Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

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