Evangelho de Babalon – III

O intervalo estende-se enquanto eu tento me recompor. Outros funcionários desta estranha companhia de teatro rondam de um lado a outro, distribuindo lanches e roteiros. Eu dou uma boa mordida no meu sanduíche enquanto eu leio o meu roteiro. Parece uma comédia, humor leve, tem boas piadas. Uma forma no mínimo inusitada para transmitir o conhecimento esotérico.

– Durak kun? Está tudo bem com você?

– Se… se… sensei…

– Apenas Ryuko chan, oquei? Desculpe por aproveitar desse momento, mas eu aguardo a estória de sua época como estudante na Academia Honnouji.

Sim, eu tenho muitos personagens e tenho muitas pontas soltas que dão boas estórias. Eu posso aproveitar o samurai dos ossos como nome nessa estória. O sorriso de Ryuko chan me tranquiliza ao mesmo tempo em que faz meu sangue ferver.

– Ryuko chan… não está brava comigo pelas cenas que fizemos na estória Neon Genesis?

– Claro que não, Durak kun. O anime Kill la Kill foi um sucesso e nós estávamos paradas no meio do cenário nos perguntando o que faríamos a seguir. Quer dizer, ninguém imagina como uma estória continua depois do ultimo episódio. A sugestão de que nós continuaríamos a Academia Honnouji era a mais evidente. Também gostamos da ideia de receber mais alunos e de treina-los no Caminho da Espada. Mas você ficou devendo uma estória contando melhor sua chegada ali e como eu e Kiryuin acabamos nos apaixonando por você.

– Eu prometo que farei em breve. Não foi gentil de minha parte coloca-las imediatamente em uma cena ecchi.

– Quando nós recebemos o convite da Sociedade, outros membros nos tinham alertado sobre suas… excentricidades, digamos. Kiryuin disse “por que não”, afinal nós tínhamos sensualizado durante o anime inteiro, mas sem qualquer ação mais… física, digamos. Eu confesso que eu fiquei assustada quando eu vi… aquilo… e aposto que Kiryuin não tinha sequer ideia do que fazer, mas ficou tudo mais fácil e natural assim que a cena ecchi se desenrolou. Eu diria até que nós gostamos. O que te deixa nessa situação. Nós queremos mais cenas.

Ryuko chan se inclina e me beija ternamente e a campainha do teatro soa três vezes indicando o fim do intervalo.

– Eu vou aguardar ansiosamente pelo roteiro, Durak kun. Eu sei que você vai cumprir com sua promessa.

Os atores tomam suas posições no cenário, a equipe de cena fica preparada para os sons e efeitos. Eu tenho que me levantar e disfarçar minha excitação para as próximas cenas. Eu sinto um puxão na manga por detrás.

– Se… senhor escriba… o senhor não está chateado comigo?

– Ah, oi, Gill. Claro que não. Eu jamais conseguiria ficar chateado com você.

– E… eu… mesmo assim… eu te peço perdão. Eu fiz isso porque a senhorita Etienne me garantiu que isso me ajudaria a me aproximar do senhor, iria me ajudar a me tornar mais… intima do senhor.

– Eu entendo, Gill. Eu também escreverei uma estória com você e meu outro eu, o senhor Nestor Ornellas, que fez o papel de seu professor na estória que eu escrevi para a Riley. Você gostaria disso?

– A… a Riley pode fazer parte dessa estória?

– Eu vou conversar com ela e fazer o convite formal.

– Obrigada, senhor escriba.

Eu reassumo minha posição, na carteira do fundão, relaxadão e com as botinas em cima da escrivaninha. Gill saltita, feliz e contente, até sua marca. Riley estala seus dedos e profere sua linda voz, forte e firme.

– Muito bem! Todos em suas posições? Excelente! Vamos retomar a partir da Ryuko chan. Câmera! Luzes! Ação!

– Aham… bom dia pessoal. Eu fico feliz que todos estejam animados. Eu vou aproveitar e apresentar a vocês nossa nova aluna. Por gentileza, Leila Etienne, adiante-se e apresente-se para a classe.

– Bonjour. Mon nom est Leila Etienne. S’il vous plaît prenez soin de moi.

– Ai que chique! Ela fala francês!

– Presidente Kurage, indique uma carteira para a senhorita Etienne.

– Sim, sensei Matoi. Senhorita Etienne, por favor, aceite sentar ao meu lado.

– A senhorita presidente é muito gentil. Se não se importa, eu vou sentar-me aqui.

Madame puxa a cadeira da escrivaninha ao meu lado. Eu tento fazer uma expressão completamente indiferente e desinteressada. Eu faço aquela expressão típica do delinquente juvenil, fazendo aquele olhar enfezado, como se saíssem adagas de meus olhos, encarando madame.

– O senhor Kinjo não se opõe em ser meu vizinho de carteira, eu espero.

– Tsk! Como se eu tivesse tempo para me incomodar com isso! Tanto faz! O azar é todo seu! Depois não se queixe das consequências!

Eu viro o rosto para o lado para enfatizar meu desprezo. Os demais atores que fazem o papel de estudantes faz aquele burburinho típico dessas cenas nos animes ambientados em sala de aula.

– Eu não acredito! Uma dama vai sentar ao lado desse… lixo!

– Coitada da senhorita Etienne! Esse… animal… não vai demorar para acabar com a virtude dela!

Os diálogos são bem superficiais, a enquete tem que improvisar fazendo o “som” dos pensamentos dos “alunos” para mostrar a inveja e o ciúme que eles escondem. Sim, a Arte imita a vida e reflete de volta a hipocrisia do ser humano.

– Muito bem, classe, chega de fofoca. Peguem seus livros e abram na página 13, título inicial.

– Senhor Kinjo… eu sou nova nessa classe… eu ainda não recebi meu material escolar…

A mão de madame coberta por uma delicada luva pousa suavemente em meu braço que rapidamente se arrepia por inteiro. Com muito esforço, eu seguro meu nervosismo, apesar de estar suando frio e sentindo toda minha pele pipocar. Felizmente o roteiro indica que eu fico ruborizado, embora tente manter minha fama de mau.

– Humph! Patricinha mimada! Mal chegou e está ficando folgada!

– Kinjo kun, seja gentil e compartilhe o livro com sua colega.

– O… oquei… mas só porque sensei Matoi pediu. Não acostuma não.

Madame puxa a cadeira para próximo de mim e, propositadamente, encosta o corpo dela no meu. A maciez e perfume daquela pele são mais do que suficientes para me deixarem “ligado”. Madame sorri discretamente e sussurra algo que não está no roteiro.

– Não é momento de ficar encabulado, escriba. Deixe que seu “volume” apareça.

– Na… não tem problema, madame?

– Humph! Esquece das estórias que escreveu para mim? Eu não tive problema algum em ficar completamente nua na sua frente e não fiquei nem um pouco impressionada com o seu… talento.

– Pessoal, sem conversas paralelas durante a atuação, por favor! Equipe de edição! Marque o tempo e cortem essa parte! Ryuko chan, sua linha, por favor.

– Eh… ora, ora. Eu vejo que você se darão muito bem juntos. Muito bem. Senhor Kinjo, como veterano, o senhor será o senpai da senhorita Etienne. Senhorita Etienne, a partir de hoje, o senhor Kinjo é o seu responsável.

As atrizes encenam um desmaio coletivo e os atores esmurram suas carteiras em protesto. Eu sei que é encenação, mas está real demais. Madame está curiosamente tranquila e satisfeita, esboçando um leve sorriso. Ryuko chan segue o roteiro, encenando o desespero de uma professora atrapalhada. Gill faz a parte dela, ficando zangada e questionando a decisão de Ryuko chan.

– Vamos lá, pessoal! Quem de nós não foi encrenqueiro? O senhor Kinjo só precisa de um bom motivo para ser uma pessoa melhor. Vamos dar uma chance. Quem sabe a senhorita Etienne seja o motivo que o senhor Kinjo precisa. Que tal, senhorita Etienne?

– Eu peço aos meus colegas que acreditem em mim. Eu irei modificar a vida do senhor Kinjo. Aliás, eu irei mudara vida de todos aqui. Apenas confiem em mim.

Conforme o combinado no roteiro, a classe vai cessando o burburinho e retoma a calma, para a felicidade da professora.

– Eeee… corta! Valeu! Mande para a edição! Oquei, pessoal, bom trabalho!

Riley faz aquela pose de diretor enquanto a trupe suspira aliviada. Apesar do ar condicionado, os holofotes aquecem bastante o ambiente. O pessoal relaxa e não demora para passar vários garçons com água, suco, refrigerante.

– Muito bom, escriba. Como se sente na pele de um personagem?

– Madame me perdoe a ousadia, mas madame também encena, faz um personagem?

– Mas evidente que sim! Eu aposto que você está louco para ver o meu verdadeiro eu.

Madame se inclina e volteia os braços em torno de meu pescoço. Eu engulo seco, pois ela pode me “comer” em muitos sentidos. Como se estivesse pedindo um copo de água, madame faz uma pergunta capciosa.

– Diga, escriba… eu não estou exagerada nessa forma? Eu não gosto de ficar com seios inchados desse jeito.

Madame praticamente esfrega o decote diante de meus olhos, sem a menor vergonha em expor suas belas formas naturalmente sensuais e femininas. Eu gostaria de poder responde-la, mas agora quem desmaia sou eu.

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