Uma pitada de sal para temperar

Até meus sonhos recorrentes em sala de aula e escola são melhores do que as aulas no Colégio Sweet Amoris. Eu não podia esperar um conteúdo mais verossímel, considerando que o objetivo do jogo é paquera. Outro ponto negativo é a completa falta de caráter e personalidade dos professores. Eu continuo cismada com o alinhamento milimetricamente exato das carteiras, a completa ausência de sujeira [ou de grafites] ou da bagunça que acontece normalmente quando se junta muita gente.

Os idealizadores do jogo não se esforçaram sequer na caracterização dos personagens interativos. Eu me sinto em um filme americano ambientado no colégio, tantos são os clichês e estereótipos. O típico garoto rico e mimado pelos pais. Sua contraparte feminina, fútil, superficial, vazia, mas invejada por outras garotas porque é popular. O valentão, capitão do time, que as garotas vivem babando, mas socialmente é um perfeito imbecil. O nerd, que é o CDF e o alvo da zoação da turma, que inexplicavelmente tem um crush por você. O conteúdo das aulas é completamente irrelevante para a vida prática e isso acontece também no mundo humano. Outro ponto em comum é que eu não pretendo interagir com os personagens, então eu fico quieta, na minha, comendo meu lanche.

– Oi? Você deve ser a aluna nova transferida, certo?

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alto, loiro, magro. Eu faço cara de paisagem, mas eu queria vomitar. Eu odeio mauricinho.

– O pessoal do Diretório de Estudantes me passou sua ficha. Prazer, eu sou Nathaniel, o Representante de Classe… hã… senhorita… Tekubinochi?

– O pessoal me chama de Beth.

O mauricinho me olha intrigado, provavelmente por que o sobrenome [asiático] não combina com minha aparência latina.

– Certo, Beth, desculpe eu interromper seu lanche, mas o Diretório de Estudantes esqueceu-se de te pedir o formulário de inscrição assinado e fotos. Você poderia fazer o favor de assinar o formulário e entregar duas fotos?

Eu mantenho minha cara de paisagem, mordo o ultimo pedaço do sanduíche e sorvo o resto do suco, sem pressa.

– Onde eu assino?

– Aqui.

– Eu só posso trazer duas fotos semana que vem.

– Certo… então… tem uma papelaria aqui na escola onde você pode tirar as fotos.

– Oh, puxa, que coisa… eu não vim com dinheiro e só devo receber mesada no mês que vem.

– Oquei… vamos combinar assim. Eu te pago as fotos e você me reembolsa no mês que vem.

– Se você insiste…

Sim, ele insiste. Ele tem mania de perfeição. As garotas ficam nos encarando, provavelmente me jurando de morte. Típico sonho e fantasia masculina. Ver as mulheres competindo e brigando por eles. Eu morro, mas eu não vou dar esse gosto. Novamente, eu fico incomodada com a aparência extremamente organizada e arrumada da papelaria. Eu vou até o “estúdio”, sento na banqueta e faço mil bocas e caras, deliberadamente provocando o mauricinho.

– Quando estiver pronta, me avise, Beth.

– Diz aí, Nat, quanto você leva para trazer as alunas aqui?

– Como é?

– Eu que pergunto. O dono é parente seu?

– Não… [visivelmente contrariado] Por favor, sente-se corretamente para a foto. As fotos são para seu cadastro e crachá no colégio.

– Ah, sim, senhor! Eu não sabia que eu estava sendo arregimentada para o Exército, senhor!

Nat fica vermelho quando eu faço continência mostrando a língua e ainda dou uma banana com meu braço. O atendente segura a risada para poder tirar a minha foto. Ele torce os lábios porque não ficou… perfeita, mas vai ter que servir.

– Mas… o que significa isso, Nathaniel?

– Agora não, Amber…

– Agora, sim senhor! Essa novata não pode te tratar desse jeito!

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alta, loira, em forma. Praticamente um reflexo feminino do Nat. A patricinha do colégio e certamente a irmã superprotetora.

– Algum problema, Nat? O que pode ser tão grave que sua namorada tem que intervir?

[ambos, roxos] – Na… na… na… namorada?

– O que você está falando, novata? Não tem noção não?

– Amber é minha irmã gêmea, Beth.

– Sei… se bem que, hoje em dia, isso não quer dizer que não sejam namorados.

[visivelmente aborrecido] – Não fale bobagens, Beth. Isso seria… impróprio. E contra as leis de Deus.

– Qual Deus? Eu conheço doze. Se for o semita, não foi Ele quem mandou Adão e Eva se multiplicarem? Sendo ambos irmãos? Gêmeos?

Eu quase sinto pena do Nat enquanto fumaça sai da cabeça dele. Amber, mais agressiva e menos articulada, vem com tudo para cima de mim. Oquei, aqui são todos adolescentes, Amber pode parecer ser maior e mais forte, mas este corpo onde eu estou encarnado carrega a minha habilidade com artes marciais. Nat assiste, atônito, sua irmã voar e cair dois metros adiante. Funcionários, assistentes e fiscais do colégio aparecem aos montes para ajudar a patricinha. Evidente que os gêmeos nada falam nem me denunciam. Amber é levada para a enfermaria e Nat tenta terminar sua ronda.

– Oquei… certo… eu vou deixar assim por hoje. O que importava é sua assinatura e as fotos. Eu só te peço para ter cuidado, Beth. Violência não é permitida aqui.

– Diga isso para sua irmãzinha. Eu só me defendi.

– Por isso que eu vou relevar. E por favor, não fale mais que nós somos namorados. Ou sobre sua crença pagã.

– Por mim, tudo bem. Não me provoquem e eu não provoco.

– Ótimo. Combinado.

O meu relógio de pulso vibra. Um relógio similar a esses que compartilham sinal com smartphones. Eu vejo uma mensagem de status indicando que eu passei para o nível 2. Eu dou de ombros, pois é irrelevante. Assim como o resto das aulas e o retorno para minha “casa”. Eu só estou começando.

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