Pistas da Gnosis de Nabokov – I

O clássico de Lewis Carrol pode ser encontrado com facilidade nas prateleiras de livros “infanto-juvenis”, completamente alheio ao fantasma que acompanhou seu autor e a menina que serviu de musa. Então fica a grande pergunta: por que exatamente o relacionamento [possível, escondido, embora nunca confessado] entre Alice e Charles serviu como motivo para Vladmir Nabokov escrever o clássico Lolita?

No século XXI, entender qual a semelhança entre esses clássicos é entender porque nós ainda temos tanto medo diante de nossa libido e pulsão por “novinhas”, um mal moderno completamente desconhecido mesmo na Idade Média dominada pela Igreja. Eu me recuso a sintetizar isso como um desdobramento de Jean Jacques Rousseau e seu “bom selvagem”. A conceitualização romântica e ideológica da criança e do adolescente como seres inocentes, ingênuos e assexuados envolve um fenômeno mais profundo.

Para tentar entender por que Nabokov escreveu essa obra e exatamente o que ele queria transmitir com ela deve ser também algo mais profundo que não relatar um relacionamento supostamente abusivo, proibido e interditado entre uma pré-adolescente e um homem maduro. A melhor pista que eu posso seguir é procurar a própria Dolores e tentar ouvir a versão dela.

Eu tenho que seguir até o Distrito de Columbia, Maryland, ano de 1952, para procurar o processo criminal conduzido pelo advogado Clarence Clark. O advogado deve saber melhor do que o escritor quem era Lolita e seu padrasto “sequestrador”. O escritório de advocacia de Clarence Clark fica próximo do Colégio Howard, próximo bastante para que os alunos possam ser vistos das janelas. Cinco minutos depois o advogado surge, visivelmente nervoso e assustado.

– Você não é do FBI?

– Não, senhor Clark. Eu sequer sou americano. Eu vim do Brasil e tenho um interesse no processo publico do Distrito de Columbia vs Humbert.

– Ah… meu escritório virou uma bagunça depois desse caso, apesar dos nomes fictícios das partes, sobretudo depois do maldito livro. O senhor compreende, não é? Eu vejo essa garotada todos os dias e fico pensando no que eu me meti quando aceitei o caso.

– O senhor ou seu escritório sentiram alguma pressão ou cobrança da comunidade?

– No calor dos acontecimentos, nós quase fomos linchados e quase tocaram foco no edifício. Mas nós conseguimos contornar a situação. Desde então eu tenho ficado mais precavido. Qual o seu interesse nesse caso?

– Meus interesses são o literário, o filosófico e o psicanalítico, senhor Clark. O que o senhor pode nos falar de seu cliente? Eu gostaria de ter mais dados, como idade, procedência, profissão, família e escolaridade.

– Tem certeza de que não é do FBI? Ou da Interpol?

Eu entrego meu passaporte que é esmiuçado pelo advogado, com expressão grave, concentrada e desconfiada. Eu percebo que suas mãos tremem e suam, enquanto ele certifica o carimbo da Secretaria de Imigração e Turismo.

– Oquei, o senhor veio do Brasil. Uma viagem e tanto até aqui. O que meu cliente declarou e que eu posso dizer é que ele nasceu em Paris, França. O pai era dono de um hotel na Riviera [Hotel Mirana] e a mãe era parente de Jerome Dunn. Meu cliente alega ter adquirido diploma em Literatura e trabalhou por muitos anos como instrutor de inglês para jovens.

– Isso deve ser o suficiente. O que o senhor pode falar da pleiteante?

– O que a promotoria declara é que a senhorita Dolores Haze vivia com sua mãe em New England e acomodaram o “professor” em um quarto de sua pequena casa suburbana, no bairro latino.

– Algo está faltando. Como o seu cliente foi parar na América e como exatamente o Destino ou a Fortuna o colocou na mesma rota de Dolores?

– Meu cliente veio para a América, permita-me a ironia, atendendo a um chamado de nossa justiça, por uma herança deixada por um tio. Sua estadia e permanência, bem como dar continuidade aos “negócios da família” faziam parte do testamento.

– Isso nos dá o “quem”, o “onde” e o “como”. Falta o “quando” e o “por que” seu cliente e a pleiteante envolveram-se nessa tragédia.

– Isso meu juramento não permite declarar, mas o senhor pode obter estas respostas pelo manifesto escrito por meu cliente, que faz parte da denúncia do Distrito de Columbia contra ele. O senhor pode solicitar vistas ao processo na Corte de Maryland.

Eu agradeço ao advogado e, sem olhar para trás, trato de pegar a estrada até Annapolis, Maryland. No fundo eu sei que o advogado está me seguindo com o olhar e vai checar de novo minha identidade com seus conhecidos na polícia e na justiça. Se eu estivesse de carro, eu seguiria pela Rota 97 e levaria 58 minutos. De ônibus, eu pego um longo caminho, indo primeiro ao centro de Baltimore para depois chegar em Annapolis, após 2h e 50 min. Pelo horário, cansaço e fome, eu deixo para o dia seguinte e descanso no Hotel Lowel.

A Corte de Maryland é tão próxima do porto da cidade que é praticamente vizinha da Academia Naval dos EUA. Perscrutar o escaninho desta corte não é tão fácil quanto a de meu país. Apesar de minha aparência ser tão europeia ao cúmulo de ser confundido com um turista em Salvador – BA e de falar razoavelmente o idioma local, os oficiais de justiça assim que olham meus documentos, com meu nome e origem, não demoram a soltar algo que mistura decepção e aversão. Brasileiro é latino e nós somos todos “mexicanos”. Mas o processo em questão tem sido tão solicitado nos últimos dias que o cartório tem até diversas cópias [press-releases] com as minutas das audiências. A consulta ao livro foi mais frutífera, diante da linguagem hermética, fria, estéril e indiferente da técnica de redação forense. Nenhuma pista ou indicação de como se urdiu tal tragédia. Só as bobagens pseudo-psicanalíticas e casuísmos históricos de Nabokov dão um vislumbre do que se pode dizer superficialmente.

– Hei, chicano, está querendo saber mais desse escândalo?

Eu levando meus olhos das páginas que o cartório me dispôs e me deparo com um funcionário local. A ironia é que ele é bem mais moreno do que eu, ele é muito mais “chicano” [latino, como os americanos dizem de forma pejorativa] do que eu.

– Sim, eu estou em busca da versão dos fatos segundo a visão da pleiteante.

– O senhor deve ir para Baltimore procurar pelo doutor John Ray Jr. Ele conhece bem a mente do señor Humbert, quando o consultou a título de psiquiatra forense e consultor clínico de seu avocado.

Um tiro no escuro. Uma breve consulta nas cidades de Massachusetts não existe uma que se chame de Widworth e uma consulta nos registros acadêmicos retorna com zero ocorrência do “doutor” John Ray Jr. Seria algum tipo de cifra usada por Nabokov [e a Justiça] para esconder os únicos personagens que realmente poderiam responder às perguntas embaraçosas?

– Muito obrigado pela indicação. Infelizmente nem o advogado nem o processso indicam quem é ou onde eu posso encontrar o doutor John Ray Jr.

O funcionário espremeu um chumaço de papel em minhas mãos e saiu andando, como se não tivessem centenas de pessoas em nossa volta. Sem muitas opções, voltei para a rodoviária de Annapolis e esperei o primeiro ônibus para Baltimore e, com cuidado, eu li o rascunho.

Juan Raymond, forensic psychiatric, Whitworth Way, resident professor, Maryland Research Center. Diga-lo que usted tiene indicacion de Pablo Calina.

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