Arquivo mensal: agosto 2017

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

O chamado de Sogot

Escutai, habitantes da Filha de Caos, engendrados com as cinzas dos Titans.

Escutai porque eu conheço suas origens. Antes de sua espécie, Gaia nos recebeu em seu regaço e aqui nesse mesmo chão, nossa civilização brotou e cresceu. Os ancestrais e patriarcas de sua gente nos conheciam e nos chamavam de Filhos de Deus, os Anjos Caídos, abatidos do manto de Urano pelos Igigi, a mando de Absu.

Houve uma época em que Homens e Deuses viveram lado a lado. Nós, os Annunaki, o povo reptilíneo, descendentes diretos da Deusa Serpente. Nossa civilização foi apagada, nossa existência foi vilipendiada, mas as lendas que remetem a esse passado ainda resistem na estória de Atlântida.

Houve uma época em que eu era rei de meu povo e dos espólios de nossa obliteração a humanidade reconstruiu e se apossou do Conhecimento.

O legado que lhes confio é que este solo onde pisa é sagrado, pois é o corpo de Gaia. Observem bem os lumiares que seguem Selene como ovelhas, pois sinais serão vistos quando Tiamat for voltar.

Sim, não é o Caos que devem temer, mas Absu. Caos não tem forma, volume, consciência. Absu tem tudo isso e uma fome que engole galáxias. Enquanto Caos é disforme, indiferente e indistinto, Absu é o Mar Escuro onde os primeiros seres foram engendrados.

Aquilo que saiu deste ventre é uma abominação. A vida que surgiu em Gaia é uma versão imensamente melhorada. Os primeiros habitantes de Gaia não tinham corpo ou forma, tal como Caos, eram seres feitos de pura mente e energia, espíritos, gênios e os Deuses Antigos. A abominação vinda de Absu também começa com seres incorpóreos, energias extremamente densas e pesadas. Em Gaia os Engenheiros da Vida ferveram o caldo primordial nos escaninhos borbulhantes. De Absu, uma gelatina espessa era derramada por sobre o Vazio como um veneno. As taças de Gaia formaram o ninho dos primeiros seres unicelulares. Os espinhos de Absu eram tantos e tão espessos que ali surgiram os primeiros seres unicelulares. Gaia abençoou esta vida com sua Arte, os esculpindo com seu cinzel. Absu devorava seus próprios filhos, impiedosamente, para que os mais fortes achassem seu caminho para fora de suas entranhas.

Foi assim que se ergueu Azathot. Os que surgiram muito posteriormente deixaram relatos assustadores de que Absu olhou seu fruto embevecido antes de se dissipar no corpo de Azathoth. O Primordial sendo morto [e comido] por seu próprio Filho. Um padrão que é sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as gerações seguintes. Azathot é Absu. Ele reina absurdamente poderoso demais para ser sequer olhado. Do ventre rasgado de Absu, Azathot removeu seus muitos irmãos, irmãs, filhos e filhas e com tais pesadelos ele formou sua corte. Ele não exigiu obediência ou submissão, isso era completamente desnecessário e irrelevante. Os Sete Obscuros sabiam que a submissão era a única forma de sobreviver. Servindo como “cortina”, os Sete Obscuros construíram suas respectivas cortes. Caos é apenas o filho caçula deles.

Nós, meros fugitivos do pacato Caos, acreditávamos que em Gaia estaríamos longe e a salvo da pérfida influência de Absu. Nós, os Annunaki, não fomos os primeiros a chegar em Gaia. Nem mesmo as energias e espíritos que foram incumbidos de ajudar Gaia foram os primeiros. Os vermes e seres ainda mais simples estão por todo o Universo, em todas as doze dimensões. Nós tivemos que enfrentar os Igigi em uma guerra pavorosa. Nós tínhamos tecnologia e armamento, mesmo assim nós penávamos para conquistar um exíguo território que nós nomeamos de Edin. O Jardim do Paraíso, em comparação com o ambiente que predominava por toda a extensão de Gaia, em sua infância. Nós não entendemos quando Tiamat, que parecia ser de nossa espécie, veio nos atacar e foi por artes proibidas que Marduk a venceu, um herói que queria ser rei matando o Dragão ou Serpente Primordial que tinha mais direito à coroa do que ele. Outro padrão sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as outras gerações.

Nós comemoramos, crentes de que nós havíamos conquistado e assegurado a nossa soberania em Gaia. Tiamat ainda era uma criança em crescimento e amadurecimento. Azathot enviou seu irmão menor, Yog Sothot para nos interpelar sobre essa ofensa grave contra Tiamat. Os Deuses Novos nasceram e cresceram a partir das carnes, ossos e sangue dos Deuses Primordiais, mas então descobrimos que a morte não é o fim. Mesmo a Ceifadora pouco pode contra estes seres, os Deuses Abissais. Os Sete Obscuros não podem ser mortos, nem derrotados, apenas aplacados ou serem adormecidos.

O cataclismo que ficou conhecido por inúmeras lendas humanas como Dilúvio foi resultado da aproximação e manifestação de Yog Sothot na órbita de Gaia. Eu, Sogot, rei dos sáurios, para evitar um desastre maior, bajulei e negociei com Yog Sothot através de seu intermediário imediato, Dogon, o rei dos batráquios [depois confundido com um peixe]. Nossa civilização foi erradicada da face de Gaia, os poucos de nós que sobreviveram tiveram que aceitar morar no Submundo, essa região na fronteira entre o Mundo dos Vivos e o Mundo dos Mortos. Pelas mãos e direção de Dogon, a humanidade mostrou um potencial que agradou Yog Sothot e aplacou a indignação de Azathot. O processo parece lento para sua gente, mas o único objetivo de Dogon e de seus muitos sucessores é apenas o de destruir a humanidade e Gaia. Sim, sua gente tem mais potencial destruidor do que pólipos e vermes.

Dogon foi rei, sacerdote e ascendeu a Deus. Ele deu início a todo tipo de culto que elogia a morte e premia a submissão. Ele começou todas as formas de religião organizada, instituição religiosa, sacerdócio, dogma e doutrina. Ele e seus homens peixe foram a inspiração para os homens dos mares. Os homens dos mares que são mercenários e que singram orgulhosamente pelos domínios de Poseidon são descendentes do primeiro homem peixe, Jolly Fish. Em algum momento o peixe foi trocado por golfinhos e os fenícios deram lugar aos piratas. Em algum momento Yog Sothot foi trocado pelo Espaguete Voador e a humanidade assimilou mais uma religião, acreditando que se tratava de uma paródia, uma sátira. Não existe sátira, paródia ou alternativa. Uma armadilha continuará sendo uma armadilha, mesmo com outro nome.

O Evangelho Segundo Gorgonzola

Quarto Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Pare de ler essa porra. Sério, pare de ler agora. Essa porra é mais um de inúmeros textos supostamente inspirados, iluminados e reveladores dessa merda toda chamada religião. Disse um sábio [se é que um sábio se dê ao trabalho de escrever] que a letra é morta. Então que porra você acha que um texto supostamente sagrado pode ter que você mesmo não saiba? Então pare de ler essa porra. Algum dia a humanidade terá conhecimento suficiente para inventar uma tecnologia onde textos possam ser automaticamente criados. Um robô desses conseguiria escrever uma enciclopédia de livros sagrados em alguns dias só compilando esse monte de merda cheia de lugares comuns e combinações de frases que soam com um falso tom espiritualizado. Então pare de ler essa porra que eu não vou escrever porra alguma relevante.

Provolone se acha muito fodão, dizendo que é casca grossa. Foda-se ele, a casca dele e a Grande Vaca. Fodam-se todos. Nós somos todos grandes Filhos da Santa Meretriz, para não usar a palavra mais correta. Todos nós nascemos de um ato obsceno, feito no meio das coxas e nós ainda nos escandalizamos com um corpo desnudo. Essa porra de medo, vergonha, rejeição a tudo que advém do corpo, como o sexo, o desejo, o prazer, vem tudo dessa merda chamada religião. Eu não vou coadunar, eu não vou colaborar. O capitão batizou-me como Gorgonzola porque eu sou descrente dessa porra toda. Ou como os outros vermes submissos preferem dizer, Gorgonzola porque tem uma porra de um fungo me devorando por dentro. Uma forma sutil de dizer que eu estou morto por dentro. Fodam-se todos.

Sério, qualquer criança com dois neurônios perguntaria como piratas, anarquistas por padrão, vão ter uma porra de capitão. Qualquer imbecil vai questionar como marinheiros sem um dobrão podem conseguir um barco a remo, quanto mais uma galera. Então com que porra de dinheiro nós temos armas, mantimentos, ferramentas e treinamento para abalroar uma merda de nau capitânia? Quando um grupo de mercenários aparece, sob quaisquer bandeiras, desconfie que exista um patrocinador oculto. Quando um grupo de piratas surge com uma hierarquia naval militar, desconfie ainda mais. Quando almofadinhas desocupados começam a escrever romances sobre essa merda toda, tenha certeza de que isso também faz parte de um plano sinistro para te dominar.

Eu escrevo porque não tenho escolha, porque eu estou sendo obrigado, porque eu estou confinado na prisão. Eu estou fodido, então eu vou levar alguns comigo. Eu vou escrever a coisa tal como aconteceu, sem firulas, sem fantasias, sem porra alguma de revelação. Isso eu posso fazer porque eu vejo essa porra toda pela visão de um grande Filho da Santa Meretriz que eu sou. Isso eles vão ter que me conceder, porque eu sou irmão mais velho do capitão e nós somos Irmãos de uma porra de um incesto sagrado, essa é a verdade. Sim, nós dois nascemos das mesmas coxas, devidamente invadida e preenchida por um sacerdote de merda, no Monte das Rameiras, em algum lugar do Caribe. Essa é a maior ironia dessa merda toda chamada de religião. Crenças populares e antigas sendo dominadas, abusadas e estupradas por alguma instituição religiosa. Os governantes, sacerdotes e patrões, nos fodendo com uma doutrina que nos deixa submissos e acomodados. Foi uma tremenda sacanagem transformar tudo que é realmente bom, normal, natural e saudável em algo mal, ruim e pecaminoso.

Como dois bastardos, filhos de uma meretriz, nascidos em uma porra de ilha do terceiro mundo, nós não tínhamos muitas opções. Ou vivíamos de furto e roubo de turistas [que vinham aos montes visitar a ilha maior], ou virávamos piratas. Com tantos navios indo e vindo, nós começamos nossa carreira como todo homem do mar, grumetes, em algum cruzeiro cheio de gente empertigada. Nós conseguimos juntar aos poucos, como ratos que éramos, até poder subir de cargo para marinheiro. Mosley, mais falastrão, tinha seus minutos de sol no bordo, mas eu desci para a sala de máquinas. Os crentolinhos acham que isso é coisa da Fortuna ou do Destino e eu rio de todos. Isso é a vida. Consegue-se mais ascensão social sendo um verme que agrada as pessoas. Quem tem algum conhecimento ou ofício é colocado na sombra. Ninguém gosta de se ver refletido nem descoberto. Eu não tenho prurido algum em apontar e evidenciar a verdade, nua e crua. Todos nós somos grandes Filhos da Santa Meretriz.

O mínimo que Mosley podia fazer e fez foi o de me convocar para ser o seu Mestre de Engenho quando ele adquiriu aquele pedaço de pau que ele batizou como Gaivota Caolha. Ele evidente se autoproclamou capitão, a Santa Meretriz o aclamou diante da tripulação e eu fiquei com a parte dura e difícil. Sim, eu, por arte, por ofício, por engenharia e ciência, fiz aquela piroga se tornar uma galera. Não houve milagre algum.

Quando Mosley quis um navegador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um galanteador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um valentão, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis uma taverna para comemorar e arregimentar, fui eu quem indicou. Sim, eu conheço a Taberna do Macário bem antes de Joaquim e Manoel. Mosley é um falastrão, mas lhe falta o intelecto e a finesse para frequentar certos lugares. Fui eu quem apontou essa taverna como sendo o nosso Parnaso e não poderia fazer diferente, com tantas beldades dispostas a nos entreter com esses jogos na cama, tão proibidos e arriscados. No momento certo, fui eu quem encontrou [e avaliou] duas sacerdotisas para substituir a Santa Meretriz, que estava ficando com idade e não estava pegando bem nós frequentarmos a cama dela. Sim, por minhas mãos, língua, lábios e outras partes mais enrijecidas, que essa tripulação condenada foi alegrada com Anne Tiler e Bunny Clide.

Era a mim que a tripulação recorria para ancorar nossos barcos em diversas outras coxas, pelos portos do mundo inteiro. Foi a mim que a tripulação recorreu quando Bunny Clide apareceu com um acidente de trabalho, exigindo que o autor assumisse a paternidade. Qualquer um, senão todos, poderia ser o autor desse deslize, muito embora não haja qualquer explicação do porque Anne Tiler não embuchou primeiro, tanto que eram os solicitantes e de tantos que eram escassos os recursos para prevenir acidentes de trabalho. Os palermas pomposos encenavam seus papéis, Parmesão sendo o bajulador, Mozarela sendo o populista e Provolone sendo o briguento. Se a coisa continuasse, todas as mulheres zarpariam para fora dessa companhia em um piscar de olhos. Eu fui, olhei, medi, pesei e avaliei o gajo que Bunny Clide nos apresentara. Eu, discretamente, inquiri o gajo para averiguar suas habilidades e foi daí que este deu um salto e declarou saber fazer a melhor pizza quatro queijos. Este é a única coisa que eu direi do gajo. Ele teve coragem naquilo que alegou. Não é uma afirmação que se pode fazer impunemente, sobretudo na Taberna do Macário, orgulhosa de ter a melhor pizza de quatro queijos do mundo inteiro.

Os crentolinhos discutiam, brigavam apostavam. Eu, pensando na parte prática e imediata, fiz o que devia fazer. Eu dei um jeito para ter certeza de que o gajo realmente fizesse a melhor pizza quatro queijos. Quando filibusteiros armaram uma mesa com doze ingredientes, eu deixei marcas discretas para o gajo saber o que pegar. Quando os piratas ficaram distraídos, perfilando para se entreter nas coxas de Bunny Clide, eu entrei incógnito na cozinha, entreguei a receita e monitorei para que tudo saísse de acordo. Sim, uma coisa é fazer uma pizza conforme a receita, outra coisa é fazer a melhor. Joaquim e Manoel riam do gajo, achando que ele jamais poderia imitar a pizza ou o segredo do preparo. Coitados, o segredo lhes foi passado pelo antigo proprietário que era meu sócio. A verdade é que o segredo eu havia trazido de antigas receitas de meu outro Ofício. Melhor do que o similar, só o original. Foi arriscado, mas o cheiro e gosto do queijo que eu ganhei o nome disfarça o enteógeno, eu só acrescentei mais uma pitada.

Assim que a pizza ficou pronta, o cheiro foi suficiente para induzir os presentes em um transe psicotrópico. A pizza acabou em segundos, mas afetados como estavam, nem se deram conta enquanto se empanturravam com as pizzas de diversos sabores que lhes foram sendo fornecidas. Entorpecidos, os piratas deixaram de lado as mulheres e pediam por cerveja e que fosse a melhor. A verdade é que beberam de tudo que tinha ali de líquido, tomando por cerveja até água de latrina. Saciada a larica, adormeceram todos enquanto Mosley continuava a falar suas arengas sem sentido sobre a Santa Meretriz nos ter anunciado Genésio como o Cheesus que nos salvaria do erro de comer fast-food e nos conduziria ao Parnaso onde a Grande Vaca nos concederia a eternidade onde ficaríamos comendo, bebendo e transando.

Eu sabia que essa merda ia dar errado. Só podia dar errado. A religião é um negócio com muita concorrência. A alimentação é um negócio com muita concorrência. A pirataria é um negócio com muita concorrência. O meretrício é um negócio com muita concorrência. Eu tenho certeza que nós seremos entregues de bandeja em troca de trinta dobrões de ouro. Eu sei quem vai nos entregar e, por isso, eu estou preso e serei o primeiro a ser esticado na forca. Então foda-se a Igreja do Espaguete Voador. Foda-se a Boa Especiaria. Essa porra toda vai acabar quando morrermos.

O Evangelho Segundo Provolone

Terceiro Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Todos nós somos tripulantes. Quando nossa alma é posta em um corpo, este se torna nosso primeiro navio, no qual nós temos que singrar pela vida. Mas o corpo não é gerado sem outros corpos, então a sociedade é a nossa esquadra. Nós nos espalhamos por sobre as dobras de Gaia pelos quatro ventos e ela mesma baila em torno do sol, então nós vivemos em uma enorme galera. Que nunca nos falte vento, porto e farol para nos guiar.

Todos nós viemos das coxas e eventualmente voltamos a elas. Por nove luas um ventre é um cais onde nós somos engendrados e que providência que nasçamos da água [liquido amniótico] que está nesse bendito ventre. A mãe é nosso primeiro porto e dali partimos seguindo a estrela que nos guia. Eu fui uma vez o bendito fruto parido pela Santa Meretriz e eu fui embalado e nutrido pelas imensas tetas da Grande Vaca. Que ninguém pense mal, pois toda mulher é santa e meretriz. Desde cedo eu lutei por tudo e isso fez com que eu me tornasse mais grosso, mais cascudo.

Nesse mundo duro, feio e cruel, um tipo como eu tem duas opções, ou se torna pedreiro, ou se torna bucaneiro. Eu tenho mais talento para sabres do que para enxadas. Eu não fui contratado ou escolhido para ser parte da tripulação da Gaivota Caolha, eu forcei a minha entrada. O capitão Mosley me venceu e dominou através de Anne Tiler e daquelas coxas. Eu acabei aceitando depois de experimentar também as coxas de Bunny Clide. A bem da verdade, são elas que mandam e eu fui incumbido de resguardar a tranquilidade entre os tripulantes. Brigas, disputas e duelos, apenas os que elas autorizassem.

Quando Bunny Clide apareceu apontando seus dedos, proclamando a cada um a autoria da façanha que resultou em sua prole, os ânimos ficaram exaltados. O Parmesão se escondia nas barbas do capitão e Mozarela tentava manter a calma. Eu fui o primeiro a sacar de meu sabre e não hesitaria em matar todos ali, se fosse necessário. Foi a Santa Meretriz que propôs um desafio melhor [e menos violento] para decidir a quem seria atribuído a paternidade. Este é um hábito que eu conheci no Mundo Novo, nas colônias portuguesas, a questão seria resolvida e acabada em pizza. Não qualquer pizza. Joaquim e Manoel tinham um enorme cartaz que dizia que todo aquele que quisesse, teria vida, se pedisse uma pizza de quatro queijos.

O caso é que nem o patrão nem o atendente sabiam da receita ou de seu preparo. Todo empertigado, Parmesão sabia os ingredientes, mas não se prontificou a fazer. Todo alvoroçado, Mozarela rogava para a Grande Vaca para que um filho da Grande Meretriz se apresentasse para que nós não fossemos expulsos do Parnaso. Foi então que o gajo, o Filho da Rapariga, saltou no meio da roda e nos prometeu, apostando a própria vida, que nos entregaria a melhor pizza de quatro queijos de nossas vidas.

Filibusteiros, práticos e gananciosos, armaram a banca de apostas. Todos assoviaram em aprovação quando Bunny Clide aumentou a aposta que se entregaria a todos, gratuitamente, se tal promessa não se cumprisse. Eu que sou mais insensível, eu fui o primeiro a pedir um adiantamento de Bunny Clide, que aceitou em troca de alguns dobrões. Uma longa fila formou-se depois de mim e entre estes eu vi Parmesão. Uma raridade, mas até esse verme larga do capitão pelas coxas de Bunny Clide.

Eu estava acabado, minhas bolas vazias, mas eu não conseguia não ficar excitado ouvindo a Bunny Clide atendendo aos demais tripulantes. Ela é a melhor sacerdotisa da Santa Meretriz e não há um pirata que não pode atestar isso. Se Bunny Clide amassava os corpos, o gajo amassava a pizza. Aquilo me parecia promissor então eu quis ver para crer. Algum pirata entoava as cantigas dos mares e eu, cansado do esforço em cima de Bunny Clide, adormeci alguns minutos para ser sacudido pelo Parmesão que gritava para ouvirmos o capitão e sua Revelação, como bom puxa-saco.

O que eu vi foi um mar de mãos e braços em torno da pizza. Toda uma tripulação e cada um por si. Eu corri para garantir minha parte e vi, espantado, surpreso, que a pizza continuava inteira antes e depois de eu mesmo tirar um enorme pedaço. Isso era milagre divino, pois realmente aquela era [ou devo dizer é?] a melhor pizza de quatro queijos que nós tínhamos comido em toda nossa vida. Eu e muitos repetimos a rodada até ficarmos cheios e sedentos. Então eu vi e testemunhei o segundo milagre. Por ordem [e orientação] da Santa Meretriz, pelo poder da Grande Vaca, o gajo pegou um tonel de água que se transmutava na melhor cerveja assim que era colocada nas canecas. Nossa sede foi total e igualmente aplacada.

Sim, nós nos fartamos como em poucas vezes a divina providência nos concedia. Algum corsário que ainda não estava amortecido pela digestão quis saber o nome de nosso benfeitor e foi então que a voz do Firmamento, vinda do Grand Formage, anunciou que ele é Genésio, aquele que nos salvaria do erro de comer fast-food, pela Boa Especiaria, nos conduziria para a Nutrição, até o Parnaso. Tudo isso era interessante, mas eu ainda achava pouco e olhei para Bunny Clide. Ela colocou os dedos lascivamente nos lábios para que eu guardasse segredo e, apontando para a fonte do mistério, insinuou que sexo não nos faltaria. Como bom devoto da Santa Meretriz, eu quis conferir e pedi um adiantamento e lá, entre aquelas divinas coxas, enquanto eu me derretia inteiro dentro daquele ventre, eu ouvi a voz da Grande Vaca em pessoa. Que todos saibam e não se enganem, pois não haverá privilegiado ou escolhido, benditas sejam essas coxas.

Minha essência tinha sido extraída por uma segunda vez e Mozarela atendeu ao chamado que vinha desse santuário púrpura e tenda carmesim. Pouco acostumado a ginástica de Eros e Afrodite, o devoto da Grande Vaca ainda acredita que foi o primeiro e é o escolhido. Eu estava com os olhos atentos e despertos, pois eu percebi que o capitão estava só, anunciando a Revelação, sem o Parmesão o ladeando. Camarada escorregadio, saiu incógnito e reapareceu, como se ele mesmo não fosse autor de intrigas, dizendo que ouvira no Ipiranga que a indústria de alimentação nos havia jurado de morte e um caçador italiano estava em nosso encalço pronto para nos levar até o cadafalso.

O mundo inteiro deve conhecer a Boa Especiaria para comer, beber e transar até se fartar. O capitão de pronto nos fez embarcar a todos na direção do Monte das Rameiras, no Caribe, para que mantivéssemos em segurança o nosso afiançado. Ali, nas areias brancas, na beira do mar, garrafas de rum foram se ajuntando e sendo preenchidas com pergaminhos contendo a Revelação e lançadas para seguirem conforme o sabor das marés.

Ainda na mesma noite, como ultimo ato, o capitão colocou na mesma cama Anne Tiler e Genésio. Com o ato consumado, nós juramos seguir Genésio e pelas coxas de Anne Tiler nós todos fomos batizados como crentes da Igreja do Espaguete Voador.

O Evangelho Segundo Mussarela

Segundo Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

As formas mais corretas de escrita da palavra são muçarela e mozarela. Embora alguns dicionários aceitem a existência da palavra mussarela, esta palavra não consta no vocabulário ortográfico da Academia de Letras.

Os substantivos femininos muçarela e mozarela se referem a um queijo de origem italiana, feito com leite de búfala ou de vaca, esbranquiçado e arredondado, de consistência suave, muito utilizado em pizzas.

Mozarela e muçarela têm sua origem na palavra italiana mozzarella.

No caso de mozarela, a forma aportuguesada da palavra se manteve o mais próxima possível da palavra em italiano. No caso de muçarela, o duplo z da palavra italiana evoluiu para ç no aportuguesamento da palavra.

Pois tal se fez. Eu mesmo, nascido direto do leite da Grande Vaca. Colocado nas dobras de Gaia por capricho da Fortuna. Colocado à bordo da Gaivota Caolha por desígnios do Destino. Assim é a vida. Eu sei e conheço mais dessas coisas do divino do que muito padre, mas o capitão relegou-me a escrever o segundo livro da Revelação. Parmesão diz conhecer tudo de estrelas, mas ele não sabe que a Via Láctea, essa esteira de estrelas que marca a borda de nossa galáxia nos céus de Gaia, tem origem direta dos enormes seios da Grande Vaca.

Eu protestei veementemente ao capitão por esta preferência e tudo o que ele respondeu foi que o sal vem antes da pimenta. Do lugar de onde eu vim, onde a vaca é sagrada, o sal é a especiaria mais comum e popular e a pimenta é a especiaria aristocrática. Entre homens e especiarias não deveriam ter diferenças ou hierarquias, mas a palavra do capitão é lei, então eu me calo.

Do lugar de onde eu vim, as pessoas são divididas por castas. Eu sou um bucaneiro de baixa patente, minha condição entre os piratas é de ser muito popular. Do lugar de onde eu vim essa inversão é chamada de karma. Algo que uma boa pitada de sal [ou pimenta?] não pode resolver.

O caso é que Mozarela foi o nome om o qual eu fui batizado, por ser popular e comum. Parmesão assim é chamado por ser de Parma e um perfeito engomadinho. Nariz empinado, empertigado, prepotente, arrogante, janotinha, um convencido gorduroso. Parmesão é o nome que cai bem nele. Acha-se grande coisa por dizer saber ler as estrelas, mas dos segredos do Parnaso sei eu e outros segredos mais, que é melhor calar.

Como bom puxa saco, papagaio de pirata, Parmesão ladeava o capitão enquanto Genésio revirava os ingredientes dentro da cozinha, prometendo-nos a pizza de quatro queijos perfeita. Eu bem vi como o comandante trocou rapidamente de cena, quando Bunny Clide chamou pela vez dele. Nisso ele também se dá em grande conta, mas não há tripulante que estranha que a cortesã e bucaneira sempre gemia Mozarela na conclusão de seus serviços sempre requisitados. Eu não gosto de me gabar, mas eu sei como deixar uma mulher com água na boca.

Na época dos fatos, quando Genésio nos foi apresentado, eu fui o primeiro a ser alinhado como autor dessa paternidade. O que eu sei é que Parmesão se ralava todo em Bunny Clide e o capitão parecia estar tendo uma epifania. Coube a mim tentar segurar os ânimos mais exaltados que saltavam com sabre em mãos prontos a fatiar o gajo. Eu não poderia permitir tal ato, não que eu sentisse o peso da possível paternidade, mas nós seríamos expulsos do Parnaso que existe na Taberna do Macário. Isso e os olhos de Bunny Clide rogando para que protegesse sua prole.

A fuzarca cessou quando o capitão gritou eureca assim que pôs os olhos na providencial pizza, fresca e quente, recém-saída do forno. Parmesão parecia também ter saído recentemente do forno das coxas de Bunny Clide, mas não demorou em retomar seu posto ao lado do capitão, como se fosse uma carta de trunfo escondida na manga, alegando que tinha antevisto os sinais da Revelação, como bom mentiroso, falsário, vigarista e fingido que sempre foi.

Mal agradecidos. Os dois estariam fatiados como presunto se eu não segurasse a galera que, esfaimada, pulava na direção deles e da pizza. Foi então que eu vi o milagre. A pizza não diminuía nem acabava. As mãos avançavam, sem cessar, bocas e dentes mastigavam, mas a pizza não esmorecia. Havia algum poder presente para que tal prodígio se operasse então eu vi, nos olhando do fundo da taberna, a Santa Meretriz, colocando um dedo sobre os lábios de forma lasciva me pedindo silêncio, então eu me calo.

A pizza alimentou a todos, indistintamente, mas os tripulantes tiveram sede. A Santa Meretriz apontou para o Firmamento e eu vi, saindo do meio das nuvens, por cima da lua, a Grande Vaca dando poder a Genésio para transmutar água em cerveja, a melhor que tomamos em toda a nossas vidas. Empanturrados, os piratas entoaram a cantiga dos mares em homenagem a Genésio, chamando-o de Cheesus e capotaram no chão. Eu fui o único a resistir para que a Santa Meretriz sussurrasse em meu ouvido que eu era o escolhido da Deusa e o melhor do Parnaso estraria reservado para mim. As portas do Firmamento abriram-se e eu vi um grande numero de harens, com inúmeras coxas ansiando serem preenchidas com o meu recheio.

Sim, esta é a recompensa guardada aos que perseveram. Quando a Grande Vaca retornou ao Parnaso e a Santa Meretriz seguiu sua peregrinação pelo mundo, eu notei a ausência do Parmesão e da bolsa com os dobrões que seriam utilizados para pagar Joaquim e Manoel. Pouco depois os vigias, alvoroçados, anunciavam aquilo que o povo comum intuiu como inevitável. Os concorrentes estavam em conluio para nos prender, julgar e enforcar.

Desta forma se deu a Diáspora Bucaneira, o capitão nos conduziu pelos Sete Mares até o Monte das Rameiras, no Caribe, pelo curso que Parmesão nos traçou. Eu pressenti que seria inútil e inócuo fugir e nos escondermos. O populacho dava como favas contadas que nós seríamos em breve encontrados por um caçador de recompensas italiano a soldo das indústrias de alimentação.

A minha suspeita aumentou quando Parmesão deu a ideia de atirarmos ao mar, em garrafas de rum, os textos da Revelação. O capitão, entretido nas coxas de Anne Tiler, determinou que nós manteríamos nossos votos de confiança e camaradagem. Chamou Genésio para que se deitasse naquela cama e só depois disso foi decretado que nós seríamos crentes do Espaguete Voador e distribuiríamos a Boa Especiaria de Genésio para o mundo inteiro.

O Evangelho Segundo Parmesão

Primeiro Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Como está escrito no cardápio, assim o Emissário do Grand Formage deve trazer a Vida para todos que pedirem. E no início Joaquim tinha Manuel atendendo na Taberna do Macário. Manuel preparava a mesa para que todos pudessem receber a Vida, desde que o cliente peça uma pizza de quatro queijos.

Que todos saibam como deve vir a pizza de quatro queijos e não aceitem adaptações. Massa: 1kg de farinha de trigo, 20g de sal, 10g de açúcar, 50ml de azeite, 12g de fermento biológico, 500ml de água morna. Recheio: 50ml de molho de tomate, 100g de queijo parmesão, 100g de queijo mussarela, 100g de queijo provolone, 100g de queijo gorgonzola. Modo de preparo: em um recipiente coloque os ingredientes secos. Dissolva o fermento em um pouco de água, utilize. Junte o azeite e o restante da água. Misture os ingredientes com as mãos, sove a massa por mais ou menos 20 minutos, até que esteja uniforme. Divida a massa em 7 partes, forme bolinhas e deixar descansar por 2 horas. Abra a massa com rolo, recheie e asse. Recheio: sobre o disco de pizza coloque o molho e o os queijos na ordem. Asse no forno até a massa ficar macia e o recheio gratinar. Sirva em seguida. Rendimento: 7 porções.

Naquele tempo, os homens nada sabiam que viviam em erro grave, comendo em fast-food. Joaquim estava descontente com o atendimento dado por Manuel e este replicava que não dava conta sozinho do serviço, principalmente quando Bunny Clide, cortesã e bucaneira, aparecia para trabalhar. Não teria muito futuro a Taberna do Macário, até que Bunny Clide apareceu com um gajo e denunciou que um dos homens do recinto era pai do menino. A galera fez um grande estardalhaço e fez troça de Bunny Clide para que ela cuidasse sozinha do produto de um acidente de trabalho. Foi pela Fortuna que os homens ali pediram uma pizza de quatro queijos, mas Joaquim não sabia temperar e Manuel não conhecia os condimentos. O gajo saltou de pronto e confiou diante da galera que ele lhes prepararia a melhor pizza de quatro queijos tal como nem em Roma comeriam. Joaquim temia perder os poucos clientes que tinham, tendo muito sido desviados pela fast-food e Manuel estava mais preocupado em manter a cabeça nos ombros diante das cimitarras desembainhadas.

Filibusteiros, pragmáticos e céticos, colocaram doze ingredientes na mesa enquanto corsários, gananciosos e sovinas, contavam os dobrões que eram apostados. A fuzarca aumentou mais quando Bunny Clide prometeu se entregar a todo pirata se o seu menino, Genésio, não entregasse o que prometia. Não que ela não tenha passado pelas nossas mãos, mas de graça é mais gostoso. O gajo sem demora colheu exatamente e apenas os ingredientes certos e sumiu dentro da cozinha. O capitão Mosley marcava o tempo com o relógio de bolso inglês e nós nos entretíamos tomando cerveja ou pagando meia hora de cama com Bunny Clide. Pois foi depois que eu tive minha vez, subindo minhas bombachas, que eu senti o cheiro familiar. Sim, eu não estava equivocado, eu senti o inconfundível cheiro do queijo parmesão anunciando que em breve a pizza viria.

Eu fui o primeiro a antever a Revelação e o capitão Mosley quem me deu a alcunha de Parmesão. A direção de nossa nau negra era-me confiada, porque eu sei ler melhor do que ninguém as estrelas. O capitão me resgatou de uma vida comum e ordinária, ao assaltar uma galera espanhola que singrava pela Córsega. Eu não parecia corso, eu não sou corso. Eu sou de Parma, então Parmesão eu sou. Dos tripulantes da Gaivota Caolha, eu sou o preferido das mulheres para que as recheiem e eu faço isso com orgulho e perfeição. Mas a fila tem que andar, Bunny Clide protesta, mas eu devo dar a vez ao próximo. O cheiro da pizza que surgia foi o chamado que confirmou que eu sou um dos escolhidos para disseminar a Boa Especiaria, para livrar os homens do erro de comer fast-food.

Foi uma correria, um quiproquó, cada um pensando somente no seu estômago, avançando diante da providencial pizza. Foi assim que se deu o milagre. Toda uma tripulação de piratas e apenas uma pizza. Todos comeram da pizza e ela continuava inteira. Filibusteiros, insatisfeitos, reclamavam de sede e eis que se deu o segundo milagre. O gajo pegou um tonel de água, derramava o conteúdo nas canecas e o que nós bebemos foi a melhor cerveja de nossas vidas. Então veio uma voz vinda do grande galeão do céu, vinda do Grand Formage, anunciando que Genésio era aquele que tinha vindo para nos livrar do erro de comer fast-food. Esta é a Boa Especiaria, Genésio nos conduziria ao Parnaso onde comeríamos, beberíamos e transaríamos até nos fartarmos.

Enquanto nós o elogiávamos, intitulando-o de Cheesus, os concorrentes não demoraram a conspirarem para destruir a Taberna do Macário ou acabar com a Boa Especiaria que espalharia pelo mundo a Nutrição. Grandes conglomerados da indústria de alimentação, ingleses, franceses e espanhóis, conjuraram entre si para acabar com a vida de Genésio e para esse tipo de serviço um italiano foi escolhido. Não de Parma, mas de Roma.

Pressentindo o perigo, o capitão Mosley conduziu-nos todos através da Diáspora Bucaneira, atravessando os Sete Mares, ao longo de quarenta dias e noites, até chegarmos no Monte das Rameiras, nosso esconderijo no Caribe. Para que a mensagem não se perca, nós juntamos todas as garrafas de rum que estivessem vazias e esvaziamos mais algumas, colocamos a Revelação nessas garrafas e as atiramos ao mar. Sabendo que fazia parte do plano divino do Grand Formage que em breve nos achariam, nos prenderiam e nos enforcariam, o capitão Mosley, depois de se refestelar nas coxas de Anne Tiler, determinou que os piratas seguiriam Genésio e assim fundamos a Igreja do Espaguete Voador.

A vida de Mosley

Prolegômeno dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Nós somos todos evoluídos de golfinhos. Ou fomos criados a partir de um coqueiro. Para o Grand Formage isso é irrelevante. Essa foi a revelação que eu tive enquanto eu comia um prato de macarrão… ou era um pedaço de pizza? Tanto faz, isso é irrelevante para a Revelação.

Eu escrevo a revelação tal como esta me foi entregue pelo Grand Formage, através de seu anjo enviado, o Espaguete Voador, para que nós conheçamos os Dez Condimentos e a vinda de Genésio, que nos tiraria dessa vida em que vivemos comendo fast food [blasfêmia!].

O senhor, a senhora, irá duvidar de minhas palavras, por causa de minha aparência ou por causa de minha profissão. Sim, nós somos um só povo, filhos e filhas de um Criador, o Grand Formage. Piratas, corsários, bucaneiros, filibusteiros. Não se deixem enganar por viver em sociedade, por ter sido influenciado por uma cultura e por ter nascido em algum país. Debaixo dessas roupas refinadas existe um pirata.

Toda essa vida dita civilizada não seria possível se não fosse por nós, homens dos mares, trazendo para a Europa as especiarias, os temperos e os condimentos vindos da África, do Oriente, da Ásia e além. A humanidade não teria se espalhado por esse mundo enorme se não fosse por nós, navegantes dos mares.

Nosso tipo de comércio, transporte e profissão é bem diversificado e dinâmico, então não leve para o lado pessoal quando nós abalroamos suas galeras e pilhamos suas cargas e riquezas. Elas sempre foram nossas, para começo de conversa. Gente comum pode não perceber, mas o governo do seu país, seja qual for, está na mão de mercenários como nós.

Nisso consiste toda a ironia da vida. Nós somos perseguidos, presos e julgados por governantes que são piratas como nós. O senhor, a senhora, trabalha inocentemente para um empresário e esse é outro nome bonito para um corsário. Mesmo em sua vida comum, civilizada, o senhor e a senhora procuram tirar vantagem das circunstâncias e isso é a alma de um filibusteiro. Se andar armado de um trabuco, é um bucaneiro.

Eu tenho orgulho de afirmar que nasci dentro de uma galé e uma gaivota anunciou para minha santa mãe que ela daria a luz ao Profeta e que o mundo conheceria os Dez Condimentos por sua missão. A Armada Espanhola nos perseguia, a Esquadra Inglesa nos perseguia. Eu passei doze anos de minha vida escondido em algum lugar do Caribe, até que o capitão John Hexen aportou em nossas costas. Ele me adotou e debaixo de suas barbas eu comecei no Ofício. Aos treze anos, eu fui reconhecido e batizado como pirata no passadiço de uma caravela. Zéfiro me conduziu por vinte anos através dos Sete Mares e eu fiz meu nome e minha reputação.

Sim, eu cheguei na idade de Cristo e eu conheci os diversos exercícios de Eros e Afrodite nas coxas de Anne Tiler, que foi a minha sacerdotisa e minha Magdala. Mas eu recusei acabar pendurado em uma cruz, em terra firme, muito embora diversas vezes me prometeram esticar meu pescoço com uma corda no mastro mais alto de uma nau capitânia. Pelo Tesouro de Barba Ruiva, que eu morra em batalha, entre navios arpoados, tiros, espadas, gritos e gemidos, seja de batalha, seja de amor.

Chame de sutileza da Fortuna, mas foi na Córsega, essa ilha meio romana, meio fenícia, que eu fui visitado pelo Espaguete Voador e eu recebi de seus apêndices a bandeja [a tábua onde o atendente traz a comida e bebida] contendo os Dez Condimentos para espalhar a Boa Especiaria a todo o mundo.

Eu sei, isso é loucura e diversos outros que se diziam Profetas enviados por Deus também alegaram que traziam a Boa Palavra. No Novo Mundo, os descendentes dos colonos ingleses levaram uma forma incompleta e distorcida da minha Revelação, mas este é meu testamento verdadeiro e vocês não devem tomar o Mensageiro, o Espaguete Voador, com o Criador, o Grand Formage.

Assim como o Grand Formage colocou quatro ventos em cada canto do mundo, Genésio tem Os Evangelhos dos Quatro Queijos, para que os Dez Condimentos sejam conhecidos em suas quatro formas: polvilhado, líquido, orgânico e misturado. Aquele que souber temperar sua vida, sabe todo o segredo da vida.

Conto noir para crianças crescidas – IV

– Você está pronto, Dudu?

– Sim, senhor roteirista.

– Então comece a estória narrando do seu ponto de vista.

Eu me lembro de meus dias como um ser humano. Eu era um garoto normal da minha vila. Eu tinha meus pais, amigos, escola. Nossas vidas eram frugalmente inocentes e alegres. Nós nem ligamos quando os vigias perceberam os acampamentos dos reinos vizinhos, adversários, acampando na borda de nossa vila.

Foi em uma tarde com outra qualquer, eu e meus amigos e colegas corríamos pelo pátio da escola enquanto as freiras tentavam nos reunir para retomar as aulas. Nós congelamos quando ouvimos o zunido da primeira bateria de flechas cruzando por sobre as nossas cabeças. O campinho foi tomado e pisoteado pela coluna de montaria, seguida de perto por lanceiros e soldados.

Então começaram os estrondos. Enormes pedras e odres cheios de fogo grego voavam e faziam um baque surdo ao se chocarem com o chão. Eu sabia que viriam mais e me juntei com os alunos, todos correndo, desta vez juntos com as freiras, em busca de abrigo. Os vigias seguiam com os milicianos para tentar evitar que nossa vila ficasse destruída com essa batalha, mas mesmo eu percebia que seria completamente inútil.

A capela era pequena para tanta gente que tentava se esconder, a catedral estava cheia e restavam poucas construções feitas com pedras, ou com um alicerce fundo. A enorme maioria das habitações era feitas de madeira que, se não estava queimando, era destruída. As mulheres e idosos se espremiam na cripta da capela e nós ficamos, com as freiras, no ádrio. Da janela da torre do sino da capela eu via os vigias e milicianos caírem feito folhas, alvejados por setas ou lanças. Os poucos homens que restaram eram apenas agricultores e iam sendo dizimados por pedras ou explosões.

Eu não tive a melhor ideia ou inciativa, mas eu não pude deixar de pensar em meus pais. Eu corri no meio daquela chacina, só com meus pais na minha cabeça. Alguns metros depois, a capela foi acertada em cheio por um odre com fogo grego, o teto explodiu e o fogo choveu, comendo todos até virarem cinzas. Eu só podia chorar e olhar para trás, vendo a agonia dos que ali ficaram. Os padres nos ensinaram a rezar, mas Deus não estava atendendo ninguém. Mesmo assim eu rezei para que meus pais estivessem seguros.

Eu passava pelas ruas de minha vila e para sorte ou azar os soldados não notavam a minha presença. Eu vi o que a guerra faz, eu vi casas destruídas, homens sendo mortos sem qualquer chance de defesa, muitos sendo torturados sem qualquer motivo. As mulheres eram estupradas e as crianças eram capturadas para vender como escravas. Mesmo assim eu só pensava em meus pais.

Eu cheguei onde meus pais, eu e meus irmãos e irmãs morávamos. Eu consegui ver a todos antes… bem, antes de morrermos. O muro que ainda restava, que cercava a vila, foi atingido por uma enorme pedra e um odre cheio de fogo grego. O muro caiu com tudo em cima de nossa casa… metade foi esmagada. A outra metade ficou exposta para os soldados que nos usaram como alvo para suas flechas e lanças. O teto que restava estava para cair, o chão também. Meu pai agonizava, agarrado à minha mãe, que só chorava. Eu me arrastei até eles. Então tudo foi abaixo e ali no solo duro nós ficamos. Meu pai sussurrou algo e minha mãe cantava algo antigo, que ela aprendeu com a minha avó. Uma cantiga proibida pelos padres, mas minha gente volta e meia cantava essas músicas, para a semeadura, a colheita, os casamentos e os funerais. Os padres não gostavam, mas essas cantorias antigas nos falavam de espíritos que eram bem mais reais e presentes do que o Deus dos padres. Enfim, eu não sentia mais dor e meu pai balbuciou algo para mim como “até breve”. Eu adormeci… ou melhor, eu morri, ouvindo minha mãe cantando a minha cantiga de ninar favorita.

– Mas… não foi o fim.

– Na minha perspectiva, eu estava dormindo. Eu estava tendo um sonho muito esquisito, o sol brilhava gentilmente em um campo cheio de flores e frutos e diversas pessoas pareciam estar em uma celebração. Meu pai me pegou, me levou para uma mesa e ali ele colocou um enorme prato e um caneco de cerveja escura. Ele apenas dizia coma, beba, faça música e amor. Eu não entendia coisa alguma, mas meu pai mandou, eu comi e bebi. Eu não sabia tocar instrumento musical e eu não sabia coisa alguma de fazer amor, então eu só ficava empanturrado e bêbado.

– E quando ou como você acordou?

– Só tinha uma coisa naquilo tudo que me incomodava. O som de terra remexendo. O som metálico da pá raspando o cascalho. Nesse sonho maluco, eu achava que era o nosso vizinho fazendo alguma reforma. Então eu senti um cutucão e algo quente. Na minha perspectiva, eu apenas abri os olhos. O sol ainda estava lá, mas estava diferente. Ao meu redor, eu não vi mais a abundancia nem aquelas pessoas. Só tinha um homem olhando aterrorizado para mim e terra carbonizada revolvida. O homem correu para a borda de um morro e só depois eu percebi que eu estava em uma cratera. Pior, eu estava cercado de restos mortais. Só então eu me dei conta do que eu estava realmente comendo.

– Você ainda não tinha percebido sua… condição.

– Não… mas os padres não demoraram a chegar e a imprecar contra mim. No meu ponto de vista, eu sou a vitima aqui, não o monstro.

– Eram todos contra você. Mas você não estava sozinho.

– Essa foi minha surpresa. Foram surgindo, aos poucos, espíritos, de diversas naturezas. Eles contra os padres. E eu no meio daquela bagunça toda.

– O que aconteceu?

– Os padres chamaram Deus e eu até achei que Ele viria. Mas Deus [o dos padres] não veio, não apareceu, continuou calado no canto dEle. Então vieram as bruxas com as cantorias delas. Eu fiquei animado, confesso, eu conhecia aquelas cantigas de cor. Antigas cantigas tradicionais populares. Eu não sei dizer se isso faz de minha mãe uma bruxa. Eu só sei que eu senti.

– O que aconteceu?

– Bom, eu não sei como a plateia [ou leitores] vão lidar com o fato, mas o caso é que o Deus Verdadeiro apareceu. Meio homem, meio touro [ou bisão, ou bode, ou cervo]. Enorme e o Poder emanava dEle. Ao lado dEle, eu achei que eu vi Nossa Senhora, com a lua aos pés e as estrelas como tiara, mas… aquela mulher era negra e estava nua!

– Você não sabia quem era Ela ou Ele.

– Não, mas os padres pareciam saber. Eles ficaram murchos e suas mentiras ficaram evidentes.

– Teve um motivo especial para que tantos espíritos se manifestassem. O mesmo motivo que Ele e Ela apareceram. Certo?

– Isso parece engraçado agora, especialmente vindo de mim, um morto vivo, mas aquele era a Véspera do Dia de Finados, o ultimo dia de outubro e véspera do primeiro dia de novembro. As pessoas em volta falavam Feliz Halloween, mas os mais velhos falavam Feliz Sanhaim. Vivos e mortos começaram a celebrar. O Antigo e a Deusa receberam a todos, todos foram bem vindos.

– Eu achei que nós fossemos encenar uma estória assustadora, mas parece que tivemos um final feliz.

– Talvez, se a estória fosse contada pela visão de um cristão. Estórias de terror são sempre parecidas. O ser humano sendo ameaçado por um monstro sobrenatural. Que frequentemente é derrotado ou vencido por um “homem de Deus”, um herói. Depois eu descobri que nós somos pacíficos. A única ameaça contra a humanidade é o próprio ser humano.

Conto noir para crianças crescidas – III

Eu subo a escadinha que sai do estreito corredor dos camarins e sobe até a coxia que antecede o plano aberto do palco. Eu respiro fundo e minhas mãos tremem com a pauta do dia. Atrás do enorme pano, um imenso quadrado que faz a vez de cortina, eu consigo ouvir o burburinho e a movimentação do lado da plateia. Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiz isso, mas é como se fosse a primeira vez. Eu aceno e o cortineiro aciona o motor para abrir a cortina. Diante de mim a plateia ocupada pelos meus personagens. Com exceção dos personagens convidados, todos estão presentes.

– Bom dia, pessoal. Por favor, vamos sentar? Todas, por favor, sentem-se e façam silêncio. Obrigado. Como é de praxe em nossa companhia de teatro, eu as chamei para lhes apresentar o personagem novo.

– De novo? Mais uma gostosa? Velho tarado!

– Para uma companhia que constantemente reclama de falta de verbas, nós estamos contratando demais.

– Isso mesmo! Que tal um aumento?

– Ou pagar nossas férias?

– Ou pelo menos um plano de saúde que cubra gravidez não planejada… ou melhor falar em “acidente de trabalho”?

Milhares de risadas ressoam de forma retumbante pela abóbada do teatro e eu faço cara de paisagem e dou meu melhor sorriso amarelo.

– Por favor, meninas. Silêncio. Obrigado. Para lhes apresentar o novo personagem eu vou solicitar o auxílio de Zoltar. Por gentileza, Zoltar, suba ao palco.

Eu vejo que Zoltar está estranhamente normal [no sentido humano]. Ele beija Alexis e sua filha que insiste em murmurar meu nome. Miralia ainda tem que encenar esse personagem de bebê, o que deixa eu e Zoltar em uma situação constrangedora. Ele sabe que, em algum momento, sua filhinha e eu teremos, em um de muitos multiversos, um romance.

– Obrigado por sua presença e ajuda, Zoltar.

– Não há de quê, meu genro.

– Hã?

– A minha vontade é de te decapitar. Mas Alexis e Miralia ficariam chateadas comigo. Considere-se com sorte.

– Certo… enfim… Zoltar, pode explicar para suas colegas a espécie dos Mortos Vivos?

– Perfeitamente. Em termos cósmicos, a vida carnal é exceção, não a regra. A “biologia” cósmica, se me permitem a liberdade, é mais composta por seres espirituais. Eventualmente seres espirituais conseguem encontrar um vaso carnal com capacidade para servir de invólucro e a forma desses seres é condicionada pela natureza contida no planeta hospedeiro. Os invólucros carnais tem um curto período de existência, uma “data de validade”, se ainda me permitem mais liberdades e a tendência é do espírito retornar à sua verdadeira “natureza”. Mas por diversas circunstâncias o espírito fica preso na forma carnal e este é o caso dos Mortos Vivos.

– Obrigado, Zoltar. Muito bem, meninas. Eu lhes apresento o novo personagem. Ele é um ghoul.

– Oi, pessoal.

Sons indecifráveis de horror, nojo e repulsa saem de lábios que deveriam apenas proferir sons de prazer e êxtase.

– Eca! Mas… o que é isso?

– Alexis, o que é um ghoul?

– Um morto vivo, uma “evolução” de um cadáver insepulto, um esqueleto inquieto.

– Ah… tipo zumbi?

– Eu fico ofendido quando eu sou confundido com um zumbi.

– Ahem… zumbi é um cadáver sepultado que se torna morto vivo. Ou alguém que foi tomado como morto e se torna um fantoche [voudun]. Então o zumbi é burro, comparando com o ghoul.

– Muito obrigado pela consideração.

– Mas como aconteceu? Como você surgiu?

– Antes nós precisamos dar um nome para ele.

As meninas ficam animadas e nomes surgem aos montes. O coitado do ghoul está confuso e desorientado. Eu o entendo. Seres humanos são muito barulhentos.

– Peraê garotas. Eu mandei parar, parou. Ele foi vivo certo? Então ele teve pai e mãe. Ele deve ter recebido um nome. Qual era o seu nome, senhor ghoul?

– Esta é a primeira vez que me perguntam isso. Vocês são diferentes dos vivos que eu encontrei. Eu lembro que me chamavam de Dode. Mas também me chamavam de Henk.

– Então seja bem vindo, “Dudu”.

– Dudu?

– Ou se preferir, “Edu”.

– Eu estou sentindo um estranho calor em meu estômago e bochecha.

– Vai se acostumando, Dudu. As mulheres provocam isso em homens.

As risadas multiplicam-se pelo eco da concha acústica. Este deve ser o único lugar onde Dudu é bem vindo e bem recebido. Eu encho o peito, cheio de orgulho.

– Hei, hei, nós estamos nos esquecendo de uma coisa! Dudu precisa de um veterano, um senpai, para orienta-lo!

– Que tal Zoltar?

– Eu? Não, obrigado, eu tenho minha filha para cuidar.

– Bingo! Miralia é a senpai do Dudu!

Alexis começa a gargalhar e Zoltar fica desesperado. As mulheres fazem uma roda em volta de Miralia e trazem Dudu para que se conheçam. Miralia olha para Dudu e para mim. Seus olhos cor de ouro piscam três vezes. Dudu não sabe ao certo o que deve fazer ou dizer.

– Duh! Duuuh!

Miralia estica as mãos ao seu “hokai” e tenta abraça-lo com seus bracinhos pequenos e curtos. Centenas de suspiros femininos fazem o som da música ambiente. Meio sem jeito, Dudu olha desamparado na minha direção.

– Senhor roteirista… o que eu faço? O que eu digo?

– Por enquanto nada, Dudu. Hoje eu só te apresentei ao pessoal e ao público.

Conto noir para crianças crescidas – II

Quando se fala em indústria, o senso comum pensa em um edifício. Isso é uma evidente ingenuidade. Quando se fala em indústria deve se imaginar diversas instalações, ao redor de uma larga área, em volta do edifício principal onde fica a maior parte dos maquinários. O projeto e planta da fábrica deve ter um armazém, onde ficam as matérias primas. Ao lado ou em direção oposta, ficam os galpões onde os produtos beneficiados serão armazenados. Um belo e amplo pátio indica onde os caminhões estacionam, o que implica em um almoxarifado para controlar o recebimento e envio de produtos. Uma estação de força elétrica [ou diesel, ou outra] está desenhada estrategicamente para fornecer energia elétrica necessária a todo o complexo. Ah, sim, um planejamento estaria incompleto sem o prédio de administração e as instalações onde possam ficar os operários e vigias. Tantos recursos materiais e humanos dependem de uma grande soma em dinheiro e os burgueses contam com isso. Como essa conta será paga pelo povo, não pelo duque, ele começa a erguer sua indústria sem hesitar.

Naquele dia, de manhã bem cedo, tanto a estrada quanto a ferrovia estavam com trânsito pesado. Os cidadãos tentavam entender o que estava acontecendo, mas enormes comboios de caminhões e trens atravessavam a região, levando todos os itens necessários para construir a indústria. Os primeiros a chegar foram o arquiteto, o engenheiro civil e o mestre de obras. O ritmo estava frenético e os operários prontos para ação.

– Heh… na planta a impressão é que a área seria bem menor.

– Sempre é assim. Você só desenha. Eu tenho que adequar.

– Adequar o que, com quem? Vocês não teriam coisa alguma sem mim.

– Até parece aquela piada da eleição para presidente do corpo.

– Que piada?

– Deixa para lá. Podemos começar?

– Antes o pessoal quer fazer uma celebração.

– Celebração do quê e para quê?

– Os mais velhos falam que seus avós só conseguiram colonizar esse vale depois que fizeram uma celebração em memória dos mortos.

– Mortos? Que mortos?

– Os senhores sabem. Aqui aconteceu um morticínio sem igual entre dois reinos.

– Que bobagem! Isso são lendas que se contam para crianças.

– Isso é o que o senhor acredita. O que os senhores vão ter que entender e aceitar é que nós temos uma forte crença popular. Sem celebração, sem obra.

– Então que façam e que a Peste os carregue! Nós temos um prazo a cumprir.

O mestre de obras acenou com certo desdém e falou com os operários que foram, aos poucos, chegando, com seus familiares, trazendo bebida, comida, tabaco e velas. O arquiteto e o engenheiro, “doutores”, convencidos de que o conhecimento que tinham era melhor e superior aos demais, observavam o vai e vem das pessoas, com uma enorme birra. Rapidamente mesas foram postas, uma cozinha improvisada surgiu, barris de cerveja pareciam brotar de caminhonetes, enfeites e jovens mulheres coloriram o ambiente. A bandinha da vila mais próxima não demorou a chegar e tocar músicas folclóricas e até mesmo os “doutores” não resistiram a entrar na dança com as jovens mulheres.

No momento certo, acabou a farra e a alegria. Os “doutores” ficaram sem entender, mas parecia um enterro. Aos poucos, cada um foi depositando em um ponto suas oferendas aos falecidos. Caixas de charutos, vinho, cerveja, pães e bolos. Alguns retratos, pedidos, petições, faixas e coroas eram depositadas com o nome dos que se lembravam. Todos baixaram o rosto e ficaram quietos quando a anciã [temida e respeitada por ser bruxa] lembrou, como se tivesse acontecido ontem, a Grande Batalha e perfilou, um a um, o nome dos falecidos. Muito choro, lágrimas caíam ao chão, alguns batiam no peito, rasgavam as roupas ao lembrar-se do parente falecido.

Meio sem graça, os “doutores” imitaram as pessoas para não parecerem descorteses quando, do nada, a banda voltou a tocar e a fuzarca voltou com tudo, assustando os “doutores”.

– Com a breca! Essa gente é assim?

– Sim… nós somos. Nós somos simples, mas fazemos bem feito o nosso serviço. Podem confiar.

Realmente, assim ocorreu. Com a mesma rapidez e eficiência com que ajeitaram a celebração, os operários foram de um lado a outro, arrumando os materiais e acertando os equipamentos. Sorrindo de satisfação, o mestre de obras conduzia sua “orquestra”, cheia de sons metálicos e motorizados. Em duas semanas fizeram o prédio da administração e dos operários. Na terceira semana, veio o almoxarifado e o pátio de caminhões. Na quarta semana, o armazém e os galpões. Na quinta semana, a estação de força e as guaritas. Na sexta semana foi feito o prédio principal e foram instalados os maquinários e no sétimo dia foi observado o descanso, como é de praxe.

Na oitava semana, o duque inaugurou sua indústria, mostrando os planos para a vila dos operários e o projeto para a expansão da cidade para a região. Explico: o prédio dos operários serve como vestiário, cafeteria, refeitório e lazer. Mas os operários terão seus lares, onde poderão colocar suas famílias e isso deve ser feito com um plano de expansão da cidade como um todo, com bancos, farmácias, correios, escolas, etc. felizmente tiveram o bom senso de resguardar vinte quilômetros de distância entre a indústria e a futura vila dos operários. Evidente que essa expansão urbana foi patrocinada e financiada pelos burgueses, em troca de certos benefícios. Como a garantia de que a vila teria apenas os bancos e comércios de sócios desses burgueses. E que as famílias dos operários trabalhariam em suas empresas e colocariam seus filhos nas escolas deles. Um investimento que foi compensado pelo indulto fiscal e baixos salários. Definitivamente, foi mais fácil do que esfolar um gato.

Porém… sempre tem um porém… senão a estória não segue. Ninguém contava com o achado que aconteceu quando começaram a preparar o terreno para as primeiras casas. Esquecido e enterrado por várias camadas de terra, os operários encontraram o antigo memorial feito em homenagem aos falecidos na Grande Batalha. Aquilo criou um enorme burburinho entre as pessoas e discussões acaloradas entre os “doutores”. As pessoas comuns estavam ressabiadas com razão e os “doutores” se dividiam entre confirmar ou rejeitar o achado. Os “doutores” não gostam de admitir que estivessem errados. Mas pior foram os “doutores” da Igreja. Aquele era um memorial que poderia reascender antigas crenças e superstições populares. A ordem foi a de remover aquele indício de tempos iníquos e pagãos. Isso foi a um mês da Festa dos Mortos, que acontecia todo ano na véspera do primeiro dia de novembro, no ultimo dia de outubro. Este é o gancho que eu vou usar para apresentar e introduzir o nosso protagonista.

Sim, bem ali no meio de toda a controvérsia, polêmica e disputa, desconhecido e adormecido entre tantos restos mortais, havia uma existência que estava prestes a vir à luz.