Sovando a massa

Como se não bastasse o brasileiro estar dividido após a conclusão da conspiração que ensejou o golpe que trouxe ao poder um governo usurpador, os grupos que amealharam exposição e popularidade [VemPraRua, RevoltadosOnline, MBL] estão deixando cair cada vez mais suas máscaras de seu moralismo hipócrita e mostrando o que realmente são: fascistas. Não é mera coincidência que esses grupos, junto com os bots da alt-right e a Mídia Oligarca tem tentado, a todo custo, disfarçar o mal-estar depois da “manifestação de supremacistas brancos” [cofcof neonazistas] em Charlottesville. Os americanos tem Donald Trump, nós temos Jair Bolsonaro [entre outras excrescências da direita conservadora, fascista e reacionária].

O prato que está sendo servido para o público [a massa] externar seus medos, inseguranças, ignorâncias, histerias e paranoias, foi a Exposição Queermuseu. Que a ideia da “manifestação em repúdio” nasceu das cabeças carolas [antiquadas e obsoletas] mais típicas das Senhoras de Santana [ou do IPCO], é algo que se pode esperar de um país ainda predominantemente conservador e católico. O que não pegou bem foi que o “movimento” foi alavancado pelo MBL, não por questões técnicas, artísticas ou filosóficas, mas porque a exposição “ofendia os valores cristãos ocidentais”. Eu fico imaginando o que seria de Oswald de Andrade, o Oscar Wilde brasileiro, se ainda estivesse vivo. A frase tão atribuída a ele, que “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico” viraria algo como com a massa sovando ele “para fazer dele um macho de verdade”.

Esse é um tipo de “assunto” que é simplesmente ignorado pelos programadores e produtores por detrás do Colégio Sweet Amoris. Agora que o jogo adotou a mesma linguagem dos “reality shows”, uma proposta assimilada pelas emissoras de televisão para tentar acompanhar [ou evitar] a concorrência da internet, ainda que não seja dito, a impressão é que os “participantes” seguem um roteiro. Para ser sincera, todo jogo online é baseado em um roteiro cujo transcurso consiste em cumprir missões predeterminadas. A vida é imensamente mais complexa e complicada.

O prompter vibra e pisca. Eu recebo a “atividade” do dia. Engraçado que nenhuma das “atividades” envolvam assistir aulas ou aprender. Nenhuma interação com professores, pouca interação com outras personagens femininas. Eu fico intrigada ao saber que tem mulheres na equipe de programadores, desenvolvedores e produtores. Como mulheres podem achar normal um jogo onde meninas fiquem disputando pela atenção [paquera] dos homens? Onde fica a sororidade? E a paquera com meninas? Ou paquera com professores [ou professoras]?

Alternativa A: voltar ao Diretório dos Estudantes e pegar mais um serviço com Lily. Alternativa B: voltar ao Estúdio de Arte para recolher o material com a April. Alternativa C: voltar para a classe e relatar para o Nat que “cumpriu” com as “atividades disciplinares”. Alternativa D: vagabundear pela escola e ficar encarando os meninos na quadra. Quem montou isso deve ter uma ideia brilhante de como deve ser o futuro de uma garota. Duas alternativas são complementares [mas isso também é ignorado
pelos programadores]. Eu estou de bobeira depois de dar um toco no Cast e matar o fantasma do meu passado. Eu quero deixar Nat por ultimo, então pela lógica eu volto para April, que parece estar ensinando algo para seus alunos.

– Por isso, alunos, que vocês devem ser veganos, como eu.

– Hei, April, a diretora sabe que você está fazendo proselitismo religioso?

– O que é isso Beth? Eu estou explicando aos alunos sobre o vegetarianismo.

– Então você não sabe que o vegetarianismo surgiu na América e seus fundadores tinham ligação com a Igreja Adventista?

– Ai que bobagem, Beth, vegetarianismo não tem nada a ver com religião, mas com saúde, ecologia e ética. O ser humano é herbívoro.

– O que caracteriza um animal herbívoro é a presença do diastema, coisa que o ser humano não possui. Os molares de um herbívoro são específicos para a mastigação de vegetais, os molares humanos não são tão específicos assim. Portanto o ser humano não é herbívoro, mas onívoro. A história, a antropologia e a biologia demonstram que nossa espécie se distinguiu, desenvolveu um cérebro, por que nossos antepassados comiam carne e tutano. Comer não tem coisa alguma com moral, mas com a ingestão de nutrientes. Foi comprovado que no organismo humano a “proteína” vegetal tem menor absorção do que a proteína vegetal. Se vamos falar no “sofrimento”, então deixemos de comer vegetais, verduras e frutas, afinal plantas também sente dor. Animais morrem e são mortos na produção agrícola.

– Não fale bobagens, Beth. Comer carne faz mal ao homem e ao ambiente. Matar outro ser vivo senciente é eticamente questionável.

– Se nós vamos falar em “moral” ou “ética”, ficaríamos estarrecidos em ver como é produzido o alimento “saudável” na Farm Ville. A Farm Ville, para ter solo para plantar, mata toda a plantação nativa e os animais que ali vivem acabam morrendo por fome ou por eliminação. A Farm Ville, para ter boa produção, usa agrotóxicos e fetilizantes quimicos que ao cairem nos rios atingem uma região maior e matam mais plantas, animais e pessoas. A Farm Ville, para coletar sua produção, acaba matando animais de porte médio que sobreviveram ao agrotóxico e à exposição ao fertilizante químico. A Farm Ville, para garantir uma produção comercialmente competitiva, altera genéticamente as sementes, incluindo produtos nocivos ao organismo humano. A Farm Ville ainda lava e embala seus produtos com isopor e plástico, sustentando duas indústrias notoriamente prejudiciais ao ambiente.

Nosso debate [ou pelo menos uma tentativa] foi interrompido por uma enorme agitação, correria e grios do lado de fora. Nós [eu, April eos alunos da aula de arte] saímos da classe. Eu pude ver Nat atravessando na nossa frente, cambaleante e lívido. Devem ter achado a minha “obra prima”. Eu caprichei na minha cara de paisagem enquanto a patrulheira glitter foi fazer aqui que ela abe fazer bem – ser uma boçal adocicada.

– Nossa, Nat, o que aconteceu?

– Foi horrivel… acharam o corpo do Ken aqui perto.

– Mataram o Kenny? [eu fiz referência ao South Park]

– Sim. Isso nunca aconteceu no Colégio Sweet Amoris. Quem poderia ter feito isso?

– Quem sabe? Quando o jogo era apenas uma plataforma virtual, os jogadores não interagiam diretamente como nessa versão “live action”. A realidade virtual tem um filtro, mas quando se junta tanta gente em um local, não há filtro que segure o ser humano. [eu falei, fingindo indiferença]

– A diretora me mandou chamar todos os “alunos”. Eu acho que ela vai acusar o Castiel. Afinal, todos sabem que ele é o líder da gangue.

– Oh, coitadinho! Vai ser feito de bode expiatório! Seria tão bom se existissem aqueles heróis que lutam pela justiça… [eu insinuei, para provocar a patrulheira glitter]

– Bem pensando… eehh… quer dizer… eu acho que sei onde nós podemos encontrar ajuda.

Eu sinto que vou desapontar os leitores por dizer que eu assisti a série Glitter Force [existem inúmeros animes mahou shojo e a melhor parte é a transformação] e fiquei decepcionado com a [inexplicavelmente longa] sequência com a transformação, sem graça e anatomicamente impreciso. Isso não era algo que os “alunos”, programadores e produtores do jogo nessa fase “live action” esperavam. O Colégio Sweet Amoris se tornou um crossover com Glitter Force.

– As cinco luzes que nos guiam ao futuro! Brilhe! Smile Precure!

Eu devo concordar. Elas são bem chamativas. Impossivel não notá-las. Cores berrantes e brilho excessivo. Sem falar nas roupas. Elas precisam urgente ir ao Esquadrão da Moda. O espanto deu lugar ao riso bem rápido, porque… bem, elas estão vestidas como palhaças.

– Ahm… Glitter Verde… porque nos chamou? Onde está o Bufão?

– Ele deve estar aqui! Nós só temos que encontrá-lo!

– Com licença, senhoritas, mas quem são vocês e o que vieram fazer aqui?

– Está tudo sob controle, “civil”, a Glitter Force chegou para trazer a paz, o amor e a justiça.

O ato falho revela aquilo que eu sempre soube. Debaixo de toda aquela fachada de “boas moças” e toda aquela conversinha sobre amizade, união e companheirismo se escondia uma mentalidade militarista, reacionária e fascista. Evidente que na animação isso não é facilmente percebido porque o público projeta sua própria sombra, o seu lado maligno, nos personagens vilões.

Não percam o ultimo episódio.

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