Arquivos secretos – I

Gill me entregou seu diário e sublinhou alguns trechos que ela quis compartilhar com os leitores. Então se quiserem reclamar de algo, reclamem com a Gill. Todas as datas foram ocultas por uma tarja preta.

Querido diário: hoje eu ganhei você de minha mãe. Mamãe diz que ter um diário é importante, pois eu estou “virando” mocinha. Coisa dessa gente mais velha que se diz adulta. Será que mamãe acha mesmo que isso depende de algum tipo de decreto? Por acaso eu deixaria de crescer ou de me tornar quem eu quero ser, se eu não tivesse te ganho? Ah, adultos…

Querido diário: hoje papai e mamãe discutiram bastante. Isso é, no máximo eles ficam tomando mais chá do que o costume. Eu nunca vi qualquer um deles gritando alto como é de costume em outras famílias. Eu sei que eles discutiram porque é o que acontece quando eles me “convidam” a participar da discussão. Eu fico confusa, pois ora eles dizem que eu ainda sou uma criança, ora dizem que eu sou mocinha.

Querido diário: papai fica amuado no canto e deixa para mamãe falar comigo. Lembra-se da “reunião”? Então, evidente que eu não decido coisa alguma. Eles discutiram, decidiram e me “convidaram” para ouvir e aceitar. Nós vamos nos mudar para Nayloria. Mamãe pede para que eu não fique chateada nem chore, que isso é coisa de criança. Papai resmunga alguma coisa, mas eu sei que aqui em Squaredom nós somos apontados como indesejáveis. Papai e mamãe cometeram um dos “pecados” que não é muito bem aceito em Squaredom. Eles pertencem a etnias diferentes. E, para piorar, nós somos… imigrantes. Como se toda a Squaredom tivesse brotado da terra tal como está. Eles ficam de queixo caído quando eu dou de ombros e apenas pergunto quando vamos nos mudar.

Querido diário: hoje nós empacotamos tudo e vamos embora de Squaredom. Eu não sentirei saudades daqui, isso é certo, mas eu não vou tentar te enganar: eu estou ansiosa e nervosa. Bom, chame de preconceito adquirido, mas se há algo que os cidadãos de Squaredom adoram fofocar é sobre Nayloria. Então eu comecei a ter pesadelos quando eu fui comunicada de nossa mudança. Eu, que nasci, cresci e fui educada em Squaredom tive esses pesadelos que… eu tenho vergonha de te contar. Para resumir, eu criei um código: “coisas de Nayloria”. Eu tive vários pesadelos com as “coisas de Nayloria”. Evidente que as “coisas de Nayloria” são invenções de Squaredom… eu acho… eu espero.

Querido diário: nós chegamos em Nayloria. Eu ainda estou intacta, se quer saber. Nossa casa fica no Bairro Japonês, o que facilitou a mudança e a ambientação. Os vizinhos são todos gentis e atenciosos. A garotada é simpática e amistosa. Papai consegui um emprego rapidinho, mamãe também, a despeito dos protestos de papai. Bom, o lado legal de vir para Nayloria é que aqui a mulher tem mais espaço para decidir. Eu só espero que aqui eu também tenha meu espaço.

Querido diário: mamãe [não papai, que ainda resiste nos velhos hábitos] me levou para a minha nova escola. Os vizinhos recomendam bastante e por ser uma escola mista [público-privada], a mensalidade pode sair de graça se eu conseguir uma bolsa de estudos. Como assim, “se”? Eu não acredito que minha mãe diz isso. Eu até entenderia papai… mas mamãe sabe que eu sou um gênio. Então, assim mesmo, mamãe me levou para a diretora do Colégio Le Petit Prince e ali mesmo eu tive que fazer um tipo de “prova de admissão”. Quer saber como eu fui? Eu arrasei, é claro. A diretora ficou embasbacada. Aí veio aquele discurso que eu conheço de cor. Sobre eu ser um gênio, de ser muito inteligente, coisa e tal, mas que eu ainda era criança demais para cursar a faculdade. Bom, ao menos eu consegui bolsa integral até a faculdade. A parte ruim é que eu vou ter que ficar com o restante da classe da oitava série do primeiro grau.

Querido diário: aproveitando meu primeiro intervalo na minha escola nova, eu vou te contar a minha impressão de minha classe. A professora é esquisita, cabelos azuis, olhos vermelhos e uma estranha mania de falar de anjos. Os meninos não tiram os olhos dos seios dela, como é de esperar, isso parece ser uma maldição mundial. As meninas não davam muita atenção para mim, por que… bem… porque é o que se faz quando uma nerd com eu aparece. E eu não sou muito notável, se é que me entende. Ou isso era o que eu achava, até que a garota mais popular veio, sentou do meu lado e desandou a falar como se eu fosse uma velha conhecida. Vanity é minha primeira amiga desde… sempre. Eu nunca tive uma amiga antes. Ela me apresentou para sua melhor amiga: Riley. Que imediatamente me “adotou” como mascote e eu fico com dor na nuca tentando olhar para ela. Riley é grande, em todos os sentidos. Opa, acabou o intervalo. Nos vemos de noite, querido diário.

Querido diário: papai adquiriu um péssimo hábito de ficar resmungando. Eu te contei que ele ainda resiste em manter os velhos hábitos? Ainda bem que eu não tenho que fazer lição de casa, pois mamãe trabalha e chega cansada também. Será que todo homem e menino são assim? Acha que a mulher, a menina, está a serviço deles? Bom, nosso jantar não vai se fazer magicamente, então eu faço o que sempre vi mamãe fazendo. Não é grande coisa, nem é difícil, mas meus pais realmente acreditam que eu sou uma “criança” e, por isso, incapaz e incompetente. Mas para minha sorte, papai está faminto e mamãe está cansada demais para tentar me impedir. Eu os deixei sem ter o que falar, assim que eu os servi com chá, bolinhos e outras guloseimas que nos acostumamos comer. Depois de hoje, eu espero que eles comecem a me ver como eu sou, não como querem que eu seja.

Querido diário: eu acordei mais cedo para fazer o desjejum também, só para lembrar aos meus pais que eu cresci e sou quase independente. Eles bocejam, esfregam os olhos e comem sem dar muita importância. Eu meio que sinto que isso vai se tornar um hábito e eu meio que coloquei o laço da forca no meu pescoço. Papai usa o ônibus para ir ao serviço e [milagre!] deixa mamãe ir de carro para o serviço dela. Eu vou de ônibus escolar, evidente, mas eu fiz um upgrade no meu status, agora eu sento ao lado de Vanity e Riley. Vanity é a princesa do colégio, se indispor contra ela é ostracismo e isso é algo impensável nessa etapa de nossas vidas. Eu não conheço quem possa se indispor contra Vanity, mas certamente é suicídio se indispor contra Riley. Muitos boatos falam do coitado do segundo ano que tentou se engraçar com a Vanity e passou dos limites. O coitado respira por aparelhos e se alimenta por um canudinho. E Riley não sai do meu lado. Ela é incomodamente gentil e atenciosa comigo. Será que ela gosta de meninas? Isso é um assunto que era apenas sussurrado em Squaredom, as mais velhas tinham um estranho prazer em assustar as mais novas com essas estórias de meninas que gostam de meninas.

Querido diário: que revelação! Eu terei que escrever pouco, pois o intervalo vai acabar em instantes. Lembra da Riley? Bom, ela gosta de mim, coisa e tal, mas ela é ameaçadora sem se esforçar. Minha pernas estão tremendo até agora, mas eu perguntei para ela se ela era uma dessas meninas que gostam de meninas. Ela riu. Meu Deus, a risada dela fez as janelas estremecerem. Bom, eu ainda não entendi direito, mas Riley é menina e menino. Eu vou tentar conversar com ela depois das aulas. Se eu sobreviver, eu te conto.

Querido diário: sim, eu estou viva. Com as pernas bambas, mas viva. Riley me contou tudo sobre ela… ou ele… ah, sei lá. Isso é muito confuso e eu sou de Squaredom. Ali, uma pessoa como Riley seria impensável, incompreensível, inaceitável. Ela provavelmente ficaria presa em algum laboratório, ou coisa pior. Eu não vou poder falar disso com meus pais, senão eles piram. Eu estou pirando. Não que isso seja parte de meus projetos, mas e se… e quando… eu estiver pronta para namorar alguém? Tipo, se eu namorasse a Riley? Ah, droga, eu não consigo pensar direito. Eu ainda sequer sei direito o que eu sinto. Isso é… complicado… eu disse que eu nasci e cresci em Squaredom? Então… pensar nessas “coisas de Nayloria” ainda é muito difícil para mim.

Querido diário: puxa, como o tempo passa! Vieram mais alunas para meu colégio [que intimidade hem?] e eu me tornei a responsável por elas. Sim, eu me tornei um senpai! Vanity, evidente, é a nossa líder e ela vive falando em nos levar para a casa dela e conhecer sua família. Quando ela fala isso, Riley fica toda pegajosa e fica falando que eu sou dela. Eu sou? Eu não sabia que eu pertencia a alguém. Mas eu acho que isso é normal, quando se sente ciúmes. Bom, eu tentei dar diversas indiretas para meus pais sobre esse evento e nós, por nossa cultura, levamos essa coisa de visitar a casa de outra pessoa bem à sério. Mas como eu praticamente me tornei a empregada deles, meus pais só sabem comer e beber. Então eles engasgaram e cuspiram um esguicho de biscoitos e chá quando eu falei e mostrei o convite. Nojento. Meus pais são nojentos. Vanity entendeu meu dilema e colaborou, fazendo um convite formal. Eu vou fazer uma forcinha e te levar comigo, quer vir? Vai ser no próximo fim de semana.

Querido diário: desculpe a letra tremida. Eu estou muito nervosa! Vovó costuma dizer para sempre respirar fundo quando isso acontecer. Eu estou hiperventilando. Não é pela expectativa de ir à casa da Vanity. A casa não é muito diferente das demais. Bairro suburbano, casas pré-fabricadas, pareceriam todas gêmeas, salvo pela cor e decoração. Também não é por causa da ansiedade com o presente que eu estou levando [cortesia e educação], mas é pela diferença enorme que existe entre o que eu estou acostumada e o que é a família da Vanity. Bom… como eu posso explicar… os Red é uma típica família onde as “coisas de Nayloria” acontecem naturalmente. Meus pais não são assim tão… chegados e carinhosos como os Red são com sua filha. Sei lá, deve ser algo cultural ou pode ser por que nós viemos de Squaredom, mas eu sequer seguro a mão de meus pais, menos ainda os abraço e os beijo. Sim, eu fiquei retraída e olha que eu tenho alguma experiência com a Riley. Aliás, falando em Riley, ela fica ainda mais solta e à vontade aqui. Eu não consigo não ficar envergonhada. Não foi com essa educação e comportamento que eu fui educada. Pior, eles conversam abertamente sobre as “coisas de Nayloria” e eu jamais ouvira metade disso tudo que eles falam abertamente. Meu querido diário, eu tive minha primeira aula, uma verdadeira imersão, naquilo que apenas se fala em fofocas escondidas em Squaredom. Eu me sinto… subversiva. Em Squaredom, conversas desse tipo me faziam sentir suja e vulgar. Eu definitivamente não vou poder falar disso com meus pais. Eu nem sei como eu consegui voltar para minha casa. Eu estou em choque. Eu vou levar algum tempo para processar tudo isso.

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