Pistas da Gnosis de Nabokov – II

O endereço que foi rabiscado em um papel toalha levou-me a um típico bairro residencial americano, onde as casas são absurdamente iguais em ambos os lados da rua. A proximidade do endereço com o Distrito de Columbia parecia conveniente demais para ser o motivo pelo qual Clarence Clark solicitou os serviços do “doutor” Juan Raymond para seu caso e seu cliente. Ambos teriam que ir ao centro de Baltimore e depois ir até Annapolis para cuidar da defesa do então acusado, o “professor” Humbert.

Procurando pela casa certa, passa por minha mente que Vladimir Nabokov tinha algo em comum com Lewis Carrol: ambos gostavam de enigmas, anagramas, quebra-cabeças. Então seu livro mais conhecido e mais vilipendiado talvez tenha uma mensagem criptografada para algo mais, mas… o que? Por que um escritor de origem russa foi escrever algo assim quando veio para a América, como professor residente de literatura comparada [em Wellesley College, Massachusetts] e era voluntário no estudo de insetos [especialmente borboletas] para o Museu de História Natural [New York]?

– Está perdido, señor?

O homem tem uma semelhança notável com Pablo Calina, mas tem algo nele que remonta a figura do advogado Clarence Clark. Ele carrega nos ombros aquela típica rede usada para se coletar borboletas.

– Eu vim aqui por indicação de Pablo Calina, procurando o doutor Juan Raymond.

– Ah, si, si! Pablito ligou para mim me avisando que um brasileño estava me procurando. Vamos entrar para conversar.

Eu subo a escada, passo pelo pórtico, atravesso a porta com tela de mosquiteiro e a porta principal para entrar na sala que mais parece um cenário de uma agência de turismo especializada em viagem ao México. Eu noto diversos porta-retratos espalhados. A maioria de Juan e Pablo, mas eu vejo alguns com o advogado e outros com Nabokov. Meu anfitrião traz terrinas com nachos, guacamole e despeja generosamente tequila em dois copos.

– O señor Clark tambien ligou alvoroçado, falando que um brasileño estava fazendo perguntas sobre o caso que envolvio nuestra família.

– Então não foi uma coincidência que o senhor Clark tenha solicitado seus serviços?

No hay coincidensias, senõr.

Eu engulo em um gole a tequila no copo, pois eu quase engasgo com nacho e guacamole. Normalmente um fórum consideraria suspeito qualquer técnico ou especialista forense que tenha qualquer vínculo familiar com alguma das partes. Mas o Distrito de Columbia não deve ter atentado a tais detalhes no calor dos acontecimentos, como disse o advogado Clarence Clark.

– Então o senhor conhece e pode me dizer onde eu posso encontrar Lolita? E como entender a mente de Humbert?

– O señor sabe que existe uma clausula de confidencialidade entre eu e o cliente?

– Sim, que foi convenientemente esquecida quando o russo resolveu escrever um livro. Eu devo pressupor que isso foi facilmente arranjado, considerando que ambos são estudiosos e apreciadores de lepidópteros.

Por supuesto… apesar do russo ser um velho que tinha pesadas críticas contra a psicanálise, psicologia e psiquiatria, nossa paixão em comum nos aproximou. Irônico é que ele concebeu Lolita, ou melhor dizendo, idealizou ela como uma ninfeta, exatamente por sua especial predileção pela família Nymphalidae.

– Curioso! Não foi por referências mitológicas?

– Ah, não. Isso foi mais uma das muitas bagunças promovidas por Carl Jung. Ninfas são descritas como donzelas pela mitologia, mas até os antigos sabiam que isso não significava virgem intocada ou algum indivíduo sexualmente alienado. O russo achou apropriado comparar Lolita a uma borboleta exatamente por essa característica esvoaçante, incerta, irrequieta e instável. Pode-se dizer que ele a rebatizou com o sobrenome Haze precisamente por causa disso.

Os nachos, a guacamole e a tequila estavam acabando e eu não quero abusar da hospitalidade do doutor. Eu ainda não consegui solucionar o enigma do “professor”, seu nome certamente é um anagrama e um enigma para ocultar a pessoa que teve que enfrentar o júri. Por outro lado, Lolita está ficando mais… palpável, mais humana e pelos indícios até o momento, ela deve ter relações familiares com o psiquiatra forense, o oficial da corte de Columbia e o advogado que cuidou do caso. Eu arrisco.

– Não há coincidências, isto é certo. Mas o caso e o livro parecem parte de um mesmo quebra-cabeça. Como um enigma, nada é como parece ser. Seu escritor russo foi vago e até sarcástico nos termos que usou para descrever o perfil mental de seu cliente. Como o senhor descreveria o “professor” Humbert e qual diagnóstico deu a ele?

– O señor sabe que meu cliente esteve internado em uma Clinica Psiquiátrica, pouco depois de sair da universidade e teve outra internação pouco depois de seu divórcio?

– Sim, eu li o manuscrito alegadamente de sua autoria, tanto no press-release do fórum quanto no livro do russo.

– E percebeu que contradições foram deliberadamente incluídas?

– Eu notei diversas incongruências. Como sua paixão infantil e morte de sua primeira amada. Ou mesmo sua quase trivial e costumeira vida mundana, onde o relacionamento amoroso se misturava com sua frequente visita aos lupanares. A enorme maioria dos homens tiveram experiências semelhantes. Isso nos torna a todos Humberts em potencial?

– Meu amigo russo não apreciava o conhecimento no qual eu me formei e trabalho, mas ele não teve prurido algum em usar nossos conceitos. Essa é a pergunta que vale um milhão. O russo não quis escrever um romance, ele quis esfregar na cara da sociedade ocidental essa libido e pulsão que nós tentamos, inutilmente, recalcar, sublimar, reprimir. Ele praticamente deve seu livro e seu sucesso ao que aconteceu com Florence Horner. Ele não teria alcançado o Parnaso dos grandes escritores e dos livros clássicos se sua obra não tivesse sido alavancada pelo Relatório Kinsey. Nós, homens, somos naturalmente atraídos por mulheres mais jovens do que nós. E, felizmente, pela biologia e pela natureza, a mulher torna-se madura bem antes do homem exatamente para garantir maior e melhor fertilidade.

– Então… seu cliente… não era um monstro?

– Quando o caso tornou-se público, as pessoas… a sociedade… preferiu fazer de meu cliente um bode expiatório. Fica mais fácil ver e condenar certos tipos de relacionamentos quando nós enxergamos como algo fora do comum, fora do normal, mesmo que o padrão seja uma convenção social absurda e arbitrária. Meu cliente é um homem perfeitamente normal e saudável. O mesmo não se pode dizer de verdadeiros criminosos que cometem abuso sexual. Então a pergunta que nós deveríamos fazer é: nós somos todos estupradores em potencial? Infelizmente sim, pela cultura e costumes de nossa sociedade.

– Nesse caso, eu posso supor que havia um relacionamento amoroso entre o “professor” e a pleiteante? Isso é algo que eu gostaria de ouvir, se possível da própria Lolita.

– Eu não posso ajuda-lo. O russo tentou descobrir quem era a verdadeira Dolores, mas ao ver que ficou sem resposta, deu a ela o nome que nós combinamos com o juiz, promotor e advogado do processo. Dolores, Lolita, se é que existiu alguma, está escondida em alguma das muitas cidades reais e fictícias citadas no livro.

Tal como o Coelho Branco, Dolores, Lolita, escapa por entre meus dedos e some dentro do vortex da obra literária. Eu não sou Alice [embora eu a conheça no multiverso] e não sou o Chapeleiro Louco [embora eu desconfie de minha sanidade mental], mas se existe alguma pista na jornada que Lolita empreendeu com o “professor”, eu posso encontrar tais pistas refazendo a Gnosis de Nabokov. Uma pista ressalta de pronto: diversas das localidades que serviram de cenário foram efetivamente visitadas pelo escritor russo em suas viagens pelo meio oeste americano, por causa de sua paixão por borboletas.

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