Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

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