O doce aroma da batalha

Victoria observa apreensiva e aflita para Tanya olhando para um ponto fixo indistinto no horizonte. Estaria a major pressentindo a presença do inimigo escondido em alguma trincheira? Elas são as únicas mulheres da 203ª Patrulha do Império e, no momento, ao redor delas somente existem corpos despedaçados, mortos, agonizantes e feridos, de ambos os batalhões.

– Sonzai Seimei! Por acaso é você quem está nos observando?

Victoria fica assustada com a voz firme de enérgica de Tanya. A major parece estar irritada então, seja quem for esse tal de Seimei, é melhor aparecer.

– Ah… você me descobriu… você é mesmo o Demônio de Rhine.

– Você não é Sonzai. Quem é você? Amigo ou inimigo?

– Nenhum dos dois, major, eu sou um mercenário. Pode me chamar de Rhum Weinberg.

– Saia de onde estiver. Devagar. Com as mãos para cima e sem truques.

O som de botas se arrastando no solo e de pedregulhos deslizando voltam a atenção das magas de guerra para um ponto próximo de onde o chão estava bastante marcado pela artilharia pesada. Victoria se dizia que era impossível que alguém tivesse sobrevivido a uma barragem dessas, mas ali estava um garoto, aparentando ter 17 anos, sem nenhuma arma nas mãos, exibindo um uniforme completamente desconhecido.

– Você não parece ser da República nem da Tríplice Entente. Você é do Exército Aliado?

– Não senhora. Eu não estou em nenhum exército.

– Visha, reviste-o. Muito bem, senhor Weinberg, mas como explica seu uniforme?

Victoria fica um pouco constrangida quando a major a chama pelo apelido carinhoso diante de estranhos. Enquanto revista o estranho garoto, Victoria observa bem de perto o uniforme para ver se distinguia alguma marca ou emblema. O tecido parece ter algum tipo de enfeite bordado, mas nada reconhecível. O próprio material do uniforme escapa de qualquer coisa conhecida, parece macio e suave ao toque, mas é semelhante ao couro ou a algum tipo de metal maleável desconhecido. Victoria sacode os braços e a cabeça sinalizando que o cativo estava “limpo”.

– Senhora, para o serviço que eu executo, eu necessito desse… uniforme.

– Ah, então você está aqui por algum tipo de trabalho ou negócio. Qual é o tipo de seu trabalho ou negócio? Representando quem?

– Oquei, oquei… eu conto tudo se a senhora abaixar esse fuzil.

Victoria retorna para sua posição, ao lado e ligeiramente atrás de Tanya, onde a experiência a ensinou que sempre é mais seguro.

– Major… eu revistei o suspeito e não encontrei arma alguma e também não reconheci qualquer distintivo ou divisória que possa indicar qual sua patente, divisão ou posição.

– Muito bem… nesse caso, eu abaixo meu fuzil. Para todos os fins, o senhor será tratado como um civil, senhor Weinberg. Comece explicando sua presença no campo de batalha, sem que pertença a algum exército, sem ter uma arma.

– Muito obrigado, major. Esse seu brinquedo poderia mesmo me machucar acidentalmente. Eu quero evitar esse tipo de estresse. Minha presença aqui, senhora, é a de um observador. Digamos que eu represento um conglomerado que despertou interesse em sua vida, major.

– Observador? O que tem que observar? Você não vai, não pode ou não quer interferir? Esse conglomerado tem algo a ver com Sonzai Seimei?

– Eu vejo que a major é afiada na língua também. Mas você está certa, não há separação entre o observador e o observado. O conglomerado não está muito satisfeito com a ingerência de Sonzai Seimei neste mundo. Digamos que eu seja um… fiscal de Deus. Eu farei o que for necessário, quando e se imprescindível, major.

– Fiscal de Deus?

– Sim. Se preferir, fiscal deste que a senhora chama de Sonzai Seimei.

– E quem, ou o quê, é esse conglomerado?

– Excelente pergunta, major. Embora minha explicação seja um desafio para a sua descrença.

– Não interessa. Faça-a assim mesmo.

– Veja bem, major, o mundo humano é um reflexo, uma imagem, do mundo divino. Da mesma forma que o mundo humano tem estruturas sociais, hierarquias, governos e territórios, assim também é no mundo divino. Sonzai Seimei é apenas um pequeno funcionário de uma empresa chamada Elohim. Um funcionário medíocre, incapaz, incompetente e ineficiente, mas que conseguiu galgar os escalões da empresa até chegar a gerente distrital, responsável pela gerência de u setor que há tempos tem se tornado uma dor de cabeça para a diretoria, então entregaram o abacaxi para ele sem muitas perguntas. Mas nesse tipo de… mercado, eventos que ocorrem em um setor inevitavelmente atingem e influenciam outros setores, o que acarreta em prejuízos a outras empresas. Eu fui contratado por uma empresa chamada Annunaki que tem feito constantes reclamações aos Poderes Maiores contra esse gerentezinho. Então eu estou aqui para observar, coletar evidências, enviar relatórios e, eventualmente, agir conforme diretriz superior.

– A sua explicação é bem razoável e eu a aceito, apesar de não acreditar nessas existências nem nesse mundo divino.

– O que é compreensível, apesar de ser contraditório, major. Sua atual condição deveria ser mais do que prova suficiente para que a senhora questionasse sua certeza religiosa sobre a inexistência de Deuses e outras dimensões.

– Então você está ciente sobre a minha… condição.

– Oh, sim, eu recebi um belo dossiê antes de vir a campo.

Som de terra seca crepitando debaixo da marcha de um pelotão denuncia que alguns soldados estão perfilados e prontos para atirar. Soldados da República. Tanya escarra no chão de repulsa.

– Permita-me cuidar desse empecilho como demonstração de boa fé de minha parte, major.

– Você quer lutar contra um pelotão, sozinho, sem armas?

– Acredite, major, eu não preciso.

– Está pedindo um salto de fé de um descrente. Eu espero que não se importe que eu veja o que fará.

– Absolutamente, major, eu considero uma honra.

O misterioso garoto posiciona os braços e a mão como se segurasse uma bola e, aos poucos, acima da palma da mão, forma-se uma esfera feita de algo parecido com luz. Os soldados, em pânico, atiram, mas é inútil, os projeteis de chumbo ricocheteiam em um tipo de barreira. Como se fosse um piscar de olhos, a esfera estremece e tubos de luz estendidas vão certeiros feito flechas até seus alvos e os desintegra em chamas reluzentes.

Victoria cai ao chão de joelhos e Tanya arregala os olhos. Mas os restos calcinados não deixam duvidas do fenômeno acontecido. Não havia qualquer artefato, equipamento, arma ou tecnologia visível naquele garoto, mas ele conseguiu gerar e manipular algum tipo de energia. Isso impressionou Victoria, que ficava balbuciando litanias para Deus, mas não Tanya. Ela sacudiu a poeira que pousou em seu uniforme, ajeitou seu quepe e, destemida, aproximou-se do garoto.

– Muito bem, senhor Weinberg, eu estou impressionada. Talvez o senhor seja de alguma utilidade para meu objetivo. Eu ainda não sei que tipo de truque ou técnica o senhor usou, mas eu descobrirei uma forma racional, lógica e científica de como explicar esse fenômeno. Eu proponho que estabeleçamos uma trégua, nenhum de nós irá agir belicosamente contra o outro. O que me diz?

Tanya estica a mão como se costuma fazer para celebrar acordos e contratos. Sua expressão está calma e controlada, ao contrario da tenente Victória. Rhum olha diretamente para os olhos azuis como o Paraíso. Um rosto angelical, mas ali habita um demônio.

– Eu digo, por que não? Eu agora entendo o interesse de meus patrões na senhora. Ainda que seja contra as diretrizes da empresa, eu sou um mercenário e eu aposto que nossa convivência será, no mínimo, divertida.

Rhum aperta com firmeza a mão de Tanya e imediatamente há um silêncio assustador. Nuvens escondem o sol e cães uivam ao longe. No ponto de vista da tenente Victória, Tanya acabou de selar um pacto com o Diabo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s