Conto noir para crianças crescidas – IV

– Você está pronto, Dudu?

– Sim, senhor roteirista.

– Então comece a estória narrando do seu ponto de vista.

Eu me lembro de meus dias como um ser humano. Eu era um garoto normal da minha vila. Eu tinha meus pais, amigos, escola. Nossas vidas eram frugalmente inocentes e alegres. Nós nem ligamos quando os vigias perceberam os acampamentos dos reinos vizinhos, adversários, acampando na borda de nossa vila.

Foi em uma tarde com outra qualquer, eu e meus amigos e colegas corríamos pelo pátio da escola enquanto as freiras tentavam nos reunir para retomar as aulas. Nós congelamos quando ouvimos o zunido da primeira bateria de flechas cruzando por sobre as nossas cabeças. O campinho foi tomado e pisoteado pela coluna de montaria, seguida de perto por lanceiros e soldados.

Então começaram os estrondos. Enormes pedras e odres cheios de fogo grego voavam e faziam um baque surdo ao se chocarem com o chão. Eu sabia que viriam mais e me juntei com os alunos, todos correndo, desta vez juntos com as freiras, em busca de abrigo. Os vigias seguiam com os milicianos para tentar evitar que nossa vila ficasse destruída com essa batalha, mas mesmo eu percebia que seria completamente inútil.

A capela era pequena para tanta gente que tentava se esconder, a catedral estava cheia e restavam poucas construções feitas com pedras, ou com um alicerce fundo. A enorme maioria das habitações era feitas de madeira que, se não estava queimando, era destruída. As mulheres e idosos se espremiam na cripta da capela e nós ficamos, com as freiras, no ádrio. Da janela da torre do sino da capela eu via os vigias e milicianos caírem feito folhas, alvejados por setas ou lanças. Os poucos homens que restaram eram apenas agricultores e iam sendo dizimados por pedras ou explosões.

Eu não tive a melhor ideia ou inciativa, mas eu não pude deixar de pensar em meus pais. Eu corri no meio daquela chacina, só com meus pais na minha cabeça. Alguns metros depois, a capela foi acertada em cheio por um odre com fogo grego, o teto explodiu e o fogo choveu, comendo todos até virarem cinzas. Eu só podia chorar e olhar para trás, vendo a agonia dos que ali ficaram. Os padres nos ensinaram a rezar, mas Deus não estava atendendo ninguém. Mesmo assim eu rezei para que meus pais estivessem seguros.

Eu passava pelas ruas de minha vila e para sorte ou azar os soldados não notavam a minha presença. Eu vi o que a guerra faz, eu vi casas destruídas, homens sendo mortos sem qualquer chance de defesa, muitos sendo torturados sem qualquer motivo. As mulheres eram estupradas e as crianças eram capturadas para vender como escravas. Mesmo assim eu só pensava em meus pais.

Eu cheguei onde meus pais, eu e meus irmãos e irmãs morávamos. Eu consegui ver a todos antes… bem, antes de morrermos. O muro que ainda restava, que cercava a vila, foi atingido por uma enorme pedra e um odre cheio de fogo grego. O muro caiu com tudo em cima de nossa casa… metade foi esmagada. A outra metade ficou exposta para os soldados que nos usaram como alvo para suas flechas e lanças. O teto que restava estava para cair, o chão também. Meu pai agonizava, agarrado à minha mãe, que só chorava. Eu me arrastei até eles. Então tudo foi abaixo e ali no solo duro nós ficamos. Meu pai sussurrou algo e minha mãe cantava algo antigo, que ela aprendeu com a minha avó. Uma cantiga proibida pelos padres, mas minha gente volta e meia cantava essas músicas, para a semeadura, a colheita, os casamentos e os funerais. Os padres não gostavam, mas essas cantorias antigas nos falavam de espíritos que eram bem mais reais e presentes do que o Deus dos padres. Enfim, eu não sentia mais dor e meu pai balbuciou algo para mim como “até breve”. Eu adormeci… ou melhor, eu morri, ouvindo minha mãe cantando a minha cantiga de ninar favorita.

– Mas… não foi o fim.

– Na minha perspectiva, eu estava dormindo. Eu estava tendo um sonho muito esquisito, o sol brilhava gentilmente em um campo cheio de flores e frutos e diversas pessoas pareciam estar em uma celebração. Meu pai me pegou, me levou para uma mesa e ali ele colocou um enorme prato e um caneco de cerveja escura. Ele apenas dizia coma, beba, faça música e amor. Eu não entendia coisa alguma, mas meu pai mandou, eu comi e bebi. Eu não sabia tocar instrumento musical e eu não sabia coisa alguma de fazer amor, então eu só ficava empanturrado e bêbado.

– E quando ou como você acordou?

– Só tinha uma coisa naquilo tudo que me incomodava. O som de terra remexendo. O som metálico da pá raspando o cascalho. Nesse sonho maluco, eu achava que era o nosso vizinho fazendo alguma reforma. Então eu senti um cutucão e algo quente. Na minha perspectiva, eu apenas abri os olhos. O sol ainda estava lá, mas estava diferente. Ao meu redor, eu não vi mais a abundancia nem aquelas pessoas. Só tinha um homem olhando aterrorizado para mim e terra carbonizada revolvida. O homem correu para a borda de um morro e só depois eu percebi que eu estava em uma cratera. Pior, eu estava cercado de restos mortais. Só então eu me dei conta do que eu estava realmente comendo.

– Você ainda não tinha percebido sua… condição.

– Não… mas os padres não demoraram a chegar e a imprecar contra mim. No meu ponto de vista, eu sou a vitima aqui, não o monstro.

– Eram todos contra você. Mas você não estava sozinho.

– Essa foi minha surpresa. Foram surgindo, aos poucos, espíritos, de diversas naturezas. Eles contra os padres. E eu no meio daquela bagunça toda.

– O que aconteceu?

– Os padres chamaram Deus e eu até achei que Ele viria. Mas Deus [o dos padres] não veio, não apareceu, continuou calado no canto dEle. Então vieram as bruxas com as cantorias delas. Eu fiquei animado, confesso, eu conhecia aquelas cantigas de cor. Antigas cantigas tradicionais populares. Eu não sei dizer se isso faz de minha mãe uma bruxa. Eu só sei que eu senti.

– O que aconteceu?

– Bom, eu não sei como a plateia [ou leitores] vão lidar com o fato, mas o caso é que o Deus Verdadeiro apareceu. Meio homem, meio touro [ou bisão, ou bode, ou cervo]. Enorme e o Poder emanava dEle. Ao lado dEle, eu achei que eu vi Nossa Senhora, com a lua aos pés e as estrelas como tiara, mas… aquela mulher era negra e estava nua!

– Você não sabia quem era Ela ou Ele.

– Não, mas os padres pareciam saber. Eles ficaram murchos e suas mentiras ficaram evidentes.

– Teve um motivo especial para que tantos espíritos se manifestassem. O mesmo motivo que Ele e Ela apareceram. Certo?

– Isso parece engraçado agora, especialmente vindo de mim, um morto vivo, mas aquele era a Véspera do Dia de Finados, o ultimo dia de outubro e véspera do primeiro dia de novembro. As pessoas em volta falavam Feliz Halloween, mas os mais velhos falavam Feliz Sanhaim. Vivos e mortos começaram a celebrar. O Antigo e a Deusa receberam a todos, todos foram bem vindos.

– Eu achei que nós fossemos encenar uma estória assustadora, mas parece que tivemos um final feliz.

– Talvez, se a estória fosse contada pela visão de um cristão. Estórias de terror são sempre parecidas. O ser humano sendo ameaçado por um monstro sobrenatural. Que frequentemente é derrotado ou vencido por um “homem de Deus”, um herói. Depois eu descobri que nós somos pacíficos. A única ameaça contra a humanidade é o próprio ser humano.

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