Em busca do Graal – IV

As duas divisões – a leve e a pesada – se reencontram em Potsdam, a poucos quilômetros de Berlim. Apesar de nosso comboio ser grande e barulhento, fica perdido e invisível em meio de tantos comboios militares. A sensação é de tensão. Teoricamente a Grande Guerra acabou, mas as marcas estão bem visíveis em todo canto. Nisso a percepção de todos concordam, era possível ainda ver colunas de fumaça subindo de cidades destruídas pela guerra, incontáveis veículos e corpos enfeitam as estradas. Teoricamente estamos em tempos de paz, mas o que está perceptível é que a Grande Guerra possui brasas bem vívidas prontas a incendiar o mundo novamente.

Potsdam e Berlim dão uma boa ideia do que é a Alemanha. Esqueça tudo o que se ouve sobre cultura, arte, tecnologia e filosofia alemã. Em muitos termos, a Alemanha é bem a expressão da Europa. Uma mistura de inúmeros povos, mas que orgulhosamente se recusam a admitir que são mestiços, agarrando-se a um passado dourado mítico que nunca existiu. A forma como eles se referem a si próprios é uma ilusão – Germânicos. Poderiam se dizer Anglos, Saxões, Eslavos, menos Germânicos. Há que se entender, considerando que a palavra Eslavo e Escravo tem a mesma origem linguística. Evitam também Anglos e Saxões para não se misturarem com Franceses e Ingleses. Muito embora tenham origens semelhantes e sejam descendentes dos povos Celtas, quiçá Indo-Europeus, alemães, franceses e ingleses não se veem como irmãos da mesma gens [caucasianos].

Berlim, que foi construída em um pântano [daí a origem de seu nome] ganhou seu atual estado e influência por ter sido escolhida como capital, tanto do extinto Império Austro-Húngaro, como do Reino da Prússia e, após a unificação conduzida por Otto Von Bismark, inevitavelmente foi a capital do Império Alemão até a Grande Guerra. Acusam-se diversos motivos pelos quais irrompeu a Grande Guerra, os historiadores que me perdoem, mas a triste verdade é que foi por dinheiro e lucro fácil que nós nos matamos. O resultado é o que se configurou no Tratado de Versalhes, algo que ninguém engoliu e, para sorte ou azar, a Alemanha recaiu uma pesada tributação, perda de território, perda de colônias. Igualmente arrasada, igualmente em luto por seus filhos mortos na guerra, a Alemanha tinha que se reconstruir e se reerguer, algo complicado, quando faltam mãos, comida e indústrias. O rancor e o ressentimento estavam palpáveis e é uma questão de quando e como a Grande Guerra vai reacender a pira para mais mortos.

– Senhores, eu não desejo desrespeita-los, mas daqui em diante, deixem-me tratar com os oficiais.

A expressão do oficial, debaixo do quepe militar era de apreensão. Nós ouvimos os soldados descerem primeiro e a divisão pesada transitar ao nosso redor, como se fossemos um exército em manobra de sítio.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

Depois de oito horas de estrada, há tempos o sol dobrara a esquina do Portal Oeste e uma rala neve de outono prenunciava a aproximação do inverno. Nós estamos na nona hora, nós estamos em uma extensa quadra cimentada, cercada por enormes postes iluminados e cercas de arame. Ressabiado, Corso começa a tremer, acreditando que nosso desembarque aconteceu em uma instalação militar.

– Ora vejam só… nós estamos diante do Castelo Schloss. Por que estamos aqui, capitão?

Van Helsing reconhece o local, mas não o motivo para tanto cenário. Havia um símbolo encobrindo o brasão no frontispício, mas não era algo discernível.

– Nós estamos em uma “loja” da Sociedade Thule, senhor Van Helsing. Mas, por gentileza, permitam-me que eu conduza a conversação. Esse pessoal… é nervoso e agitado. Assim como os senhores, eles possuem um destacamento militar a serviço deles, então para que todos nós possamos voltar às pernas de nossas mulheres, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

Fácil falar, difícil fazer. Corso estava a beira de um ataque de nervos. Nós três éramos os únicos “civis” entre dois destacamentos militares. Eu quase sou contaminado com essa paranoia, pois eu me vejo reparando na diferença entre os uniformes. Se estivéssemos em área de conflito, isso é normal, mas nós estamos, supostamente, na Alemanha pacificada e, teoricamente, são soldados a serviço da mesma pátria. O capitão está visivelmente nervoso e não é mera questão de patente, seu interlocutor é outro capitão, o que os diferencia é um minúsculo símbolo bordado no uniforme, como se aquele capitão pertencesse a algum tipo de elite.

– Está tudo certo. Nós podemos entrar. Mas em caso de dúvida ou pergunta, façam para mim.

Eu praticamente tive que arrastar Corso para passarmos pela coluna de soldados com fuzis e metralhadoras em punho, com expressões pouco amigáveis. Dentro do saguão principal do castelo, mais gente uniformizada, portando uma patente que indica alguma divisão especial, aparentemente burocrática e igualmente científica, uma condição esquisita para o meio militar.

– Tenente Haushofer, eu trouxe os especialistas indicados pelo duque.

O oficial tinha uma aparência mais envelhecida do que Van Helsing e seu comportamento era similar ao duque, medindo dos pés à cabeça seu subordinado como se fosse uma criatura inferior e dispensou um olhar com maior desprezo ainda para nós.

– Civis. Acadêmicos. Nós devemos estar desesperados. Senhores, eu vou dispensar o menor tempo possível da presença nefasta dos senhores. Agradeçam aos meus superiores por eu ter lhes concedido o meu precioso tempo. Eu vou até lhes dispensar do questionário de praxe. Apenas me sigam e avaliem o artefato. Depois sumam.

Corso passou de lívido a raivoso, Van Helsing fez aquela expressão submissa que lhe é típico como serviçal da Igreja. Eu sigo com a farsa. Há tempos que eu decidi que a única opinião que importa sobre mim, é a minha mesma. Passamos do saguão a um largo corredor e deste a uma bela sala repleta de livros, mesas, equipamentos e o restante do pessoal da Sociedade Thule, vestidos com uniformes de laboratório completo, com luvas, máscaras, respiradores. No centro deles, hermeticamente fechada em um vidro, o que nossos anfitriões acreditam ser a lança Longinus.

– Oh! Isso é… incrível!

Van Helsing estava visivelmente empolgado e estava perigosamente próximo do artefato. Corso ficava pouco atrás, mais cético. Eu nem precisei olhar de perto. A lança era muito bem feita, certamente é antiga, mas não é Longinus, no máximo é uma lança do tempo carolíngio. O tenente estava com uma pistola pronta para disparar contra Van Helsing, enquanto ambos os capitães tentavam evitar o pior. Um tiro ali seria um massacre e isso não cairia muito bem, nem para a aristocracia decadente, nem para os republicanos em ascensão. Felizmente o bom senso prevaleceu e Van Helsing teve que se contentar em olhar de longe.

– Senhores, eu esperava mais profissionalismo. Se não fosse parte do plano do Führer, eu pessoalmente os mataria a todos. Vamos ao que interessa. O quanto mais cedo eu limpar o ambiente de suas pestilentas presenças, melhor. Esta é a Longinus?

Van Helsing balbuciava algo ininteligível enquanto balançava a cabeça e babava pela boca. Corso olhou o mais perto que nos permitia e nem cogitou em pedir para examinar mais detalhadamente. Corso olhou para mim, como se quisesse meu apoio sobre suas suspeitas, mas a minha expressão estava bem evidente para o tenente.

– Francamente… eu não esperava muita coisa dos lacaios da Igreja, seja esta a Católica ou a Protestante. Diga, bruxo, sem delongas, enigmas ou eufemismos. Qual o seu parecer?

– Tenente, esta lança é evidentemente antiga, mas eu a colocaria na época do reino carolíngio.

– Como eu suspeitava. Capitão, pode retirar esses lixos civis e acadêmicos de minha nobre loja. Leve seus soldados também. Ah, sim! Eu gostaria de alguns minutos com o bruxo. Assunto particular.

Meus parceiros de missão ensaiam um protesto, mas diante de tantos soldados, armas e clima beligerante, desistiram rapidamente e seguiram escoltados para fora do castelo, de volta à boleia do caminhão. Os demais presentes dispersaram rapidamente assim que o tenente estalou seus dedos.

– Meu caro bruxo, eu quase nutro simpatia por você. Sua reputação o precede, em muitos termos e eu quase sinto um pingo de inveja e ciúme. Ao menos, o senhor tem um conhecimento razoavelmente abrangente e deve ter percebido que essa busca pelos artefatos tenha algum outro proposito. Eu posso te responder, se me responder, se é monarquista ou republicano.

– Contanto que não use sua pistola…

– Francamente, bruxo… faz pouco de minha pessoa.

– Tenente, por hábito e por circunstâncias, eu sou obrigado a reconhecer sua patente e posição. Assim como a do capitão, a do duque e a do atual presidente. Dentro das atuais circunstâncias, vocês estão imbuídos com algum poder. Mas o poder que vocês portam não lhes pertence, nem é permanente. Eu, tenente, somente obedeço a Fonte, o Poder.

– Exatamente o que eu ouvi falar. Eu não espero que compreenda ou aceite, bruxo, mas nós estamos a alguns passos de conceder à humanidade o Poder. Nós vamos instaurar uma Nova Ordem Mundial e nós daremos início à Era do Super-Homem. Eu sei que posso contar com sua discrição, bruxo. Nós vamos tornar o ser humano em ser divino. Agora vá. Eu sei que você irá encontrar o que queremos e precisamos.

O capitão suspirou aliviado ao me ver de volta e até me ajudou a embarcar no camburão. Meus parceiros de missão estavam emburrados e cabisbaixos. Abafado pela pesada lona que nos separava da cabine, o capitão nos comunicou que nossa próxima parada é Viena. Excelente. Mais dez horas de viagem. Eu não creio que cantorias irão melhorar os ânimos.

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