Pistas da Gnosis de Nabokov – IV

Eu evito permanecer mais do que o necessário e não espero ser “gentilmente” convidado para me retirar do campus. A minha intenção está bem estabelecida e eu estou há poucos passos do estacionamento onde param alguns ônibus locais e eu tento mentalmente montar as peças do enigma. Deve existir uma linha ou uma razão pela qual Nabokov colocou o “eixo” da tragédia entre Massachusetts, New York e Maryland. Meu melhor palpite é Connecticut e a Wesleyand College. Ainda sobraria um bom pedaço até Maryland que é disputado por Pensilvânia, Nova Jersei e Delaware. Mas não vejo o que faria com que Nabokov [ou Lolita] fizesse tantas viagens [cerca de 30 Estados] ao longo dos Estados Unidos.

– O senhor não é, mesmo, do FBI ou Interpol.

Ao meu lado a assistente do russo estava “casualmente” sentada, debaixo de um delicado chapéu branco de palha. Eu tinha uma pasta com os documentos que havia coletado até então, mas ela tinha algo em mãos que parecia promissor.

– Não, eu não sou. Eu não tive oportunidade de dizê-lo, mas eu também sou um escritor. Eu quero descobrir e entender a verdadeira mensagem que seu patrão deixou no livro dele.

– Ah… isso explica muita coisa. Os meninos estão certos, você é diferente dos outros que vieram.

– O quanto a senhorita sabe sobre a verdadeira Lolita?

– O senhor Nabokov falou que havia se envolvido com uma aluna, certo?

– Ele falou também que um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

– Então não tem problema algum se você escrever a verdade… ou pelo menos uma sombra dela. Eu sou essa “aluna”. Quando o senhor Nabokov chegou, eu era aluna e estava procurando estágio. Ele me “adotou” e me manteve como sua assistente após a minha graduação.

– Então você foi a inspiração para Lolita?

– Eu não sei… talvez… no começo. O senhor Nabokov escreveu diversos esboços, como que confessando seu “pecado”. Seus colegas não demonstraram interesse. Quem se interessaria por um romance de um senhor idoso e sua aluna latina? Eu não faço um tipo para romance. Mas o senhor Nabokov achou que ali tinha um potencial, só precisava achar algo que ganhasse a atenção do público. Ele continuou a escrever esboços, fichas, observações em guias de viagem, anotações dispersas em sua agenda.

– Isso fica próximo de minha suspeita de que as viagens de Lolita significavam algo mais.

– O romance era para ser pano de fundo. O senhor Nabokov queria descortinar a América aos americanos.

– Mas ele foi atrás daquele algo que balançasse o público.

– Sim… ele testou seus colegas de colégio. Ele recebeu mais atenção quando a protagonista ficou mais semelhante ao padrão americano. Quando era uma “latina” a reação era de compaixão em relação ao homem, como se ele fosse vítima e a “latina” como sendo a “devoradora de homens”. Quando eu fui “travestida” como uma americana média, loira e cristã, a mesma estória teve uma interpretação completamente diferente.

– Mesmo assim, ele não estava satisfeito.

– Não… então ele leu uma notícia em uma de suas viagens que serviu como gatilho. Ele começou a diminuir a minha idade, a idade da protagonista. Ele ficou tão alegre com o “feedback” que começou a escrever feito louco… ou melhor dizendo, começou a amarrar as linhas dos “novelos” para fazer uma estória consistente. Ele comentava comigo em alta voz, possesso por algo maior do que todos nós e eu sentia meu estômago revirar. Eu devia ter ficado quieta. Mas eu tive que falar. “E se ele não for o “professor”, mas o padrasto?”. Oh, sim, foi uma epifania para ele. Ele havia concebido Lolita. E podia se distanciar pudicamente de seu próprio reflexo que ele imprimiu no “professor”.

A assistente fez uma pausa e fitou meus olhos como se esperasse ver as mesmas reações que se acostumou a ver quando seu patrão recebia visitas e inevitavelmente acabavam falando de Lolita. Mas os casuísmos históricos do livro não seriam tão relevantes se não fossem reais e coerentes com um tempo e uma época diferente da Era Moderna, esse período de tempo em que ficamos tão sensíveis e delicados.

– Isso mostra como ele montou a trama da tragédia. Até explica em parte a rota feita por Lolita.

– O senhor Nabokov acrescentou suas próprias viagens e outras viagens fictícias que ele elaborou a partir de guias de viagens. Ele acrescentou a saga de Florence Horner, embora tenha tido o bom senso de mudar os detalhes. Por fim, ele acrescentou as viagens de campanha dos candidatos à presidência da República.

– Para arrematar isso, ele deve ter passado algum tempo em bibliotecas para coletar dados e imagens que parecessem confiáveis o suficiente para serem tidas como reais.

– Ele tinha todo o tempo e recurso suficientes aqui no colégio. Não faltavam também cartas de colegas e amigos falando de suas viagens. E não é novidade alguma que, em muitas cidades do interior americano, homens se casam com garotas. Então ele recebia muitas cartas e relatos que fariam sua obra prima ser uma pálida imagem da realidade.

– Faz sentido. Na verdade, os leitores queriam e querem que Lolita seja real. O público quer que o “professor” Humbert seja real. Se Lolita fosse latina, provavelmente o publico acharia isso casual e normal. Apesar de Nabokov ter insinuado que a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria sejam “bobagens”, esse foi um recurso para desarmar a resistência do público. Ele queria que o americano descortinasse a ele mesmo. [suspiro] Eu também fui enganado. Eu quis que Lolita fosse real e eu quis contar a estória na versão dela. Eu não poderei contar a versão dela por que não há protagonista.

– Mas eu não disse que Lolita não existe. Tem um motivo pelo qual a verdadeira identidade dela foi omitida até mesmo para o processo no Distrito de Columbia. O processo é bem real, assim como o advogado e o psiquiatra forense. Quase ninguém dá muita atenção a “personagens secundários”, mas tem o oficial da corte e tem eu. Nós quatro temos muitas coisas em comum. Nós quatro temos vínculos com o senhor Nabokov e sua Lolita. Quais são as chances de que apenas Lolita seja uma completa ficção?

Um ônibus interestadual chegou e a assistente deixou uma passagem e a pasta recheada de papéis. Ela fez questão de me acompanhar até ter certeza de que eu subi naquele ônibus para New Jersei.

– Por favor, entregue esses documentos para Lolita quando a encontrar e diga que nós, seus familiares, estamos com saudades dela.

O sol vira a esquina do mundo, letargicamente, dobrando através do portal do leste, enquanto o chão levanta em uma poeira avermelhada como o crepúsculo. Eu tenho um tesouro incalculável em mãos do qual apenas poderei guardar as lembranças.

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