Arquivo mensal: abril 2017

Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Bendito serviço de fã

O pessoal estava disperso pelo estúdio, desfrutando dos dourados minutos do intervalo de almoço. Alguns conversavam, outros paqueravam, poucos fumavam, a maioria dormia esticada em algum lugar do estúdio. Madame trouxe outros roteiros e eu suspiro aliviado em perceber que a microestória Bela/Fera+Revolução Francesa foi esquecida. Zoltar não voltaria até o final do mês, o que nos deixa para rodar/encenar as partes onde eu duelaria com Ira, Nonon, Ryuko e Satsuki.

Otaku ocidental que se preza espera ansiosamente por algo que, aparentemente, tem outra função na cultura japonesa/oriental: o serviço de fã. Chame de ironia, sarcasmo ou crítica social, mas diversos animes inserem suas personagens femininas em situações em que expõe o erotismo natural, normal e saudável do corpo feminino [baba]. Tem um grupo neofeminista chamado Femen que utiliza da nudez como arma de contestação, embora acabe sendo inócuo, pelo sexismo inerente à nossa sociedade e pelo padrão velado quase racista desta organização. Mas não são apenas feministas e mulheres que possuem comportamentos disruptivos quando o assunto é a nudez, especialmente a feminina. Nós, homens, também somos incongruentes: nós achamos que a mulher é [ou devia ser] igual ao que se vê na pornografia, mas quando uma mulher tem tal atitude [empoderamento/autoestima] nós a tachamos de vadia, vulgar e outros epítetos nada gentis.

– Hei, D-kun, qual seu relacionamento com Leila chan?

– Eh? Ah, Ryo chan… é complicado.

– Ela é sua waifu… também?

– Ahn… Satsu chan… não é bem assim… é complicado.

– Eu não vejo onde tem problema. Pessoas sentem atração por pessoas. Há um interesse mutuo, há um envolvimento, um relacionamento, sexo gostoso para ambas as partes.

– Ryuko chan… isso é vergonhoso, mas eu concordo. Amor não tem forma, regra, limite ou condição. Eu… sou um pouco recatada nesses assuntos e eu até gostaria que D-kun fosse meu homem… afinal… você… nós… minha primeira vez…

– Enfim, D-kun, nós sabemos de você e Kate chan. Nós sabemos que seus “talentos” foram utilizados de diversas formas e servidos às diversas de nossas “irmãs” na Sociedade. Satsuki chan ainda não destravou por inteiro, mas ela em breve despertará. Nós só queremos saber qual é seu relacionamento com Leila chan.

– Oh, bem… eu acho que eu deva mesmo tentar explicar. Isso foi bem antes da Sociedade, bem antes de eu conhecer Venera sama. Eu era bem jovem, mal havia começado minha carreira como escriba e bruxo. Eu vi Le… eu vi madame em um sonho.

– Se vai contar sobre “nós”, escriba, use meu nome. Não precisa sequer me chamar de Etienne san.

– Ma… ma… eeh… Leila chan… eu sonhei com ela. Foi um sonho bem vivido, bem real. Leila chan… ela me visitou em sonho e ela… me mordeu.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Le… Leila chan!!

– Você está assustando nossas atrizes, escriba. O que elas vão pensar de mim? Aliás, eu te mordi? Não, foi a minha mãe. Eu não colocaria minha nobre e divina boquinha em algo tão ínfimo como você.

– Pois é como eu estava dizendo, ma… Leila chan. Eu não consigo explicar. Foi tudo rápido, mas marcante. O sonho é o mais próximo que o ser humano consegue chegar da quinta dimensão. E na quinta dimensão… bom… Vera sama e Leila chan podem muito bem ser a mesma pessoa/emanação.

– Ah, mas que patético. E você se diz escriba e bruxo. Oh, bem, é o que conseguimos nesse mundo humano.

– Leila chan… conte-nos a sua versão, por favor?

– Sim… e sobre sua mãe, sobre o por quê dela ter mordido D-kun.

– Oho… que meninas espertas. Talvez eu conte a vocês duas, mas só depois das cenas com o escriba. Se eu gostar do que vocês mostrarem… talvez eu conte tudo.

Madame… melhor… Leila chan dispensando tratamento honorífico não é um bom sinal. Pelo menos é o que minha espinha avisa. Venera sama sabe sobre Leila chan, sua mãe e eu. Ela simplesmente disse que exatamente por isso que eu tinha sido escolhido. O sonho foi um teste para tudo mais que aconteceu em minha jornada, pode-se dizer que foi minha “iniciação” no Caminho das Sombras.

– Hum… eu vou gostar de ouvir o que Leila chan tem a dizer. Eu certamente tenho curiosidade sobre sua jornada, D-kun. Chame de bobagem de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu… eu… D-kun… seja lá que tipo de relacionamento você tem com Leila chan… eu quero ter essa mesma intimidade…

– Heh… eu vou querer ver isso, Satsuki chan. Vai ser interessante te ver nos rituais antigos.

– Eh… eeeeh?!

– Leila chan… não assuste nossa atriz.

– Longe de mim. Gravou tudo Riley? Ótimo. Mande para a edição. Podemos aproveitar o material. Vamos para a encenação, si vous plait?

A encenação com Ira Gamagori foi rápida e tensa, tanto por causa do nervosismo de Ira quanto da apreensão de Mako. Eu não os condeno, afinal, estavam recém casados e devem ter planos para aumentar a família. Leila chan não ficou animada, mas o pobre Ira estava em desvantagem, pois eu conhecia seus golpes e pontos fracos.

Nonon é um caso à parte que deve agradar muito otaku ocidental. Ela caprichou no serviço de fã, embora dificilmente passe despercebido pela censura [o ocidente reacendeu recentemente sua histeria/paranoia em relação à nudez, principalmente a feminina], pois sua aparência e compleição colocam as cenas dentro de um dos tabus mais polêmicos da sociedade ocidental: a sexualidade infanto/juvenil. Como se no mundo da Sétima Arte não tivessem diversas atrizes cujos personagens não refletem a verdadeira idade etária de quem encena.

– Chaaato. Isso é mais chato do que minhas sessões na estória “O Caso Keller”. Nós não estamos conseguindo atingir nosso propósito com esse serviço de fã. Ryuko e Satsuki, eu acho que será desnecessário suas cenas com o escriba.

– Por favor, Leila chan! Nós podemos inserir diálogos que vão transmitir a mensagem! Nós queremos fazer essas cenas com D-kun!

– Mesmo? Então bendito seja o serviço de fã. Façam a cena.

Ryuko chan pula para o palco, vestindo um clone de sua Senketsu, com sua espada/tesoura, pronta para a ação. A lente não capta, mas eu percebo o conflito em sua alma, em seus olhos.

– Durak, quando você chegou nesta academia, você desafiou o melhor espadachim. Pois bem, você tem, diante de ti, a melhor do mundo. Meu pai, Isshin Matoi, desenvolveu a Senketsu para que eu pudesse derrotar Ragyo, minha mãe e as Fibras de Vida. No começo, eu não entendi nem aceitei a concepção de meu pai ao criar o Senketsu. Aliás, ninguém entendeu. Mas depois eu entendi. Tem a ver com o meu poder, o poder natural que toda mulher tem que é seu corpo, sua sensualidade, sua sexualidade. Quando nós, mulheres, retomamos a posse sobre esse poder, nossa nudez se torna uma arma revolucionária. Pela nossa sensualidade normal, natural e saudável, nós iremos desarmar todo mundo, acabarão os conflitos e só haverá amor. Essa é a verdadeira força da mulher, essa é a verdadeira força da minha espada. Amor! Eu luto contra você por que eu te amo!

A cena de pancadaria explicita segue no padrão do anime que serviu de base e inspiração. O que é engraçado é que o que chamou a atenção do público e da crítica foi o serviço de fã, não a violência gratuita. Nós lutamos com vontade. Nós lutamos com o máximo de realismo. Até utilizamos espadas de verdade. O pessoal se espremia nos cantos e se encolhia no chão, com medo dos cortes que marcavam os objetos. Para ser sincero, nós perdemos a noção de tempo e paramos quando não tínhamos mais força ou folego. Eu caí de cansaço e eu acho que Ryuko chan também.

– Valeu! Acabamos por hoje, pessoal! Riley, mande o material para a edição!

Antes de eu apagar eu olhei para Leila chan. Ela sorria. Ótimo. Eu posso descansar. A mensagem foi transmitida.

A anima de um anime

Eu sou convocado três dias depois para retornar ao estúdio para continuarmos com a encenação. Eu não posso reclamar, eu tive três dias de folga por ocasião do feriado cívico no Brasil, provavelmente o único país onde o cidadão desconhece o motivo de tal data. Todo o pessoal está lá, exceto Alexis e Zoltar. Assim que eu entro, todos olham para mim, eu sou imediatamente cercado com perguntas sobre o bebê.

– Ei, pessoal, depois nós fofocamos. Agora nós temos um trabalho a fazer.

– Por mim, tudo bem, mas quem vai dirigir? Quem vai substituir Zoltar como vilão?

– Ryuko chan disse que a Sociedade providenciaria os substitutos.

– Ahem… senhoras e senhores, eu sou a nova diretora.

Só de ouvir a voz eu fico arrepiado. Eu me viro, como que para me certificar de algo que eu sei. Eu não sei se fico alegre ou se choro. Madame foi escalada para ser a diretora da peça.

– Madame?!

– Sim, escriba. Quem mais senão eu que pode ser a diretora? Eu cansei de ser atriz. Por mim o mundo inteiro seria um teatro e todas as pessoas seriam meus fantoches. Eu seria capaz de dizer que muitos aqui até se ofereceriam para serem meus servos.

– [Redundância declarar que eu sou um] Madame, quem irá substituir Zoltar?

– Eu encontrei alguns garotos esquisitos, de armaduras brilhantes, que se diziam “cavaleiros de Atena”. Não são grande coisa, mas devem servir para encher linguiça até Zoltar voltar. Os animes não são todos assim? Inexplicavelmente o herói/protagonista enfrenta diversos adversários pequenos, fracos e insignificantes com o único propósito de prepara-lo/treina-lo para a “batalha final”?

– Hã… sim, madame.

– E não importa o quanto o herói/protagonista apanhe/morra, ele sempre vencerá no final com um único golpe ridículo?

– Eh…

– Hum… eu vou tentar tirar algum prazer nisso. Tente fazer o mesmo, escriba.

Eu volto para a minha marca, pois Ryuko chan e Satsuki chan estão olhando para mim de um jeito esquisito e suspeito. Seria complicado demais explicar qual a relação de madame comigo.

– Muito bem, retomando da cena em que Durak vence Uzo. Comece de sua linha, Satsuki chan.

– Ahem. Muito bem, estrangeiro, você venceu Uzo. Mas isso não é o suficiente para você se proclamar mestre espadachim. Você tem que provar que é também inteligente. Aceita o desafio? Eu serei sua oponente. Se vencer, nós o aclamaremos como verdadeiro mestre espadachim, mas se perder, terá que aceitar se tornar aluno desta academia.

– Pois que tragam o teste mais difícil de todos! Eu aceito o desafio!

Duas escrivaninhas são dispostas e não demoram a aparecer chumaços de papel. Tem papel de todo tipo aqui, mas a equipe de efeitos faz parecer que são testes para Harvard, ou coisa parecida. Eu tenho que fazer a cena de comédia, com gotinhas de suor e fumaça saindo de minha cabeça enquanto Satsuki chan parece estar em estado zen. Nossas “respostas” são colocadas em um scanner e avaliadas por um megacomputador. Meu “resultado” sai primeiro com 98,7 e eu faço uma dancinha ridícula. Depois sai o “resultado” de Satsuki chan com 100,00 e eu faço uma expressão de que uma bigorna caiu em minha cabeça [algo que a claquete adora fazer de fato].

– Sem dúvida, você é bom, mas pode ser melhor. Torne-se nosso aluno e trilhe no Caminho da Espada. Se você for digno, poderá lutar com o nosso melhor guerreiro.

– Minha honra e minha palavra não voltam atrás. Eu peço que aceitem a minha matrícula nesta academia.

– Excelente. Gamagori, cuide dos detalhes. Ryuko chan, você será a sensei dele.

– Hah! Não pense, só porque tem algum talento, que eu irei pegar leve com você!

– Por favor, Matoi sensei, seja mais rigorosa comigo, senão eu jamais poderei enfrentar o melhor guerreiro desta academia.

Eu deposito minha espada aos pés de Ryuko chan, um adereço dramático que eu acho desnecessário e exagerado, mas é como está no roteiro. Essa é a deixa para a entrada do primeiro “oponente”.

– Isso não acontecerá. Eu acabarei com essa academia aqui e agora. Por Atena!

– Equipe de edição, regrave por cima! Coloquem Hades ou Caos. Continuem!

Para esclarecer os leitores, nesta estória todos os personagens são adolescentes. Eu sei que é esquisito e estranho, mas em diversos animes os personagens tem uma aparência madura para a idade que supostamente possuem. Em termos práticos, eu continuo tendo 51 anos e o homem que está diante de mim tem 48 anos, mas na encenação nós dois temos 17 anos. Eu me considero relativamente em forma, mas não o homem que se apresenta com um traje ridículo, uma imitação da armadura de Pégaso e eu não duvidaria que o próprio Seiya está ali.

– Meteoro de Pégaso! Hoaaaaah!

Minhas dúvidas se dissipam. Nenhum otaku deveria ver o que sobrou daquele que foi o ídolo de muitas gerações. Lembram que eu disse que é tudo coreografia? Pois bem, na tela o golpe é bem impressionante, mas é ridículo ao vivo. Nenhum mestre de arte marcial chamaria aquilo de soco. Bom, eu tenho que seguir o roteiro, a coreografia e tentar não machucar muito Seiya. Vai que ele trouxe Marin ou Sheena com ele. Vai que Saori está ali.

– Offf! Aaagh! Ugh!

– Médico! Chamem um médico!

Seiya está catatônico no palco e eu nem bati com força. Os coadjuvantes parecem lançar adagas dos olhos. Ryuko chan e Satsuku chan tentam não olhar [estão com vergonha ou estão querendo disfarçar o riso?]. Ira está com uma expressão preocupada e Uzo parece estar aliviado por não termos ido até o final na cena. Eu não tenho certeza, mas Mako e Nonon parecem estar excitadas.

– Chamem o outro “oponente”!

Tedioso. Eu reconheço Shun, Shiryu, Hyoga e até Ikki. Decepcionante, com exceção do Ikki, que até deu algum trabalho. As macas entram no palco e socorristas levam os feridos ao ambulatório. Ryuko chan e Satsuky chan não conseguem se conter e caem na risada. Sim, elas assistiram e torceram pelos “cavaleiros” quando ainda eram crianças e sonhavam em serem atrizes de animes. Elas até tiveram aulas de artes marciais e treinaram duro as técnicas com espadas para o anime que estrelaram. Sei lá porque a imagem de Goku surgiu em minha cabeça. Mesmo em sua forma de sayajin Goku não era páreo para Ryuko chan. Não esqueçam que muito do que se vê na tela é efeito gráfico. Por isso que eu respeito muito a força de Riley.

– Muito bom. Por hoje está bom. Equipe de edição, encham linguiça com colagem de cenas. Vamos almoçar, eu pago a conta.

Todos se esquecem de mim e da heresia que eu acabei de cometer. Madame nos oferece um almoço de primeira classe. Ryuko chan e Satsuki chan sentam em minha frente e não tiram os olhos de mim. Eu sinto um cutucão.

– Eh, escriba, eu não sabia que você era tão forte e habilidoso assim.

– Riley?!

– Leila me pediu para ser a narradora, se bem que eu acho que ela me chamou para te “segurar”, caso você resolva manifestar seu lado animal.

Eu fito madame com uma expressão e ela parece corresponder com um sorriso. Sim, isso é coisa típica de madame.

Não há diferença entre ficção e realidade

As cenas seguintes vão se desenrolando, ou melhor dizendo, vão se arrastando. A vantagem é que dentro do estúdio o pessoal fica mais à vontade, menos inibido. Então no centro do palco ficaram apenas Ira e Mako. Eles vão encenar a parte onde nós reinterpretamos o conto “A Bela e a Fera” ambientado na Revolução Francesa. Eu tenho um calafrio.

– Nós devemos unir os estudantes para trazer uma mudança na sociedade e em nosso país!

Mako estava vestida com uma roupa cenográfica que beirava o kitsch e era exageradamente estereotipada da “camponesa francesa do século XVIII”. O calafrio na espinha aumenta.

– Isso é contra as leis da moral e da ética! O estudante não sabe o que quer, o povo não sabe o que quer, nós temos que manter a escola como esteio da ordem social.

Ira estava igualmente cafona e canastrão naquele traje que eu estimo que seja do “burguês capitalista do século XVIII”. O discurso dele é incomodamente atual com os “iluminados” que sugerem o projeto “escola sem partido”. Minha espinha parece o Polo Sul.

– Nós devemos então nos apropriar do conhecimento para que este sirva ao propósito do bem comum!

– Isso é um assalto, um crime! Um livro, uma biblioteca, são propriedades que devem ser resguardadas. De outra forma, um teórico, um escritor, não terá incentivo para criar suas obras e uma cidade não terá interesse em fazer uma biblioteca.

– A quem o teórico, o escritor, cria suas obras? Para o leitor, o público! A quem uma biblioteca, uma livraria, atende? Para o pesquisador, o público! O conhecimento, tanto em sua produção quanto ao seu acesso, devem, portanto, serem públicos!

– O público, o povo, a massa, é ignorante. Vão sempre preferir novelas e futebol a cultura. Os intelectuais só existem porque são patrocinados por burgueses. Então clamar por Revolução é hipocrisia.

A encenação encerra com ambos se encarando como se fossem se matar. Eu estou em estado de choque. Não tem como “amarrar” isso em nossa estória, nem como uma microestória. O discurso é absurdo, mas não é muito diferente de inúmeros discursos que são ditos publicamente, pela Esquerda e pela Direita. A melancolia me pega de jeito e eu fico deprimido.

– Oquei pessoal, valeu. Vamos para as cenas seguintes. Vamos para a apresentação do segundo protagonista. Pronto para sua cena, Durak kun?

Eu aceno afirmativamente para nossa diretora, Alexis, que também percebeu o desastre. Ela tinha estresse suficiente com a gestação. Eu fico indeciso se incorporo Sasaki Shishi ou Kobori Tadamasa.

– Ahem… eis que surge um predestinado. Vindo das regiões geladas e rigorosas dos montes gelados do norte, um jovem desconhecido se aproxima dos portões da Academia Honnouji. Será inimigo? Será amigo? Quem é ele?

Eu reconheceria a voz do narrador em qualquer lugar. Eu vou deixar para o leitor escolher e decidir quem é.

– Eu saí de minha humilde vila, atravessei diversas cidades e desafiei muitos ditos mestres da espada e eu venci todos. Em muitos desses lugares, eu ouvi falar dessa Academia. Vamos ver se são tão bons quanto dizem!

Eu me sinto repetindo a cena do primeiro episódio de Kill la Kill. A diferença é que o cenário é de uma escola “normal” em reconstrução, com Ryuko chan e Satsuki chan coordenando os trabalhos, vestindo típicos uniformes escolares de anime.

– Hah! Tremam, pois não existe espadachim melhor do que eu! Eu desafio qualquer um aqui a me provar o contrário!

Ryuko chan e Satsuki chan se esforçam para não rir e fazer aquela expressão de desprezo e indiferença, olhando para algum ponto no horizonte atrás de mim.

– Ouviu algo, Ryuko chan?

– Eu acho que eu ouvi uma mosca irritante, Satsuki chan.

– Uzo kun, poderia nos livrar desse incômodo?

– Hah! Até que enfim um pouco de ação! Eu serei seu oponente!

Eu e Uzo estamos com espadas cenográficas, sem corte, madeira pintada, mas muito bem feitas, bastante similares com espadas de verdade. Mesmo assim, um de nós poderia sair machucado se lutássemos para valer. Tudo é uma questão de coreografia. Eu só tenho que repetir a coreografia. Por cinco minutos a cena seguiu conforme o esperado. Mas eu podia sentir os olhos e o espírito de luta de Uzo crescer e incendiar. Eu tenho que me esforçar em me conter para não nos machucar. Uzo grita algo que não está no roteiro e ataca com tudo para cima de mim. O pessoal gesticula, eu vejo as bocas se movendo, mas não há som algum. O choque é inevitável e alguém vai acabar ficando ferido.

– Ai!

O grito profundamente doído e sentido nos faz parar a milímetros um do outro. Começa um corre-corre, gente para todo lado, gritos, desespero. A companhia sai pelas ruas e interdita o trânsito enquanto eu e Zoltar entramos em um carro da companhia, levando Alexis em nossos braços. A bolsa dela havia rompido e as contrações estavam no auge. Alexis estava para dar a luz, ali mesmo.

Não dá para todo mundo entrar no hospital, então fico eu e Zoltar na sala de espera da Emergência Ginecológica. Ver Zoltar nesse estado é esquisito e confuso. Ele é uma existência que é capaz de olhar o Caos nos olhos e sobreviveu a coisas e seres extremamente perigosos. Mas o nervosismo e ansiedade diante do fato que ele está para se tornar pai o estão destruindo.

– Escriba… Alexis estará bem?

– Sim… eu acho que sim… confie nos médicos.

– Heh… eu… confiar em outro ser vivo… que loucura.

– Você ficaria surpreso com o que nós somos capazes de fazer, quando necessário.

– Heh… eu não duvido. Mas, seja sincero, escriba… o que acontecerá a seguir?

– Bom… você vai ser pai.

– Isso me aterroriza, escriba. Eu não sei se serei um bom pai.

– Ninguém está preparado para ser pai, Zoltar. Manter um relacionamento estável é complicado para ambos. Cada um tem que ceder e aprender coisas diferentes conforme avança a convivência. E isso é só quando são duas pessoas maduras. A coisa é bem mais complicada e aterrorizante quando temos em mãos a incumbência de cuidar de um ser vivo que é a expressão encarnada de nossa linhagem. Nossos pais fizeram o melhor que puderam, nós só temos que tentar fazer o mesmo com nossos descendentes.

– Senhor Niger Ignis?

– So… sou eu…

– Parabéns, papai. Você tem uma linda menina.

Eu consigo segurar Zoltar antes dele estatelar desacordado. O médico consegue reanima-lo. Mas mesmo assim ele segue escorado em mim. O médico não tem muita escolha senão deixar que eu entre na enfermaria onde Alexis segura seu bebê. Ver Alexis segurando aquele pequeno ser deve ter produzido algum tipo de delírio, pois eu podia jurar que eu vi uma imagem da própria Deusa.

– Olá, meninos. Venham e deem um alô para Miralia.

Zoltar era todo cheio de dedos, desastrado, abobalhado. Orgulhoso me exibe sua filha. Mais tarde eu me preocupo com a reação da Sociedade e da Natasha. A melhor descrição que eu posso fazer de Miralia Niger Ignis é que ela é um anjo. Literalmente. Um paradoxo e contradição que parece resultado de alguma terrível conspiração do Caos. Embora eu duvide que o Caos pudesse engendrar uma criatura tão perfeita assim.

– Uh… Duuh…

Miralia segura no meu dedo como se me conhecesse há milênios. Talvez conheça. A forma não mostra seu conteúdo. Sendo filha de quem é, suas origens e raízes remontam a um passado impossível de se vislumbrar. Em algum momento dos inúmeros nódulos de realidades e universos possíveis e existentes dentro da Quinta Dimensão, nossas essências podem ter tido uma hestória em comum. Sim, porque não há muita diferença entre história e estória, só quem está narrando e com que intenção. Bem vinda mais uma vez ao mundo humano, Miralia.

Reconstruindo narrativas

Ryuko chan, como sempre, toma a iniciativa de falar com toda a equipe.

– Bom dia, pessoal. Eu sei que está frio e nós ainda estamos no outono, mas vamos aproveitar que o clima está ameno, quase morno, para fazermos a primeira cena.

A companhia tem duas turmas, a equipe de apoio e a equipe de encenação. O pessoal de apoio distribui chocolate quente para o pessoal de encenação que vestia apenas um robe de banho. O pessoal de cenário caprichou nas maquetes para representar as ruínas da Academia Honnouji. Ao fundo, é possível ver a baía de Tóquio, iluminada pelo lusco-fusco roseado da manhã, apesar das nuvens de poluição. Há poucos metros dali ainda é possível ver a locação de onde foram rodados diversas cenas de Neon Genesis Evangelion.

No “roteiro” que começamos a esboçar, minha participação na estória está quatro cenas adiante, mas Ryuko chan fez questão de que eu viesse para transcrever conforme a estória fosse encenada. Eu não reclamo, mas eu não entendi porque meu “testemunho” incluía estar com o mesmo robe dos demais atores. No momento, o que me intriga é quem irá dirigir essa encenação tipo “live action”.

– Hei, escriba… explique o que o conto “A Bela e a Fera” tem a ver com Revolução Francesa e o anime que nós vamos tentar dar continuidade?

Zoltar está ao meu lado, com seu pelo aparado tão curto que quase lhe dá um aspecto humano. O pessoal da maquiagem teve trabalho para humanizar mais a aparência dele.

– Nós vamos tentar fazer um mix de estórias e um “live action”.

– Em suma, vocês não tem a menor ideia do que vai acontecer e vão inventar enquanto encenam.

– Hum… acho que é isso. Eu escrevo com essa técnica, então vamos ver no que dá. Eu vou confiar na direção, seja quem for.

– Ryuko chan! A diretora chegou!

– Ótimo! Vamos agilizar e ficar em nossas marcas.

Eu fico um pouco incomodado ao ver que toda a equipe de encenação remove os robes, quase como uma coreografia, quase como se fossem todos robôs. Zoltar se estica e estala os ossos e eu o acompanho. De soslaio eu tento ver quem chega dentro do carro da companhia de teatro e vejo duas enfermeiras e depois a nossa diretora.

– Bom dia, meninos e meninas. Estão todos em suas marcas? Ótimo, vamos começar.

– Alexis… você é nossa diretora?

– Oi, Durak. Surpresa! Kate fez questão disso.

– Zoltar… não tem problema?

– Natasha disse que não. Ela virou nossa médica particular e está acompanhando a gestação.

Eu mordo a língua para não falar o que me vem na cabeça. Alexis está deslumbrante e com um enorme barrigão. Não parece ter apenas seis meses, mas isso é com Natasha. Kiryuin sama dá início aos nossos trabalhos com sua fala.

– Ryuko chan, você conseguiu. Você derrotou Ragyo.

– Sim, Satsuki chan, eu venci, mas com a ajuda de todos vocês.

– As formas de vida alienígena conhecidas como Fibras de Vida não são mais uma ameaça. Mas a Organização Praia Nudista deve continuar com suas atividades. Nós precisamos ter certeza de que não restou nenhuma Fibra de Vida em atividade ou outro líder planejando vingança.

– Mikisugi sensei… vai deixar de ser nosso professor?

– Mankanshoku chan, eu ensinei tudo que tinha para ensinar e eu não posso dar aulas sem uma escola.

– O senhor pode ficar aqui e nos ajudar a reconstruir a Academia Honnouji. Como o senhor mesmo disse, nós não sabemos se as Fibras de Vida não estão ativas e nós temos que considerar que podem existir outras formas de vida alienígena que podem nos ameaçar.

– Sua oferta é tentadora, Kiryuin sama, mas a senhorita pretende continuar com a Academia?

– Sim… eu vou… eu tenho… eu tive muito trabalho para formar meus Quatro Generais, reencontrar minha irmã perdida e derrotar minha mãe. Ryuko chan… você aceita ser parte de nossa escola reconstruída?

– Evidente que aceito. Eu vivi muitos anos de minha vida triste achando que eu era órfã. Agora eu tenho uma irmã, uma família. Isso é, se Mako aceitar também fazer parte dos quadros da escola, como minha assistente ou como professora.

– Eu topo com uma condição! Que Gamagori sama se case comigo!

– Ma… ma… mankanshoku san? Isso é… inapropriado!

– Nem vem. Você é todo grande e musculoso, mas não tem coragem de se declarar para mim, então eu tomei a iniciativa.

– Eh… eu não sei se eu vou querer ficar aqui… senão vocês são capazes de quererem me casar com Nonon chan.

– Pirou, macaco? Bateram muito na sua cabeça? Nem que os Incas Venusianos venham nos invadir que eu vou querer algo com você.

– Tsk! Como se o incomparável espadachim Uzo Sanageyama estaria interessado em uma criatura tão ínfima e sem conteúdo como você! Eu deixo para os Lolicon.

– Hahaha… evidente que é necessário sofisticação e cultura para gostar de uma garota como eu, Nonon Jakuzure, coisa que o macaco nunca terá.

– Eu espero contar com a continuidade de todos na Academia Honnouji que nós iremos reconstruir. Eu precisarei de professores e professoras para os alunos que virão. Para combater as ameaças a este mundo, nós precisaremos formar muitos no Caminho da Espada.

– Kiryuin sama, eu, Houka Inomuta, fiz uma projeção em 3D da Academia Honnouji reconstruída.

– Excelente trabalho, Inomuta san. Mas existe outro problema que eu devo resolver. Pessoal… eu vou entrar com uma petição no tribunal para mudar meu nome para Satsuki Matoi. Nós devemos apagar completamente qualquer sinal ou vestígio de que existiu Ragyo Kiryuin.

– Satsuki chan… você fará isso? Mudará o seu nome… só para nos tornarmos irmãs e uma família de verdade?

– Sim, Ryuko chan. Eu quero fazer isso. Eu não quero mais ser chamada de Kiryuin sama. Nós duas somos Matoi. Eu peço a todos vocês, meus amigos, que me chamem apenas de Satsuki. Nós passamos tanta coisa juntos que o uso de honoríficos é dispensável.

No roteiro, Matoi sama tinha que olhar para seus “generais”, mas ela estava olhando diretamente para mim. Zoltar me cutucou como se perguntasse: vai comer ou está comendo. Eu vou dar um desconto, afinal, Zoltar ainda é recruta da Sociedade e não sabe que quem manda são as mulheres.

– Matoi sama, em nome dos extintos Quatro Generais, nós aceitamos, honrados, sua decisão.

– Eu sabia que podia contar com você, Ira. Não se esqueça de nos enviar os convites para seu casamento com Mako, viu?

– S… sim, Matoi sama!

– Eh, mas que cara lento. Eu não sei quem é mais burro, esse urso sadomasoquista ou você, macaco.

– Hei! Não me compare com ele!

– Vocês dois, parem com essa cena tsundere. Todo mundo sabe que vocês dois estão se pegando.

Uzo e Nonon ficam envergonhados e calados enquanto todos soltam boas risadas. Para uma pessoa leiga, passaria por encenação, mas eu sei que não é o caso. Tanto no anime quanto na vida real Uzo e Nonon viviam maritalmente.

– Oquei, valeu! Por hoje é só, pessoal. Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou congelando. Vamos rodar as próximas cenas em estúdio.

O pessoal de encenação corre na direção do pessoal de apoio em busca de chocolate quente, roupas, agasalhos e bebidas alcoólicas.

– Esta é a primeira vez que eu acompanho de fora uma encenação. Sempre é assim?

– Sim, Zoltar. Tem vezes que é mais caótico.

– Eu acho que consigo gostar disso. Como meu amor se saiu na direção?

– Eu sou suspeito para avaliar, Zoltar.

– E aí meninos? O que acharam?

Eu e Zoltar apenas acenamos as cabeças indicando que gostamos. E não foi porque Alexis estava observando nem porque era Ryuko chan quem perguntava. Estava bom.

– Ah, antes de ir, D-kun, Satsuki chan quer falar com você.

Zoltar me cutuca novamente, praticamente me empurrando na direção de Matoi sama.

– Eh… Matoi sama… Satsuki chan… quer falar comigo?

– Eu queria… te pedir desculpas, Durak kun.

– Eh?

– Ryuko chan tem razão. Ela é mais nova do que eu, mas é mais madura nesse… assunto. Eu não devia usar a cena para te dar uma indireta. No anime eu sou completamente diferente, mas essa é meu verdadeiro eu, Satsuki Matoi.

– Está tudo bem, Satsuki chan. Não precisa ser tão rigorosa consigo mesma.

– Bom… eu gostaria de conversar mais vezes com você. Eu tenho que resolver esse bloqueio, esse trauma. Eu devo parecer louca… afinal, nós fizemos uma cena bem quente na estória Neon Genesis, não foi?

– Está tudo bem, Satsuki chan. Nós somos humanos e isso é complicado assim mesmo.

Esboços e ruínas

Estava bem tarde de noite quando a Sociedade ficou mais tranquila, mais sossegada, mais silenciosa. O evento da Páscoa tinha sido um sucesso, por mais um ano consecutivo. Kate não se importava com o nome que os países davam ao evento, ela era celebrada e ela não se cansava de distribuir gratuitamente suas bênçãos por toda Gaia.

Na saída, Zoltar me encontrou e, aparentemente nervoso, espremeu um chumaço de papel em minha mão, como se nós fossemos espiões trocando informações de segurança nacional. Antes de sumir, fez questão de ver se ninguém havia nos visto juntos e se despediu.

– Eu gostei do esboço. Eu fiz algumas anotações. Alexis mandou lembranças. Se alguém perguntar, você não recebeu de mim essa informação.

Eu não tive tempo de perguntar mais detalhes. Desleixadamente, eu desenrolei o chumaço de papel que estava em minha mão e ali eu li um endereço e uma data. Eu imediatamente entendi que aquele era o endereço de onde eles estavam morando e a data certamente indicava um momento mais propício para minha visita. Eu dei de ombros e dormi tranquilo.

Minha primeira rotina diária em meu serviço é checar minha caixa de mensagens nos meus e-mails. Eu não sou muito popular, nem conhecido, sequer sou uma celebridade. Mas minha caixa de entrada estava com cem mensagens, todas dos meus atores e atrizes, com anotações, sugestões e acréscimos ao esboço de roteiro, que acabou se tornando em diversos outros esboços.

Eu comecei lendo o e-mail do Zoltar.

– Senhor escriba, ou pelos muitos nomes com o qual o senhor se identifica, saudações. Eu olhei o anime do qual esta estória alternativa irá se basear e/ou continuar. Eu acho que nós podemos explorar o conceito de que o Pecado Original não foi o de comer o Fruto Proibido, mas o de ter inventado a roupa para cobrir o corpo. O resto não é muito interessante. Espadas, samurais, batalhas. Tedioso, mas necessário para ocultar a mensagem que queremos transmitir. Alexis mandou abraços.

As sugestões e acréscimos de Zoltar eram negras demais para serem viáveis para se tornarem um texto voltado para o público, talvez eu tenha que suavizar ou diluir. Depois eu li o e-mail de Ryuko chan que veio com um anexo, digamos, explícito.

– Oi, D-kun. Eu tirei essa foto só para você [veja anexo]. Eu e Satsuki estamos vibrando com o roteiro. Nós estamos ansiosas, para começar o teatro e para te rever. Nós fizemos algumas sugestões juntas, pois nós sabemos o quanto o público otaku gosta de serviço de fã. Nossa companhia é pequena e desconhecida, mas tem um grande estúdio que relançou um filme misto com o conto da Bela e da Fera. Parece loucura, mas nós imaginamos juntas o conto tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. A Bela seria uma camponesa revolucionária e a Fera seria um burguês republicano. Nós ficamos tão animadas com a ideia que não pensamos como isso poderia ser encaixado em uma continuação alternativa de nosso anime. Mas essa parte nós deixamos para você. Beijos e [partes censuradas].

Imaginar Ryuko chan em roupas que remetem a esse evento revolucionário na França é uma fantasia erótica demais para a política de muitos portais da internet e seus “termos de uso de serviço”, uma forma eufemística de dizer censura. Aliás, não falta muito para diversos portais ocidentais começarem a bloquear páginas e sites de anime. Afinal, a cultura oriental não tem a mesma histeria e paranoia que o ocidente sobre a nudez feminina [baba], a sensualidade, a sexualidade, o corpo, o desejo, o prazer, relacionamento e sexo.

A maioria dos e-mails não era aproveitável. Poucos tinham lances interessantes e boas ideias. Deu um trabalhão ler tudo, filtrar e aproveitar o que era aproveitável. O ultimo e-mail era de um remetente desconhecido. Normalmente eu deleto ou reporto mensagens de origem desconhecida, mas como estava no bloco com o mesmo assunto, eu abri. Era de Alexis.

– Oi… hã… escriba. Ou eu posso te chamar de Durak? Ah, que boba, eu não me identifiquei. Aqui quem te escreve é Alexis, a atriz protagonista de seu conto da Universidade dos Vilões. O Zoltar não sabe nem precisa saber que eu te escrevi, oquei? Ele pode ficar com ciúmes. Você deve estar se perguntando como eu consegui seu e-mail. O pessoal da companhia de teatro me falou da Sociedade e um dia, quando Zoltar foi procurar emprego [ele tem vergonha disso], pois nós estamos prestes a aumentar a família, eu fui na Sociedade [por favor, não fale disso para Zoltar]. Uma moça muito gentil e atenciosa me deu seu e-mail e alguns papéis para eu me inscrever. Eu achei um pouco esquisito dela andar apenas com lingerie por debaixo de um casaco de laboratório, mas quem sou eu para criticar as manias dos outros? Eu tive um instinto que ela estava interessada demais em mim, mas enfim, eu fiquei sabendo que a Sociedade tem diversas companhias de teatro e que você escreve muitos roteiros. Eu sei que Zoltar está zanzando por aí, querendo roteiros. Eu estou enorme, sexto mês de gestação, mas eu ainda posso fazer algum papel ou função nesse projeto. A ideia de continuar a estória de um anime é interessante e me agrada o conceito de colocar mulheres como protagonistas, mesmo que isso envolva luta com espadas e muito serviço de fã. Nós temos que ser bem resolvidas, afinal, nós somos naturalmente atraentes, sensuais, exuberantes e femininas. Aposto que você está babando pensando em mim. Se eu conheço Zoltar ele vai te entregar nosso endereço de uma forma bem esquisita. Como se você não pudesse pegar nosso endereço com a secretaria da Sociedade. Venha nos visitar, oquei? Eu quero que você seja o padrinho de nosso bebê. Abraços, Alexis.

Eu até consigo imaginar o motivo pelo qual Natasha foi tão gentil com Alexis. Natasha, ou Professor Um, deve estar exultante com a oportunidade de estudar uma elfa negra. Eu terei trabalho em evitar que ela incomode Zoltar.

Eu tenho que começar o roteiro, então vamos lá. Cenário: Academia Honnouji. Ou melhor, o que sobrou dela. Alunos e professores vagueiam pelas ruínas, pensando no que fazer. Meu processo criativo é interrompido pelo toque do meu smartphone. Eu olho o identificador de chamada. Quem me liga é Ryuko chan.

– Oi, D-kun. Leu meu e-mail?

– Oi, Ryuko chan. Sim, eu li.

– Gostou do anexo que enviei?

– Eu gostei muito, embora eu tenha que guardar em uma pasta particular protegida por senha. O ser humano está ficando mais sensível e careta com imagens desse tipo.

– Ah, que se danem. No fundo toda mulher gosta e se empodera quando sabe que é atraente, feminina e sensual. Desde que a humanidade existe o corpo feminino é utilizado como símbolo da fertilidade, fecundidade e abundância da Natureza. Só imbecis ficam escandalizados com a nudez de algo tão belo, normal, natural e saudável quando a nudez de um corpo feminino. Eu aposto até que você está todo “ligadão” só de pensar em meu corpinho, certo? Certo, eu posso ouvir sua respiração acelerada. Então, está escrevendo o roteiro? Se estiver empacado, eu e Satsuki escrevemos a primeira cena. Vem para cá e vamos fazer uma dinâmica?

Evidente que eu concordo. Minhas leitoras devem estar revoltadas por eu estar colocando isso como um diálogo de Ryuko chan. Ou podem muito bem estar tendo fantasias também. Eu desligo o smartphone e o computador, pego meu carro e vou direto para a residência dos Matoi. Kiryuin sama está com uma petição no tribunal para mudar o sobrenome dela de Kiryuin para Matoi. Isso talvez possa ser usado no roteiro, a mudança de nome como forma de anular de vez a existência de Ragyo. Mitsuzo Soroi é quem vem me atender na porta.

– Ahem. Boa tarde, jovem. Em que nós podemos te ajudar?

– Oi, eu vim falar com Ryuko chan.

– Hmm… eu vou ver se Matoi sama está disponível para recebe-lo. A quem eu devo anunciar?

– D-kun? É você?

Ryuko chan desce as escadarias correndo, vestindo apenas um pijama que mal disfarça suas generosas curvas e atropela o pobre mordomo, me puxando para dentro.

– Hei, seu pinguim chato, D-kun é praticamente da família ouviu? Venha, venha, tome o desjejum conosco.

Ao entrar na espaçosa cozinha, eu vejo Ira e Mako dividindo os equipamentos, como um casal casado, cheio de beijos, abraços e juras de amor. Na enorme mesa, Kiryuin sama fica espantada e envergonhada quando se depara comigo e tenta puxar as lapelas de seu robe, como se fosse possível esconder algo detrás daquela seda fina.

– Bom dia, pessoal. Desculpe por minha invasão. Eu fu praticamente puxado por Ryuko chan.

– Não tem problema, Llyffant san. Afinal, o senhor é o padrinho de nosso casamento.

– Gamagori san? Mankanshoku san? Finalmente!

– Fui eu quem pediu. Esse gorila é enorme e forte, mas é fraco quando o assunto é expressar o sentimento.

– Mako chan, meu amor, minha única fraqueza é meu amor por você.

– Awwww…

– Vão para o quarto, vocês dois. Eu e Satsuki temos que conversar com D-kun.

Ira e Mako vão alegremente para os quartos nos andares acima e, apesar da distância, nós podíamos ouvi-los.

– Ignore esses exagerados. Eu e Satsuki bolamos a primeira cena. Pronta para encenar, irmã?

– S… sim… eu acho que sim…

– Ela está envergonhada e constrangida por estar semidespida diante de você. Como se ela não tivesse feito isso antes.

– Ryuko chan… eu te expliquei… é complicado… aquilo foi encenação…

– E no final, você ficou apaixonada por ele, como eu. Se não consegue lidar com o que sente, então encene, ora bolas.

Eu prometo que começarei o roteiro no próximo episódio. A cena inicial consiste em Ryuko chan e Kiryuin sama em meio às ruínas da Academia Honnouji decidindo o que farão a seguir, agora que derrotaram Ragyo.