Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

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