Arquivo mensal: junho 2017

Preâmbulo de uma farsa

Eu escrevi um conto de como eu percebo o Mundo Espiritual. Considerando que minha possível audiência seja composta de pessoas cristãs, eu sinto que a decepcionei. Eu duvido muito que meus leitores tenham lido a Divina Comédia ou Paraíso Perdido, referências constantes quando os animes abordam o Inferno e o curioso é que o Japão é budista, mas em nosso mundo contemporâneo a cultura é multinacional.

Eu vou emprestar o conceito do anime “Sin Nanatsu No Taizai” [ainda em progresso] para abordar essa hierarquia de seres e entidades que supostamente ou são servos ou são adversários de Deus [o Judaico e Cristão]. Ainda que eu pressinta que seja inútil, eu recomendo a leitura do Livro de Enoch que conta exatamente o mito da Queda dos Anjos. No livro apócrifo, os rebeldes que começaram uma guerra no Firmamento são outros, mas eu vou tentar me ater à demonologia cristã.

A Rebelião de Lucifer de J.J Benitez é um livro que pode vir ao caso para entender o roteiro. Quem começou a guerra contra Deus foi Lucifer, por não aceitar que o Homem é uma criação divina. Shaitan [Yezidis] ou Iblis [Muçulmanos] desobedeceu a Deus ao se recusar se ajoelhar diante do Homem [e Shaitan é parente de Satan, daí porque se confunde Lucifer com Satan]. Influenciado pelo livro Evangelho de Loki, eu fico imaginando como seria a crônica da Guerra dos Anjos na visão de Lucifer.

Eu vou apenas alterar um pouquinho a cena do primeiro episódio do anime [Atenção! Spoiler!]. Miguel e Lucifer lutam ferozmente e, como consequência do embate, Lucifer é arremessada, se choca e fica estatelada no chão de uma capela, atada a uma cruz. A câmera enquadra Maria como testemunha da queda de Lucifer, mas eu também estou lá, para pegar hóstias e água benta, excelentes materiais para bruxaria. Maria [que certamente não está ali por mera coincidência] fica embevecida com a manifestação do anjo enquanto eu, nas sombras da secretaria da capela, fico intrigado com essa revelação de que anjos têm sexo e gênero feminino.

Eu vou dar uma lista tirada do Wikipédia dando uma correlação entre arquidemônios e os pecados capitais. Segundo o Wikipédia, Asmodeus tem o atributo da Luxúria, Belzebu tem o atributo da Gula, Mamon tem o atributo da Ganância, Belphegor tem o atributo da Preguiça, Belial tem o atributo da Ira, Leviatã tem o atributo da Inveja e Lucifer tem o atributo do Orgulho. Para o escritor e produtores do anime a lista seria ligeiramente diferente. Lucifer continua sendo culpada por Soberba e Leviatã por Inveja, mas Belial é a Vaidade, Satan é a Ira [Fúria] e Astaroth é a Melancolia. [Atenção! Spoilers!] Todas as personagens são femininas e usam pouca [ou nenhuma] roupa.

Quando Lucifer afunda no chão em direção ao Inferno com o golpe dado por Miguel, eu pulo junto. Se esta personagem for mesmo Lucifer, ela também é Ishtar, Venus e Cristo, pela minha mitologia particular. Minha presença causa uma ruptura dimensional, então o estúdio continuou com o roteiro e eu criei uma nova linha narrativa. Lucifer parece ter percebido a dobra dimensional e olha diretamente para mim.

– Durak! Não era para você interferir nessa minha encenação!

– Perdão, Lucifer, mas eu não posso te deixar sozinha. Eu fiz um juramento para ti que eu sempre ficaria ao seu lado.

– Você não tem jeito. Eu me disfarcei como Kate Hoshimyia e você me reconheceu. Eu mudei a minha aparência para este anime e ainda assim você me reconhece. Ainda bem que eu te vi, senão o pessoal do estúdio de animação entraria em pânico se sua forma se manifestasse na película.

– Eu lamento por te dar tanto trabalho. Ordene e eu retorno.

– Isso não é necessário, Durak. Eu criei uma dobra dimensional, então o estúdio e o publico verão apenas o que o roteiro e eu permitiremos que vejam. Vamos tentar usar este recurso para aquela cross over que você quer fazer, inserindo o passeio de Leila, minha irmã. Vamos ver como o anime, nesta realidade alternativa, se desenrola.

Nós nos chocamos ao chão e Leviatã está na marca dela, embora não consiga encontrar no roteiro a minha participação.

– Eh… Luci chan… quem é este personagem? Segundo o roteiro era para apenas nós duas contracenarmos.

– Vamos fazer a mesma cena, com pequenas alterações. Esta encenação estará sendo transmitida para uma realidade alternativa então, para todos os casos, este é Durak, meu servo.

– Eu acho que conheço este mortal. Você não acompanhou minha afilhada Lilith em um dos muitos multiversos?

– Sou eu mesmo.

– Puxa vida… quem diria… eu, o Dragão do Abismo Marinho, reencontrando o único mortal que foi capaz de entender e conceber o Fogo Negro.

– Vocês se conhecem. Excelente. Então não teremos problemas com exposição explicita de corpos femininos nus.

– Mas já? Eu ainda estou me acostumando a esta forma antropoide.

– Nós ainda temos um roteiro, Leviatã. Além do que Durak precisa trocar de roupa.

Leviatã aplaude enquanto Lucifer encena a remoção de suas roupas celestiais por roupas demoníacas. Eu sou envolto pela minha velha armadura feita de couro de dragão, algo que Leviatã não gostou.

– Fur is Murder! Fur is Murder!

– Cale-se Leviatã. Esta couraça foi feita do corpo original de Durak. Ele é um de nós, desde sempre.

– Isso é piada, Luci chan? Um humano? Nascido originalmente como um da raça dos Antigos?

– Ousa duvidar e questionar?

– N… não. Nós somos aliadas, certo? Você é poderosa demais para eu sequer pensar nisso.

A cena segue, com a chegada de Belial e Satan. As duas também ficam surpresas e contrariadas com a minha presença ali.

– Mas… o que significa isso? Nós deixamos bem claro que nós não queríamos contracenar com humanos [fizemos uma rara exceção no caso de Maria] e deixamos bem claro que não deveria ter a presença de nenhum personagem masculino.

– Eu não lembro que o contrato assinado com o estúdio proibia que nós trouxéssemos nossos serviçais. Como uma futura regente do Inferno, eu tenho meus vassalos e eu não abro mão do apoio que Durak me oferece.

– Pouco me importa. Eu não aceito.

– Então façamos uma aposta, Satan. Afinal, você mesma encenou um teatro escrito por Durak, então deve conhecê-lo. Um duelo. Se Durak te vencer, ele entra na equipe.

– Hah! Vai perder esta aposta, Lucifer. Eu aceito, evidente, pois me incomoda ouvir no Inferno os demônios falarem que este humano é mais forte do que eu. Prepare-se, Durak, porque eu não vou pegar leve.

Satan veio com tudo com seu machado de dois gumes e Lucifer providenciou que eu tivesse minhas boas e velhas espadas [duas katanas, com um lado cerrado]. Bom, eu estava lutando com Satan então eu calculei que eu ia precisar de 80% de minha força [eu quase me tornei o Senhor da Floresta]. Ainda bem que estávamos em uma realidade alternativa, pois o cenário voava pelos ares em fragmentos fumegantes quando Satan caiu sentada e assustada quando sentiu meu golpe defensivo-ofensivo.

– O… o que é isso? O que significa isso? Isso é impossível! Eu fui com toda minha força e poder, no entanto ele me repeliu e me fez recuar com um único golpe!

– Eu vou aceitar isso como sua declaração de derrota. Que isto sirva de lição. Nós criticamos o ser humano por julgar conforme a aparência, mas nós fizemos o mesmo ao julgar Durak por sua aparência humana.

– Por caso ele… é um daqueles nascidos dos Antigos e escolhidos para encarnar como humano?

– Sim, este é meu muito amado e querido. Sua família – a verdadeira – tem laços antigos e fortes com a minha família. Meu pai e o pai dele nos uniram em um compromisso, eu fui confiada a ele e ele foi confiado a mim. Minha única tristeza e arrependimento são de não poder ajuda-lo em sua atual encarnação no mundo humano. Eu não posso interferir na missão dele porque ele é assim. Cumpre com seu propósito, sua missão, a qualquer custo.

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Os passeios de Leila

Eu estava cansado e paranoico depois de acabar a transcrição do diário de Gill. Eu fiquei com essa impressão de que as pessoas olhavam para mim com adagas nos olhos, mas não, eu continuo sendo mais um anônimo náufrago na multidão. Eu comecei a bolar algumas ideias que acabam aparecendo depois que eu vejo animes ou que tenho sonhos.

Se bem que fazer um conto com o ambiente de trabalho pode parecer preguiça, sobretudo se eu explorar a tensão sexual que pode acontecer entre um/a funcionário/a e seu/sua chefe. Se eu ficar no plano heterossexual, vão me acusar de ser sexista/machista e vão me acusar de coisa pior se eu for para o plano homossexual ou transgênero.

O que tem martelado minha cabeça é escrever um conto cross over com Akame Ga Kill e Akuma No Riddle, de preferência incluindo diversas outras espadachins de outros animes. Chame de fetiche, se quiser, mas como bom amante de anime e artes marciais eu amo personagens femininas espadachins.

Novamente acabei adormecendo na cama, quando eu senti um peso sobre mim. Eu abri os olhos e vi Gill e Riley, ambas com uniforme de bandeirantes, como da ultima vez. Gill parecia satisfeita e alegre enquanto Riley dava de ombros.

– O senhor conseguiu, senhor escriba! O senhor transcreveu meu diário!

– Eu fico feliz se você está feliz, Gill. Mas… por que esses uniformes de bandeirantes?

– Os uniformes vieram com um roteiro que nós recebemos. Nós viemos aqui para entregar a sua parte. Nós vamos contracenar novamente.

– O’Ley! Não estraga! Eu quero agradecer adequadamente ao senhor escriba!

– Eu não sei por que você me trouxe junto então. Durak, se prepare, porque você vai experimentar uma regalia que poucos sentiram e resistiram.

– O’Ley! Era para ser surpresa!

– Hei, eu estou aqui, podem me explicar?

– Gill descobriu como usar sua arma secreta.

– O’Ley!

– Arma… secreta?

– Sim… conte para ele, Gill.

– Senhor escriba, eu sei que meus seios não são como os da O’Ley, mas eu descobri que uma certa parte do meu corpo provoca uma reação positiva nos homens. Foi durante meus exercícios que eu descobri que eu posso melhorar o interesse masculino por mim se eu usar a minha bunda.

– A sua… bunda?

– Sim, ela mesma. Quando eu estive aqui da ultima vez e estava brava com o senhor, eu confirmei o potencial de minha bunda. O senhor fica excitado só de sentir meu bumbum pressionando seu berimbau.

– Acredite, Durak. Eu não consegui aguentar.

Foi assim que, sem mais nem menos, Gill usou a porta do fundo para me cavalgar. Ela gingava, girava, cavalgava e eu ia me segurando como podia, mas estava difícil, era uma tortura, para mim e para Riley, que mordiscava os lábios só de ver. De repente a Gill treme toda, cessa o bate-estaca e rola de lado, exausta e toda suada. Pela expressão de felicidade no rosto dela, ela chegou ao orgasmo múltiplo. Eu ganhei a luta, ou perdi, dependendo do ponto de vista.

– Uaaauu! Eu vejo, mas não acredito. Você é mesmo incrível, Durak. Mas é um desperdício deixar isso assim.

Segundo round com a Riley é demais. Eu até resisti o suficiente para conseguir colocar a mesma expressão de satisfação no rosto dela antes de perder a luta, ou ganhar, dependendo do ponto de vista. Quando recobrei a consciência quatro horas depois, elas tinham partido e deixado o roteiro, todo amassado e melado, em um canto da cama.

A letra nas folhas de caderno é de Leila e ela roteirizou o passeio que ela teve com as irmãs Matoi. Eu tenho um estalo e começa a surgir um roteiro onde eu posso encaixar uma cross over com diversas personagens femininas espadachins. Evidente que eu irei contracenar nesse teatro em minha identidade de Kobori Tadamasa.

Eu também tive boas ideias no tema local de trabalho, amor, relacionamento e sexo. Eu gostaria de trazer a Hellen, dos quadrinhos que eu faço. Não tem ninguém lendo mesmo, então eu não corro o risco de ser crucificado.

Arquivos secretos – III

ATENÇÃO! NOT SAFE FOR WORK! Apenas para adultos. Ao prosseguir, você concorda e aceita unilateralmente com as condições estabelecidas por esta Sociedade.

Querido diário: eu fiquei um bom tempo no ofurô e eu segui algumas dicas e exercícios que eu encontrei na internet. Pode parecer fácil, mas eu tive que criar coragem. Então eu comecei pelo mais básico. Eu tirei a roupa e me olhei no espelho. E não é que eu empaquei? Nós tiramos a roupa automaticamente para tomar banho, mas ter consciência de que se está nu e olhar nossa imagem refletida no espelho é algo que causa estranheza e desconforto. Eu respirei fundo e passei para o exercício seguinte: olhar e perceber meu corpo sem os preconceitos e ideias preconcebidas de beleza. Não há mais um padrão e eu tenho que evitar qualquer julgamento ou crítica. Então eu comecei olhando o perímetro do meu corpo, como meu pelo está distribuído, a distância das minhas orelhas e a proporção dos meus olhos, focinho e boca. Oquei, eu sou uma raposa do fogo ou uma panda vermelha. Essa parte foi tranquila. Mas eu tive dificuldade para encarar os meus… atributos. Começando pelos meus seios. Se é que dá para chamar isso de seios. Opa. Eu não posso criticar nem comparar, mas os bojos da Riley são a minha referência. Oquei, eu respirei fundo e repeti o mantra que não há padrão de beleza. Eu preciso de uma referência. Minhas mãos, talvez. Eu coloquei minhas mãos por cima de meus seios e tive uma sensação estranha, diferente, mas boa. Minhas mãos conseguem esconder, como uma concha, meus seios. Então eu reparei que em relação ao meu tipo físico, meus seios até que são bonitos. Segui observando minha barriga e minha moitinha de pelos. Bom, eu ainda não estou pronta para encarar essa parte, então eu me virei de lado para observar minha bunda. Esta não é uma área do seu corpo muito visível. Eu vejo das outras meninas e eu imagino como os meninos olham para esses traseiros. Eu fiquei envergonhada, pois eu comecei a pensar como os meninos olhavam para a minha bunda. Oh, puxa, que sensação esquisita, mas… eu gostei de minha bunda. Será que os meninos vão olhar mais para mim se eu gingar mais? Eu parei depois da segunda balançada. Ai que vergonha! Oquei, eu respirei fundo e tomei meu banho. Eu acho que eu fiz bastante por um dia. E você, querido diário? O que acha de minha bunda? Ai, do que eu estou falando!?

Querido diário: hoje eu recebi mais roteiros da equipe de teatro da Sociedade. Um roteiro tem eu e Riley encenando com a senhorita Leila Etienne. Eu e Riley temos uma… amizade especial, ela se sente á vontade comigo e eu me sinto à vontade com ela. Nós somos tão diferentes em tudo que é um mistério de como nos damos tão bem. O que me deixa animada é que eu irei conhecer e contracenar com Leila Etienne. Então depois da escola e antes de estudar meu roteiro, eu fiz meu exercício no ofurô. Engraçado, eu consigo olhar com mais tranquilidade a minha imagem nua refletida no espelho. Eu até estou começando a apreciar meu corpo. Não que eu esteja fazendo comparações, mas na escola tem meninas de tudo que é tipo, tamanho e jeito, então não há um padrão. Cada uma tem a sua própria beleza. Eu achei que estava pronta para dar um passo adiante e foi o que eu fiz. Eu comecei a explorar meu corpo com minhas mãos, começando pelo meu cabelo, rosto, ombros. Empaquei um pouco quando cheguei nos meus seios e travei inteira só de pensar na moitinha. Eu acho que vou tentar em outro momento, eu ainda não estou pronta para superar esse obstáculo. Um ponto positivo: eu passei a encarar com menos vergonha a minha bunda e no que os meninos possam pensar dela. Eu vou tentar fazer isso na escola amanhã. Eu vou gingar mais e ver o que os meninos acham disso.

Querido diário: hoje eu estou feliz! Sim, hoje eu conheci e contracenei com Leila Etienne. Eu aposto que Vanity ficou furiosa, pois Leila Etienne é tudo o que ela tenta ou finge ser. Postura, cultura, sofisticação, nobreza. Eu não entendi muito qual a mensagem do roteiro, mas eu fiquei contente por rever o senhor escriba e o senhor Ornellas. Eu ainda não entendi como eles podem ser a mesma pessoa, embora existindo em dimensões diferentes, mas eu tratei de aproveitar e rebolar na frente daqueles homens todos. Ah, que diferença! Meninos são mesmo muito imaturos. Isso só reforça e confirma minha preferência por homens realmente adultos. As cenas são complicadas, pois eu tenho que encenar como se não fosse teatro e eu tenho que controlar minha vergonha e acanhamento, apesar de estar fazendo uma cena com o senhor escriba. Quando a peça acaba, eu fiquei extenuada. Felizmente Riley estava lá para me levar para casa. Leila Etienne veio falar comigo e até me elogiou. Sim, eu ganhei o dia. Riley tirou minha roupa, sem qualquer cerimônia, algo que nós duas conseguimos fazer a algum tempo. Sim, nós tomamos banho juntas desde que nos conhecemos. Sim, nossa amizade é muito especial. Riley se refestelou no ofurô enquanto eu expliquei para ela o que eu estava fazendo. Riley se ofereceu para ajudar e eu aceitei… algo que eu tinha rejeitado para Vanity. Bom, eu acho que você entendeu quando eu disse que nós temos uma amizade especial. Eu fico um pouco constrangida, pois Riley se derrama em elogios ao meu corpo. Ela até me “ajuda” conduzindo minhas mãos pelo meu corpo, insistindo vigorosamente na parte de segurar e apalpar meus seios com minhas mãos, com as dela por cima e eu… sinto algo bom tremendo dentro de mim. Mas evidentemente que Riley segue adiante, a despeito de minha pulsação e respiração estarem irregulares. Eu nunca senti algo assim e eu estou tanto assustada quanto animada. Minhas pernas e braços tremem por inteiro quando Riley conduz minha mão e a dela para minha moitinha. Foi demais para mim. Eu senti como se tivesse tomado um choque elétrico. Riley estava toda assustada e com os olhos arregalados quando eu recobrei a consciência. Ela disse que eu fiquei desacordada por quinze minutos. Que boba! Achou que eu tinha morrido. Exagerado, mas foi algo bem forte. Eu terei que ir com calma com esse passo.

Querido diário: eu devo agradecer a Riley pela ajuda que ela deu. Hoje eu acordei mais confiante e com mais autoestima. Eu aproveitei o momento em que me vestia para a escola para exercitar meu autoconhecimento. Colocar o uniforme da escola consciente de minha nudez e gostar de me ver sendo vestida através da imagem do espelho seria algo impossível alguns dias atrás. Sim, eu quase não me reconheço. Eu estou usando um lenço no pescoço só para que percebam que eu estou com o ultimo botão da blusa aberto. Eu levantei dois dedos da minha saia e eu estou deliberadamente gingando enquanto eu caminho. Falam gracinhas e também condenações, mas eu não dou a mínima. Pela primeira vez eu estou satisfeita comigo mesma. Engraçado é ver Vanity chocada com a minha transformação, curioso é ver Vanity com inveja da atenção que os meninos me deram. Todas as aulas são chatas e repetitivas. Os professores só sabem repetir o que eu sei. Eu fiquei ansiosa e impaciente para ultima aula. Eu sonho todo dia com isso. Eu e minhas aulas com o senhor Ornellas. Eu fiquei tensa, achei que fosse ter um chilique, mas Riley segurou minha mão e fez sinal de positivo com a outra. Eu tinha decidido que eu tentaria dar meu primeiro passo e foi o que eu fiz. Não foi algo vulgar e ousado, como Vanity costuma fazer. Eu fiz do meu jeito, com sutileza e delicadeza. Quando não tinha ninguém na sala ou vendo, eu pousava levemente minha mão no braço do senhor Ornellas. Ele percebeu minha intenção e sorriu. Eu tive tontura, mas felizmente Riley estava lá para me apoiar. Hoje, excepcionalmente, não farei o exercício no ofurô. Hoje eu senti que eu deixei meu corpo sensível demais.

Querido diário: eu estou satisfeita com meus progressos. Eu me olho mais, eu me aprecio mais, eu estou mais confiante. Eu consegui perceber como é possível ser atraente sem ser inadequada, eu encontrei o equilíbrio entre recato e sensualidade. Sim, eu até ousei convidar o senhor Ornellas para lanchar comigo. Eu não apenas dividi meu bentô com ele, mas dei comida na boca dele. De onde eu venho, é praticamente uma declaração de casamento. Antes de eu voltar para casa, eu dei um abraço e um beijo no senhor Ornellas e eu consegui me controlar um pouco. Meu corpo estava bem sensível, mas com o sorriso e o cheiro do senhor Ornellas na minha mente, eu tive que fazer o exercício do ofurô em estágio avançado. Tirar a roupa diante do espelho pensando no senhor Ornellas foi igual à primeira vez. Eu acho que é porque eu fiquei pensando no que ele pensaria se me visse nua. Ah, a velha timidez, vergonha e insegurança! Eu tenho que lembrar que não existe um padrão de beleza, então… não há um padrão para relacionamentos! Para acreditar que é possível o senhor Ornellas estar interessado em mim, eu tenho que acreditar em mim mesma. Eu respirei fundo e repassei os passos anteriores. Eu imitei a parte que estava eu e a Riley e… oh, Buda, eu imaginei as mãos do senhor Ornellas no meu corpo! Eu sinto meus braços e pernas bambearem e eu não poderia desmaiar sozinha aqui no banheiro. Riley não está aqui e eu tenho que fazer algo para apagar essa coisa que surgiu em mim e envolve o senhor Ornellas. Eu hesitei enquanto minha respiração e pulsação estavam aceleradas, eu cheguei a pensar em ligar para Riley, mas esse era a minha luta e, como descendente de samurais, eu tinha que vencer. Oh, Buda, não olhe! Eu coloquei minhas mãos na minha moitinha e… gostei tanto que não parei até meu corpo ter uma convulsão. Quando eu saí do ofurô eu estava exausta, eu parecia ser feita de gelatina, mas eu estava feliz. Ao menos em pensamento, eu tinha feito amor com o senhor Ornellas.

Querido diário: eu decidi que seria hoje. Todos os sinais estão claros e não há engano. O senhor Ornellas deu a entender que não se opõe e eu sei que ele tem alguma experiência em se relacionar com mulheres mais jovens. Eu sei que ele teve um relacionamento com a duquesa de Varennes. Eu tenho alguma… ideia do que se faz, convivendo com os Red. Eu tinha tudo planejado. O dia, a hora, o local. O senhor Ornellas não parecia surpreso ao me ver ali no estacionamento próximo da escola, no fim de tarde. Eu senti compaixão por ele, cansado, depois de um tedioso e quase interminável reunião de pais e mestres. O sol resistia no horizonte, segurando sua vela alaranjada, enquanto eu corria direto para os braços abertos dele. Eu senti nossos corações baterem em sincronia enquanto eu me desmanchava nos braços dele e quase desmaiei depois de nosso primeiro beijo. Eu não sei de onde eu tirei forças para começar a tirar a roupa dele, como também consegui aguentar firme enquanto ele tirava a minha. Minha respiração estava tão pesada que saía fumaça e eu pude perceber, com um misto de surpresa, animação e espanto, que ele gostou de meu corpo. Diversas vezes eu sonhei e imaginei, mas a sensação de suas mãos, firmes e fortes, deslizando por sobre meu corpo de forma gentil e delicada, era infinitamente melhor. Eu não sei direito como descrever a sensação, mas é como se cada centímetro de meu corpo estivesse ligado em uma corrente elétrica quando ele começou a usar sua boca e língua para me tocar naquelas minhas regiões mais sensíveis. Eu senti uma certa tontura e minha visão parecia estar enevoada, mas de alguma forma eu consegui fazer o mesmo, eu explorei o corpo dele e adorei ficar sugando aquele tronco de carne dele. Esse foi o aperitivo. Eu fiquei um pouco apreensiva quando fomos ao prato principal. Na minha cabeça, não tinha como aquilo tudo caber dentro de mim, mas assim mesmo eu queria… tudo. Eu me entreguei e deixei ele à vontade e ele veio, colocou e pressionou. Eu sentia a pressão, meu sangue parecia ferver e subir direto para o cérebro. Eu o via ali, tão perto, tão próximo, que não senti dor, eu apenas estava contente de estar com ele. Ele sorriu quando viu que o caminho estava desobstruído e começou a dançar em cima de mim… oh, Buda, eu quero morrer assim. Nossos corpos moviam-se em sincronia, enquanto nossas mentes iam se apagando entre sussurros e gemidos. Eu cheguei e voltei do Nirvana duas vezes até que eu senti o negocio dele contraindo e soltando um liquido quente dentro de mim. Ah, que boba eu era! Eu até sabia, teoricamente, o que era, mas sentir aquilo jorrando, forte e quente, preenchendo meu ventre, acertando em cheio a minha parte mais interna e sensível, era completamente diferente e a experiência de ter um orgasmo múltiplo torna tudo ainda melhor. Nós dois ficamos completamente exaustos, mas satisfeitos.

Querido diário: hoje nos separamos. Eu vou te entregar para o escriba para que mais pessoas saibam. Eu imagino que existam muitos outros jovens como eu, vivendo com vergonha, com insegurança, com medo de algo que deveria ser normal, natural e saudável. Riley evidentemente ficou toda esfuziante, ao mesmo tempo em que insistiu que eu comesse uma frutafoda. Então eu deixo esse conselho importante: usem contraceptivos. Uma coisa é eu, que sou de outra espécie e dimensão, trepando gostoso com o meu homem. Existem impossibilidades biológicas e dimensionais. Para e entre vocês, só com o uso de contraceptivos: camisinha e pílula. Tendo o devido cuidado, não existem regras para o amor. Nenhuma. Por anos eu vivi achando que as limitações eram reais. Acredite em mim: não existem essas limitações. Não existem proibições ou tabus. Você e só você pode se gostar, em primeiro lugar e se conhecer, para então gostar e conhecer esta outra pessoa. Então não tenha medo nem receio. Seu corpo não é seu inimigo. Seu desejo não é seu inimigo. Seu prazer não é seu inimigo. Conheça-se, toque-se, explore-se. Só você pode definir quando você está pronto/a para uma vida madura e adulta. Só você pode definir como você se sente, se define, se expressa, em seu gênero, sua sexualidade, sua preferência e opção sexual. O corpo é seu, as regras são suas. Como disse Madonna: expresse-se.

Enquanto dona Guerra não vem

Eu fui tirar um cochilo depois de ler e escrever bastante. Eu estava na cama esboçando alguns roteiros quando eu sinto um peso em cima de mim. Sobressaltado, eu abri os olhos e lancei meu olhar na direção do ponto de pressão causado pela gravidade. Sentada em cima de mim, com um curioso uniforme de bandeirante, estava Gill, fingindo ficar brava. Do canto do olho, eu percebo que Riley a acompanha, com o mesmo uniforme.

– Ah… oi, Gill, oi, Riley.

– Não finja ser simpático, senhor escriba! Eu estou muito brava com o senhor!

Eu relevei a circunstância de que eu voltei ao meu escritório particular há pouco mais de um mês, depois de ter passado uma semana como cativo na extinta White Light. O mundo está quase evocando a Terceira Guerra Mundial, o Brasil está cada vez pior com um governo usurpador e o Fascismo está cada vez mais ativo, mais expressivo, mais presente. Eu deixo tudo isso de lado, por que… bom, são as minhas garotas e elas estão muito atraentes e sensuais nesses uniformes de bandeirantes.

– Eu te peço perdão, Gill, mesmo que eu não saiba seu motivo de estar brava comigo.

– Mais uma razão! O senhor devia saber muito bem! O senhor prometeu que faria a transcrição de meus diários!

– Ah… é isso. Que coincidência, eu estou exatamente fazendo alguns esboços mentais.

– E… está? O… o senhor não mentiria para mim, mentiria?

– Eu não seria capaz, Gill. Sabe, o problema não é seu texto, muito bem escrito, mas como eu posso transcrevê-lo ao público geral.

– Eu não entendo. Qual é a dificuldade?

Riley descruza os braços e coloca as mãos no quadril e, rolando os olhos, tenta explicar a minha dificuldade.

– Gill, nós não estamos em Nayloria. Aqui é o Mundo Humano. Aqui as criaturas supostamente conscientes e racionais têm diversos e enormes problemas em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao relacionamento, ao amor e ao sexo.

– Mas… O’Ley, ele conseguiu escrever de você, não foi?

– Gill, eu ainda passo por madura, adulta. A primeira coisa que essa gente vai reparar em você é sua pouca idade e estatura.

– Mas isso é… injusto! Nós temos praticamente a mesma idade, O’Ley! E eu sou tão madura e capaz quanto você!

Riley põe a mão no rosto e balança de um lado a outro, sem esperança. Eu vou aproveitar para dar uma pequena descrição física da Riley e da Gill. Bom, ambas são garotas, mas são animais antropomórficos. Riley é uma hiena, eu acho, considerando que sua condição de transgênero é natural. Ela nasceu com ambas as sexualidades, ela nasceu como uma perfeita hermafrodita, então ela confunde bastante, pois ela tanto se comporta tanto como “menino” quanto como “menina”. Embora Riley tenha, tecnicamente falando, 16 anos em termos humanos, sua compleição corpórea é atlética e sua estatura a faz parecer mais velha. Gill é uma panda vermelho, embora alguns digam que ela seja uma raposa do fogo. Gill é uma típica fêmea, pela identidade, personalidade, opção e sexualidade. O que a destaca, exceto sua rígida e tradicional criação asiática, é sua preferência por machos mais velhos. Um dos motivos pelo qual ela aceitou euforicamente a fazer parte de nossa trupe teatral é porque aqui ela poderia expressar sua sexualidade livremente.

– Não força, Gill. Durak está se arriscando muito só por ter escrito sobre mim. Apesar de ser considerada madura e adulta, essa gente não consegue entender que existem pessoas transgênero como eu.

– Mas… ele consegui, não conseguiu? Eu sei que o senhor consegue senhor escriba!

Gill apoia suas duas mãos em meu tórax a deixando bem perto de mim a tal ponto que é impossível não reparar no volume de seus seios. Isso, somado ao uniforme de bandeirante e a sensação de que sua calcinha estava pressionando meu quadril foi demais para mim. Gill fez uma expressão de surpresa, girou levemente e, olhando disfarçadamente através de sua saia, viu que eu tinha algo crescendo.

– Viu só, O’Ley? Se eu não fosse madura e adulta, eu não provocaria o senhor escriba dessa forma. Ele não devia ter tanta dificuldade em transcrever meu diário.

– Ah, qual é, Gill! Nós não podemos enganar o leitor. Durak é um homem saudável que é capaz de ver que nós somos plenamente capazes, conscientes e maduras o suficiente para termos relações sexuais e amorosas. Ele sabe e vê que nós somos mulheres a despeito de nossa idade cronológica. Evidente que o corpo dele irá reagir diante de nossa sensualidade normal, natural e saudável. Quer ver só?

Riley abre sua blusa mostrando seus belos e perfeitos seios e meu pacote aumenta consideravelmente de tamanho. Gill fica um pouco assustada, porque aquilo está roçando ameaçadoramente seu bumbum.

– O… oquei, entendi. O senhor escriba não é uma referência confiável porque nós somos suas garotas e ele nunca escondeu seus sentimentos por nós. Então vamos combinar.

Com agilidade e rapidez, Gill pula de cima de mim e pousa ao lado da cama, como se fosse uma ginasta olímpica. Colocando as mãos por cima da virilha, Gill faz sua proposta que soa como uma ameaça.

– Eu e você, O’Ley… vamos combinar assim. O senhor escriba não vai mais ver nem brincar conosco e nossas coisas enquanto ele não acabar de transcrever meu diário.

– Hei… eu não tenho coisa alguma com isso!

– Por favor, O’Ley… eu prometo que vou te compensar…

A cena e clima yuri deixam subentendido algo que somente eu e um cidadão de Nayloria entenderia. Sim, eu sei que Gill e Riley tem um relacionamento bem mais próximo e intimo do que “amigas de infância”. Eu tenho fantasias pensando nas duas e suas ginásticas de cama.

– Bo… bom… nesse caso… desculpe, Durak, por mais que eu goste de ser sua garota e de brincar contigo, eu também gosto de ser o menino da Gill e gosto de brincar com ela.

– Tudo bem, eu entendo. Eu aceito o “castigo”. O problema é que eu não vou conseguir trabalhar direito com isso armado.

– Ahem. Deixa que eu cuido disso.

Nós três voltamos nossa atenção para a porta do quarto e, boquiabertos, nos deparamos com a presença de Venera sama em pessoa. Sem demora e cerimônia, Venera sama sobe na cama e começa a me cavalgar vigorosamente. O rosto e o corpo de Venera sama expressam enorme satisfação, causando um pouco de ciúme e vontade na Gill e Riley. Mas a ideia de “castigo” foi delas, então elas só podem assistir. Eu, coitado de mim, pouco posso fazer e não consigo me segurar. Venera sama desenha um enorme sorriso enquanto minha energia vital esguicha em borbotões para dentro de seu ventre.

– Como sempre, generoso em sua oferenda, Durak. Eu aceito com satisfação. Nós precisamos repetir isso mais vezes.

Venera sama tal como subiu, desceu, assim como uma grande amostra da minha semente escorrendo de seu templo interno.

– Muito bem, Durak. Assim que recuperar o fôlego, inicie seu trabalho. Do contrário eu serei obrigada a ingressar ao lado de Gill e Riley.

Eu sou deixado para trás por minhas garotas. Que se dane se um leitor ficar ofendido. Não tem alguém do outro lado da tela. Eu tenho que trabalhar. Eu tenho que escrever essa transcrição antes que o mundo acabe quando dona Guerra chegar.

A batalha do século

Distinta plateia inexistente, descortinaremos nesse tablado nossa encenação sobre uma competição que foi realizada no Reino Faraway. Sim, esse mesmo, o reino do rei Shreck e da rainha Fionna.

– Que seja espalhado por todo reino esta Boa Nova. Nós, rei e rainha da dinastia do Pântano, conclamamos para que atenda a este concurso todo mago/a, feiticeiro/a e bruxo/a. Nós iremos dar um generoso prêmio ao vencedor ou vencedora, aquele ou aquela que for o mais poderoso ou a mais poderosa.

O convite chegou até nas Sábias do Caldeirão e nos Monges da Razão, cada qual com seu prodígio, separados e dedicados unicamente para aprender e treinar seus poderes mágicos. Na comunidade das Sábias do Caldeirão tinha a Feiticeira Faceira [eu escalei a Alexis para este papel] e no instituto dos Monges da Razão tinha o Tecnomago [eu escalei Zoltar, por motivos óbvios].

Houve uma bela cerimônia de abertura e muitos candidatos se perfilaram, prontos para defender suas bandeiras. A disputa foi árdua e cruel, druidas, xamãs e encantadores foram caindo, um a um, até restarem apenas a Feiticeira Faceira e o Tecnomago.

– Tecnomago! Desista agora ou sofra as consequências! Eu sou a mais poderosa!

O publico aplaudia efusivamente, pois as roupas da Feiticeira Faceira mal conseguiam esconder suas belas formas.

– Há! Só em seus sonhos! Está evidente que eu sou o mais poderoso. Desista agora, garotinha, para não magoar sua mãezinha!

O publico vaiava ensurdecedoramente embora a figura do Tecnomago pareça engraçada debaixo de tanta roupa e de algo parecido com uma máscara contra gases.

Dado o sinal, a Feiticeira Faceira utilizou todos os seus conhecimentos de poções, ervas, espíritos e entidades da natureza. Do seu lado, o Tecnomago utilizou todos os seus mecanismos, aparelhos e equipamentos da mais alta tecnologia. As pessoas presentes gritavam, cheias de medo, pavor e pânico, pois as explosões surgiam de forma violenta, causando alguns feridos. Havia muita fumaça e fogo, mas os truques acabaram.

– Eu devo te dar os parabéns, Tecnomago. Você é o primeiro que conseguiu resistir ao meu poder.

– Há! Seu poder natureba nunca foi um perigo. No entanto, eu custo acreditar que tenha resistido aos ataques da mais alta tecnologia!

– Hohohoho! Acha mesmo que bites podem me ferir? Eu vou ganhar de você, tenha certeza disso!

– Alguém ouviu algo? Eu posso jurar que eu ouvi uma mosca zumbir.

A fumaça abaixou e a equipe de bombeiros apagou os focos de incêndio. A massa soltou um som de surpresa. Ambos os candidatos finalistas estavam em pé, embora com contusões e com as roupas em frangalhos. Os espectadores não olharam muito para o Tecnomago, todos os olhares estavam fixados na Feiticeira Faceira.

– Se… seus tarados! Pervertidos! Parem de olhar para mim!

O manto que ajudava a cobrir o escasso volume de roupa que a Feiticeira Faceira vestia mais parecia uma peneira. O Tecnomago sentiu algo estranho, mas aguentou firme. Tirou um de seus muitos mantos e cobriu a pobre Feiticeira Faceira.

– O… obrigada… mas porque está me ajudando?

– Eu não estou te ajudando. Eu apenas percebi que, no estado em que se encontra, você não poderá lutar com seu máximo de potencial. Eu quero uma vitória limpa e absoluta.

– Hahahaha… eu devo ter batido muito forte em você… está delirando!

Então os candidatos finalistas se dão conta que estão bem perto um do outro. A Feiticeira Faceira fecha um pouco mais o manto cedido pelo Tecnomago para cobrir suas generosas formas enquanto o Tecnomago sente aquela sensação estranha aumentar.

– Que… que feitiçaria é esta? Eu sinto… um calor em meu corpo.

Os terminais que cobrem os ouvidos do Tecnomago apitam como chaleira com água quente, fazendo a Feiticeira Faceira rir.

– Hahahaha. Isso não é feitiçaria. Eu não tenho mais truques. Se tiver alguma dessas suas arminhas restando, esse é o momento de você aproveitar e tentar dar um tiro de sorte.

A Feiticeira Faceira até provocou o Tecnomago abrindo uma brecha e expondo o generoso decote que mal escondia seus dois belos seios. Então a Feiticeira Faceira notou algo estranho e diferente no Tecnomago.

– O… o que é isso? Uma de suas armas?

O Tecnomago segue a direção na qual a ponta dos dedos da feiticeira faceira aponta e só então se dá conta de que está com um estranho volume entre suas pernas.

– E… eu não sei! Eu usei todas as minhas bugigangas! Eu estou completamente desarmado!

Pausa para uma explicação, inexistente plateia. Tanto a Feiticeira Faceira quanto o Tecnomago dispenderam seus jovens anos unicamente para aprender, treinar e praticar suas Artes. A Feiticeira Faceira nunca viu um menino ou homem antes em sua vida e o Tecnomago praticamente comia, bebia, dormia e tomava banho com seu uniforme, sem jamais ter visto seu corpo ou sem ter conhecido uma menina ou uma mulher. Voltemos ao palco, senhoras e senhores.

– Bom, seja o que for, está apontando para mim. Tem certeza de que não é uma arma que colocaram em você como ultimo recurso?

– Claro que eu tenho! Isso nunca esteve aí!

– Hum… então eu sei o que eu vou fazer. Eu vou perguntar ao Grande Livro.

A Feiticeira Faceira tira de seu cinto algo que parece um caderninho, mas que automaticamente começa a se desdobrar até ficar do tamanho de um ser humano.

– Aha! Então você ainda tem um feitiço!

– Cala boca, moleque! O Grande Livro só sabe responder a perguntas.

– Exatamente, mestra e eu estou às suas ordens.

– Grande Livro, revele o segredo diante de mim. O que é esse volume que apareceu no Tecnomago?

O Grande Livro não possui rosto como nós, mas tem duas faces, que ficam ligeiramente rosadas ao se deparar com o objeto da questão.

– Ahem! Mestra, é de conhecimento público que o homem sente atração pela mulher. O Tecnomago está manifestando uma reação natural, normal e saudável diante da exposição da sensualidade do seu corpo.

– Entendi… reação… mas isso é perigoso? Isso atira?

– Eh… perigoso não é, mestra, mas atira.

– Está falando enigmas, Grande Livro? Como algo que atira não é perigoso?

– Por favor, mestra, não fique brava! O que este equipamento emite é parte da essência do Tecnomago!

– Parte da essência do Tecnomago… entendi! Esse é o ponto fraco dele! Ora, devia ter dito com clareza, Grande Livro! Excelente! Eu irei usar esse ponto fraco para vencê-lo, Tecnomago!

– Meu… meu ponto fraco? Vo…você não recorreria a um artifício tão baixo… certo?

– Errado! A vitória é tudo o que me interessa! Hahahaha![risada maligna]. Agora eu vou… hã… Grande Livro, como eu posso atingir meu adversário usando seu ponto fraco?

– Po… ponto fraco? Não, não, mestra, este não é o ponto fraco…

– Grande Livro! Eu ordeno! Diga-me como funciona esse artefato para que eu possa utiliza-lo contra meu oponente!

O coitado do Grande Livro coisa alguma pode fazer, senão obedecer sua mestra, o que faz a contragosto, como podemos perceber por suas faces mais rosadas.

– Ahem… mestra, você deve remover todo obstáculo e pôr para fora o conteúdo do volume.

O Tecnomago não sabia o que estava acontecendo, mas não protestou nem resistiu enquanto a Feiticeira Faceira removia suas vestes abaixo da cintura até que algo pulou para fora e para frente, grande, enorme e duro.

– Ah! Um animal! Pulou em mim! Então esse é o seu segredo? Você guardava um animal mágico entre as pernas!

– Na… não! Eu também estou surpreso! Eu não sabia que esse animal estava aí!

– Esse seu animal me assustou! Grande Livro, que animal mágico é esse?

– Mestra, não é um animal mágico, é parte do corpo do Tecnomago. Note como esta haste está firmemente presa pela base ao tórax do Tecnomago.

– Que… apêndice estranho. Parece uma serpente. O que eu faço agora, Grande Livro?

As faces do Grande Livro estavam ficando bem vermelhas, mas ele tinha que responder para sua mestra.

– M… mestra… você deve usar sua mão para mexer nesse troço. Envolva com seus dedos, segure com firmeza, mas não aperte e então comece um movimento no sentido base-ponta-ponta-base.

A Feiticeira Faceira piscou duas vezes, mas se isto a faria vencer, é isto que ela faria e assim começou a operação descrita pelo Grande Livro. O coitado do Tecnomago não reagiu, ele estava começando a gostar da estranha sensação que vinha de seu corpo, sua pulsação e respiração aos poucos aceleravam e ele ficou surpreso quando seus gemidos começaram a escapar de sua voz.

– Aha! Agora você está em minhas mãos! Renda-se agora, senão eu vou extrair toda a sua essência!

– N… não! Nunca!

– Então eu farei você perecer com essa tortura! Hahahahaha![risada maléfica]

Conforme realizava o ato, a Feiticeira faceira pegou o ritmo certo e, no fundo, estava até gostando, ela também estava tendo uma sensação estranha em seu corpo.

– E… então… garoto… por que não desiste? Seu troço dobrou de tamanho e volume. Você não deve ter muito tempo restando… se você se entregar agora, eu te dou uma morte rápida e indolor….

– N…não! Nunca!

– Então você não me deixa outra alternativa senão dar o golpe final…

A Feiticeira Faceira acelera exponencialmente a velocidade de suas mãos e o coitado do Tecnomago só consegue gemer, quase sem fôlego e então… acontece algo. O corpo do Tecnomago estremece e um líquido branco, quente e espesso projeta-se em um jato forte e linear. A Feiticeira Faceira fica assustada com a manifestação, mas observa maravilhada o líquido cair e se espatifar no chão.

– Vitória! Eu venci! Eu tirei toda sua essência e agora eu provei que eu sou a mais poderosa!

Um ou outro aplaude o esforço da Feiticeira Faceira que, irritada, percebe que o Tecnomago ainda está em pé e seu troço ainda está em riste.

– Mas… que truque tecnológico é esse? Você devia estar morto! Isso… ainda está duro como pedra! O que significa isso, Grande Livro?

O Grande Livro estava suas faces vermelhas como tomate, mas teve que responder sua mestra.

– M… mestra… você ainda não esgotou o vigor do Tecnomago…

– Então desembucha, senão eu te descosturo! O que eu devo fazer para extrair mais essência do Tecnomago até acabar com todo seu vigor?

– M… mestra… você pode usar seus seios… ou sua boca…

Imediatamente a Feiticeira Faceira colocou o troço entre seus seios e, tal como as mãos, usou-os até sair mais daquele estranho e místico líquido. Espirrou até em seu rosto e cabelos uma quantidade razoável, mas o troço continuava em sua posição.

– Seu ponto fraco é mais resistente do que eu esperava! Mas eu aposto que eu acabo com você usando minha boca!

Abocanhando o troço como se fosse um enorme pirulito de carne, a Feiticeira Faceira lambeu e sugou o troço, chegando até a engasgar algumas vezes, pois o troço era realmente grande, grosso e volumoso. Ela até pode sentir quando aquilo contraiu e preencheu sua garganta com uma generosa carga do líquido, cujo volume e pressão eram tantos que alguns filetes escapavam entre o apertado espaço entre o troço e sua boca, foi tão forte que ela espirrou filetes pelo nariz.

– Cof, cof! Isso é quente, espesso e salgado, mas até que é gostoso. Parece com mingau de ogro. Eu… estou começando a gostar dessa brincadeira… então Tecnomago, desiste?

O coitado do Tecnomago mal tem fôlego para balbuciar algo, mas seu troço continua reto e ereto como um poste.

– Mas… isso é impossível… será que esta coisa é imortal? Grande Livro, sem demora, não esconda coisa alguma, o que eu posso fazer para derrotar de vez o Tecnomago?

O coitado do Grande Livro estava como uma fornalha, mas teve que responder sua mestra.

– M… mestra… só tem uma coisa a fazer… sua flor… sua delicada, intocada e estimada flor…

– A… minha… flor?

– S… sim… mestra… você tem que colocar esse troço… dentro… de sua flor…

A Feiticeira Faceira hesita por alguns minutos.

– A… minha… florzinha… delicada… intocada… isso… dentro… não! Não dá! Impossível! Você viu o tamanho desse troço? Isso vai… estraçalhar tudo!

– Então desista, mestra e mantenha sua virtude intacta.

– Não! Eu prometi aos Grandes Espíritos que eu venceria! Eu não posso desistir! Eu tenho que vencer! A qualquer preço!

Retomando sua determinação e coragem, a Feiticeira Faceira derruba o Tecnomago e, colocando-se em cima dele, faz com que sua flor inicie a devorar o troço.

– A… ah! É muito grande! E… eu sinto uma coisa estranha e… parece que tem um obstáculo impedindo e causando desconforto…

– M… mestra… deve ser o seu… selo… uma membrana que atesta que você é uma donzela… forçar pode causar desconforto e dor… pare agora antes que perca sua virtude!

– Ao Diabo com minha virtude e minha condição de donzela! Eu quero vencer! Uff!

A Feiticeira Faceira dá um impulso, sente uma pequena dor, parecida com a da vacinação, mas a sensação estranha vem tão forte que a dor cessa imediatamente. Sim, ela está gostando muito de cavalgar em cima do troço. Sua consciência vai borrando aos poucos e seu corpo se move por conta própria. Sua mente se afoga em uma enorme onda cor de rosa enquanto ela sente seu ventre ser preenchido por inteiro por várias emissões do líquido misterioso que jorram abundantemente do troço.

Suas forças falham, assim como suas pernas e ela rola por sobre o corpo do Tecnomago. Juntando as poucas forças que lhe restam, a Feiticeira Faceira consegue ver que o Tecnomago está desacordado e o troço completamente murcho. Instantes antes de apagar completamente, a Feticeira Faceira consegue clamar por sua vitória.

– Aha! Venci! Eu sou a mais poderosa!

Os juízes do pleito discutem agressivamente. Alguns concordam em dar a vitória técnica para a Feiticeira Faceira e outros dizem que a vitória moral foi do Tecnomago. O Grande Deus e a Grande Deusa resolvem a discussão. Empate. Determinaram que tanto a Feiticeira Faceira quanto o Tecnomago devem voltar para seus lares, se recuperarem e treinarem para a próxima batalha. E assim foi feito.

Seis horas depois, o Tecnomago acorda em seu quarto cheirando a óleo e repleto de engrenagens, molas e circuitos elétricos. Os Monges da Razão o relembram do ocorrido e o instam a começar o treino para a revanche. E ele treina duro, constantemente, ao mesmo tempo em que desenvolve mais equipamentos e armas.

Nesse mesmo tempo, a Feiticeira Faceira acorda em seu quarto cheirando a rosas e repleto de poções, encantamentos e misturas. As Sábias do Caldeirão a relembraram do ocorrido e a instaram a começar o treino para a revanche. A Feiticeira Faceira deu risada, não fez coisa alguma, ela ficou na floresta, entre plantas, animais e espíritos da natureza, seus amigos. Discretamente ela apenas preparou uma beberagem para evitar qualquer feito colateral de sua batalha final.

Chegando o momento, Tecnomago apresenta-se com seu usual uniforme, mas desta vez com um tecido metálico e cheio de espinhos metalizados. A Feiticeira Faceira estava com sua roupa excessivamente sensual e provocante como sempre, para o desespero dos conservadores, moralistas hipócritas e feministas radicais, mas desta vez ela não tinha vergonha ou receio de sua sensualidade natural, normal e saudável.

– E aí, moleque? Pronto para desistir?

– Há! Você deve ter ficado muito tempo preparando suas infusões. Ficou intoxicada e agora não raciocina direito. Eu vou vencer!

– Você vai mesmo arriscar a matar seu filho, garoto?

– E… eeeh?

– Você sabe muito bem o que você fez comigo. Vai assumir a responsabilidade?

– Você… eu… nós…

– Isso mesmo, menino. Vai mesmo agredir a mulher que você ama?

O Tecnomago tremeu todo, mas a única coisa que fez foi bater com a mão no chão e declarar que desistia da luta, declarando a Feiticeira Faceira a vencedora. O coitado do Tecnomago até tentou falar com ela depois da cerimônia, mas em posse de seu cetro dourado, a Feiticeira Faceira não tinha mais tempo para ele.

– Ma… mas… e nós? E o bebê?

– Não tem nós, moleque. Considere-se com sorte por eu não te mandar prender. Você tirou a minha virtude! E eu era jovem demais! E não tem bebê. Nunca teve. Deixe de fazer ceninha.

– Isso… foi um truque?

– Sim, garoto. Você não aprendeu coisa alguma, mas eu aprendi. Eu apenas usei o truque mais velho do mundo. Vocês, homens, se acham os donos do mundo, mas somos nós que mandamos aqui.

O coitado do Tecnomago, frustrado, amargurado, ao invés de entender e assimilar algum conhecimento com esta experiência, ele largou tudo e se tornou mais um reacionário masculinista, que utilizava a rede para disseminar discursos de ódio, intolerância e discriminação, publicando todo tipo de crítica fascista, atacando o feminismo, o socialismo e a inclusão social. Vai viver e morrer como um eterno nerd.

Gentil plateia inexistente, agradecemos por sua audiência e paciência. Este palco sente-se honrado com tão ilustre presença. Nós fechamos as cortinas, desejando uma feliz partida, para um feliz reencontro.

Sem roteiro e sem emprego

Quando a rede mundial quase entrou em colapso total com o ataque do vírus Wannacry eu tive que usar de meus meios para escrever o texto “o que fazer sem computador”. Depois de outros textos, eu preciso saber: o que fazer sem escritor. O que eu vou escrever sem roteiro e para quem escrever sem plateia, sim, eu quero saber, pois raramente recebo retorno dos leitores, se é que há algum.

Eu poderia passear em Nayloria, certamente as meninas terão satisfação em encenar alguma coisa, mas eu ainda estou com o material da Gill esperando encarnar e eu não sei como deixar apresentável ao público, especialmente se considerarmos a conjuntura atual. Relendo os contos, eu tive a ideia de fazer alguma coisa contando o passeio de Leila com Ryuko e Satsuki. Seria uma excelente matéria, se eu conseguisse escapar ileso. Ou eu poderia visitar Zoltar e Alexis, curtindo uma vida “comum” em termos humanos. Mas eu tenho receio do que pode acontecer depois que eu tive aquela revelação no vídeo.

Pode ser que chegamos em uma era onde um escriba é totalmente desnecessário. A internet dispõe de diversas plataformas onde qualquer um pode expor seus textos e suas ideias. E o resultado tem sido assustador. E eu nem estou falando da parte normativa, técnica e redacional. Eu estou falando da parte do conteúdo. Quem tiver estômago, utilize o Oráculo Virtual e dê uma boa olhada no que existe na rede. E eu não estou falando de pornografia, o “bode expiatório” momentâneo, mas da enorme quantidade de discurso de ódio, intolerância e discriminação.

A pornografia não é prejudicial como dizem, a não ser para os hipócritas moralistas. Devidamente trabalhada e democratizada, a pornografia é Arte Erótica. Onde a nudez é reconsagrada, assim como o corpo, o desejo e o prazer. Nesse aspecto, o ato sexual torna-se um ato belo e idílico. Sim, seria necessário superarmos toda opressão e repressão sexual imposta pelo dogmatismo cristão. Somente quando reconciliarmos o espiritual com o carnal é que poderemos desconstruir e ressignificar as palavras “pornografia” e “prostituição” de seus sentidos pejorativos.

Quando eu afirmo que “todo ser vivo possui sexualidade” parece algo obvio e inócuo, mas então não devíamos ter tantos pruridos quando falamos em amor, sexo e relacionamento. Primeiro a sociedade rejeitava a relação entre pessoas de etnias diferentes. Depois a sociedade rejeitava a relação entre pessoas de gêneros semelhantes. A sociedade ainda fala de adultério como se só existisse a monogamia. A sociedade fica chocada em saber que existem mães solteiras que querem um namorado/a ou namoram. A sociedade ainda acha “normal” o homem ter várias parceiras sexuais, mas condena se uma mulher se dá essa liberdade. Eu recordo como a sociedade ficou em rebuliço quando um jovem ator namorou uma apresentadora com o dobro da idade dele. Hoje em dia eu até dou risada quando uma celebridade fala publicamente que “amor não tem idade”. Isso não pode ser sério. A sociedade ainda causa alvoroço quando um/a adolescente namora uma pessoa mais velha. Mas sabe falar em diminuir a idade de responsabilidade quando se é para responder criminalmente. Nossa sociedade é extremamente hipócrita.

Então eu vou deixar aberto aos leitores. Escolham o roteiro.

PS: Aparentemente Zoltar está certo, não há alguém do outro lado da tela. Isso é bom e ruim. Ruim porque escritor sem leitor é apenas um sonhador. Bom porque isso significa que eu posso escrever sem recear ofender a sensibilidade do público.

Antes de transcrever o capitulo final das memórias de Gill, eu vou escrever minicontos com uma mistura de erotismo e inocência. Tipo um Dr Seuss para adultos.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.