perdoe-me por isso, Vossa Santidade. Por milênios nenhum ser humano pisou nesse solo e os fantasmas do passado guardam muitas mágoas e rancores.

– Poupe-me dos detalhes e explicações, Juliano. Vamos fazer o que viemos fazer.

– Sim, Vossa Santidade. Pode fazer as honras, sacerdote Pen Apple Pineapple?

Do grupo de encapuzados, um homem esquisito, que parecia ter saído de concurso de cosplay, faz alguns sons e movimentos. A sensação de falta de ar aumenta exponencialmente. Os fantasmas devem estar furiosos.

– Está tudo pronto e preparado. Eu preciso agora do item e do catalisador.

Juliano entrega algo embrulhado em um lenço de seda para o “sacerdote”. Bonifácio não consegue ver o que foi entregue, mas segura a risada enquanto o “sacerdote” prossegue com a pantomima ridícula. Os espíritos dos que ali jaziam passaram a ter forma e volume. Vultos caminhavam em volta dos homens que tremiam inteiros. O clima estava ficando mais tenso até para o “sacerdote”.

– Que papelão é esse? Juliano, quem é esse homem?

– Vossa Santidade, ele me garantiu que era sacerdote legítimo e conhecedor dos antigos rituais.

– Se ele é legítimo, eu sou o Apóstolo Pedro.

– Silêncio! Vocês estão interferindo no ritual!

– Criaturinha infame, é mais provável que nossos corpos e almas se juntem a essas sombras do passado.

Repentinamente, o montículo emana certa luminosidade. Os espíritos devem ter resolvido dar uma mãozinha. Dando o que esses humanos querem, eles poderão voltar a descansar. O item salta de dentro do lenço de seda. Uma mecha de cabelos louros trançados e amarrados com uma rica fita de cetim rosa. O catalisador faz sua aparição. Uma luminúria do arcano da Torre [conhecida também como a Mansão de Deus]. Acontece a fusão alquímica e no vórtice da energia formada, surge uma forma, um corpo… feminino… formosamente feminino.

– Onde… onde eu estou?

– Saudações, donzela temente de Deus. Nós te chamamos do seu descanso para lutar pela Santa Igreja na Batalha do Graal.

– Oh, por Santa Maria! Enfim, uma chance para me redimir de meus atos! Senhores, eu aceito tal gentil oferta, mas é necessário que o pacto seja consumido pelo Sumo Pontífice. Quem de vós sois o Papa?

– Este seria eu, criança. Bonifácio Canterbury. Até dez anos atrás eu atendia o cargo como Papa Dionísio II. No momento eu estou… como posso dizer… desempregado.

– Vossa Santidade, vós recebeste a unção de Deus. Isto é um fato. Eu me sinto honrada lisonjeada por vós terdes me escolhido. Faça dessa serva de Deus sua ferramenta.

– A senhorita é bem educada, cortês e civilizada. Por qual nome eu devo chama-la, criança?

– Vós podeis me chamar como vós aproveis, Vossa Santidade. Essa serva de Deus foi conhecida pelo maldito nome de Lucrécia Bórgia.

– Muito apropriado. Coincidência ou destino. Quem sabe o delírio de um escriba. Eu estou na casa dos cinquenta, mas sinto-me como um infante diante de ti, senhorita. A fortuna fez com que eu seja seu descendente, serva de Deus. Pelos extensos e desconhecidos mares do matrimônio, a família Canterbury descende da família Bórgia.

– Permita-me dizer, Vossa Santidade, que esta é a Providência Divina.

– Bravos! Os doutores da Igreja não diriam melhor.

– Vossa Santidade é muito generoso. Agora, Vossa Santidade… eu tenho um problema…

– Problema?

– Sim, Vossa Santidade. Eu tenho que… consumar o nosso contrato.

– Pois diga o que deve ser feito que nós providenciaremos.

– O problema é esse, Vossa Santidade. Meu antigo eu carnal não veria problema algum, mas como eu busco por minha redenção, eu… sinto vergonha… em consumar nosso contrato diante de testemunhas.

– Pois vivas ao pudor e à virtude. Ficaria mais à vontade se os cavalheiros nos deixassem em privado?

– Por gentileza, Vossa Santidade.

Três homens, sem dizer coisa alguma, saem do local, distanciando-se vários metros galeria para dentro. Juliano fica contrariado e com medo. Deixar o Papa com uma renomada assassina não é uma boa ideia.

– Muito bem, senhorita Lucrécia nós estamoooops!

– Que Deus me perdoe, Vossa Santidade, mas esse é o único meio de consumar o contrato. Vossa Santidade tem que entrar em mim e derramar sua sagrada semente em meu ventre.

– Oh… bem… chegamos até aqui… seria um pecado maior não irmos até o fim.

Lucrécia montou Bonifácio avidamente e não cessou até sentir seu ventre inteiro sendo regado por este líquido quente, esbranquiçado e viscoso que carrega as futuras gerações.

Fate/Major Arcana – III

Cinco da manhã e o rádio relógio toca, provocativamente, uma música velha.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”

[Karen] não tem tempo para sutis ironias e silencia o rádio relógio. Elx tem que correr se quiser pegar o café ainda quente. Lavar o rosto na água em temperatura ambiente ajuda a sacudir o corpo e espantar o resto de sono, mas nunca é suficiente. [Karen] sabe que tudo é movido pelos relógios e pelas rotinas.

O sono ameaça voltar, então [Karen] abre seu armário para trocar de roupa e observa, metodicamente, a imagem que o espelho lhe devolve. Esta é uma das rotinas de [Karen] desde… desde quando elx começou a notar as pequenas alterações em seu corpo. Desde então elx tem usado roupas três números acima para tentar disfarçar os volumes insistentemente mais visíveis. [Karen] veste seu uniforme escolar para “poupar” tempo e corre até a missão da ONU, onde elx sabe que tem café sendo distribuído.

Entre inúmeras crianças correndo, [Karen] passa despercebidx. Os missionários da ONU vão organizando as filas, mulheres e crianças primeiro. A barreira da linguagem, cultura e comportamento não é problema. Sempre tem um tradutor disponível, a preços módicos.

As regras estão afixadas em diversas línguas e são bem claras: proibido falar de religião, política e sexo. Evidentemente, um ou outro missionário tenta falar de sua crença, ou tenta fazer comentário político, mas os que são mais severamente punidos são os missionários que falam de sexo. Desde 2020 a ONU modificou suas diretrizes e reconheceu, ainda que tardiamente, que criança e adolescente são seres humanos e, como seres vivos, nascem e possuem sexualidade. Divulgou-se até os polêmicos Direitos Sexuais, onde a criança e o adolescente tiveram seus direitos humanos [de acesso, informação, educação e exercício da sexualidade] reconhecidos, mas inevitavelmente os ditos adultos não acompanharam a evolução da sociedade e o que era para ser momento de direito e liberdade sexual para todos os seres humanos acabou enveredando em normatizar e regulamentar todo tipo de parafilia. Como sempre, os ditos adultos estragando e complicando coisas que deveriam ser normais, naturais e saudáveis.

– Bom dia, [Karen]. Você chegou bem a tempo. Café e pão?

– Bom dia, senhorita Ayanami. Café puro, sem açúcar, por favor.

– Misture com um pouco de leite e pegue um pão. Você está muito magrinha.

– Obrigada, senhorita Ayanami. Só café puro. Eu vou comer na escola.

– Tudo bem. Mas na volta, você vai me deixar fazer uma análise clínica oquei?

[rolando os olhos] – Sim, senhorita Ayanami.

[Karen] sente compaixão pela senhorita Ayanami. Ela é, provavelmente, a única adulta que percebe [Karen] como menina. Na escola falam que isso era polêmico e proibido de ser falado no século XX, mas esse tabu deixou de fazer sentido no século XXI e na época atual chega a ser ridículo e obsoleto manter esses padrões de gênero. [Karen] dispara, acenando para a senhorita Ayanami, correndo para não perder o ônibus [blindado] que vai levar a garotada à escola da missão.

– Hei… vocês ouviram o boato?

– Eu não apenas ouvi, mas confirmei. Nossa escola vai receber o aluno transferido.

– Aimeudeusdocéu… é verdade que ele é brasileiro?

– Sim, é verdade verdadeira.

Gritos, chiliques, garotas em pânico. Isso sempre acontece quando chega aluno novo, transferido ou libertado. No entanto, dependendo da origem do aluno, as garotas ficam mais nervosas. Americanos são vistos como perigosos por amor às armas. Ingleses são vistos como desagradáveis pelo excesso de disciplina. Franceses são vistos como esquisitos pela forma como se vestem. Latinos [curiosamente Italianos são um caso à parte] povoam o imaginário das garotas de forma bem diversificada, entre o selvagem e o bárbaro. Não tem uma garota da escola que não conta [inventa] alguma estória envolvendo Latinos, para terror de algumas e êxtase de outras.

– Mas isso não é tudo…

– Não nos mate com a curiosidade e ansiedade, Letícia! Conte tudo!

– Eu ouvi dizer, de uma fonte confiável, que ele é pagão e bruxo!

Gritos, chiliques, garotas em pânico. No ônibus ao lado também. Os boatos correm rápidos entre os alunos da Sweet Amoris College. [Karen] vê repetindo a cena que era mais costumeira da época dos avós de seus avós. Mesmo naquela época jurássica [ironia] era incompreensível o enorme medo das pessoas “comuns” a respeito do Ofício.

– Você vai nos proteger dele, certo, Karen?

De ilustre desconhecida, [Karen] se torna o centro das atenções. [Karen] sente frio na barriga e arrepio na espinha. Ninguém ainda sabe de sua condição. Todos os alunos na escola acreditam que [Karen] é menina, no sentido mais genérico e superficial possível. O pior é que [Karen] vê essa realidade ficar dia a dia fisicamente mais evidente.

– Que é isso, gente! Menos paranoia e neurose, por favor. Nem parece que vocês não pensavam a mesma coisa de mim há um ano!

– Ah, mas isso porque nós não te conhecíamos, Karen!

– Então, gente! Vamos dar uma chance? Vamos primeiro conhece-lo.

O burburinho cessou aos poucos, as mais carolas ficaram envergonhadas por terem cometido tamanho pecado. Talvez [Karen] conte vantagem disso para a senhorita Ayanami, na volta para sua tenda.

[troca de cena]

Seguindo pela trilha da cordilheira, os comboios de caminhões do exército descem no sentido sul – sudeste, em direção ao campo missionário da ONU. Três caminhões, fortemente armados e blindados vão na frente, mais quatro vão atrás, cercando um caminhão enorme, uma unidade especial e de elite da ONU. O conteúdo dessa unidade especial, além da unidade tática especial, são dois civis. Uma mulher, conselheira tutelar da ONU e um jovem, um ser híbrido encontrado no centro de refugiados situado na Amazônia.

– Mais uma vez, Durak. Você só tem mais essa chance.

– Eu entendi, doutora Ritsuko.

– Ótimo. A Singularidade que ocorreu em NAMRU não pode ser repetida. Foram gastos muitos recursos, pessoas e equipamentos para “consertar” suas ações.

– Eu posso lembrar que o senhor Gendo tem culpa?

– Não, não pode. Nem deve. Sua atual situação é grave. Você devia é estar grato por nós termos te “realocado” para esse outro campo de refugiados. Seu futuro, Durak, pode acabar na frente de um pelotão de fuzilamento.

– Quer dizer que o fato de que minhas “ações” salvaram a humanidade não vem ao caso?

– Não. E ponto final. Você sabe muito bem o que fez.

– Oquei, oquei. Guarde esse olhar de adaga para o Kenji. Eu entendi. Eu vou ser o aluno modelo padrão.

– Excelente. Mantenha seus chifres aplainados. Ou escondidos. E nada de operar com energia mágica. Em nenhuma circunstância.

– Eu queria ver se você iria gostar se te tirassem seus preciosos equipamentos…

– Disse algo?

– Nada! Nadica de nada!

[troca de cena]

Um terreno batido de terra, cercado de arame farpado, torres com metralhadoras e soldados fortemente armados. A escola da missão da ONU parece mais um presídio. Talvez seja. [Karen] deve ser a unicx que notou que todos os alunos ali são órfãos. De tempos em tempos um aluno [ou aluna] some, sem deixar traços, professores e alunos são instruídos a esquecer e a não falar mais do aluno [ou da aluna].

Conforme os ônibus chegam, seu conteúdo vai se esparramando ao redor, com muita fuzarca, barulho e conversas. Monitores e coordenadores vão, com dificuldade, separando e organizando os alunos conforme a série e ano. Assim que o professor [ou professora] acena para a fila diante dele [ou dela], faz-se silêncio e, feito rebanho, os alunos seguem até a sala de aula. Crianças e adolescentes sabem se comportar melhor que muito dito adulto.

– Bom dia, classe!

[todos]- Bom dia, professora Mako!

– Vamos todos dar as boas vindas ao nosso novo aluno. Entre, apresente-se e seja bem vindo.

Tensão, ansiedade e expectativa. Especialmente por parte das garotas. Um jovem alto, forte e corpulento anda até diante da mesa da professora, escreve algo na lousa e então vira para a classe.

– Eu sou Durak Llyffant. Por favor, cuidem de mim.

Gritos, chiliques, garotas em pânico.

[garotas]- A Fera! A Besta! O Monstro!

– Ordem! Classe! Ordem! Nós temos que dar e manter o respeito.

– Ma… mas… Representante da Classe, Leila chan… ele… é latino!

– Sem chilique, Letícia! Você pensava o mesmo dos meninos muçulmanos! Essa é uma sala de aula de uma missão da ONU, onde centenas de povos, culturas e línguas devem conviver harmonicamente!

[Karen] estava quase rindo da cena toda, mas congelou quando se deu conta que a presidente Leila vinha em sua direção e isso nunca era boa notícia.

– Eu creio que você, Karen, é a mais adequada para ser a senpai do Durak.

[Karen] pisca três vezes, tentando assimilar o pedido [digo, ordem] de Leila. A situação está desfavorável. Desde que começou nessa escola [Karen] foi marcada e conhecida como bruxa. Algo que elx teve a má ideia de dar corda e concordar. Qualquer coisa ruim que acontecia era culpa delx. Embora fosse separadx das demais, volta e meia [Karen] era procuradx para fazer certos “serviços” que são condenados pelas religiões oficiais. Ficar incumbidx de ser a senpai [aluno/a veterano/a] responsável por esse garoto [uma bomba em potencial] é tudo o que [Karen] não precisa.

– [Karen] senpai, por favor, cuide de mim.

Por mistérios que por enquanto devem ser ocultos, [Karen] não vê mais o cenário da sala de aula, os alunos, a presidente e o aluno novo. Elx está em algum lugar rodeado por árvores que cantam e dançam. Elx está bem no centro de um círculo de fadas [seixos brancos e redondos, em círculo, supostamente uma formação natural] e elx vê Durak diante delx, mas cinco vezes maior [isso parece absurdo], mais peludo, mais escuro e portando dois chifres gigantescos. [Karen] sente os olhos lacrimejarem de saudade. Sim. Elx sabe quem ele é. Vozes chamam a ambos até o altar, ricamente decorado com pães, frutos, flores e sacrifício animal. Ao lado, um caramanchão emula o gineceu onde ocorrerá o Hiero Gamos que ambos irão consumar. Antes de se deitar e perder a consciência, [Karen] vê no seu travesseiro o arcano do tarô com a imagem da Alta Sacerdotisa. Esse é o sinal de que teve início a Batalha do Graal.

Fate/Major Arcana – II

Dentro de uma entre inúmeras instalações do MI-8, equipamentos funcionam com capacidade máxima, alimentados por geradores elétricos industriais. Os funcionários estão agitados e nervosos, o experimento está em seu momento mais crítico e o doutor Strangelove não consegue disfarçar o brilho em seus olhos.

-Doutor, o senhor tem certeza de que vai funcionar?

-Evidente, senhor Primeiro Ministro.

-Eu devo lembrar ao senhor que a Coroa Britânica tem um crucial interesse no sucesso de seu empreendimento, doutor. Tem certeza de que esse… “servo”… vai atender aos anseios da Coroa Britânica na Batalha do Graal?

-Eu serei bem sincero, senhor Primeiro Ministro. Eu não sei sequer se eu serie bem sucedido nessa operação.

– Eu serei igualmente sincero, doutor, sua vida depende do sucesso dessa operação.

Estimulado por essa motivação, doutor Strangelove faz os acertos finais nos equipamentos na central de TI, sob o olhar perfurante de Alexander Bilderberg.

– Aqui está tudo pronto, senhor Primeiro Ministro. Agora eu vou precisar do material catalisador que o senhor ficou de me fornecer.

– Não me leve a mal, doutor, mas eu quero colocar o material catalisador no equipamento eu mesmo.

Contrariado mas resignado, o doutor faz uma firula em reverência e conduz o Primeiro Ministro até o núcleo de suas câmeras. Alexander parece estar concentrado, olhando as camadas e níveis entre a central de TI e o “núcleo” onde centenas de terminais emissores de energias desembocam. São sete divisórias resguardadas por enormes e pesadas comportas, revestidas com material ultrarresistente.

– Por gentileza, senhor Primeiro Ministro, deposite o catalisador dentro da área amarela cercada por tiras vermelhas.

Alexander deixou de lado a ironia do doutor, ele não era ignorante nem iletrado. O doutor olhou Alexander por cima de seus largos ombros. Ele notou que o Primeiro Ministro depositou um pedaço de pergaminho, provavelmente feito de couro de carneiro, ricamente decorado com a luminúria de um arcano do tarô.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Primeiro Ministro… mas… essa luminúria de um arcano do tarô é o nosso catalisador?

– Sim, doutor e não quero ouvir retórica descrente. Aqui mesmo existe uma tecnologia que beira o sobrenatural.

– Perdoe minha insistência, senhor Primeiro Ministro… o arcano… da Força?

– Sim, doutor. Eu até poderia te explicar os detalhes que me fizeram encontrar esse espírito heroico e porque eu escolhi o arcano da Força, mas eu teria que mata-lo depois.

– Ah… ahahahaha [risada nervosa]. Bom, o catalisador está no lugar. Voltemos ao nosso “bunquer”, onde estaremos isolados e seguros.

Na volta, Alexander reconta as camadas e níveis, reparando [como se tivesse algum conhecimento técnico] na superfície porosa e esbranquiçada do material cerâmico metálico. Sete câmeras repletas com esse material para garantir o sucesso da operação.

– Senhor Primeiro Ministro, por gentileza, faça as honras.

Alexander aperta “enter” e o enorme processador dá início às emissões de diversas energias que vão bombardeando o “núcleo”. As partículas, em choque, criam um redemoinho que rememora, em escala microscópica, algo similar ao Big Bang. No entanto, não há uma expansão ou retração da energia, mas ocorre a formação de um vulto, um corpo, que vai tomando forma e volume. Vinte segundos depois [uma eternidade, em termos atômicos] o enorme processador encerrar as emissões, os fótons e os íons vão voltando ao estado de entropia de inércia, a câmera central vai sendo esfriada até 20° C.

– Senhor Primeiro Ministro, eu tenho a satisfação de anunciar que nossa operação é um sucesso.

– Excelente, doutor. Conforme combinado, o senhor tem cinco bilhões de libras esterlinas em sua conta.

– Os sensores indicam que o “núcleo” está seguro. O senhor gostaria de verificar se o nosso “sujeito” está em condições?

– Não é por gosto, doutor, mas necessidade. Este espírito heroico deve me aceitar como seu Mestre. Eu não passei por um treinamento árduo nem tive minha pele marcada com metal em brasa para apenas “conversar” com esse herói. Para a Batalha do Graal que tem início, ele será meu Servo.

Na altura em que estava o evento, o doutor não tinha o que falar ou dizer. Ele tinha chego até aquele ponto, ele tinha que ir até o amargo final. Dando de ombros e rolando os olhos, novamente conduziu Alexander através das sete camadas, até o “núcleo”, até o “sujeito” que acabara de ser materializado.

[flashback]

– Atenção! Lá vêm os Saxões!

– Os malditos Borgonheses vêm juntos. Nós não podemos ter outra Agincourt.

– Nada temais, leais súditos do verdadeiro rei. Deus está conosco.

– Donzela de Domremy, estão dizendo que os Saxões estão trazendo os canhões holandeses.

– Que tragam os dragões do Inferno! Deus e seus anjos irão nos ajudar!

Cavaleiros, condes, duques, barões, que ali se ajuntavam para defender o rei Luiz XI e seu legítimo sucessor Carlos VII não entenderam tamanha fé, confiança ou esperança. Cantigas e lendas sobre gloriosas conquistas são o passatempo dos soldados comuns, os nobres aristocratas tinham uma visão extremamente prática e pragmática do campo de batalha e o que viam eram os Ingleses massacrando os Franceses. Estrondos e estampidos, como milhares de trovões, ressoam pelo firmamento que se tinge com o fogo e a fúria dos canhões. Os mais velhos e experientes fecham os olhos e torcem para não doer muito, mas os gritos de dor, desespero e medo vem do lado dos Ingleses.

– Com a breca… nós ainda estamos inteiros?

– Eh, Jean, olhe para o campo de batalha.

Bergerac apontava para enormes buracos onde antes estava a linha avançada dos Ingleses. Os “canhões holandeses” sequer tiveram tempo de berrar, lanceiros e cavaleiros recuavam em debandada, sendo seguidos e mortos por um exército que não estava com o uniforme francês.

– Quem são e de onde vêm essa provincial ajuda?

– Devem ser meus bons amigos da Companhia Livre de Navarra. Dizem que estes são os mercenários mais ferozes que existem.

– Eu vos disse, nobres senhores! Deus nos mandou ajuda!

– Com a breca, Bergerac… nós temos vinho suficiente para tantos mercenários?

– Nós podemos vender as propriedades e o ouro que os Saxões nos tomaram indevidamente, Jean.

Urros, cantorias e vivas pelos bastiões resguardados das muralhas de Orleans. Os Ingleses estavam vencidos. França estava salva. Os portões de Orleans se abrem aos seus salvadores e heróis, os Navarrenses.

– Bravos, bravos… Rodrigo de Villandro, meu bom amigo.

– Bergerac, meu amigo fresco [no dialeto de Navarra, francês e fresco são parecidos]. Nada me dá mais prazer do que chutar traseiros ingleses. Mas minha Alegre Companhia não pode levar todo o crédito. Permita-me apresenta-lo ao nosso Capitão: Nestor Ornellas. Sim, nobres senhores, descendentes de Carlos Magno, este bom homem é o segredo de nosso sucesso hoje.

– Deixai, nobres senhores, que eu conheça o Enviado por Deus!

– Eu não recomendo, Donzela de Domremy. Dizem que ele é o Diabo em pessoa.

– Eu correrei esse risco, senhor Villandro.

A mulher, que havia se tornada santa, portava o estandarte com o símbolo da Flor de Lis, o símbolo da Majestade, paramentava sua alva armadura repleta de filigranas dourados e – dizem – abençoada diretamente por Cristo. Rodrigo olhou para seus amigos franceses que somente viraram os olhos, isentando-se da responsabilidade. O velho mercenário dá de ombros, não é algo que vão fazer escândalo, mulheres ficam grávidas com frequência durante batalhas. Os demais mercenários tremem e abrem passagem, ninguém ousa impedir ou atrapalhar a passagem do Capitão. Os nobres franceses espicham o olhar e não acreditam no que veem. O mercenário veste pouco mais do que uma malha feita de algum tipo de couro e duas espadas presas em um suporte preso nas costas. Como um homem com tão pouco poderia ter enfrentado os Ingleses? Então os nobres franceses reparam algo no olhar, que anunciava que tinha algo mais ali do que um mero homem, o que os faz recuar assombrados.

Joana D’Arc olha para aquele homem, aquele soldado, aquele mercenário. Quando ela iniciou a batalha pelo seu rei, ela conheceu e acostumou-se ao duro ambiente militar, às exigências do campo de batalha, aos olhares masculinos por sobre sua pessoa. A despeito de toda sua experiência e unção especial, ela treme diante daquele homem. Ela é pequena, estatura normal para uma mulher, mas mesmo dentro de sua armadura, ela é pequena diante dos demais cavaleiros, mas diante deste mercenário ela sente-se miúda. Ela sente algo que ela achava que tinha sido controlado, banido, apagado, pelos sagrados sacramentos dados pelo bispo, mas nem mesmo Deus parece ouvir sua prece, tem algo mais, alguém mais, ali diante dela, algo ou alguém incomensuravelmente mais antigo e mais poderoso.

– Pra… prazer… e… eu sou Joana D’Arc, chamada de Donzela de Domremy.

Nestor, para surpresa de todos os presentes, ajoelha-se e beija a mão de Joana.

– Nos encontramos mais uma vez, Dama da Lua.

– Nós nos… conhecemos?

– Em outro tempo, outros nomes, outras circunstâncias. Por enquanto, até recuperar sua memória de sua verdadeira identidade, eu vos peço que use meu nome de guerra, Nestor Ornellas.

– E… encantada… senhor Ornellas. Assim como estes nobres aqui presentes, eu te peço que jure por este sagrado estandarte que lutará por nós, pela justiça e pela verdade.

– Este sempre foi o nosso pacto sagrado, desde nosso berço, Dama da Lua. O símbolo que porta é prova disso.

– Eu não sei quem é essa Dama da Lua de quem fala, mas se eu te lembro dela, eu aceito o elogio. Levante-se e apertemos as mãos, como companheiros de armas.

Dizem as lendas de que ocorreu um eclipse solar no exato instante em que Joana aperou a mão do mercenário. Certo é que desde então os Ingleses somente conheceram a derrota, os Franceses venceram a guerra e o legítimo rei da França pode receber a coroa, o cetro e o trono que lhe era de direito. Vencer a guerra não foi, necessariamente, bom para todos. Gilles de Rais teve sua honra e nobreza devastadas. Joana D’Arc foi traída e entregue aos Borgonheses, mancomunados com os Ingleses, sendo então julgada e condenada por bruxaria. As Companhias Livres tiveram o mesmo destino dos Cavaleiros Templários. Alguns anos mais tarde, a Renascença alcançaria seu auge em toda a Europa, preparando para mudanças profundas na história humana.

[flashback]

– Dama da Lua…

– Ah, ele despertou. Enfim! Servo, pelo selo de comando eu te ordeno que aceite nosso contrato.

– O que significa isso? Quem teve a audácia de me trazer de volta ao mundo humano?

– Eu mesmo, Presidente Executivo Chefe do Banco Mundial, Alexander Bilderberg.

– Seja quem você acredita ser, você não tem ideia do que fez. Minha manifestação causará um abalo nesse mundo.

– Eu estou contando com isso. Eu sou o Executivo Chefe do maior conglomerado banqueiro do mundo e nossa organização está cansada de intermediários. Nós governamos o mundo nas sombras por tempo demais, está no momento de sermos os governantes de fato.

– E você espera e acredita que pode me conter e subjugar com esse selo?

– Sim! Eu passei por anos em treinamento no Círculo Interno, eu aprendi as Artes Ocultas e eu estou apto a ser Magister na Batalha do Graal que começou.

– Batalha do Graal?

– Sim! A maior delas! Esta vai abrir as portas das Sephirots e o vencedor será Deus!

– Então… eu hei de reencontrá-la… a Dama da Lua.

– Garanta o meu desejo que eu garanto o seu!

– Fazer contrato comigo irá te conduzir ao sofrimento e loucura.

– Eu vencerei?

– Receberá o prêmio que te cabe. Isso eu posso afirmar.

O espírito mercenário heroico esboça um sorriso cínico e aperta a mão de Alexander. O pacto está selado.

Fate/Major Arcana – I

Uma lenda dentro de uma lenda, assim é a Busca do Graal dentro da Saga de Artur e o ser humano ouve ou lê sobre as lendas, as interpretando muito ao pé da letra. Até conseguiram achar uma pessoa, na história humana, o duque da Cornualha, Arthur Pendragon, que lutou contra os Anglos e Saxões, passando a ser considerado rei de toda Bretanha.

Outra invenção e exagero é dizer que o reino dele foi uma época de transição entre o Paganismo ( as Religiões Antigas) e o Cristianismo (que se tornou a unica religião oficial do Império Romano desde Constantino).

Tem uma enorme lacuna nas lendas que não citam o fim do Império Romano, nem as Invasões Bárbaras que aconteceram na mesma época em que Arthur existiu. A Lenda de Arthur não explica o motivo pela Busca do Graal, uma missão que todo cavaleiro (ou aspirante) sonha em realizar.

Aqui tem outra enorme lacuna, porque o Graal é uma lenda dentro da lenda de Cristo e o ser humano acredita que existiu uma cruz física, onde Cristo foi pendurado (estão enganados quanto à identidade de Cristo) e acredita que o sangue de Cristo foi colhido em um cálice, este, chamado de Santo Graal.

Muitos buracos. Afinal, passaram-se quatrocentos anos até a existência de Arthur e o Cristianismo sequer tinha esse nome e era mais uma seita entre inúmeras, era mais uma crença entre inúmeras e sua origem verdadeira tinha mais a ver com o Caminho Iniciático e as Religiões de Mistério do que acreditar que o Messias tinha vindo para salvar a humanidade do pecado e da morte.

Segurem-se em suas cadeiras, porque essa pequena peça, imerecedora da atenção de tal gentil platéia, pretende esclarecer e preencher essas lacunas.

[Abrem-se as cortinas]

No meio do Central Park, Nova Iorque, uma cigana solitária lê a sorte pelas cartas de tarô. Não tem um cliente na cadeira na frente dela, mas mesmo assim ela vai embaralhando e abrindo as cartas na mesa. As pessoas passeiam de um lado a outro, sem se dar conta da presença da cigana. Só o vigia do parque notou algo estranho e foi ver o que estava acontecendo.

– Está tudo bem, senhora?

– A revelação está chegando.

– Revelação?

– Tire uma carta.

– Heh… seu guarda, peça para ela dar o resultado da loteria.

– Cidadão, não se meta.

– A carta está virada. Tem início a revelação.

O vigia do parque olhou a cigana, mas não havia carta alguma na mesa. Ele não viu sequer o baralho. Aturdido, ele olhou de volta para a cigana, mas ela não estava mais lá. A mesa tinha sumido e as cadeiras. Nuvens encobriram o sol e a neve começou a cair.

[Mudança de cena]

Em algum lugar da Casa Branca, Washington, DC, James Maddox sai de seu banho e vai direto ao closet, abre uma das vinte portas e escolhe calmamente um entre centenas de ternos de alta costura. Ele quer escolher bem, pois o evento que ele vai será utilizado para suas próximas ações políticas e ele precisa de algo de impacto.

Este é o sétimo mês de seu mandato e a resistência tem aumentado exponencialmente, algo maior do que aconteceu com Donald Trump quando este foi o 45º presidente dos EUA. Houve uma amenização no ambiente político e econômico até 2030, quando o dólar perdeu para o yuan a preferência cambial no comércio internacional.

No meio da crise, em 2036, o Congresso Americano aprovou com unanimidade a lei que determinou que o presidente dos EUA seria chamado de Kaiser, espalhando inúmeros focos de manifestações e protestos no mundo todo, duramente reprimidos pelos governos.

A aposta é alta, um blefe talvez maior do que fez Trump diante da fanfarronice da extinta Coréia do Norte, mas séculos de alienação política deixaram o americano médio mai intolerante, mais ignorante, mas fácil de manipular.

Frio na espinha, pele empolada, cabelos eriçados. James vira, entre cismado e curioso, para trás, encontrando apenas o abajur de péssimo gosto que iluminava o saguão. Uma relíquia de Kennedy, o corta luz com aspecto da década de 50 [século XX] e o corpo imitando as formas de Marilyn Monroe. Nada sutil, essa relação foi inutilmente negada por décadas e seu fantasma ficou em Hollywood.

A sensação de que alguém o está observando ainda o deixa em alerta, mas essa presença não tem como ser física, os aposentos particulares do presidente dos EUA são mais seguros e resguardados do que o Forte Knox, ali tem tecnologia que sequer deveria existir.

– Senhor Kaiser? Algum problema? Os sensores detectaram alteração emocional no senhor.

– Está tudo em ordem, Brad. Foi uma sensação passageira uma intuição.

– O senhor está nervoso por causa da Comemoração do 100º Aniversário da Experiência Trinity?

– Deve ser, Brad. Deixe todos prontos. Eu estou saindo em cinco minutos.

Manhattan encontra-se sob uma pesada tempestade de neve, a alteração do clima global tornou-se uma realidade em 2022, mas o comboio de veículos militares pesados passam pelas colinas esbranquiçadas como se fossem isopor. O túnel privativo presidencial deixou de ser usado pouco depois que a crise eclodiu e não fazia mais sentido em mantê-lo, principalmente porque os únicos veículos que resistiram ao clima extremo foram os militares.

– Senhor Kaiser, o tempo previsto de viagem é de oito horas. O clima no Novo México está bom e claro, temperatura de 54º C. Eu tomei a liberdade em escrever seu discurso.

– Excelente, Brad. Todas as emissoras de conteúdo de mídia confirmaram presença?

– Somente as alinhadas com a OTAN. Aliados estão nos dando apoio no Velho Mundo, mas podemos contra com a resistência dos BRICS e países do Terceiro Mundo.

– Pois que berrem, esgoelem à vontade. Essa resistência, essa teimosia, terá fim, com o pacote de iniciativas que eu irei lançar nesse evento.

[Mudança de cena]

Faltando somente 1h 30 min para chegar em Novo México, o smartwatch de James vibra e emite luz, indicando que alguém estava tentando estabelecer contato. Considerado tecnologia obsoleta, artigo de museu para ser exibido ao lado dos smartphones, James manteve mais essa relíquia de outros presidentes unicamente por questões de segurança nacional. Uma leve pressão com o indicador é suficiente para acionar o aparelho, confirmar sua identidade e a origem da ligação.

– Kaiser Maddox falando.

– Senhor Kaiser, aqui é o Agente Mulder. Senhor, nós temos… uma situação.

– Se for protesto ou barricada, é só usar o procedimento padrão.

– Nós encontramos uma Singularidade, senhor.

– Descreva esta Singularidade, Agente Mulder.

– Nós encontramos uma carta e um arcano do tarô fixados no alto do obelisco que indica o Marco Zero.

– Uma… carta? Física? Com papel, envelope e selo?

– Sim, senhor Kaiser. Com postagem datada de 2017.

– Eu não ligo para essas superstições do século XX, mas essa “carta” tem remetente e destinatário?

– Sim, senhor Kaiser. O remetente é o então presidente Donald Trump. O destinatário consta: ao 52º presidente dos EUA, JM.

– Entendo. Por que Trump deixaria uma carta física nesse local? Como ele sabia as minhas iniciais? Por que ele deixaria um arcano do tarô junto?

– Talvez, senhor Kaiser, Trump queria confiar ao senhor este arcano, onde ele pôs sua assinatura. Trump, apesar da personagem que encenava, era parte do Círculo Interno do Governo Mundial. De alguma forma o Grande Irmão sabia que o senhor viria.

– Entendo. Qual arcano do tarô que Trump deixou para mim?

– O arcano do Imperador, senhor Kaiser.

Cartas físicas, com papel, envelope e selo, tornaram-se romantismo obsoleto no século XXI. Seu descendente mais direto, o e-mail, foi rapidamente substituído por aplicativos de mensagem e redes sociais. Então, boom, apareceu Michael Leary, descendente de Timothy Leary, com a rede neural, no qual a humanidade ficou, literalmente, ligada à “internet das coisas”, dispensando inúmeros equipamentos e interfaces. Foi o fim de inúmeras empresas, a rede neural transformou todo equipamento eletrônico em um acesso à rede mundial. O seu smartwatch tinha mais recursos, memória e capacidade de processamento do que a mais avançada CPU e aquilo era considerado peça de museu. Imagine uma luminúria contendo um arcano do tarô.

A parte simples foi isolar a área e dispensar a Imprensa. A parte complicada é chegar até o obelisco, o sol a 54º C, nenhuma sombra, ambiente desértico e o desafio de abrir a carta. James estudou na faculdade, sabia o que era e para que servia uma carta física, mas era outra coisa se deparar com esse “fóssil” e saber como usar ou acessar seu conteúdo.

Quando era jovem, em uma excursão ao museu, James teve a oportunidade de tocar esse material antigo chamado papel, mas manipular e mexer à vontade estava sendo uma experiência nova. O material cedeu em um trecho, esgarçando, por causa de sua natureza e antiguidade, James somente ampliou a brecha rasgada para chegar ao conteúdo.

O papel timbrado com a figura da Casa Branca [marca d’água], o carimbo presidencial e a assinatura confirmam que o material é autêntico e original. Surpreendentemente, não é uma missiva feita nos rigorosos padrões oficiais, mas sim algo manuscrito, pessoal, subjetivo, descrito com linhas feitas com caneta tinteiro, praticamente um achado arqueológico.

A luminúria parece ser deliberadamente uma simulação, uma imitação. O século XXI foi sempre o mote de discursos e debates acalorados na faculdade, pois foi a Era Dourada, em termos comerciais, do esoterismo de conveniência.

Matéria de antropologia, James era partidário de que o esoterismo tornou-se mais um produto de massas como reflexo da permissividade da década de 70 [século XX]. Alimentado pelo fluxo da Contracultura, inúmeras crenças e religiões alternativas ressuscitaram [ou tentaram] as escolas místicas da antiguidade. Nesse meio apareceu o Paganismo Moderno e sua “empresa” mais bem-sucedida, a Wicca. Na trilha desse neo-romantismo de fim de século e milênio, pessoas alegavam ser pagãos, bruxos e sacerdotes. A humanidade, faminta por novidades, por outros caminhos, simpatizou com essa gente e foi o estopim para que artigos esotéricos voltarem a ser produzidos, comercializados e divulgados como sabão em pó. Oferta e demanda em alta fez com que aparecessem lojas, editoras e artesãos especializados, resultando no esoterismo de conveniência. Os baralhos de tarô simplesmente seguiram a tendência, se desdobrando, se diversificando e se tornando acessíveis até em mercados populares.

O material da luminúria que James tinha em mãos era indiscernível, podia ser totalmente sintético e artificial como as cores com que foi impressa. Cercada com um caleidoscópio de símbolos e sigilos que simplesmente tinham perdido toda sua essência, seu centro ou cerne é dominado por uma figura masculina, trajes anacronicamente tidos como “nobres”, sentada em um trono, com um cetro na mão direita e o globo [terrestre] na mão esquerda, olha severamente para diante, como monarca coroado que representa. Em seu verso, o padrão geométrico decorativo comum em baralhos e a assinatura de Trump. Nada que não possa ser fraudado ou falsificado se… se não fosse por marcas discretas com o sigilo do nome com o qual o 45º presidente dos EUA era conhecido no Círculo Interno.

– Agente Mulder, Brad, eu tenho que voltar para a Casa Branca. peçam ao pessoal da TI para transmitirem a simulação do evento e o meu discurso.

– Sim, senhor Kaiser.

[Mudança de cena]

James retorna ao seu dormitório privado e desliga todos os sensores e aparelhos. Ele quer privacidade total. Depois ele explica ao Círculo Interno. O manuscrito de autoria de Trump teria que passar por uma decoupagem e a luminúria também deve ter algo mais que ele ainda não tinha a menor ideia de como ativar. Felizmente ele tem anotado as chaves dos códigos em sua agenda pessoal e as palavras Batalha do Graal e Sephirot acendem seus sinais de alerta que apitam alucinados com a volta daquela incômoda sensação de presença.

– Então você finalmente pegou o arcano.

– Quem está aí? Identifique-se!

Um homem velho sai do canto sombreado e fora do alcance dos sensores. Mostrou que não estava armado e se pôs a falar.

– Eu sou Shinji Ikari, o atual presidente da NERV, uma organização que é parte da SEELE, que praticamente manda na ONU. Digamos que nós somos a elite da polícia secreta da polícia secreta.

– Shinji Ikari?

– Sim… eu sei… eu dispenso piadas. Eu aturei mais do que a minha cota na infância e adolescência. Coisas do século XXI, quando pais ocidentais começaram a batizar sua progênie conforme seus personagens favoritos de anime.

– Então é mera coincidência que trabalhe para NERV, ramo da SEELE?

– Ah, não. NERV e SEELE existem de fato. Mas eu não vou discutir o gosto duvidoso de seus fundadores.

– Eu posso pressupor que há alguma conexão entre a Batalha do Graal e o Projeto de Instrumentalidade Humana?

– De certa forma. Os anjos são reais, mas não como são concebidos. Os EVAs existem, mas não da forma e jeito que foram imaginados. Mas isso fica para depois. Nós precisamos “abrir” o arcano.

– Mas como?

– A cifra rabuscada no canto do arcano. Ela marca a latitude e a longitude. Nesse ponto nós iremos ativar o arcano que irá desencadear a Batalha do Graal que nos abrirá as portas para as Sephirots.