A anima de um anime

Eu sou convocado três dias depois para retornar ao estúdio para continuarmos com a encenação. Eu não posso reclamar, eu tive três dias de folga por ocasião do feriado cívico no Brasil, provavelmente o único país onde o cidadão desconhece o motivo de tal data. Todo o pessoal está lá, exceto Alexis e Zoltar. Assim que eu entro, todos olham para mim, eu sou imediatamente cercado com perguntas sobre o bebê.

– Ei, pessoal, depois nós fofocamos. Agora nós temos um trabalho a fazer.

– Por mim, tudo bem, mas quem vai dirigir? Quem vai substituir Zoltar como vilão?

– Ryuko chan disse que a Sociedade providenciaria os substitutos.

– Ahem… senhoras e senhores, eu sou a nova diretora.

Só de ouvir a voz eu fico arrepiado. Eu me viro, como que para me certificar de algo que eu sei. Eu não sei se fico alegre ou se choro. Madame foi escalada para ser a diretora da peça.

– Madame?!

– Sim, escriba. Quem mais senão eu que pode ser a diretora? Eu cansei de ser atriz. Por mim o mundo inteiro seria um teatro e todas as pessoas seriam meus fantoches. Eu seria capaz de dizer que muitos aqui até se ofereceriam para serem meus servos.

– [Redundância declarar que eu sou um] Madame, quem irá substituir Zoltar?

– Eu encontrei alguns garotos esquisitos, de armaduras brilhantes, que se diziam “cavaleiros de Atena”. Não são grande coisa, mas devem servir para encher linguiça até Zoltar voltar. Os animes não são todos assim? Inexplicavelmente o herói/protagonista enfrenta diversos adversários pequenos, fracos e insignificantes com o único propósito de prepara-lo/treina-lo para a “batalha final”?

– Hã… sim, madame.

– E não importa o quanto o herói/protagonista apanhe/morra, ele sempre vencerá no final com um único golpe ridículo?

– Eh…

– Hum… eu vou tentar tirar algum prazer nisso. Tente fazer o mesmo, escriba.

Eu volto para a minha marca, pois Ryuko chan e Satsuki chan estão olhando para mim de um jeito esquisito e suspeito. Seria complicado demais explicar qual a relação de madame comigo.

– Muito bem, retomando da cena em que Durak vence Uzo. Comece de sua linha, Satsuki chan.

– Ahem. Muito bem, estrangeiro, você venceu Uzo. Mas isso não é o suficiente para você se proclamar mestre espadachim. Você tem que provar que é também inteligente. Aceita o desafio? Eu serei sua oponente. Se vencer, nós o aclamaremos como verdadeiro mestre espadachim, mas se perder, terá que aceitar se tornar aluno desta academia.

– Pois que tragam o teste mais difícil de todos! Eu aceito o desafio!

Duas escrivaninhas são dispostas e não demoram a aparecer chumaços de papel. Tem papel de todo tipo aqui, mas a equipe de efeitos faz parecer que são testes para Harvard, ou coisa parecida. Eu tenho que fazer a cena de comédia, com gotinhas de suor e fumaça saindo de minha cabeça enquanto Satsuki chan parece estar em estado zen. Nossas “respostas” são colocadas em um scanner e avaliadas por um megacomputador. Meu “resultado” sai primeiro com 98,7 e eu faço uma dancinha ridícula. Depois sai o “resultado” de Satsuki chan com 100,00 e eu faço uma expressão de que uma bigorna caiu em minha cabeça [algo que a claquete adora fazer de fato].

– Sem dúvida, você é bom, mas pode ser melhor. Torne-se nosso aluno e trilhe no Caminho da Espada. Se você for digno, poderá lutar com o nosso melhor guerreiro.

– Minha honra e minha palavra não voltam atrás. Eu peço que aceitem a minha matrícula nesta academia.

– Excelente. Gamagori, cuide dos detalhes. Ryuko chan, você será a sensei dele.

– Hah! Não pense, só porque tem algum talento, que eu irei pegar leve com você!

– Por favor, Matoi sensei, seja mais rigorosa comigo, senão eu jamais poderei enfrentar o melhor guerreiro desta academia.

Eu deposito minha espada aos pés de Ryuko chan, um adereço dramático que eu acho desnecessário e exagerado, mas é como está no roteiro. Essa é a deixa para a entrada do primeiro “oponente”.

– Isso não acontecerá. Eu acabarei com essa academia aqui e agora. Por Atena!

– Equipe de edição, regrave por cima! Coloquem Hades ou Caos. Continuem!

Para esclarecer os leitores, nesta estória todos os personagens são adolescentes. Eu sei que é esquisito e estranho, mas em diversos animes os personagens tem uma aparência madura para a idade que supostamente possuem. Em termos práticos, eu continuo tendo 51 anos e o homem que está diante de mim tem 48 anos, mas na encenação nós dois temos 17 anos. Eu me considero relativamente em forma, mas não o homem que se apresenta com um traje ridículo, uma imitação da armadura de Pégaso e eu não duvidaria que o próprio Seiya está ali.

– Meteoro de Pégaso! Hoaaaaah!

Minhas dúvidas se dissipam. Nenhum otaku deveria ver o que sobrou daquele que foi o ídolo de muitas gerações. Lembram que eu disse que é tudo coreografia? Pois bem, na tela o golpe é bem impressionante, mas é ridículo ao vivo. Nenhum mestre de arte marcial chamaria aquilo de soco. Bom, eu tenho que seguir o roteiro, a coreografia e tentar não machucar muito Seiya. Vai que ele trouxe Marin ou Sheena com ele. Vai que Saori está ali.

– Offf! Aaagh! Ugh!

– Médico! Chamem um médico!

Seiya está catatônico no palco e eu nem bati com força. Os coadjuvantes parecem lançar adagas dos olhos. Ryuko chan e Satsuku chan tentam não olhar [estão com vergonha ou estão querendo disfarçar o riso?]. Ira está com uma expressão preocupada e Uzo parece estar aliviado por não termos ido até o final na cena. Eu não tenho certeza, mas Mako e Nonon parecem estar excitadas.

– Chamem o outro “oponente”!

Tedioso. Eu reconheço Shun, Shiryu, Hyoga e até Ikki. Decepcionante, com exceção do Ikki, que até deu algum trabalho. As macas entram no palco e socorristas levam os feridos ao ambulatório. Ryuko chan e Satsuky chan não conseguem se conter e caem na risada. Sim, elas assistiram e torceram pelos “cavaleiros” quando ainda eram crianças e sonhavam em serem atrizes de animes. Elas até tiveram aulas de artes marciais e treinaram duro as técnicas com espadas para o anime que estrelaram. Sei lá porque a imagem de Goku surgiu em minha cabeça. Mesmo em sua forma de sayajin Goku não era páreo para Ryuko chan. Não esqueçam que muito do que se vê na tela é efeito gráfico. Por isso que eu respeito muito a força de Riley.

– Muito bom. Por hoje está bom. Equipe de edição, encham linguiça com colagem de cenas. Vamos almoçar, eu pago a conta.

Todos se esquecem de mim e da heresia que eu acabei de cometer. Madame nos oferece um almoço de primeira classe. Ryuko chan e Satsuki chan sentam em minha frente e não tiram os olhos de mim. Eu sinto um cutucão.

– Eh, escriba, eu não sabia que você era tão forte e habilidoso assim.

– Riley?!

– Leila me pediu para ser a narradora, se bem que eu acho que ela me chamou para te “segurar”, caso você resolva manifestar seu lado animal.

Eu fito madame com uma expressão e ela parece corresponder com um sorriso. Sim, isso é coisa típica de madame.

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