Ciúme na caserna

Um estampido indica a chegada de uma mensagem via radio.

– Pixie Zero Um. Recolher asas. Repito, recolher asas.

– Cambio. Ciente. Movendo para a Colmeia.

Tanya aciona o propulsor de plasma em seu pé, seguido logo atrás por Victória.

– Major, o que faremos com o cativo?

– Minha intuição diz que o senhor Weinberg nos seguirá sem dificuldades, Visha. No momento, temos que nos concentrar em reagrupar e voltar ao acampamento.

– Não me chame assim na frente de estranhos…

– Eh? Disse algo, tenente? Sua voz fica embotada quando você está amuada.

– Na… nada! Nada! Apenas que eu estou avistando os demais membros do 203º.

– Algum sinal de inimigo ou de possíveis retaliações?

– Nenhum sinal. Nem dos Observadores.

– Excelente. Vitória limpa e absoluta. Nossos superiores devem estar satisfeitos.

– Perdoe minha curiosidade, major, mas quem é Seimei?

– Um pobre coitado que teve a infeliz ideia de se meter comigo. Eu terei muito prazer em estourar os miolos dele.

O radar de Victoria aciona sons e luzes, indicando a proximidade de uma patrulha aérea de magos, visíveis a olho nu, mas a direção que tomam é completamente oposta da posição onde elas estão.

– Ufa… não nos viram.

– Nós estávamos no mesmo quadrante, Visha. Eles também têm radares. Eles nos evitaram. Ou perceberam a proximidade de nosso pelotão ou… pressentiram o perigo potencial de nosso cativo.

Tanya e Victoria reagrupam com os outros oficiais do 203º e todos seguem ao acampamento, para a Colméia, para descansarem, comerem, reabastecerem e aguardar as ordens do Comando Central.

Na cafeteria, Tanya enche seu prato com carne, repolho e linguiça. Disfarçadamente pega um caneco de cerveja escura e senta na mesa dos oficiais.

– Ah! Nada como um bom brecht para espantar o cansaço e a dor no corpo.

– Ma… major… eu posso me sentar com a senhora?

– Mas é claro, Visha! Vamos, puxe um banco e sente-se.

– Obrigada, major. Sabe… senhora… eu estou intrigada. Como o cativo sabe mais da senhora do que eu?

– Hum? O que quer saber sobre mim, tenente?

Victoria sua frio enquanto Tanya enxuga o caneco de cerveja. Quando a major a chamava de Visha era bom, mas não era bom quando a tratava de tenente.

– N… não interprete isto como indiscrição da minha parte, mas dentre os membros da 203ª, eu sou a única veterana. Nós nos conhecemos no fronte, quando éramos apenas recrutas da 414ª. Nós somos as únicas mulheres, então eu achei que nós temos que nos conhecer melhor e…

– Tenente! [arroto] Está querendo dizer que está interessada ou apaixonada por mim?

Os cabelos da nuca de Victoria se arrepiam enquanto o som da caneca batendo na madeira da mesa parece soar como um terremoto. Gesticulando os braços e as mãos vigorosamente em todas as direções e suando profusamente, Victoria tenta contornar a situação.

– Na…na…não! imagina! Sem chance! A senhora é o Demônio de Rhine, a Asa de Prata, major da 203ª! Nossos superiores devem estar satisfeitos e orgulhosos de suas vitórias e eu sou uma mera tenente! Hahaha! Bobagem! Sem chance! Eu? Que nada! Nós somos mulheres, o normal é que nós nos interessemos por homens.

– Visha… isso não tem coisa alguma a ver com “normal”. Atração, paixão, amor… nada disso é normal ou racional. Amor é supervalorizado. Amor é um vício e um veneno. Se pretende sobreviver nessa guerra, esqueça essas ilusões românticas.

Outro caneco com cerveja escura surge na mão de Tanya que, rapidamente, esvazia, sem que a major se importe com o visível aborrecimento de Victoria. Apesar de negar, a tenente no fundo tinha tais ilusões românticas. Se tivesse um padre ali presente, ela iria confessar diariamente seus conturbados sonhos que tinha com Tanya.

– Muito bem! [arroto] Eu acho que o Comando Central não entrará em contato conosco. Eu vou fazer a digestão de meu brecht na minha tenda, tenente. Qualquer novidade, venha me avisar imediatamente.

Tanya arrasta o banco, afasta-se da mesa e se posta de pé, diante de Victoria, na expectativa de uma continência, mas sua tenente está com os olhos mareados e com o pensamento longe.

– Que criançona… chorando por que foi rejeitada por um amor que sequer existia.

Tanya sacode sua cabeça negativamente, balançando seus curtos cachos louros. O amor é um veneno que sua tenente estava infectada até a medula. Tanya meio que sabe que ela não deve ser a única que nutre tais sentimentos. Dá para sentir os olhares de seus subordinados cobiçando seu corpo, apesar da enorme diferença de idade. Nos escaninhos ocultos de toda sociedade, jovens e adultos sempre dão um jeito para consumar seus amores, imagine em uma situação de guerra, onde as fronteiras da civilização, virtude e moral estão borradas.

– Matheus, Vooren, fiquem na escuta. Qualquer novidade, me avisem.

O segundo tenente e o capitão prontamente fazem continência e respondem adequadamente. Tanya espreguiça demoradamente e remove as botas após sentar em seu catre. Ela mal consegue afrouxar os botões do casaco, a mistura de brecht e cerveja a deixa sonolenta. Vestida com pouco mais do que a camisa branca, Tanya se deita no catre que, naquele momento, parece macio e convidativo como uma cama burguesa. Tanya dormiu profundamente por trinta minutos, uma eternidade quando se está em batalha.

Um barulho insistente, metálico, ajudou a desperta-la.

– Eh… major… senhora? Com licença? Eu tenho um comunicado do Comando Central.

A voz de Victoria vinha do outro lado da lona e pelo tom de voz, ela não estava brincando nem trapaceando… como se ela fosse capaz disso.

– Entre, Visha, com o Diabo! Entre de uma vez.

Victoria entra com um telex em mãos, com expressão levemente apreensiva, mas que muda completamente assim que se dá conta que Tanya está vestida apenas com a camisa branca, que mal esconde o corpo da major. O pobre papel é amassado em sua mão, enquanto seus olhos ficam arregalados e seu rosto vai do rosado ao roxo em segundos.

– A…aahh! Mil perdões, major, senhora! E… e… eu não pretendia… eu não queria…

– Pelos canhões do Império, Visha, me entregue esse telex de uma vez! Francamente! Até parece que nunca viu um corpo seminu!

Tremula, Victoria entrega o telex e Tanya notou que, apesar do casaco, era possível perceber que Victoria estava com “faróis acesos” e havia uma pequena mancha de umidade entre suas pernas, denunciando que sua tenente estava excitada.

– Colmeia para Pixie Zero Um. Proceder para coordenadas 137 73 2 31. Manobra Alfa Delta Tango 41. Execução de manobra receberá apoio de Agente Cinza. Aguarde código de confirmação.

– O código de confirmação é Valhalla, major.

Victoria fica evidentemente assustada, mas Tanya encara a presença de Rhum com naturalidade.

– Eh… isso significa que seu codinome é Agente Cinza.

– Sim, senhora.

– Então eu posso presumir que, por ordens superiores, o senhor agora é meu subordinado.

– Sim senhora.

– Excelente. Acompanhe Visha até a tenda de campanha e aguarde minha chegada ali junto com os demais. Aparentemente nós teremos negócios a tratar juntos, senhor Weinberg.

– Acredite, senhora, eu considero isso uma honra e um privilégio.

– Não pense que eu vou pegar leve com você.

– Absolutamente, major. Eu faço questão que seja mais rigorosa comigo.

– Perfeito. Quem sabe sua postura incentive e mostre aos demais subordinados como um soldado profissional deve se comportar. Nós não viemos aqui para espalhar flores, amor e felicidade. Nós viemos aqui para espalhar vísceras, sangue e morte.

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