Esboços e ruínas

Estava bem tarde de noite quando a Sociedade ficou mais tranquila, mais sossegada, mais silenciosa. O evento da Páscoa tinha sido um sucesso, por mais um ano consecutivo. Kate não se importava com o nome que os países davam ao evento, ela era celebrada e ela não se cansava de distribuir gratuitamente suas bênçãos por toda Gaia.

Na saída, Zoltar me encontrou e, aparentemente nervoso, espremeu um chumaço de papel em minha mão, como se nós fossemos espiões trocando informações de segurança nacional. Antes de sumir, fez questão de ver se ninguém havia nos visto juntos e se despediu.

– Eu gostei do esboço. Eu fiz algumas anotações. Alexis mandou lembranças. Se alguém perguntar, você não recebeu de mim essa informação.

Eu não tive tempo de perguntar mais detalhes. Desleixadamente, eu desenrolei o chumaço de papel que estava em minha mão e ali eu li um endereço e uma data. Eu imediatamente entendi que aquele era o endereço de onde eles estavam morando e a data certamente indicava um momento mais propício para minha visita. Eu dei de ombros e dormi tranquilo.

Minha primeira rotina diária em meu serviço é checar minha caixa de mensagens nos meus e-mails. Eu não sou muito popular, nem conhecido, sequer sou uma celebridade. Mas minha caixa de entrada estava com cem mensagens, todas dos meus atores e atrizes, com anotações, sugestões e acréscimos ao esboço de roteiro, que acabou se tornando em diversos outros esboços.

Eu comecei lendo o e-mail do Zoltar.

– Senhor escriba, ou pelos muitos nomes com o qual o senhor se identifica, saudações. Eu olhei o anime do qual esta estória alternativa irá se basear e/ou continuar. Eu acho que nós podemos explorar o conceito de que o Pecado Original não foi o de comer o Fruto Proibido, mas o de ter inventado a roupa para cobrir o corpo. O resto não é muito interessante. Espadas, samurais, batalhas. Tedioso, mas necessário para ocultar a mensagem que queremos transmitir. Alexis mandou abraços.

As sugestões e acréscimos de Zoltar eram negras demais para serem viáveis para se tornarem um texto voltado para o público, talvez eu tenha que suavizar ou diluir. Depois eu li o e-mail de Ryuko chan que veio com um anexo, digamos, explícito.

– Oi, D-kun. Eu tirei essa foto só para você [veja anexo]. Eu e Satsuki estamos vibrando com o roteiro. Nós estamos ansiosas, para começar o teatro e para te rever. Nós fizemos algumas sugestões juntas, pois nós sabemos o quanto o público otaku gosta de serviço de fã. Nossa companhia é pequena e desconhecida, mas tem um grande estúdio que relançou um filme misto com o conto da Bela e da Fera. Parece loucura, mas nós imaginamos juntas o conto tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. A Bela seria uma camponesa revolucionária e a Fera seria um burguês republicano. Nós ficamos tão animadas com a ideia que não pensamos como isso poderia ser encaixado em uma continuação alternativa de nosso anime. Mas essa parte nós deixamos para você. Beijos e [partes censuradas].

Imaginar Ryuko chan em roupas que remetem a esse evento revolucionário na França é uma fantasia erótica demais para a política de muitos portais da internet e seus “termos de uso de serviço”, uma forma eufemística de dizer censura. Aliás, não falta muito para diversos portais ocidentais começarem a bloquear páginas e sites de anime. Afinal, a cultura oriental não tem a mesma histeria e paranoia que o ocidente sobre a nudez feminina [baba], a sensualidade, a sexualidade, o corpo, o desejo, o prazer, relacionamento e sexo.

A maioria dos e-mails não era aproveitável. Poucos tinham lances interessantes e boas ideias. Deu um trabalhão ler tudo, filtrar e aproveitar o que era aproveitável. O ultimo e-mail era de um remetente desconhecido. Normalmente eu deleto ou reporto mensagens de origem desconhecida, mas como estava no bloco com o mesmo assunto, eu abri. Era de Alexis.

– Oi… hã… escriba. Ou eu posso te chamar de Durak? Ah, que boba, eu não me identifiquei. Aqui quem te escreve é Alexis, a atriz protagonista de seu conto da Universidade dos Vilões. O Zoltar não sabe nem precisa saber que eu te escrevi, oquei? Ele pode ficar com ciúmes. Você deve estar se perguntando como eu consegui seu e-mail. O pessoal da companhia de teatro me falou da Sociedade e um dia, quando Zoltar foi procurar emprego [ele tem vergonha disso], pois nós estamos prestes a aumentar a família, eu fui na Sociedade [por favor, não fale disso para Zoltar]. Uma moça muito gentil e atenciosa me deu seu e-mail e alguns papéis para eu me inscrever. Eu achei um pouco esquisito dela andar apenas com lingerie por debaixo de um casaco de laboratório, mas quem sou eu para criticar as manias dos outros? Eu tive um instinto que ela estava interessada demais em mim, mas enfim, eu fiquei sabendo que a Sociedade tem diversas companhias de teatro e que você escreve muitos roteiros. Eu sei que Zoltar está zanzando por aí, querendo roteiros. Eu estou enorme, sexto mês de gestação, mas eu ainda posso fazer algum papel ou função nesse projeto. A ideia de continuar a estória de um anime é interessante e me agrada o conceito de colocar mulheres como protagonistas, mesmo que isso envolva luta com espadas e muito serviço de fã. Nós temos que ser bem resolvidas, afinal, nós somos naturalmente atraentes, sensuais, exuberantes e femininas. Aposto que você está babando pensando em mim. Se eu conheço Zoltar ele vai te entregar nosso endereço de uma forma bem esquisita. Como se você não pudesse pegar nosso endereço com a secretaria da Sociedade. Venha nos visitar, oquei? Eu quero que você seja o padrinho de nosso bebê. Abraços, Alexis.

Eu até consigo imaginar o motivo pelo qual Natasha foi tão gentil com Alexis. Natasha, ou Professor Um, deve estar exultante com a oportunidade de estudar uma elfa negra. Eu terei trabalho em evitar que ela incomode Zoltar.

Eu tenho que começar o roteiro, então vamos lá. Cenário: Academia Honnouji. Ou melhor, o que sobrou dela. Alunos e professores vagueiam pelas ruínas, pensando no que fazer. Meu processo criativo é interrompido pelo toque do meu smartphone. Eu olho o identificador de chamada. Quem me liga é Ryuko chan.

– Oi, D-kun. Leu meu e-mail?

– Oi, Ryuko chan. Sim, eu li.

– Gostou do anexo que enviei?

– Eu gostei muito, embora eu tenha que guardar em uma pasta particular protegida por senha. O ser humano está ficando mais sensível e careta com imagens desse tipo.

– Ah, que se danem. No fundo toda mulher gosta e se empodera quando sabe que é atraente, feminina e sensual. Desde que a humanidade existe o corpo feminino é utilizado como símbolo da fertilidade, fecundidade e abundância da Natureza. Só imbecis ficam escandalizados com a nudez de algo tão belo, normal, natural e saudável quando a nudez de um corpo feminino. Eu aposto até que você está todo “ligadão” só de pensar em meu corpinho, certo? Certo, eu posso ouvir sua respiração acelerada. Então, está escrevendo o roteiro? Se estiver empacado, eu e Satsuki escrevemos a primeira cena. Vem para cá e vamos fazer uma dinâmica?

Evidente que eu concordo. Minhas leitoras devem estar revoltadas por eu estar colocando isso como um diálogo de Ryuko chan. Ou podem muito bem estar tendo fantasias também. Eu desligo o smartphone e o computador, pego meu carro e vou direto para a residência dos Matoi. Kiryuin sama está com uma petição no tribunal para mudar o sobrenome dela de Kiryuin para Matoi. Isso talvez possa ser usado no roteiro, a mudança de nome como forma de anular de vez a existência de Ragyo. Mitsuzo Soroi é quem vem me atender na porta.

– Ahem. Boa tarde, jovem. Em que nós podemos te ajudar?

– Oi, eu vim falar com Ryuko chan.

– Hmm… eu vou ver se Matoi sama está disponível para recebe-lo. A quem eu devo anunciar?

– D-kun? É você?

Ryuko chan desce as escadarias correndo, vestindo apenas um pijama que mal disfarça suas generosas curvas e atropela o pobre mordomo, me puxando para dentro.

– Hei, seu pinguim chato, D-kun é praticamente da família ouviu? Venha, venha, tome o desjejum conosco.

Ao entrar na espaçosa cozinha, eu vejo Ira e Mako dividindo os equipamentos, como um casal casado, cheio de beijos, abraços e juras de amor. Na enorme mesa, Kiryuin sama fica espantada e envergonhada quando se depara comigo e tenta puxar as lapelas de seu robe, como se fosse possível esconder algo detrás daquela seda fina.

– Bom dia, pessoal. Desculpe por minha invasão. Eu fu praticamente puxado por Ryuko chan.

– Não tem problema, Llyffant san. Afinal, o senhor é o padrinho de nosso casamento.

– Gamagori san? Mankanshoku san? Finalmente!

– Fui eu quem pediu. Esse gorila é enorme e forte, mas é fraco quando o assunto é expressar o sentimento.

– Mako chan, meu amor, minha única fraqueza é meu amor por você.

– Awwww…

– Vão para o quarto, vocês dois. Eu e Satsuki temos que conversar com D-kun.

Ira e Mako vão alegremente para os quartos nos andares acima e, apesar da distância, nós podíamos ouvi-los.

– Ignore esses exagerados. Eu e Satsuki bolamos a primeira cena. Pronta para encenar, irmã?

– S… sim… eu acho que sim…

– Ela está envergonhada e constrangida por estar semidespida diante de você. Como se ela não tivesse feito isso antes.

– Ryuko chan… eu te expliquei… é complicado… aquilo foi encenação…

– E no final, você ficou apaixonada por ele, como eu. Se não consegue lidar com o que sente, então encene, ora bolas.

Eu prometo que começarei o roteiro no próximo episódio. A cena inicial consiste em Ryuko chan e Kiryuin sama em meio às ruínas da Academia Honnouji decidindo o que farão a seguir, agora que derrotaram Ragyo.

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