Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.

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2 ideias sobre “Dois é pelo show

  1. Amores burlescos

    Complicado… Participei de um grupo no Facebook sobre hentai e quando vi era de temática adolescente… Lolicon… E tinha uma divisão, quando os protagonista eram menores de 12 anos… O que vi era que incentivava a garota a procurar pornografia infantil na deep web e em alguns casos até incentivar o incesto… E abusavam da frase que eram menor de idade e não poderiam ser presos…
    Concordo quando diz que crianças tem sexualidade, e concordo quando diz que produzimos pornografia sem educação sexual… Mas então o que fazer? Dar educação sexual e retirar a alcunha de que é menor de idade e não tem discernimento para responder por crime…
    Recentemente teve um caso em Londres de um garoto de onze ou doze anos que estuprou a irmã de seus porque achava que era normal isso pois via muito na internet… Lamentável…
    Sobre seu texto, muito bom…

    Resposta
  2. betoquintas Autor do post

    Obrigado pelo comentário. Infelizmente não tem uma resposta. O Japão é especialista em detonar a nossa mente provinciana e olha que no Japão mesmo essa “literatura” corre o risco de ser proibida [e isso não resolve o problema]. Quando Larry Flint enfrentou a Corte -pasme- não foi por estar “produzindo pornografia” [embora o “assunto” tenha aparecido nas alegações), mas por ter infringido as leis de direitos autorais. Inevitavelmente a Industria Pornográfica surgiu e cresceu em conjunto com a “demanda” de seus consumidores. E isso antes do advento da internet [mesmo as produtoras de vídeo pornô tinham baixíssima qualidade antes da internet]. O erotismo era cortejado discretamente pelo cinema [e a Sétima Arte tem diversas obras que borram essa fronteira entre Arte e Pornô]. Então tem Nabokov [Lolita], Kinsey e outros fatores que contribuíram para mexer com uma panela de pressão lacrada. Foi só então que surgiu o gênero Lolicon e o que não falta na internet é vídeo pornô com a tag “teen”. Alguém mexeu na válvula de segurança e nós não estávamos preparados para isso, algo que tornou-se um problema por volta da década de 90 [século XX] com os escândalos de abusos sexuais de crianças e adolescentes cometidas por… padres [e pastores]. Pode se dizer que é um fenômeno social e cultural, mas tem aumentado [e muito] relatos de “menores” tendo relacionamentos com adultos – e isso é complicado, porque cada país tem uma convenção do que é considerada a idade mínima para o “consentimento”. Nos EUA, cada Estado tem suas próprias leis sobre o assunto [incluindo capacidade de votar, dirigir, responder a crimes, etc]. Aqui no Brasil tem gente querendo diminuir a idade penal, embora tecnicamente exista o ECA e leis que punam o “menor” infrator, além de inúmeros dispositivos [legais e jurídicos] que podem conceder a emancipação aos jovens [a partir dos 16]. Em alguns países é bastante comum crianças serem arregimentadas para o Exército, como existem casos de casamento infantis em grupos religiosos [Mórmons/Adventistas] e casos de prostituição infantil [na Europa!]. Alheios a tudo isso, tem a garotada que nasceu plugada e tem feito na prática a Revolução Sexual que nossos avós sonharam. Eu não posso dar um parâmetro ou solução. Eu espero é que haja bom senso e que seja estudado cada caso. Só não dá para nós retrocedermos no tempo, nem é cabível qualquer forma de censura. Mesmo alguém que faz um discurso de ódio, que dissemina o preconceito e discriminação, tem que ter a liberdade de expressar sua ideia, respondendo em justiça conforme for possível de caracterizar [racismo, xenofobia, misoginia]calúnia, injúria e difamação.

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