Operação Longinus

Tanya entra na tenda de campanha sendo ladeada por Victoria e Rhum e vai direto ao palanque central para ler a ordem do dia. O 203º está perfilado em pé, em continência.

– Descansar! Senhores, nós temos novas ordens. Tenente Victoria me trouxe o telex confirmando que o Comande Central nos concedeu a missão que, para muitos, seria suicídio, mas não para nós. Segundo tenente Matheus, leia as instruções.

– Nossa missão é destruir os famigerados canhões de Navarrone. O plano de ação é infiltrar em território inimigo, remover quaisquer obstáculos e explodir os canhões. Caso nós concluamos a missão, o Império poderá forçar a Ibéria a assinar um tratado. Isso fraquejará a interferência da Tríplice Entente e será crucial em nossa batalha contra a República.

– Eu não vou enganar os senhores. Esta é uma missão suicida. Até o grandioso batalhão Scharzesmarken pensaria duas vezes antes de entrar nessa missão. Nós fomos escolhidos porque nós somos a elite da elite. Mas eu não os forçarei a coisa alguma. Levantem a mão apenas aqueles que aceitam fazer parte dessa missão que eu chamo de Operação Longinus.

Tanya disfarçou um sorriso de satisfação ao ver todo seu pelotão de mãos para cima. Sim, era extremamente arriscado, mas também o prêmio era grande. Em outras ocasiões o Comando Centra não poupou esforços e recursos para premiar o 203º em suas ações bem sucedidas.

– Eu agradeço a todos por confirmarem minha confiança nos senhores. Para esta missão, nós teremos o auxílio de um aliado. Senhores, eu lhes apresento o Agente Cinza, senhor Rhum Weinberg. Eu tenho boas razões para confiar igualmente na capacidade deste senhor, então eu lhes peço… eu lhes ordeno que colaborem com nosso aliado. Arrumem tudo. Partida em quinze minutos.

O pelotão se dispersa, cada soldado se direcionando para sua tenda pessoal, arrumando a mochila de campanha, checando os equipamentos, calibrando as armas, apanhando as munições. Por sorte ou necessidade, Tanya e Victoria tem as tendas vizinhas, então a tenente deixa escapar algo de ciúmes e desconfiança.

– Major… hã… senhora… nós podemos confiar nesse mercenário?

– Diga-me tenente, com sinceridade, quando você me viu pela primeira vez, confiou em mim?

– Com devido respeito, senhora, mas a situação é completamente diferente. Nós nos conhecemos na Academia Militar e cursamos o mesmo oficialato. Nós somos companheiras de armas há muito tempo, desde quando nós éramos apenas recrutas. Nós servimos orgulhosamente a 414ª e depois nós partimos para comandos e pelotões diferentes até nos reunirmos na 203ª. No entanto a senhora está prestes a confiar em um mercenário, cuja origem e filiação nada sabemos. Como seu primeiro tenente e amiga, eu tenho que alertá-la dos riscos.

– Oh… eu não sabia que a senhora tinha sido promovida a minha amiga, tenente.

– Vo… vo… você está sendo maldosa de propósito comigo! Só porque sabe que eu gosto de você! Vo… você devia ser ao menos um pouco mais… gentil comigo!

– Tenente! A disciplina militar considera uma falta grave e uma descortesia não usar o tratamento adequado ao seu superior! Eu poderia mandar prendê-la na solitária! Ou te chicotear pessoalmente! Você está ciente disso?

Victoria treme inteira. Poucas pessoas conseguiriam encarar Tanya quando ela usa aquele olhar assassino. Mas Victoria tinha dado um passo adiante que não tinha como voltar ou esquivar. Por alguns segundos, Victoria imagina sua cabeça caindo inerte no solo, decepada com um único movimento de sabre e o sorriso sádico de Tanya.

– Sim! Pelo bigode de Bismarck, eu estou ciente disso! E eu sei que a senhora não hesitaria nem pestanejaria se tivesse que me matar agora mesmo! Eu sei que a senhora monitoraria pessoalmente minha tortura, por métodos extremamente cruéis e dolorosos! Eu não me esqueci de Harald e Kurst! Mas sabe de uma coisa! Eu não me importo! Eu vou continuar amando a senhora mesmo se a senhora me matar!

Tanya cessa sua marcha e Victoria fecha os olhos, esperando o corte. Mas só se ouve um suspiro.

– Visha, você não pode estar falando sério. Você mesma diz. Todo mundo sabe. Eu sou o Demônio de Rhine. Eu seria capaz de te abrir as entranhas e rir de sua cara enquanto você morre lentamente em dores atrozes. Pela bandeira o Reich, Visha, não caia nessa armadilha. Amor é veneno e vício. Amor é loucura e perdição. O amor morreu há tempos nesse mundo Visha. Você deve viver por si mesma. Você deve confiar apenas em si mesma. Não há uma vida depois dessa e Deus não existe. Quando você morrer, tudo acaba. Nada resta. Não ache que alguém vai chorar ou lembrar sua existência. Nossos restos serão repastos de animais selvagens. Não vale a pena viver querendo bem a outra pessoa. Ninguém será capaz de suprimir sua necessidade. Pior, você não será capaz de suprimir a necessidade desse outro alguém e você será traída, trocada por outro amor. Todo tipo de relacionamento é uma mera conveniência, um contrato, com garantia e duração definidas. Você não pode estar falando sério quando diz que deseja isso.

Tirando coragem, sabe-se lá de onde, Victoria para de tremer, apruma-se e faz se credo, cheia de orgulho.

– Eu não acredito nisso e eu sei que a senhora também não acredita! O amor existe e é real! O amor é o que nos move e nos embala! Não são as ordens do Comando Central, mas nosso amor à pátria! Pelo amor ao Império, nós seguimos adiante, sem temer a morte, enfrentando os mais duros obstáculos e vencendo as mais duras batalhas! Pelo Reich! Por nosso povo! Nós temos que lutar e fazer coisas horríveis unicamente para que eles tenham um futuro! Poderá nos condenar, nos julgar, nos criticar, mas se nós não fizermos a nossa parte, se nós não cumprirmos com nossa obrigação, quem o fará? Que digam que você é o Demônio de Rhine! Quem liga? Você faz tudo por amor! Você nos inspira pelo amor! Nós a invejamos por causa do seu amor! O amor nos excede, nos transborda e nos eterniza! Então eu irei viver e eu morrerei te amando! E eu não aceito ordem contrária! Não aceito!

Tanya fica inexplicavelmente quieta e tranquila. Victoria não pressente qualquer instinto assassino vindo dela. Vitória engole seco com a expectativa, mas Tanya apenas relaxa de sua postura de oficial.

– Eh… não tem jeito… você é mesmo uma criançona. Então é isso? Você está oficialmente se promovendo de amiga para namorada? Tem certeza disso? Depois não adianta reclamar hem? Vamos, Visha, nós temos uma missão a cumprir.

– A… ah… oquei…

Victoria segue Tanya sem saber o que aconteceu de fato até que Tanya diminui o passo e segura Victoria na mão. Um passo pequeno, mas um passo. Victoria sente que está andando por cima de nuvens cor-de-rosa.

Duas horas depois, Tanya e Victoria estão na formação, seguindo em altitude baixa, seguindo a linha dos Alpes, um expediente perigoso, mas necessário para evitar os radares. Ventos gelados cheios de neve, rochas, árvores e frio. Uma trilha pelos ares através de cem quilômetros onde qualquer vacilo é fatal.

– Muito bem, senhores, a partir deste ponto vamos reduzir a comunicação. Matheus assuma o Vetor 1, Vooren, assuma o Vetor 2. Os demais seguem comigo em Formação Delta. Atacando em três frentes, nós temos mais chances de sucesso. Que Deus os acompanhe e os tragam de volta, sãos e salvos.

Dizem que no passado ali passaram Amilcar e Anibal. A Passagem de Trebia era tão conhecida quanto temida, pois apesar de ser um excelente ponto para uma invasão, era também um excelente ponto para uma tocaia. Tanya conhecia bem os grandes estrategistas, então tinha se preparado para utilizar essa passagem a seu favor. Vetor 1 seguiria o Rodano e Vetor 2 seguiria o Drone. Tanya seguiria pela linha dos Alpes com o Vetor 0. Com alguma sorte, não teriam baixas e chegariam na cidade de Ebro, praticamente um “ponto cego” dos canhões de Navarrone. Evidente que Tanya estimava que a Republica deva ter colocado algum efetivo e armamento nas costas de Navarrone para evitar ataques surpresas. Ela garantia o ataque aéreo e deixaria o ataque de campo para o Agente Cinza. Um código combinado foi tudo o que ela transmitiu aos demais soldados.

O atrito inevitável ocorreu, nas três frentes e o combate estava pesado. Isto indicava que estavam esperando por essa infiltração. No ambiente de guerra, a comunicação é um fator que altera uma batalha. Da mesma forma que o Império tem espiões e informantes, a Republica tinha os seus. No requinte e conforto do Comando Central ninguém sabe ou vê, mas Tanya vivenciou diversas vezes esses percalços que ocorrem na frente de batalha.

– Vetor 0 para Vetor 1 e 2. Manobra de agrupamento.

A verdade estava cristalina. Mesmo Tanya estava com dificuldades de rechaçar a tropa inimiga. O áudio de seus outros destacamentos confirmava suas piores estimativas. Seria um milagre qualquer um ali sair vivo.

– Cavaleiro para Dama. Solicitando permissão para agir.

A voz de Rhum nunca soou tão doce.

– Cambio. Asa de Prata para Agente Cinza. Avante, adiante, execute.

Repentinamente uma explosão lança bolhas e colunas de chamas ao firmamento. A onda de choque cria um vendaval que limpa as nuvens de poeira que pairam no céu. O chão treme, indicando que ainda vinha mais e veio, uma língua de fogo subiu alto, parecendo com a erupção de um vulcão. Uma terceira explosão ainda maior surgiu, formando um cogumelo de entulho, poeira, fogo e carne calcinada. O segundo impacto foi sentido pela tropa inimiga que começou a dispersar, sendo impiedosamente atingida por Tanya e seus soldados.

Dos famigerados canhões de Navarrone restaram apenas suas colinas transformadas em depressões fumegantes. A tropa de Tanya começou a se reagrupar, trazendo alguns cativos, somando 30 sobreviventes e 15 feridos. Dos seus, poucas baixas. Os cativos ficaram alinhados diante dela para aceitar a rendição.

– Muito bem, senhores. Vamos fazer isso de forma rápida e simples. Quem está no comando?

– Hã… ninguém… nosso capitão estava no complexo dos canhões.

– Ninguem? Não sobrou um tenente, um capitão, sequer um sargento?

– N… não… não senhora.

– Então de acordo com os termos do Tratado Internacional, eu não posso aceitar a rendição dos senhores. Os sobreviventes serão mandados para um de nossos campos de concentração. Nós não levaremos os feridos. Tenente, traga Lugher.

Os feridos acham que Tanya chamou um médico. Victoria sabe que não é o caso. Victoria traz uma caixa de madeira ricamente decorada e abre o fecho expondo o conteúdo para Tanya. Os olhos de Tanya brilham e seus lábios desenham um enorme sorriso enquanto ela empunha a uma arma chamada Lugher, uma pistola automática, um artefato extremamente raro e único. Tanya se posta ao lado dos feridos enfileirados e aperta o gatilho uma única vez. Com um único tiro, Tanya cessa a dor dos 15 feridos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s