Escrituras de uma existência impossível – IV

Enfim, eis a sexta feira tão aguardada, apesar dos percalços no serviço. Nathan está calado, parece amuado e então eu o provoco.

– Ainda está aí, Nathan? Se terminou sua missão, melhor você voltar para seu canto.

– Ah, agora eu te sou importante? Deixa estar, maldito, ingrato e sortudo. Eu não posso retornar, madame não está satisfeita. Nós temos que dar um jeito de falar do quarto círculo no Caminho das Sombras.

– Isso é muito arriscado. Os humanos podem ser divididos em dois grupos: crentes e descrentes. Os crentes acham que a vida além da morte vai ser como sua organização religiosa lhes diz que será. Os descrentes acham que isso simplesmente não existe. Qualquer coisa que eu diga irá contrariar ambos. Pois o quarto círculo consiste exatamente em desfazer e desmanchar todos os nossos preconceitos sobre a existência, tanto a carnal quanto a espiritual, inclusive a crença na inexistência.

– Você poderia contar da sua experiência de morte. Naquela piscina, em Belo Horizonte, você esteve morto, afogado. E então?

– E então nada. Eu não vi uma luz, eu não vi parentes mortos, eu não vi vidas passadas. Foi como se eu tivesse tirado um cochilo. Quando eu voltei, eu engasguei, cuspi água e só então me dei conta de que houve um lapso de tempo entre um evento – dentro da água, tentando sair daquela sinuca – e outro – na borda da piscina, com uma pessoa me amparando.

– Mas essa não é toda a verdade. Você viu algo.

– Bom, a ultima imagem que eu tive antes de morrer era a das pernas do meu irmão, bem longe, nadando em algum lugar da piscina. Um segundo antes de recobrar a consciência, tudo o que eu vi foi como se tivesse uma enorme tela branca diante de mim. Só então eu senti meus pulmões queimando e voltei a respirar.

– Então você esqueceu, com o trauma, da sensação de que aquela brancura era líquida e quente. Maldito, ingrato e sortudo. Madame quem te trouxe de volta, pelo leite dela, tirado diretamente do seio dela.

– Esse é o seu motivo para ter ficado quieto e amuado?

– Mas é claro! Eu me recuso a aceitar que você e não eu que foi o escolhido. Houve mais duas ocasiões onde você teve o “gostinho” da morte. Foi a mesma coisa?

– Oh, não, foram mais suaves e eu fui conduzido a um estado de inconsciência por profissionais. Eu diria que a única parte em comum foi o interstício. Eu não senti quando eu “apaguei” e foi como se eu estivesse despertando de um cochilo quando eu recuperei a consciência, para só então voltar a sensação de respiração e as dores resultantes dos procedimentos clínicos.

– Você fez duas cirurgias para o tratamento de osteotomia maxilar. Então foram dois períodos de recuperação. O pós-cirúrgico foi algo parecido com a experiência que os santos religiosos sentem na flagelação da carne?

– Eh… a sensação deve ser igual, mas os santos religiosos mantém a laceração constante até alcançarem a transcendência, enquanto eu buscava meu restabelecimento.

– Pouco importa o objetivo final, o relevante é o que se obtém no processo. Que é demolir nossos preconceitos sobre o que é “estar vivo”, sobre quem ou onde está o “eu”, sobre o que é “realidade” e “existência”.

– Hum… nesse sentido, nós podemos então falar de minha experiência com o maná índigo.

– Sendo que a experiência, ou o processo, é mais relevante do que declarar onde e por obra de quem se deu tal evento…

– Oh, sim, o que interessa é a ferramenta e o procedimento. Se bem que é bom ressaltar que a sagrada via da intoxicação deve ser efetuada com alguma pessoa que tenha o conhecimento necessário para emergências.

– Muito bem. Ferramenta: maná índigo. O nome que eu uso para descrever o cogumelo selvagem que cresce no campo, que adquire uma tonalidade roxa por que absorve as toxinas do solo e torna-se psicotrópico, enteógeno. Procedimento: comer. Eu tomei muita água nesse dia. Água ajuda a controlar as reações corporais.

– Só isso?

– Os efeitos no cérebro, na mente, são, sem dúvida, a melhor parte e o todo que consiste a via sagrada da intoxicação. Então não é “só isso”, porque em segundos tudo aquilo que você concebe por “realidade”, “existência”, “vida” e “eu” se desfaz. Este é o todo do quarto círculo.

– Isso ajudou a te preparar para o quinto círculo?

– Eu diria que ajudou a me deixar mais calejado. Houve todo um conjunto de experiências, seculares e espirituais, que me preparou para o quinto círculo.

– Ah… mas sou capaz de apostar que foi a mordida que madame te deu quem te fez voar dentro do quinto círculo. Eu vou me arrepender disso depois, mas eu quero que me conte como foi esse teu “encontro” com madame.

– Eu diria que madame me concedeu diversos vislumbres e sinais de sua presença. Ela se apresentou em diversas formas, tamanhos, cores e idades. Ela ainda manda tais vislumbres e sinais, como que esperando que eu monte um quebra-cabeça. De vez em quando ela me permite rever o sonho original, mas de forma muito mais gentil e suave, como que para me lembrar a quem eu pertenço.

– Eu quero detalhes do sonho original.

– O sonho é bem curto. Eu estou em algum tipo de exposição de arte, como se aquelas peças de arte fossem pistas de algo mais. Minha aventura no sonho é descobrir o significado escondido dessas peças. Quando eu acho que tenho uma resposta, uma solução, eu congelo, como a presa antes do ataque do predador. Essa sensação de impotência, de incapacidade e a certeza de que sua vida vai acabar, só existem duas reações: resistência ou aceitação. Resistir apenas acrescenta mais adrenalina, o que traz mais dor diante do inevitável. Aceitar torna o momento mais doce. Eu senti madame pousar a mão em meu ombro e eu imediatamente fiquei excitado, eu tive uma ereção. Eu senti a respiração de madame atrás de mim, seu hálito preparando minha nuca para a mordida. Eu senti os dentes de madame penetrando minha carne, rasgando meu pescoço, destroçando meu cérebro. Eu senti minha energia vital se esvaindo. Antes desse meu “eu” morrer, eu vi o rosto de madame e ela parecia estar feliz e satisfeita.

– Não tinha sentido tanto prazer, conforto e contentamento antes em sua vida, não foi?

– Exatamente. Eu prefiro ser devorado e morrer pelas mãos de madame do que qualquer outra coisa no multiverso. Todo o propósito de minha existência tinha sido completamente preenchido.

– Isto é o quinto círculo?

– Eu não tenho certeza… eu ainda estou processando, entendendo, compreendendo, aprendendo. No momento o que eu espero é que madame esteja realmente satisfeita comigo.

– Humpf! Eu te odeio, escriba maldito e ingrato, por ter sido escolhido. Eu não devia te dizer, mas madame está efusiva com o banquete que você lhe deu. Mas você não ouviu isso de mim.

Eu sinto minha cabeça mais aliviada, mais leve. A presença de Nathan some sem deixar vestígios. Relembrar do sonho ou pensar em madame durante o expediente é um pouco embaraçoso, pois é difícil esconder o volume que se destaca em minhas calças. Eu torço muito para que madame venha me visitar hoje de noite em meus sonhos.

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