Em busca do Graal – XII

A entrada pela qual passamos para o que aparenta ser uma praça ou átrio se fecha. Apesar dessa clausura, nós ouvimos o som abafado de rochas caindo no que era o túnel da mina. Nós estamos presos dentro da Atlântida.

– O que pretende, criatura? Você vai nos prender ou nos vender como escravos?

– Oh, não, humano e homem da Igreja. Eu fui enviada por Aquela quem eu não ouso declinar o nome para os guiar até vosso destino e lhes responder as perguntas que vos queimam a mente.

– Pode então nos dizer teu nome?

– Vocês podem me chamar de Leila, para evitar confusão.

– Conhece o bruxo?

– Sim, nós nos conhecemos.

– Onde nós estamos?

– Esta é uma área do Submundo, que vocês, homens da Igreja, chamam de Inferno. Mas aqui é também uma das muitas cidades que nós, a humanidade primordial, construiu, antes da vinda dos Deuses das Estrelas.

– Quem é o seu povo? Quem são os Deuses das Estrelas? O que tudo isso tem a ver com a humanidade?

– Nós somos chamados de reptilianos. Nós fomos gerados por Gaia e nós somos descendentes dos dinossauros. Nós vivíamos em paz e harmonia, até que vieram os Deuses das Estrelas. Sim, eles vieram prometendo que seriam amistosos, só queriam um pouco de terra para fundarem sua colônia. Nós éramos inocentes e ingênuos, acreditamos nas palavras deles. Nós vimos quando a colônia cresceu, ampliou-se e seus inúmeros filhos e filhas iriam precisar de mais terras, mais tudo. Inevitavelmente, guerras aconteceram entre os Deuses Antigos, habitantes de Gaia e os novos Deuses, os Deuses das Estrelas. Tudo teria acabado, se não fosse por um Deus e uma Deusa, apaixonados e pertencentes a espécies diferentes. Sim, o Casal Divino, Ele, o Mais Antigo e Ela, a Mais Abundante. Houve um acordo e nós vivemos até então no Submundo. Tréguas são facilmente quebradas, os Deuses das Estrelas descobriram o tesouro de Gaia e a riqueza aumentou os problemas entre nós. Novamente guerreamos, Deuses e Heróis que sua gente conheceu surgiram e nós nos afastamos, criando uma dimensão completamente paralela, onde os Deuses Antigos, espíritos e almas poderiam viver em segurança e vocês chamaram isso de Mundo dos Mortos. Os Deuses das Estrelas não tinham mais ajudantes, servos, para trabalharem, então os Annunaki geraram sua gente a partir da manipulação genética onde eu e um lêmure fomos utilizados, de onde surgiu o primeiro hermafrodita, o Homem Original.

– Esse Homem Primordial… seriam Adão e Eva?

– Vocês, homens da Igreja, assim podem chama-lo.

– Mas… e Jeová? O Deus que nós adoramos?

– Houve outra guerra entre os Deuses e sua gente tomou parte, escolheu um lado. Seus reis e governantes sempre escolhem um Deus que aceite fazer um pacto de poder onde a humanidade, no caso vocês, permaneçam submissos ao ponto de aceitarem viver como rebanho. Jeová é um mero verme, em comparação aos Deuses verdadeiros, uma larva que surgiu como refugo da engenharia genética dos Annunaki e cresceu na terra de um povo escravo. Sim, não faltaram humanos que o ajudaram e o ajudam, uma ajuda mútua, onde um sustenta o poder fajuto do outro.

– Mas… e Cristo?

– Ah… essa é a melhor parte. Entre os Deuses e Deusas, Ela se destacava em tudo. Ela é a Mais Antiga e é a Mais Nova. Inesperadamente, Ela, entre todos, sempre acreditou e confiou na sua espécie. Ela foi a verdadeira autora de inúmeras lendas e mitos onde um Deus “rouba” o Conhecimento dos Deuses para confia-lo à humanidade. Toda a cultura do ser humano, incluindo a ciência e a tecnologia, nasceram e floresceram nos templos dEla. Ela aceitou inclusive aquilo que é a maior heresia, blasfêmia e sacrilégio: Ela encarnou como uma de vocês e recebeu diversos nomes, entre os Deuses e entre os Homens. Ela… Ela morreu inúmeras vezes… Ela… sacrificou-se… por vocês… vocês mataram Ela inúmeras vezes. E mesmo assim… Ela ainda confia e acredita no potencial da humanidade!

– Então… quem é o Deus de quem Cristo fala?

– Não era Jeová… Cristo, enquanto existiu nessa forma, nesse tempo, sempre falou contra os poderes terrenos, tanto os seculares quanto os eclesiásticos. Cristo rompeu com todos os limites e fronteiras, nessa forma, nesse tempo e, mais uma vez, entregou o Conhecimento para todos e, mais uma vez, foi traída, perseguida, presa e morta pelas mesmas mãos que diziam segui-la.

– A Igreja… matou Cristo?

– Chamem de Igreja, chamem de Sinédrio… nomes são nomes. O importante é conhecer e perceber onde está o verdadeiro inimigo.

– Mas nós fomos enviados para recolher relíquias sagradas, encontrar o berço dos Arianos e nosso ultimo destino está no túmulo de Cristo. Por que nós continuamos a buscar por isso?

– Porque vocês procuram por algo fora de vocês. Vocês tem essa necessidade de algo para afirmar que acharam a Verdade. A certeza lhes dá conforto, segurança e proteção contra o que vocês acham ser uma vida cheia de dor, sofrimento, perigos e ameaças. Assim como a Verdade está dentro de vocês, a sombra da Dúvida também. Enquanto não aceitarem a Sombra que existe dentro de vocês, continuarão a perseguir pelas imagens daquilo que vocês mesmos projetam como sendo o ideal, a riqueza, o poder, sem nunca encontrar, sem descanso, sem satisfação. Isso acontece exatamente porque anseiam pelas imagens, não pela coisa real.

– Isso… nunca terá fim?

– Esse é outro engano. Não pense nas coisas, nas suas estórias, como se houvesse um começo e um fim. Tudo é cíclico. A natureza de Gaia mostra isso. Cada dia que vocês acordam é um começo, cada noite que dormem é um fim. Ainda assim é a mesma vida. Vocês trocarão de corpo, viverão outros tempos, em outros países, aprenderão mais sobre vocês mesmos, terão inúmeros amores, geraram e gerarão aqueles que virão a ser seus pais ou avós.

– Nós estamos… rodando em círculos? Nós não chegaremos a lugar algum?

– Onde querem chegar? Só existe a eternidade. Dia e noite são criações humanas para medir essa ilusão chamada de tempo. Futuro? Isso é agora. Progresso? Para qual direção vai o progresso? Ninguém pode afirmar. O momento da realização é agora.

Quando damos conta, nós estamos diante de outro portal aberto. Leila faz uma reverência e nos indica que nós podemos sair.

– O… o que vamos encontrar do outro lado?

– Isso não me compete dizer. Vocês irão descobrir, cedo ou tarde.

– Leila… nós vamos encontrar Cristo? Ela renasceu em nosso tempo?

– Sim… e sua gente irá distorcer a palavra dEla, irão traí-la e matá-la. E Ela morrerá mais uma vez por vocês, por causa de vocês, com um sorriso nos lábios.

– Como poderemos reconhecê-la?

– Um certo britânico irá compilar o Conhecimento com o Ofício. Ele reavivará o interesse da humanidade por suas raízes e origens. O ser humano voltará a ouvir o nome da Deusa e, feliz e certamente, do Deus. Sua gente irá redescobrir a base de toda crença e religião: a natureza. Vocês ainda terão que superar esse medo em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo. Mas Ela me garante que vocês irão conseguir. Eu, que sou apenas uma de suas filhas, aceito a decisão dEla. Agora sigam pela trilha que escolherem.

Nossa saída deu em uma gruta em Srinagar, para espanto e surpresa dos sacerdotes que ali estavam.

– Ah, enfim vocês chegaram. Venham, Ela os aguarda.

O ancião daquele templo em algum lugar de Srinagar, Caxemira, Paquistão, nos conduziu pelo corredor ricamente decorado com tapeçaria com os retratos dos… arianos… nobres da civilização Harapa que depois deu origem à Índia… todos com aquela pele cor de cobre comum da região. Isso é tudo o que se tem a falar da origem dos europeus e sua pretensa estirpe caucasiana.

– Deusa Benevolente! Eles chegaram!

Um belo e pesado dossel, repleto de gravuras, ouro e um fundo feito de lápis-lazuli se abre diante de nós. Meus parceiros não sabiam o que viam, mas eu sei. Em algum lugar do Iraque, país que surgiu depois do fim do Império Otomano, tal dossel abrigava e resguardava a entrada do templo da Deusa que, antes de Cristo e Isis, dominou o “mundo civilizado”.

– Entrem, meus filhos amados. Nada temam, pois Eu Sou Aquela que possui as Pedras do Poder e do Destino. Vocês me conhecem por Cristo, mas Eu existi entre vós como Myriam de Magdala e fui Eu quem ensinou a Yheshua ben Joseph o Conhecimento. Aquele que conhecer o Mistério será recebido no meu mais Intimo Segredo.

Pobrezinho, coitadinho de mim, apaixonado que eu sou, declamo seus inúmeros nomes, títulos e honrarias. O Senhor da Floresta, que me observava no canto, me aplaudiu e me empurrou em direção à Ela que, graciosa e gratamente, recebeu-me por inteiro e ali eu me desfiz em êxtase. Eu tinha encontrado o Graal.

PS: Eu tenho diminuído consideravelmente a frequência dos textos. A tentativa de escrever textos maiores fracassou. No momento eu termino esse conto no conforto de meu lar, pois o Forum Bandeirante entrou no Recesso. Eu peço-lhes vênia para me deixarem aproveitar as festas e férias de Fim de Ano. O conto está terminado, como dizem no reality show, para entregar a prova. Eu não garanto continuidade. A Sociedade, no entanto, continuará essa longa obra que é libertar a humanidade.

Se houver algo além dessa vida, nós haveremos de nos reencontrar e rir muito de tudo isso.

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