Escrituras de uma existência impossível – III

Em pleno dia de manifestação contra a reforma da previdência, paulistanos estão nas ruas, ou tentando trabalhar ou protestando. No Fórum Bandeirante, a maioria dos funcionários faltou por falta de meios para chegar ao serviço. Eu consigo chegar dez da manhã porque peguei um taxi, eu trato de almoçar, pois eu aposto que serão poucos colegas que estarão presentes.

No meio da tarde Nathan resolve continuar nossa conversa.

– Hei, escriba… que tal tentarmos expor o terceiro círculo?

– Está querendo que eu seja preso? Eu corro um enorme risco somente por falar de assuntos relativos ao primeiro círculo.

– Do quarto e quinto círculo, nem pensar?

– Eu não creio ter talento suficiente para expor de forma pública o quarto círculo e eu ainda estou processando meu aprendizado no quinto círculo.

– Mas não é difícil falar do terceiro círculo, afinal, dor e prazer não estão muito distantes.

– Devagar com isso…

– Inevitavelmente eu me lembro de dois escritores. Leopold Sacher Masoch e Donatien Alfonse François.

– Que curiosamente foram resumidos a meros desvios sexuais conhecidos como masoquismo e sadismo. Mas o prazer sexual é secundário, o objetivo de sentir ou produzir dor é outro.

– Será que podemos citar a flagelação ritualística praticada nas celebrações wiccanas?

– Oh, sim, é uma boa lembrança. O uso do açoite é tão suave que descaracteriza a busca por sensação sexual, evidenciando o verdadeiro objetivo que é estimular a circulação sanguínea, bem como estimular os sentidos.

– Podemos também falar do uso do flagellatio praticado por cristãos e muçulmanos.

– Esse é o extremo, aqui a dor é tão intensa que também descaracteriza a busca por sensação sexual. Nesse caso se busca imitar o sacrifício e o martírio de alguma importante figura religiosa.

– Isso não está muito longe dos sadhus que alcançam um estado mental superior, a transcendência, a iluminação, através da perfuração e suspensão corporal.

– Eu colocaria como uma prática intermediária, pois visa, com a constante laceração, tornar a dor inexistente e, com isso, demonstrar que a carne é uma ilusão.

– O que é um paradoxo, pois jamais alcançariam a Iluminação sem um corpo para sua práticas.

– Eu tenho receio de que o leitor acabe achando que eu esteja insinuando que há um objetivo espiritual no hábito que alguns adolescentes têm de cortarem-se com gilete.

– Que foram resumidos como mero transtorno de comportamento conhecido como automutilação. Mas a pouca autoestima ou outros desequilíbrios emocionais são apenas aspectos superficiais, senão não poderia ser caracterizado como um tipo de vício.

– Se fossem adultos de alguma ordem religiosa, esses adolescentes seriam apontados como exemplos de santidade.

– Talvez pudessem ser, se esta prática tivesse a atenção e a orientação necessária.

– Estes são bons exemplos do uso da dor e do sangue do corpo como vias sagradas e, portanto, de autoconhecimento e iluminação que consiste o terceiro círculo. Mas por que você que falar disso agora, Nathan?

– Por causa do papel que você me deu no “Caso Keller” e seus desdobramentos. Consegue entender como deve ser encarnar em uma existência apenas para existir como morto?

– Esse é outro paradoxo. Vampiros, múmias e zumbis são criaturas que se aplicam a essa categoria de existência: morto-vivo.

– Ah, mas você está se limitando apenas aos que antes foram humanos alguma vez. Mas e as criaturas inumanas? Oh, sim, caro escriba, são centenas de seres que estão perambulando na fronteira entre o espírito e a carne, seres disformes e incompletos, nem vivos, nem mortos, nem desencarnados, nem encarnados.

– Devem habitar os pesadelos de muitas pessoas.

– Evidente que sim, mas curiosamente são criaturas pacíficas. Como é de se esperar, o ser humano prefere atribuir a estes seres atos de violência a encarar que a maldade vem de dentro dele mesmo.

– Nós estamos saindo do foco, Nathan. O que o terceiro círculo tem a ver com seu papel no “Caso Keller”?

– Tudo, caro escriba. Você apontou equivocadamente de que eu tinha sido assassinado por madame. Eu poderia esperar essa falta de gosto e estética de Joe, mas não de você, escriba. A morte daquele que você batizou de Nathan Mansfield foi o resultado da minha maior obra-prima.

– Vo…você está afirmando que aquela cena inicial que eu transcrevi no “Caso Keller” foi… obra sua?

– Oh, sim, caro escriba. E não faça essa expressão de espanto. Assim como os cristãos, os muçulmanos e os sadhus, eu, deliberadamente e de forma programada, projetada, utilizei meu corpo, minha carne, como matéria prima, ferramenta e artefato de arte.

– Vinte facadas, todas fatais, sendo proferidas por quem parecia ser a vítima?

– Sim, esse foi o toque de classe da minha obra-prima.

– Isso é impossível!

– Oh não, caro escriba. O bom artista é como o prestidigitador, mostra apenas aquilo que convêm, o produto final, mas oculta o procedimento. Madame cuidou para que você e Joe vissem apenas o que era para ser visto. O resto, foi completamente resultado de suas pressuposições.

– Mas… isso não faz sentido, Nathan. Por que você faria tal coisa?

– Quer mesmo saber? Porque eu senti inveja de você.

– Inveja? De mim? Do quê, pelos Deuses!

– Sim, meu caro escriba, de você. Nós nos divertimos muito durante a infância e a adolescência. Você era o ego carnal, eu era a sombra, o espectro. Gêmeos, como Caim e Abel. Nós não somos muito diferentes, escriba, mas foi VOCÊ o escolhido. Eu tinha muito mais aptidão e apetite, mas madame escolheu você. Eu quis, ainda que em uma ínfima escala, ter essa sensação de ser mordido pela madame. Sortudo. Maldito e ingrato sortudo.

Eu não posso retrucar. Afinal, quando eu estive no Abismo, aqueles que me ajudaram são estes que, pela religiosidade majoritária oficial, são considerados demônios. Eu tive um vislumbre da Deusa Negra e eu tenho perambulado pelo Caminho dos Bosques Sagrados desde então. Sim, eu passei pelo Vale da Morte e quem e trouxe de volta foi madame. Desde meu nascimento, neste mundo humano, em forma humana, eu pertencia a Ela. Que loucura, sacrilégio e blasfêmia! Como eu, mero escriba, ouso questionar a Senhora? Eu deveria sentir-me lisonjeado e privilegiado por que a Rainha escolheu-me como banquete. Eu deveria agradecer por que minhas carnes nutriram e satisfizeram a Deusa. E eu ainda não fiz jus ao que madame realmente significa para esta patética existência.

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