A Irmandade do Capuz – I

Este pode ser considerado um desdobramento ou uma versão alternativa do conto “Dos males, o menor”. Eu estou com preguiça, então eu vou usar o cenário de Slugville. Não tem qualquer conexão com a presente peça, mas esta cidade fica a noroeste de Squaredom. Apenas para registrar um casuísmo.

Eu tinha acabado de detonar a “live action” do jogo Amor Doce, mas no multiverso [a Quinta Dimensão], nossa noção de tempo é ridícula. Incansável e enérgica como sempre, Riley aparece com uma intimação.

– Que bom que ainda não saiu de seu personagem como Erzebeth, escriba. Kate e Leila fizeram questão de que eu te trouxesse o novo roteiro. E para esta encenação, você deve encarnar em sua forma de Erzebeth.

– Por mim tudo bem. Eu só estou começando a desconfiar das verdadeiras intenções da Sociedade.

– Lembre-se de que é para um bem maior.

– Tanto faz. Pode dar uma sinopse?

– A estória é sobre cinco garotas que, com poderes mágicos, lutam pela justiça.

Eu arqueio minha sobrancelha delicadamente delineada enquanto Riley faz sua melhor expressão de paisagem.

– Que seja. Meu papel nessa encenação será a de mocinha ou de bandida?

– Nem uma, nem outra. Seja você mesmo… ops… você mesma.

Eu dou de ombros e sigo adiante. Cinco garotas que, por acaso do Destino ou da Fortuna, se conhecem e obtêm misteriosos poderes mágicos. Eu rebusco na minha memória e lembro que o anime Sailor Moon foi o primeiro que usou dessa premissa, seguida por Puella Madoka Magica e pela Glitter Force. Eu dou uma olhada para trás, mas Riley não estava mais por perto. Eu digo com frequência que não existem coincidências, então eu pressinto que irei rever as patrulheiras glitter.

Por tudo isso que eu estou aqui em Slugville e o problema de segurança pública como ponto de partida. Como em todo centro urbano, não faltava quem defendesse leis e penas mais severas, gente que pedia por mais policiamento, ou para que a população tivesse direito de porte de arma, quando não aparecia quem defendesse o linchamento. Slugville parecia muito com qualquer cidade brasileira.

– Alto! Quem vem lá?

De um posto de fronteira fortemente armado e blindado, um soldadinho interpelava a minha aproximação.

– Bom dia, guarda. Eu venho de Metrocity. Eu ouvi falar que vocês estão precisando de ajuda.

O soldadinho estava mais interessado em olhar meus seios do que me ouvir ou checar meus documentos.

– Você deve ser uma daquelas garotas estrangeiras que vieram para garantir a ordem e a segurança. Nosso governador [que se parece muito com Trump ou Bolsonaro] não gosta muito de estrangeiros ou imigrantes, mas ele abriu uma exceção diante da emergência. Você pode entrar.

Pois eu entrei rebolando fronteira adentro em Slugville. Eu dei uma olhada por cima dos ombros e o soldadinho estava mais preocupado em observar meus quadris e bumbum do que em checar as informações ou avisar seu comando. Para martirizar um pouco, eu joguei um beijinho para o guardinha para agradecer a gentileza dele.

Slugville aparentemente está quieta e segura. As pessoas sorriem e te cumprimentam gentilmente. Ninguém joga lixo no chão. Ninguém infringe qualquer regra de trânsito. Tudo parece em ordem… demais. Eu vejo pânico e medo nos olhos das pessoas, como se estivessem sendo constantemente sendo vigiadas… patrulhadas.

– Hei você! Quem é? De onde veio? Qual sua intenção aqui em Slugville?

Eu olhei bem a figura diante de mim e esta estava tão intrigada como eu com o que estava vendo. Eu me sinto velho em ficar usando essas referências, mas ela parecia um Changeman, um filme japonês de tokatsu que antecedeu os Power Rangers [mais americanizado]. Ela vestia um uniforme inteiro rosa [incluindo máscara], tão colado ao corpo que inevitavelmente faziam suas formas parecerem. Quando eu estive trabalhando para a NERV, eu conheci as plugsuits, mas esta estava perigosamente mais próxima das roupas de látex que são usadas no BDSM.

– Beth? É você mesma? Sou eu! Emily!

– Ah, oi. Agora eu que quero saber o que você está fazendo aqui.

– Bom, eu e as demais meninas viemos aqui para encenar. No começo todas nós ficamos envergonhadas com os uniformes dos personagens, mas depois nós acostumamos. Você também vai tomar parte na peça?

– Eu acho que sim.

– Que legal! Vem comigo que eu te levo onde as outras estão. Eu tenho certeza de que você será bem recebida.

Eu fui me aguentando conforme caminhamos, pois a Emily é daquele tipo que, se ficar quieta, ou está doente, ou morreu. Conforme chegávamos ao Quartel General da Irmandade do Capuz, havia algo incomodamente familiar em sua aparência.

– Heeei! White chan! Kaori!

– Que gritaria é essa?

– Eu trouxe uma nova recruta. Eu posso leva-la ao nosso estande de testes?

Kaori, a White Falcon, fica me avaliando visualmente e eu tento não estragar meu… disfarce. Minha mente queimava com perguntas, mas não era ali nem agora que eu conseguiria respostas.

– Bom, nós não estamos em condições de escolher. Nós estamos precisando de pessoal. Emily, eu conto com você. Conduza a novata ao local de testes.

– Okidoki! Pode contra comigo, comandante!

Emily sai saltitando. Deve ser um hábito difícil de suprimir. Eu contei vários corredores e pelo menos uma centena de efetivos. Não havia engano, a despeito de algumas alterações, eu estava no que bem pode ser o resquício da White Light.

– Seja bem vinda ao nosso Campo de Testes, Beth! Fique à vontade! E não deixe que as veteranas te assustem.

Em um ginásio bem espaçoso, cheio de equipamentos e de soldados, eu notei diversas amigas espadachins que me reconheceram e, envergonhadas, viraram o rosto. Não era o momento adequado para confraternização. Então elas também tinham comparecido ao local depois que nós desbaratamos o projeto da White Light.

– O que gostaria de fazer primeiro? Corrida? Levantamento de peso? Habilidades de combate?

– Eu não sei. O que você recomenda?

Nós não tivemos muito tempo para pensar. Saída de não sei de onde, Kelsey me reconheceu e veio me saudar.

– Uooou! Gata! Que bom que você veio!

Eu sinto uma sensação esquisita, ao mesmo tempo boa e ruim, pois a Kelsey se parece com esses masculinistas que acham que a mulher tem a obrigação de aceitar o assédio masculino. Eu sinto nojo como mulher, mas meu lado masculino não tem reclamação alguma.

– Ai, Kelsey, a Beth acabou de chegar! Dá um tempo! Ela veio para fazer o teste de admissão, não para paquerar ou ser paquerada.

– Mesmo? Melhor ainda! Aqui está um tédio só. Eu aposto que a Beth é um desafio que merece uma prova melhorada. E eu sou a avaliadora! O que diz gata?

– Por mim, tudo bem. Eu só não me responsabilizo pelo que acontecer.

Não perca o próximo capítulo.

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