Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

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