Mistério da Baviera

Quando Tanya e a 203ª retornou ao acampamento, representantes do Comando Central os aguardavam para a respectiva comemoração. Tanya não estranhou a presença de Erich Rerugen e Hans Zettour no meio do alto oficialato. Um acreditava que a estava tutelando e o outro acreditava que a estava manipulando.

– Bravos! Bravos! Nós não esperávamos menos do Demônio de Rhine.

– Obrigado, senhor. Mas eu desconfio que sua presença aqui não é social.

– Sim e não. General Rudersdorf fez questão de que eu trouxesse para o 203º este despacho concedendo a todos 15 dias de folga. E para ouvir o seu relatório sobre a colaboração do Agente Cinza.

– O Agente Cinza demonstrou excelente espírito de equipe e apoio. Nenhum de nós estaria aqui se não fosse por ele. Quanto aos 15 dias de folga…

– Sem condição e sem negociação. São 15 dias de folga para todos, é uma ordem.

– Sim, coronel Zettour.

– Eu retornarei ao Comando Central com seu relatório sobre o Agente Cinza. Bom proveito, major.

– Obrigado, senhor.

– Algum lugar em mente, major?

– Senhor, por enquanto eu estou mais voltada em comunicar a dispensa ao meu pelotão.

– De qualquer forma, excelente trabalho, major.

– Obrigada, em nome de toda a 203ª, coronel Rerugen.

Não foi difícil encontrar e reunir o pelotão. A maioria estava se empanturrando com as mesas cheias de comida. Os feridos não estavam longe, então ela podia anunciar com sua excelente oratória.

– Senhores! Parabéns a todos! Nós estamos recebendo o legitimo reconhecimento por nossos atos heroicos. E nós não esqueceremos daqueles que tombaram em batalha. Seus espíritos estão no Valhalla. A nós, que ficamos, o Comando Central concedeu a todos 15 dias de folga. Sim! Os senhores ouviram bem! São 15 dias de folga! Aproveitem bem! Os senhores merecem! Dispensados!

Metade dispersou rapidamente em direção às tendas pessoais e arrumou-se com presteza. Outra metade demorou mais por estar sentindo o peso da cerveja escura. Uma sombra se aproximou de Tanya e ela adivinhou sem olhar quem seria.

– Algum problema, tenente?

– Ne…nenhum, major… eu só… eu gostaria… se não for incômodo… a senhora tem algo planejado?

Tanya se vira e olha para Victoria. Parecia uma garotinha diante da governanta. Nem parece a mesma mulher que praticamente tinha se declarado para ela há oito horas atrás. Mesmo sabendo do risco, Tanya resolve brincar um pouco com sua tenente.

– Planejado? Hum… não… por acaso a senhora está pensando em se convidar a me acompanhar?

– E… eeh… bom… quer dizer… eu não tenho nada planejado… então… sei lá…

Tanya segura a mão de Victoria e consegue sentir o nervosismo na pele e a palpitação no sangue.

– Se você quer receber de mim algo mais do que ordens, Visha, você precisa ser mais decidida. Diga o que quer e o que sente, sempre, sem arrependimento, sem medo.

Victoria fica toda trêmula e envergonhada só de estar segurando a mão de Tanya.

– Ma… ma… major…

– Visha, está na hora de você deixar esse tratamento formal de lado.

– Ta… Ta… Tascha… quer ir comigo a Cherkasy e visitar o lago de Kremenchuck?

– Ucrânia? Eu pensei que você fosse russa, Visha.

– Eh… nós somos um Estado Vassalo do Império Russo.

– Você nasceu lá? Tem familiares, parentes?

– Meus avós e pais.

– Mal começamos a namorar e está pensando em me apresentar aos seus pais e avós? Visha atrevidinha!

– E… eeh…

– Nós podemos ir a Rosenheim e visitar o lago Chiemssee. Adivinha por que?

– Seus pais e avós moram lá?

– Não, eu sou órfã, eu nunca conheci meus pais. Ali tem o Mosteiro Roth Ann onde, com alguma sorte, nós podemos encontrar Madre Maus, quem me criou.

– Ah… puxa… eu sinto muito…

– Sente pelo quê? Eu não tive problema algum nem vejo diferença alguma entre gente com pais e sem pais. Nós não acabamos todos na linha de frente, lutando em uma guerra? Nossa pátria é a nossa única família.

– Eu sinto muito por dizer que eu sinto muito…

Victoria ousa brincar pela primeira vez com Tanya e capricha na expressão de moleca. Ambas pegam seus poucos pertences e usam o propulsor de plasma para chegarem na estação de trem mais próxima. Suas presenças chamam a atenção do público, mas elas lidam com a intensa exposição diante de civis com naturalidade. Duas passagens classe econômica para Baviera.

O terminal anuncia a saída do trem para Baviera e o maquinista responde de volta, chamando os passageiros para embarcarem. As pessoas comuns estranham a presença de oficiais do exército e causa certo desconforto em poucos, certamente desertores, espiões ou ladrões. Na cabine 47C estão dois passageiros, o que deixa dois espaços para Victoria e Tanya escolherem. Uma senta de frente para a outra, fazendo a cara mais séria que tinham.

– Consegue acreditar nisto, tenente Victoria? Nós estamos sendo obrigadas a andar de trem apenas para vasculhar, identificar e prender desertores, espiões e ladrões.

– Nem me diga, major Tanya. A que ponto nossos concidadãos decaíram em seus valores! Como ovelhas, ouvem e acreditam nas mentiras da Republica.

– Ah, mas para isso o Império pode contar conosco. Eu sou uma loba e estou sedenta de sangue de ovelha!

O pobre homem idoso sai correndo como se o Diabo em pessoa estivesse atrás dele e a senhora desmaia depois de vomitar. Fiscais de cabine chegam, olham para as divisórias nos uniformes das garotas e se calam, apenas retiram a pobre mulher desmaiada. Com uma pequena encenação, Tanya e Victoria teriam a cabine apenas para elas.

– Ufa. Enfim podemos relaxar.

– Hei, tem serviço de bordo! Vamos pedir algo?

– Ótima ideia. Apesar de estarmos na classe econômica, depois de nossa encenação nos servirão como se estivéssemos na classe executiva.

– Oh, puxa! Tem chá inglês e pães franceses!

– Eu estou de olho em uma torta holandesa e uma cerveja austríaca.

No decorrer das duas horas de viagem, as garotas transformam a cabine do trem em um piquenique. Nem o chefe dos fiscais nem a cozinha questionaram seus pedidos, nem cobraram. Tanya e Victoria comeram e beberam tudo o que quiseram. Desembarcaram em Rosenheim estufadas e bêbadas. Para alívio de todos os demais presentes do trem, que seguiram até Berchtesgaden.

– Vamos ao Hotel Hirsch. Com uma boa encenação, é bem capaz de conseguirmos um quarto de graça.

Victoria apenas acenava afirmativamente com a cabeça, estava muito sonolenta depois de tanta comida e bebida. Tanya não poderia contar com sua atriz principal. A recepção do hotel olhou o uniforme e as divisórias. Alguns funcionários praguejaram, provavelmente partidários da Republica. O gerente não queria confusão nem discussão, então não fez muita questão do valor que as duas oficiais queriam pagar por um quarto. Elas não tinham bagagens, então só tinham que pegar a chave.

Um elevador com porta pantográfica as levou ao terceiro piso, o carpete cheirava a mofo, o papel de parede descascava, a luz do corredor era fraca e amarelada, mas mesmo assim as condições são bem melhores do que a de uma tenda e um catre. Dificilmente elas teriam serviço de quarto dos funcionários do hotel.

A poucos passos do quarto 307, Victoria é surpreendida ao ser encostada na parede. Tanya tem a metade do seu tamanho, mas sabe usar da força quando necessário.

– Muito bem, Visha. Você está para passar a noite comigo. Tem algo a declarar antes de entramos nesse quarto?

– Ta… Tascha… seja gentil… é a minha primeira vez.

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