A linha rosa

Atravessar o Submundo não é difícil e o Inferno não é um funil como descreve Dante Aliguieri. Julio Verne dá uma descrição melhor em sua obra “Viagem ao Centro da Terra”. Ateus e céticos certamente discordarão, mas tal viagem somente pode ser empreendida no limiar da realidade. Não faltam ordens místicas e esotéricas que falam de um mundo oculto no ventre de Gaia e isso não é exagero, existem diversos portais que ligam este mundo ao Mundo dos Mortos, ao Limbo e ao Purgatório, para usar conceitos mais conhecidos do publico. Eu acabei acostumado com isso, tanto por ser um escriba e trabalhar em estado mediúnico, tanto por trabalhar para a Sociedade.

Sim, as facilidades de ser um soldado da Sociedade me permitem ir a Nayloria ou Cartoonland sempre que eu quiser, mas estes são conexões que existem. Lucifer dá um tapinha no meu traseiro enquanto se despede para dar continuidade ao anime. Ela não diz muito onde ou quando eu estou, mas seu sorriso malicioso indica que ela tem algo planejado.

– Aqui é sua primeira cena, Durak. Mais adiante você encontrará as irmãs Matoi conversando alegremente com Leila.

– Perdão, mas… e o roteiro?

– Não tem roteiro. Vai ser algo do tipo “live action”, ou “reality show”. Nos vemos mais tarde.

Andando pela rua, eu não consigo reconhecer as proximidades. Nada se parece com parte alguma de São Paulo. As ruas estão limpas demais, o asfalto parece um tecido e as pessoas todas andam como se tivessem acabado de sair do programa “Esquadrão da Moda”. Um tapa nas minhas costas indica que eu tenho companhia.

– Por Victor Hugo, senhor Durak, o que faz em Paris?

– Javier Dupont, eu presumo que tenha sido escalado como meu guia.

– Sim, eu fui exonerado de minhas funções como oficial de justiça depois que madame me contratou.

– Sibil também?

– Para meu infortúnio.

– Sem querer ser indiscreto, mas… vocês estão habitando a mansão dos Montmart?

– Madame insistiu.

– E… com Osmar?

– Ah… senhor Boudin… minha única alegria.

Evidente que eu queria saber mais, o que daria um conto absolutamente dinâmico [para não falar arriscado], mas Javier indicou um pequeno bistrô [como chamam os botecos na França] e, tal como Lucifer havia dito, lá estavam as irmãs Matoi e Leila.

-Madame, aqui está o escriba, como ordenastes.

– Isso foi rápido, senhor Dupont.

– Eu não sei como explicar isso, madame, eu apenas o encontrei a alguns metros adiante.

– Eu acho que minha irmã Lucifer nos deu uma ajuda. Sente-se, Durak.

– Javier, nos acompanha?

– Muito gentil de sua parte, senhor Durak, mas eu devo voltar à mansão.

– Faça isso, senhor Dupont. Refestele-se com Osmar. Eu gosto de comer meu jantar quente.

Javier pragueja em cinco línguas e ninguém precisa de tradutor. O garçom [palavra que, por sinal, tem origem francesa] se aproxima da mesa e me serve um excelente Bourbon.

– Muito bem, Durak, considere-se um afortunado por eu ter te concedido esta promoção de meu cachorro a meu servo. Mamãe quer que você escreva sobre meus passeios com as irmãs Matoi, mas isso conforme a permissão destas, evidente.

– Eu estou animada. Eu não conheço quem tenha a capacidade ou coragem de escrever tal conto.

– Eu também. O que faz muito sentido, considerando que agora nós todos somos da mesma Sociedade.

– E eu sei que ambas gostaram de contracenar com ele, então vamos ver como desenvolvemos este espetáculo.

As três desandam a rir como se fossem velhas amigas fofocando.

– Mas vamos ao que interessa. Sabe onde estamos, Durak?

– Eu imagino que esta localidade deve ter alguma simbologia.

– Este bistrô está bem próximo do Observatório de Paris, por onde passa a Linha Rosa, uma curiosidade geográfica que Dan Brown pirou na batatinha ao misturar com o Mistério do Graal e a Linhagem de Cristo.

– Nossa atual encenação vai abordar algo tão místico?

– Talvez sim, talvez não. Eu quero ver como você vai fazer essa alquimia entre personagens de anime e esoterismo cristão.

– E com um cenário que envolve competição de espadas.

– E com um toque de ecchi.

As três me encaram para ver a minha reação e eu dou a minha melhor expressão de paisagem. Eu acho que tenho que agradecer a Zoltar pela Gnosis. Eu perdi toda vergonha e receio de ser rejeitado por um leitor inexistente.

– Sinceramente, poderiam ter escolhido um cenário próximo das linhas ley, se vamos abordar algo esotérico.

– Você ficou sem graça, Durak. Era mais interessante quando você reagia. Enfim, vamos andando. Nós vamos direto ao torneio e evidente que você é do nosso time.

– Quantos participantes foram chamados?

– Nós chamamos todas as espadachins mulheres de diversos animes. Você é o único homem.

– Vai ficar muito obvio que este será um conto no estilo harem.

– Ah, mas esta não é a maior surpresa, Durak. Nós convidamos mais uma personagem para o nosso time. Ela deve estar chegando em breve.

Meu instinto fica agitado e eu pressinto a presença de mais alguém a dez metros atrás de mim. Eu fico em estado de atenção e pronto para ação, quando a voz da personagem misteriosa me desarma.

– Com licença. Senhorita Etienne e irmãs Matoi, eu presumo? Eu espero não ter chegado atrasada.

– Ah, olá, Miralia. Eu acredito que você conhece Durak, o nosso mercenário e escriba.

– Sim, eu conheço. Como vai, papai? Eu estou muito contente em contracenar com você neste espetáculo.

Eu viro devagar para não entrar em choque. Miralia, que tecnicamente é filha de Zoltar e Alexis, está enorme. Eu ainda não digeri muito a revelação de que Miralia é, na verdade, minha filha com a Deusa e não sei se eu estou pronto para contracenar com ela.

– N… não olhe assim para mim, papai. Eu fico sem graça.

– Hahaha! Bem melhor. Eu gosto mais de você quando é sincero com seus sentimentos, Durak.

– Tem certeza de que está tudo bem, meu anjo?

– Sim, papai. Eu treinei bastante com um tal de Goku e um tal de Ichigo.

– Eu falo da parte mais adulta dessa encenação. Para ser coerente, eu tenho que ser seu tutor que irá inicia-la para a vida adulta.

– S… sim, eu acho que sim. Mamãe insistiu quanto a isso. E eu prometi a Ela que eu faria de tudo para reunir novamente a família.

Leila ficou emburrada, pois a graça acabou muito rápido. Eu estou curioso em saber qual arma a Leila vai usar no torneio. Eu estou preocupado com Miralia no torneio e interessado em qual arma ela vai usar. Tanto faz. Não tem ninguém do outro lado da tela.

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