Escrituras de uma existência impossível – II

Eu e a manifestação começamos a rir e nos divertir, relendo os textos de minha juventude e relembrando nossas desventuras. Nathan parecia mais calmo, tranquilo, então nós lanchamos e depois fomos dormir. Eu deitei na cama e o espectro recolheu-se nas sombras da noite.

No dia seguinte, minha esposa olhava com apreensão, como se procurasse pelo estranho visitante. Eu a tranquilizei e garanti a ela [sim, eu menti] que a estranha criatura não voltaria a aparecer.

– Heh… você virou um bundão depois que casou.

– Nathan?

– Quem mais?

– Eu ouço sua voz, mas não te vejo. Onde você está?

– Heh… seus amigos ateus vão adorar essa parte. Eu estou na sua cabeça, onde eu sempre estive. Imagina se sua gente sabe que você ouve vozes, escriba?

– Isso não tem graça.

– O que prefere? Que eu encarne e fique me arrastando ao seu lado?

– Melhor não.

– Foi o que eu conclui. Nós podemos manter a comunicação mentalmente.

– Isso é o que eu sempre faço quando eu escrevo.

– Heh… o que sua gente vai pensar se souber que você “dialoga” consigo mesmo?

– Hum… que eu sou um escritor talentoso.

– Haha! Boa piada, escriba!

– Mas continuando o que conversávamos ontem… vamos continuar a expor o segundo círculo?

– Evidente. Madame assim exige. Podemos retomar a partir de onde paramos.

– Nós falávamos dos Caminhos da Luz.

– Perfeito! Combina com a releitura que fizemos de nossos manifestos. Nós percebemos o mundo através de nossos sentidos extremamente limitados e imperfeitos. O que nossos sentidos percebem é apenas uma pequena fração de um amplo espectro de sons, cheiros, texturas, sabores e cores. Mas vamos tomar a luz, uma vez que os olhos são a principal ferramenta de observação. A luz é como uma película que se espalha pela superfície do objeto e o que vemos é uma imagem gerada pela reflexão da luz, não o objeto em si mesmo. Portanto, aquilo que se observa, por mais objetiva que seja sua observação, é apenas uma aparência superficial.

– No entanto, atribui-se a esta imagem refletida, superficial, um valor de fato, evidência, verdade.

– Oho, estamos prestes a cometer uma heresia diante dos descrentes que acreditam piamente que a ciência está baseada em fatos e evidências.

– Bom, é estranho que o descrente baseie na ciência sua certeza religiosa na inexistência de espíritos, entidades e Deuses, sendo que o estudo da ciência versa sobre a matéria, o mundo material e coisas que podem ser coletadas, pesadas, qualificadas, medidas. Questões sobre o que é vida, seres vivos e existência são mais questões da filosofia e da religião.

– Nós estamos falando de objetos inanimados, mas temos que considerar a biologia e a ecologia que estuda os seres vivos.

– Interessante este dado. Vamos explorar. Quais dos seres são considerados “vivos”? A ciência não tem um consenso, pois seres unicelulares, bactérias e vírus são categorias de existências que ficam na fronteira do que é considerado “vida”. O que fazer com os fósseis? Aqueles são restos de animais que existiram há muito tempo atrás, mas deixaram de pertencer ao âmbito da vida, pois viraram pedra. E eu sequer estou considerando policísticos, fungos, anêmonas, águas vivas, que são seres complexos, mas estão na fronteira do que pode ser considerado “animal”.

– Eu fico imaginando os seres que habitam as profundezas do oceano. Isto é como se estivéssemos olhando vida alienígena de outro mundo.

– Isso também vale a pena explorar. Os seres vivos se adequam ao ambiente que os cerca. Na Venezuela existem formações rochosas que são como colunas de rochas. Em cada faixa dessas enormes formações rochosas habitam espécies específicas, como se fossem plataformas. Essa “estratificação” é observada no oceano, então espécies que habitam uma determinada plataforma não conhecem e nem poderão conhecer outras plataformas. O que eu proponho é a noção de que a ciência, por mais objetiva e prática que esta seja, é a visão da percepção de um ser vivo dentro de sua plataforma. Alteradas as condições ou elementos que perfazem essa plataforma, digamos, em níveis subatômicos, alteram-se as percepções e a “realidade” da plataforma. Eis minha segunda proposta – assim como há um nível subatômico, há uma hiper-realidade, outra plataforma onde será necessária uma adaptação para que haja uma leitura, uma percepção dessa “realidade”.

– Oho… parece que estamos chegando a algum lugar. Embora ainda seja uma teoria, alguns pesquisadores e cientistas afirmam que existem mais de uma dimensão no universo, mais de uma plataforma, para usarmos nossa analogia.

– Eu complemento com a noção de imagem, de reflexo criado, gerado pela luz, ao apontar que alguns teóricos e estudiosos afirmam que aquilo que nós chamamos de universo é apenas um holograma.

– Heh… mas isso para os descrentes é pseudociência.

– Nisso o descrente demonstra ser tão seletivo quanto o cristão.

– Eu cá fico imaginando como será quando a ciência desenvolver uma tecnologia capaz de evidenciar a existência de outras dimensões e que estas estão tão habitadas quanto esta que é apenas uma pequena janela dentro da imensa megalópole que é o Universo, cheia de janelas e edifícios.

– Eu cá fico imaginando o choque e a decepção de milhões de crentes ao se depararem com a miríade de espíritos, entidades e Deuses que habitam as Pradarias da Eternidade.

– Eu dei uma pista quanto a isto em diversos textos meus, falando da quinta dimensão.

– Pois eu gostei da analogia do peixe no aquário descrente que exista o oceano e as baleias.

– Isso vai deixar o leitor intrigado, caso ele tenha lido as obras de Howard Philip Lovecraft.

– Oh, mas existe essa possibilidade de nos depararmos com Cthulhu e os Deuses do Caos. Ou com os cenobitas da Ordem de Gash.

– Eh, assim nós vamos espantar a freguesia.

– Por quê? A morte é apenas um estado, uma consequência, um evento. Morre o corpo, não a essência que o anima. Como o ser humano pode voltar ao seu lar verdadeiro enquanto este não entender qual é sua verdadeira forma? Como o homem pode entender a necessidade da existência material sem fazer da carne um instrumento para o autoconhecimento? Para isso é necessário usar a carne como ferramenta, sem medo dos tabus e proibições. Você é muito preguiçoso ao insistir no prazer sexual como via sagrada. Explorar a carne significa desafiar outros tabus, como o medo da morte, a aversão ao sangue e aos dejetos.

– Hei, devagar, este é o terceiro círculo do Caminho das Sombras!

– Oh, é verdade. Nós ainda nem falamos de comer e beber. A via da santa intoxicação, por meio de enteógenos. Que sorte que você pelo menos aproveitou e experimentou o maná índigo.

– Ah, mas este lado negro do Ofício até os que se dizem bruxos negam ou querem proibir…

– Eh, isso é problema de sua gente. O Ofício é negro, o que fazem hoje em dia é, como você diz, bruxaria gourmet, uma bobagem alvejada e edulcorada.

– Tem até quem se diz legítimo iniciado que esquece o Senhor do Sabath!

– Argh. Eu que não quero coisa alguma com esse monoteísmo invertido, vade retro, Santa Ameba.

– Bom, a Bruxaria sobreviveu por milênios, sobreviveu contra todas as tentativas de expurgo feitas pelas religiões majoritárias, há de sobreviver a esses delirantes.

– Assim é, assim seja, assim se faça.

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