Doce demais estraga os dentes

Uma música insuportavelmente melosa faz com que eu acorde. Eu vejo que a música vem do despertador do meu celular. Uma dessas musiquinhas populares que grudam feito chiclete. Eu fico ranzinza, tentando pensar em um culpado quando eu me dou conta de que eu não estou no meu quarto que eu costumo despertar. A decoração é infantilóide e feminina demais para o meu gosto. Eu tento não ficar furioso, pensando quem seria o autor dessa pegadinha quando alguém bate três vezes na minha porta. A voz de uma mulher madura ressoa abafada, do outro lado da porta.

– Querida, se arrume e desça para o café! Senão você vai chegar atrasada para a escola!

Por alguns segundos eu pensei que tivesse voltado ao meu quarto como Sasaki Senshi, mas o enorme espelho do armário mostra que eu encarnei em minha forma adolescente de Erzebeth. Oquei, não é algo que eu não consiga fazer. Dentro do armário, eu vejo cinco jogos de roupas combinando. Devem ser os uniformes da escola. Cena típica de anime. Dez minutos depois eu desço as escadas para começar a minha interação com os outros personagens “família”.

– Nossa, querida… você desceu rápido hoje!

Uma mulher madura, por volta dos trinta, em roupas sociais, sorve seu café e evita que a torrada suje suas roupas, deve ser a “mãe”.

– A princesinha deve ter percebido que é o patinho feio.

Uma garota, mais velha do que eu, me olha com desprezo, deve ser a “irmã”.

– Eu espero que isso signifique que ela vai começar a estudar.

Um garoto, mais velho do que eu, me olha com desconfiança, deve ser o “irmão”.

– Papai, a Beth não está arrumada, ela parece mais um menino.

Uma garota, mas jovem do que eu, me olha com decepção, deve ser a “irmãzinha”.

– Hah! Eu sempre desconfiei! Beth é sapatão!

Um garoto, mais jovem do que eu, me olha com repulsa, deve ser o “irmãozinho”.

– Vamos para com isso, pessoal. Vamos tentar ter um café calmo e agradável em família.

Um homem maduro, por volta dos quarenta, mal tira os olhos do jornal e está igualmente com roupas sociais, deve ser o “pai”. Eu me sinto em meio a um comercial de margarina. Não existe família assim. Eu imagino que isso é coisa de Leila, mas eu não pretendo colaborar.

– Eu agradeço as boas vindas de todos, mas eu devo avisar que a criatura fútil que vocês conheceram como “Beth” não existe mais. Obrigada pelo café. Vou para a escola. Tchau.

Eu levanto, atravesso a cozinha, a sala, passo o pórtico, sem olhar para trás. Eu não preciso. Como uma típica cena de animação, a “família” deve estar com olhos arregalados e queixo caído. Eu dou uma boa olhada na vizinhança. O cenário define muito a cultura onde a encenação está acontecendo. Casa praticamente iguais separadas por cerquinhas de madeira pintada de branco. Eu moro em um típico subúrbio americano. Mais pessoas vão aparecendo na rua, a pé, ou de carro, ou esperando o ônibus. Não é difícil encontrar o ponto do ônibus escolar, uma fila de jovens perfilados ao lado de um imenso poste amarelo com enormes letras garrafais em vermelho escrito “school bus” não deixam dúvidas. Marquem bem isso: eu fiquei no fim da fila, esta é a única concessão que eu faço.

– E aí, Beth? Acordou cedo? Chegou cedo? Ou você não é a mesma?

Uma garota enorme, cabelos alaranjados e corpo atlético, me encara com um sorriso sarcástico e irônico. Ao lado dela, uma garota pequena, cabelos pretos escorridos, me encara como se eu fosse uma atração de circo.

– Oi, Riley, oi, Gill. Eu posso arriscar que isso é ideia de Leila?

– Talvez sim, talvez não.

– Tanto faz. Eu não vou seguir roteiro.

– Exatamente o que Leila quer. Espere até chegar na nossa “escola”. Você é muito inteligente, vai sacar de cara o que nós queremos encenar.

Qualquer encenação com Leila e Riley só pode ser confusão. Mas é o meu couro que fica no risco. Eu dou de ombros, afinal, ninguém me linchou, por enquanto. O ônibus escolar chega [ônibus amarelo…], a fila anda e eu e as meninas embarcamos. Ver jovens tão homogeneizados, sentados, quietos, comportados… eu sinto arrepios. O ônibus só parte com todos sentados. Eu vou observando a minha “cidade” e vejo ruas limpas, asfalto parecendo seda, pessoas cordatas e gentis. Definitivamente, nós não estamos em Houston, Doroty. O ônibus entra e estaciona milimetricamente alinhado com a vaga que lhe cabia no enorme pátio, cheio de ônibus… todos iguais, incomodamente iguais.

– Vamos andando, Beth. Eu tenho certeza que você vai dar muita risada.

Com enorme facilidade, Riley puxa eu e Gill pelo braço. Gill praticamente alça vôo e eu tento acompanhar para ela não arrancar meu braço. Riley solta um “tcharam” diante do portão de entrada da nossa “escola”. Eu reconheço esta construção. Esta é a “escola” onde basicamente acontece todo o jogo Amor Doce. Os alunos em volta começam a olhar esquisito para mim, porque eu desando a rir insanamente.

– Eu sabia que você riria.

– Hahahaah… oquei… deixa eu tomar fôlego. [respiração profunda] Melhorou. Qual é a ideia dessa encenação, Riley?

– Sinceramente eu não sei. Leila pediu que eu te trouxesse até aqui. Daqui em diante, é por sua conta. Cya!

Eu até poderia dizer que foi “por acaso” que eu encontrei indicações desse jogo. Mas não existem coincidências. Em pleno século XXI, eu só imagino se ainda existe alguma adolescente que curta esse tipo de “romance”. Com o feminismo finalmente tendo seu espaço na sociedade, torna-se incompreensível um jogo onde o “objetivo” é paquerar meninos. Oi? O machismo mandou um abraço aos idealizadores. Quem disse que “paquerar meninos” é a prioridade de toda garota adolescente? Quem disse que o mundo [ou o universo] gira em torno do falo masculino? Enfim, eu estou “dentro” do jogo e não sei até que ponto eu posso interagir com os personagens ou até que ponto eu poderei tornar as coisas mais… imprevisíveis. Eu juro que, se eu tiver a oportunidade, eu vou ser uma psicopata.

– Oi! Bem vinda! Você deve ser a aluna nova transferida!

Uma garota de cabelos rosáceos, provavelmente vinda da Glitter Force, me ofusca com seu sorriso. Ela carrega uma prancheta e vários papéis.

– Meu nome é Emily e eu estou aqui em nome do Diretório dos Estudantes para lhe dar as boas vindas, apresentar a escola, os professores e sua classe. Mas como dizem os diretores, primeiro as prioridades. Por gentileza, preencha seus documentos que eu cuido da burocracia.

Oquei, segunda concessão. Criar caso em preencher um calhamaço de papéis é inócuo. Algo que eu faço em cinco minutos. O que deixou a Emily impressionada.

– Okidoki. Siga-me.

Nada demais, amenidades, frugalidades. Quem desenhou a “escola” podia ter feito um projeto melhor. Os personagens “professores” são tão superficiais e vazios quanto os professores humanos. Eu fiz um mico e fiz reverência como se eu estivesse em um anime. Hábito. A classe está com todas as carteiras perturbadoramente alinhadas. Eu escondo meu nervosismo e escolho um lugar vazio aleatoriamente. Que comecem os jogos.

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