Evangelho de Babalon – II

Segunda feira, nove da noite, cansado e dolorido. Mal iniciou a semana e eu estou nesse estado. Eu abro a porta de casa e me deparo com minha esposa, deslumbrada e encantada, conversando com Gill, enquanto elas tomam um café com bolo.

– Nossa, meu amor, essa garota é incrivelmente educada! Ela é uma de suas personagens?

– Sim, querida, esta é Gill. Eu te tinha dito que um escritor não “inventa” personagens, não te disse?

– Sim, sim, eu ouvi algo dessa bobagem que você fala que um escritor é como um médium. Bom, vocês devem ter o que conversar. Fiquem à vontade.

Antes de subir pelas escadas em direção aos quartos, minha esposa faz aquele sinal com as mãos dizendo “eu estou de olho”. Eu rolo os olhos e tento ver, inutilmente, se tem bolo para mim.

– Eu custo acreditar que esta mulher seja sua esposa.

– Eu também custo acreditar. Foi milagre dos Deuses. O que eu posso fazer pela senhorita?

Gill levanta o dedo indicador enquanto acaba de mastigar o bolo para então dizer o propósito de sua visita.

– Eu realmente não deveria, mas eu prometi que voltaria para ouvir seu relatório.

– A senhorita Kurage é muito gentil. Eu te agradeço por sua paciência.

– Na… não adianta tentar me agradar. Desembuche.

– Diz a estela: “Vinde e veja a verdadeira Vênus e venere o prazer venéreo”. Mas isso não é tudo. As dimensões da estela devem ter um significado. Seu comprimento de 42 cm se refere às 42 Leis de Maat. Sua largura de 22 cm se refere aos arcanos do tarô. Sua espessura de 33 milímetros se refere aos graus das ordens nas sociedades iniciáticas.

Conforme eu expresso minhas impressões, Gill esbugalha cada vez mais seus olhos. Ela não tinha percebido nem pensado nesses aspectos.

– Eu estou intrigado com a disposição do texto na estela. Aparentemente o diagrama insinua um hexagrama, mas não há um alinhamento geométrico, o que me faz suspeitar de que o texto está coligado a alguma posição astronômica ou de que o texto pode ser lido em qualquer ordem, indicando um hipertexto.

A cerâmica da xicara emite um leve som de trincado, tal é a tensão que Gill empenha com seus delicados dedos. Eu prefiro não prosseguir com minha análise, para não chateá-la ainda mais. Eu deixarei para outra oportunidade comentar sobre a madeira e a tinta utilizada.

– Aham. Bom, muito bom. Eu detesto admitir, mas o senhor fez um bom trabalho. No entanto, eu também vim para aplicar o seu castigo.

– E eu estou pronto e disposto para aguentar o castigo.

– Você vai participar da estória que eu irei escrever e protagonizar.

– Eh?

– Eu tive essa ideia inspiradora, o senhor devia se sentir lisonjeado e honrado por eu permitir que faça parte da minha estória.

– Eu estou, senhorita Kurage. Eu até tenho certa ansiedade. Esta será uma estória que será escrita pela protagonista. Eu não terei trabalho algum senão atuar conforme o roteiro.

– Na-na-ni-na-não. Seria fácil demais. Seu segundo castigo será transcrever minha estória.

– Eu serei um escritor terceirizado. Eu acho que não tenho escolha. Qual é o tema da estória e qual é o meu personagem?

– Eu te dei uma pista ao te trazer a estela. Minha estória utilizará a Revelação. O tema é uma abordagem alternativa ao clássico “A Profecia”. Seu personagem é o do estudante delinquente.

– Opa, devagar. O que uma abordagem alternativa a um clássico do horror baseado no Apocalipse tem a ver com o gênero “vida escolar” de anime?

– Ahem. Tem tudo a ver. Deixe eu ler a sinopse que eu fiz. “Fim do Mundo, Juízo Final. Milhares de pessoas pensam nisso. Todos temem a chegada do Anticristo. Mas e se o Anticristo não for o inimigo da humanidade? E se Cristo não for este que dizem ser? E se a verdadeira Revelação for outra? Kinjo Hoshikazu é apenas um típico delinquente juvenil, mas a chegada de uma aluna nova irá mudar completamente sua vida. O mistério que ronda essa garota irá mudar completamente a vida de toda a humanidade”.

– Isso vai fundir a cabeça dos leitores.

– Você está é com medo de que eu tome seu lugar. Será que eu devo apelar para “instâncias superiores”?

– Isso não é necessário, senhorita Kurage. Este é o castigo que escolheu, eu aceito. Qual o seu papel em sua estória?

– Evidente que eu serei a melhor estudante, representantes de classe e presidente dos alunos. E você será meu capacho.

– Isso não faz sentido. Você é a protagonista. Quem fará o papel de Anticristo?

– Is-so-é-sur-pre-sa. Vamos, que todos estão nos aguardando.

Gill me agarra o braço e me puxa através do portal dimensional. Eu fico algum tempo desorientado pelo clarão. Eu estou diante da minha cena. Um roteiro aparece na minha mão. Não deve ser difícil. Eu só tenho que seguir o roteiro.

– Ahem. Eu não acredito que eu estou de volta. Minha velha escola. Será que eu encontro algum conhecido?

Eu esbarro com dois garotos que estão esperando atrás do portão da escola para pregar peças aos novatos. Mesmo no multiverso as pessoas são cruéis. Os valentões largam os objetos que iriam utilizar para zoar os novatos e saem correndo.

– Senhor Kinjo! Mal voltou para sua velha escola e está causando confusão?

– Representante de classe, presidente Kurage! Eu acho que eu evitei que novatos tivessem uma péssima primeira experiência. Acredite, eu espantei alguns valentões.

– Isso é o que veremos! A Comissão de Disciplina irá investigar e decidir sobre esse evento. Agora me siga sem protesto e resistência!

Pelo roteiro, apesar de eu ser um “típico delinquente juvenil”, eu sou amigo de infância da senhorita Kurage, o que me torna obediente e submisso às vontades dela. Eu aposto que Gill está vibrando fazer esse papel de dominadora. Evidente que a minha turma é a mesma dela.

– Pst! Senhorita Kurage! Quem fará o papel de nossa professora?

– Silêncio! Sem conversas paralelas durante a atuação! Além do que se eu falasse, estragaria a surpresa.

O cenário imitando uma classe escolar está disposto, cada ator e atriz aguardando o sinal para tomar suas posições e iniciarem a encenação. Nesta cena, eu não tenho diálogos, eu apenas tenho que ficar sentado “folgado” na ultima carteira do fundão. Para dar mais “realismo” ao meu personagem, eu bagunço o uniforme e ponho meus pés na carteira, fazendo cara de paisagem enquanto a “presidente” organiza os demais atores.

– Oquei, pessoal. Todos em suas posições. Cena três, take um. Nós faremos a reverência e a saudação imediatamente depois da entrada de nossa “professora”. Prontos? Ação!

Eu devo ter assistido milhares de cenas parecidas como essa em animes. A classe levanta, faz uma reverência e saudação com a entrada da professora ou do professor. Eu mantenho meu personagem e improviso com um bocejo enquanto os demais parecem ovelhinhas.

– Atenção! Em pé! Saudação! Reverência! Bom dia, Matoi sensei!

Eu sinto meus olhos quase pular de minhas órbitas. Gill segura a risada. Ela tinha aprontado comigo. Diante de mim está Ryuko Matoi que, em uma realidade alternativa, foi minha professora na Academia Honnouji, minha sensei no Caminho da Espada e também minha amante. Ela olha para mim com espanto. Será que eu fui descoberto? Ou será porque eu estou em pé, fazendo reverência?

– Eh… bom dia pessoal. Eu fico feliz que todos estejam animados. Eu vou aproveitar e apresentar à vocês nossa nova aluna. Por gentileza, Leila Etienne, adiante-se e apresente-se para a classe.

A encenação tem que fazer um intervalo, pois Gill não consegue mais segurar a risada e a piada sou eu que fico com minhas pernas tremendo e meu rosto enrubescido de vergonha. Eu não esperava ver madame contracenando comigo. Eu fico intrigado e ressabiado de como madame concordou em encenar essa estória.

– Ah, por meus parentes divinos! Eu imaginei que esta seria uma peça de nível e cultura. Como eu posso atuar nesse pardieiro?

– Ma… ma… madame?

– Hm? Ah, é você escriba. Ainda bem. Ao menos uma pessoa razoável.

– Eu peço desculpas, madame. Eu sou responsável.

– Como se sente, escriba? O criador sendo manipulado pela criação?

Madame não está sequer indisposta. Eu fico surpreendido quando ela sorri.

– E… corta! Valeu! Mande para a edição! Captaram toda a cena? Isso é cinema, é teatro, senhoras e senhores!

Sentada na cadeira de diretor eu vejo Riley. Gill levanta como se coisa alguma tivesse acontecido. Os atores que encenavam atores no hiato relaxam as posições e começam a conversar. Eu devo ser o único que está em choque.

– Oh, escriba, deveria ver a sua expressão.

– Tudo isso foi… encenação?

– Não fique chocado, escriba. Não há diferença alguma entre ficção e realidade. Todos encenam papéis.

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