O chamado de Sogot

Escutai, habitantes da Filha de Caos, engendrados com as cinzas dos Titans.

Escutai porque eu conheço suas origens. Antes de sua espécie, Gaia nos recebeu em seu regaço e aqui nesse mesmo chão, nossa civilização brotou e cresceu. Os ancestrais e patriarcas de sua gente nos conheciam e nos chamavam de Filhos de Deus, os Anjos Caídos, abatidos do manto de Urano pelos Igigi, a mando de Absu.

Houve uma época em que Homens e Deuses viveram lado a lado. Nós, os Annunaki, o povo reptilíneo, descendentes diretos da Deusa Serpente. Nossa civilização foi apagada, nossa existência foi vilipendiada, mas as lendas que remetem a esse passado ainda resistem na estória de Atlântida.

Houve uma época em que eu era rei de meu povo e dos espólios de nossa obliteração a humanidade reconstruiu e se apossou do Conhecimento.

O legado que lhes confio é que este solo onde pisa é sagrado, pois é o corpo de Gaia. Observem bem os lumiares que seguem Selene como ovelhas, pois sinais serão vistos quando Tiamat for voltar.

Sim, não é o Caos que devem temer, mas Absu. Caos não tem forma, volume, consciência. Absu tem tudo isso e uma fome que engole galáxias. Enquanto Caos é disforme, indiferente e indistinto, Absu é o Mar Escuro onde os primeiros seres foram engendrados.

Aquilo que saiu deste ventre é uma abominação. A vida que surgiu em Gaia é uma versão imensamente melhorada. Os primeiros habitantes de Gaia não tinham corpo ou forma, tal como Caos, eram seres feitos de pura mente e energia, espíritos, gênios e os Deuses Antigos. A abominação vinda de Absu também começa com seres incorpóreos, energias extremamente densas e pesadas. Em Gaia os Engenheiros da Vida ferveram o caldo primordial nos escaninhos borbulhantes. De Absu, uma gelatina espessa era derramada por sobre o Vazio como um veneno. As taças de Gaia formaram o ninho dos primeiros seres unicelulares. Os espinhos de Absu eram tantos e tão espessos que ali surgiram os primeiros seres unicelulares. Gaia abençoou esta vida com sua Arte, os esculpindo com seu cinzel. Absu devorava seus próprios filhos, impiedosamente, para que os mais fortes achassem seu caminho para fora de suas entranhas.

Foi assim que se ergueu Azathot. Os que surgiram muito posteriormente deixaram relatos assustadores de que Absu olhou seu fruto embevecido antes de se dissipar no corpo de Azathoth. O Primordial sendo morto [e comido] por seu próprio Filho. Um padrão que é sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as gerações seguintes. Azathot é Absu. Ele reina absurdamente poderoso demais para ser sequer olhado. Do ventre rasgado de Absu, Azathot removeu seus muitos irmãos, irmãs, filhos e filhas e com tais pesadelos ele formou sua corte. Ele não exigiu obediência ou submissão, isso era completamente desnecessário e irrelevante. Os Sete Obscuros sabiam que a submissão era a única forma de sobreviver. Servindo como “cortina”, os Sete Obscuros construíram suas respectivas cortes. Caos é apenas o filho caçula deles.

Nós, meros fugitivos do pacato Caos, acreditávamos que em Gaia estaríamos longe e a salvo da pérfida influência de Absu. Nós, os Annunaki, não fomos os primeiros a chegar em Gaia. Nem mesmo as energias e espíritos que foram incumbidos de ajudar Gaia foram os primeiros. Os vermes e seres ainda mais simples estão por todo o Universo, em todas as doze dimensões. Nós tivemos que enfrentar os Igigi em uma guerra pavorosa. Nós tínhamos tecnologia e armamento, mesmo assim nós penávamos para conquistar um exíguo território que nós nomeamos de Edin. O Jardim do Paraíso, em comparação com o ambiente que predominava por toda a extensão de Gaia, em sua infância. Nós não entendemos quando Tiamat, que parecia ser de nossa espécie, veio nos atacar e foi por artes proibidas que Marduk a venceu, um herói que queria ser rei matando o Dragão ou Serpente Primordial que tinha mais direito à coroa do que ele. Outro padrão sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as outras gerações.

Nós comemoramos, crentes de que nós havíamos conquistado e assegurado a nossa soberania em Gaia. Tiamat ainda era uma criança em crescimento e amadurecimento. Azathot enviou seu irmão menor, Yog Sothot para nos interpelar sobre essa ofensa grave contra Tiamat. Os Deuses Novos nasceram e cresceram a partir das carnes, ossos e sangue dos Deuses Primordiais, mas então descobrimos que a morte não é o fim. Mesmo a Ceifadora pouco pode contra estes seres, os Deuses Abissais. Os Sete Obscuros não podem ser mortos, nem derrotados, apenas aplacados ou serem adormecidos.

O cataclismo que ficou conhecido por inúmeras lendas humanas como Dilúvio foi resultado da aproximação e manifestação de Yog Sothot na órbita de Gaia. Eu, Sogot, rei dos sáurios, para evitar um desastre maior, bajulei e negociei com Yog Sothot através de seu intermediário imediato, Dogon, o rei dos batráquios [depois confundido com um peixe]. Nossa civilização foi erradicada da face de Gaia, os poucos de nós que sobreviveram tiveram que aceitar morar no Submundo, essa região na fronteira entre o Mundo dos Vivos e o Mundo dos Mortos. Pelas mãos e direção de Dogon, a humanidade mostrou um potencial que agradou Yog Sothot e aplacou a indignação de Azathot. O processo parece lento para sua gente, mas o único objetivo de Dogon e de seus muitos sucessores é apenas o de destruir a humanidade e Gaia. Sim, sua gente tem mais potencial destruidor do que pólipos e vermes.

Dogon foi rei, sacerdote e ascendeu a Deus. Ele deu início a todo tipo de culto que elogia a morte e premia a submissão. Ele começou todas as formas de religião organizada, instituição religiosa, sacerdócio, dogma e doutrina. Ele e seus homens peixe foram a inspiração para os homens dos mares. Os homens dos mares que são mercenários e que singram orgulhosamente pelos domínios de Poseidon são descendentes do primeiro homem peixe, Jolly Fish. Em algum momento o peixe foi trocado por golfinhos e os fenícios deram lugar aos piratas. Em algum momento Yog Sothot foi trocado pelo Espaguete Voador e a humanidade assimilou mais uma religião, acreditando que se tratava de uma paródia, uma sátira. Não existe sátira, paródia ou alternativa. Uma armadilha continuará sendo uma armadilha, mesmo com outro nome.

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