Conto noir para crianças crescidas- I

Um cenário é meu protagonista para introduzir o tema. Não tem uma localização exata, pode ser em qualquer país, em qualquer tempo. Melhor dizendo, existe um tempo… aliás momento, quando só tinha a natureza ali. Um bucólico e tranquilo vale. Quase não percebeu quando chegaram os primeiros humanos, poucos, em suas carroças. Sobravam recursos, então sentiu só uma coceira quando árvores deram lugar às primeiras habitações. Quando os espíritos da natureza se deram conta, era tarde demais, o ser humano se alastrou rapidamente como uma praga, o vale virou vila e cidade.

A natureza demorou adaptar-se ao ritmo e demandas de seu novo inquilino. Cidades crescem, viram reinos e reinos viram impérios. O vale é pequeno demais para resistir ao avanço dos reinos e impérios, a cidade tem o infortúnio de estar entre dois exércitos, cada qual convencido de estar lutando por uma boa causa. O ser humano é provavelmente a única espécie que se regozija em matar sua própria gente. Centenas de soldados pereceram naquele vale e milhares de civis foram contados como casualidades de guerra. No solo arrasado, regado a sangue, só cresceram cadáveres, moribundos e sobreviventes. O vale teve este momento em que foi habitado pela morte. Em sua sabedoria, a natureza evitou voltar ao vale.

Mas não o ser humano. Um espaço amplo como aquele é uma tentação para os planos de crescimento e expansão de qualquer cidade. Somente os mais velhos e veteranos ainda lembravam-se do massacre que acontecera ali, mas a necessidade [ou a ganância] falou mais alto. O condado enviou seus homens para construir uma estrada e os operários sempre tinham histórias arrepiantes para contar das coisas que aconteciam todo dia. O barão não tinha tempo a perder e enviou os doutores da Igreja, que voltaram como foram, completamente inúteis. Foram os operários, lembrando os costumes de seus avós, que sossegaram as almas, enterrando os restos em uma vala comum, erguendo um memorial e celebrando a memória dos que pereceram.

A estrada também aumentou, veio a ferrovia para fazer concorrência e, inevitavelmente, o entorno deu origem a outras vilas e cidades. Três gerações depois, a memória do massacre era apenas uma lenda antiga que servia para assustar crianças. O conde até inaugurou uma catedral da crença dos escravos. Os padres tentaram, mas o folclore de celebrar o Dia dos Mortos persistiu. Foi essa piedosa crença popular que manteve as almas sossegadas por mais tempo.

O duque, filho do conde e neto do barão, queria livrar sua cidade dessas velhas superstições. Ele era um “homem das Luzes” e queria, a qualquer custo, erradicar a crendices populares e tornar seus cidadãos esclarecidos. Os monges da Inquisição da Igreja deram lugar aos céticos da Ciência e ao expurgo cultural que estes promoviam. Foi bastante embaraçoso e complicado. A cada ano os eventos “paranormais” aumentavam, sem qualquer explicação ou solução. Isso certamente atrapalhava os planos do duque, mas ele não deu o braço a torcer e ignorou os conselhos dos anciãos. Ele lançou o alicerce de uma fábrica e aquela seria a pedra fundamental dos eventos que eu lhes narrarei.

– Meu senhor, os emissários do rei aguardam por uma audiência.

– Que inferno! Quanta impaciência! Eu disse ao rei que estava tudo bem!

– Ainda assim o senhor deve lhes conceder audiência, por ordem real.

– Que venham então e depois o Diabo que os carreguem!

O mensageiro faz uma firula e convoca os emissários para a sala do duque. O pobre homem conta cinco pessoas, alguém da Igreja [bufa com desprezo], alguém da nobreza e três burgueses.

– Saudações, bispo de Voyeur. Eu o recebo com satisfação.

– Eu queria acreditar, Marcel, mas vossa mercê deixou abandonada a nossa comunidade ao não reformar a catedral que teu pai construiu.

– Eu tenho vários projetos, bispo. Eu peço à vossa reverência que tenha paciência.

– Paciência? Eu soube que seus “projetos” falam em escorraçar a crença das pessoas. Teu ducado tem sofrido com a invasão das hordas do Diabo por ter abandonado Deus.

– Invasão que, até onde nós sabemos, pode muito bem estar sendo incentivada pelo medo e ignorância de meus cidadãos. Eu pretendo levar a Luz da Ciência ao meu povo.

– Eu não me oponho, desde que esta Luz da Ciência não apague a Luz de Deus.

– [dissimuladamente muda de assunto] Mas a que graça eu devo a visita de meu nobre irmão?

– Graça alguma, Marcel. O nome de nossa família tem sido motivo de bazófias e arengues por causa de teus atos. Essa sua obsessão pelo progresso não anda em direção alguma e teu ducado tem uma posição estratégica que será reclamada pelo rei, em caso de conflito com o reino vizinho. Nosso Magnânimo Monarca enviou-me para me certificar de que está pronto a fornecer soldados, armas, munições e equipamentos.

– Ora, eu enviei uma missiva ao nosso rei demonstrando que a fábrica que eu construirei valerá mais do que um milhão de batalhões.

– Isso muito nos interessa, vossa excelência.

Um dos burgueses, figura que mais parecia um sapo de polainas, interrompeu e se intrometeu na conversação, desrespeitando todo o protocolo. Bárbaros e selvagens sem cultura e educação.

– Ahem… eu fico feliz em saber disso, senhor. Exatamente em que minha fábrica os interessa?

– Tudo, bom duque. Eu represento diversas empresas, mineradoras e beneficiadoras de ferro. Meu amigo aqui representa diversas empresas de transporte e distribuição de mercadorias. E cá atrás está nosso melhor e maior patrocinador, que representa os bancos. Com a nossa ajuda e auxílio, não apenas a sua fábrica será um sucesso, mas seu ducado entrará na Era Moderna antes de todos.

– Nenhuma exigência? Nenhuma cobrança? Ou esconde algo como o bispo? Ou tem outras agendas, como meu irmão?

– Absolutamente, bom duque. Todas as nossas “transações” são detalhadas em contratos bem claros e seguros. Nenhum truque, nenhuma surpresa. Na verdade, nós até oferecemos o bônus de resolver suas “dívidas” com a Igreja e a corte. Agrada ao bispo que seja incluída uma capela na fábrica? Nós damos um jeito para garantir que os operários mantenham a crença e os donativos para a Igreja. Agrada ao arquiduque que a fábrica produza não apenas mão de obra disponível para o exército, mas também armas, munições e equipamentos? Nós podemos garantir que o ferro possa ser facilmente transportado ou moldado para suprir as necessidades militares do rei.

Não se ouviu uma resposta, mas os burgueses esfregavam as mãos contentes com o silêncio. Foi mais fácil do que esfolar um gato.

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