Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.

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