Escrituras de uma existência impossível – I

Nem sempre a interação entre escritor e personagem é tranquila e pacífica. Completamente refeito de minhas entrevistas com Riley, depois de um domingo celebrando a lua cheia de março em honra a Marte, eu sinto meus instintos felinos afiados. Tal como Garfield, segunda feira é funesto e hoje é dia treze. Segunda-feira Treze!

Eu chego em casa, cansado, com sono, com fome e estressado. Minha esposa está assustada e com razão. Ela me segura pelo braço e me leva com firmeza ao escritório que fica na edícula. Eu vejo meus livros jogados no chão e meus esboços esvoaçando pelo ar. Eu viro para minha esposa que diz com um olhar para que eu resolvesse essa intrusão. Eu observo a manifestação com mais atenção, pois isto, seja o que for, é uma existência impossível.

A criatura, se me permitem tal liberdade, tem uma estrutura física, sem dúvida, mas pedaços de ossos aparecem em diversos pontos, como se fosse um ente esquelético usando pedaços de carne como se fossem roupas. Mas não há sangue, nem tripas. A criatura é praticamente um esqueleto vestido de carne. Minha presença é percebida e “aquilo” resolve falar.

– Ah, enfim veio, escriba, criador maldito.

– Hã… quem ou o quê é você?

– Ah! Maldito! Malvado! Esqueceu-se daquele que usaste friamente com a única intenção de atuar como um corpo morto, um finado?

Eu espremo meus olhos, como se tentasse ler letras pequenas, tentando ver de quem ou de quê é esta essência. Visivelmente irritado e aborrecido, a criatura facilita dando uma dica.

– Madame mandou que eu viesse.

– Ma… Mansfield? Nathan?

– Ah! Ao menos se lembra do nome com o qual tu me batizastes! Sim, eu sou parte da sombra com a qual você, impunemente, trouxe à vida e confinou em um texto.

Eu agitei febrilmente minhas mãos na direção de minha esposa. Ela tinha que ficar de fora disso. Eu sinto um calafrio na espinha ao pensar em meus leitores. Eu não tenho certeza de que aguentam estes episódios.

– Pelos Deuses, Nathan! Você podia ao menos ter avisado!

– Ah, ingrato! Esqueceste do quanto nos divertimos em tua adolescência ao escrever teus textos sagrados como profeta do profano!

– E você, Nathan, esqueceu de quem sofreu e purgou fui eu…

– Oh… grande coisa… você me colocou em um texto para fazer o papel de um morto! Eu disse que foi madame quem me mandou?

– Hum… o que… madame quer de nós?

– Ela quer que você dê um passo adiante. Está ficando cansativa sua pregação pelo caminho da iluminação através do sexo. Você devia saber disso, ou ser mais sincero. Você está para completar 52 anos, a idade deve estar pesando. Mesmo se você tivesse a oportunidade de conhecer pessoas como suas garotas, você sabe muito bem que não teria o aparelho funcionando adequadamente.

– Madame… quer que eu fale do segundo círculo do Caminho das Sombras?

– Mas é claro. Seus leitores jamais irão sequer conhecer ou experimentar o primeiro círculo. Mas, com sorte, deve ter algum ousado e corajoso o suficiente pronto para receber a… “revelação”.

– Isso não seria um… retrocesso em meu progresso?

– Ora, ora… como você mesmo diz… pode-se afirmar, objetivamente, qual a direção do “progresso”? Vamos, ânimo! Não será pior do que seus ridículos textos apoiando o empoderamento de todas as pessoas.

– Como eu poderia começar a mostrar as outras formas pela qual a carne é um veículo importante e fundamental para todo e qualquer caminho espiritual?

– Que tal começar com um contraste? Qual é o objetivo dos Caminhos da Luz? Os Caminhos da Luz procuram alcançar a transcendência da carne, do mundo material. No entanto, todos os grandes profetas e iluminados somente conseguiram tal feito estando encarnados. Portanto, nós devíamos perceber este mundo, esta existência carnal não como algo distinto ou adverso à nossa ascensão, mas como igualmente parte do sagrado, do divino.

– Isto eu insinuo em meus textos onde eu coloco o desejo, o sexo e o prazer como vias sagradas.

– O que faz muito bem, a despeito dos inúmeros tabus e proibições sociais. Mas ainda é limitado. Satisfazer os apetites naturais pode parecer, por algum tempo, para aqueles que tiveram uma vida muito austera, com algo libertador, mas não é. Quando focamos nosso desenvolvimento espiritual somente na autossatisfação, nós acabamos sendo dominados pelo corpo. Não existem atalhos para o desenvolvimento pessoal e espiritual senão pela conquista da maestria sobre si mesmo. Você descobriu isso por si mesmo, com alguma prática e teoria: disciplina é liberdade.

– Hum… isso pode soar que eu estou admitindo que a castidade e o celibato são igualmente práticas que podem nos conduzir ao nosso estado superior.

– Indulgência e abstinência são lados de uma mesma moeda. Assim como a autossatisfação esgota a si mesma, a abstinência se aniquila ao idealizar a santidade como algo externo, incorpóreo. Aliás, o que seria do comércio religioso sem a venda de indulgências por aqueles mesmos que condenam o pecado? O que seria de muitos templos e castas sacerdotais sem a providencial necessidade humana de buscar por corrigir seus erros, suas máculas, seus pecados diante do sagrado, do divino? No entanto, não são todas essas coisas igualmente obra e natureza divina?

– Isto eu declaro abertamente. Todo que existe é uma manifestação divina. Não há coisa alguma existente que não seja uma manifestação do divino. Toda ação da natureza é um ato divino.

– Tudo muito bom, tudo muito bem, mas… e a dor, o sofrimento, o Bem e o Mal?

– Estas questões são muito bem exploradas pelos Caminhos da Luz e são curiosa e igualmente exploradas pelo descrente. Bem e Mal são categorias morais humanas, não pertence ao divino. Apenas na imaginação e julgamento humano um ato é considerado por seus efeitos como benéfico ou maléfico, tais coisas são completamente inexistentes e ignoradas pela natureza, pela vida, pelo mundo, pelo universo, pela existência. Daí a máxima que eu digo: as coisas são como são, não espere uma justificativa ou explicação moral, porque não há, a vida é amoral. Quanto à dor e ao sofrimento, isso faz parte da nossa natureza física e carnal ao qual todo ser vivente está sujeito. Nós somos provavelmente a única espécie que choraminga por causa disso. Por sermos carnais temos fome, sede e adoecemos. Mas temos inteligência e capacidade para superar estas coisas, no entanto, preferimos estocar comida visando lucros a alimentar nossa própria gente e culpamos os Deuses pela miséria e fome. Pois é também pela mesma ganancia por mais terra, mais dinheiro e mais poder que o homem encontra as mais diversas justificativas para fazer guerra e matar sua própria gente e nós culpamos os Deuses pelas mortes de inocentes perpetrados por organizações humanas, tanto seculares quanto religiosas. O descrente acusa a religião como se todas as religiões fossem iguais, convenientemente esquecendo que toda a nossa cultura, incluindo ciência e tecnologia, foi descoberta e desenvolvida pelos povos antigos, todos religiosos.

– Sem dúvida, sem dúvida… mas fazendo o papel do advogado do adversário, toda nossa cultura poderia muito bem ter surgido e se desenvolvido sem a necessidade de religião ou de pessoas religiosas.

– Eu não nego isso. O que é inconcebível é querer condenar e erradicar toda forma de religião unicamente pelos crimes cometidos por organizações religiosas. Seria o mesmo que querer condenar e erradicar toda forma de esporte unicamente pelos crimes cometidos por torcidas organizadas de times de futebol.

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