Retalhos de textos – IV

Eu recobro minha consciência no mesmo sábado de noite, minha esposa escolhe um filme na Netflix. Eu me encontro incrivelmente incólume. Eu noto que Riley não está conosco e sinto fome.

– Ah, você acordou.

– Eu… dormi muito, querida?

– Você apagou por duas horas.

– Eu devo estar ficando gagá, mas… eu fui te buscar no serviço às treze horas?

– Sim, você está ficando velho. Você até levou Riley para ir me pegar no serviço. Pena que Riley teve que ir embora. Ela é uma menina tão boazinha!

Isso não faz o menor sentido. Eu imagino que eu e Riley fomos corporalmente deslocados para outra dimensão… ou eu fui duplicado por alguma emanação de ectoplasma.

– Ah, é! Antes de ir embora a Riley deixou esse pendrive para você.

Eu suei frio pensando no conteúdo daquele pendrive, mas tive que conter minha ansiedade e nervosismo. Eu guardei como se fosse algo comum, assisti ao filme escolhido e depois fomos dormir. Isto é, eu tentei dormir. Eu tenho dificuldade de dormir quando fico com algo martelando na cabeça.

Domingo é nosso dia de descanso, nós acordamos bem mais tarde e não temos pressa de tomar café. Eu deixo minha esposa vendo as revistas eletrônicas que empesteiam as emissoras comerciais e então eu insiro o pendrive deixado pela Riley no laptop que eu comprei em Orlando. Eu tenho que fazer cara de paisagem e usar o fone de ouvido. Diversos vídeos de curta duração são muito explícitos para descrever. Mas as imagens confirmam minha suspeita, pois ali o que eu vejo é meu Self, o reflexo do Deus da Floresta.

Mesmo assim eu devo guardar em uma pasta com senha. Mesmo se eu considerar que Riley não é uma existência real no mundo humano, afinal originalmente ela é um ser zoomórfico do mundo furry, ainda assim eu vivo em um mundo onde isso seria considerado pornografia, algo que está se tornando um crime. Depois de pouco mais de cinquenta anos da Revolução Sexual nós voltamos a ser Puritanos. E a manifestação de Riley no mundo humano perigosamente aparenta a de uma jovem mulher. Meus ouvidos soltam fumaça, embora eu considere isso uma forma integrante de um ritual pagão. O celular entoa a música de chamada do whatsapp. A chamada é da Riley. Eu acho que ela quer me fritar.

– E aí, escriba? Gostou? Eu gostei.

– Riley, pelos Deuses! Nem mesmo meus ensaios mais ousados eu poderia transcrever esses vídeos.

– Isso soa estranho, vindo do senhor, mas não se preocupe. Estes vídeos foram feitos com tecnologia mística, estão criptografados, no mundo humano só você pode vê-los.

– Querido quem é?

– A Riley, meu amor.

– Ah, que bom! Oi, Riley!

– Oi, senhora escriba.

– [risos] Eu ainda não me acostumei com isso. Nós vamos fazer churrasco no próximo domingo. Venha nos visitar, conhecer toda a família, que tal?

– Eu posso levar meus amigos?

– Claro que sim, meu anjo! Traga todos!

Eu tento não entrar em colapso ao imaginar minha família no mundo humano interagindo com os seres que são minha família no multiverso.

– Desculpe, querida, mas eu tenho que continuar minha conversa com Riley em particular.

– Ah é? Olha, sorte sua que eu não sou ciumenta. A Riley é praticamente minha sobrinha. Mas vocês precisam de um tempo, para discutir roteiros, diálogos e cenas. Fiquem à vontade.

– Desembucha, Riley. Por que você me whatsappou?

– Poxa, eu pensei que você gostasse e estivesse com saudades de mim…

– Eu te disse, Riley, a situação aqui é arriscada…

– Por isso mesmo que eu liguei, ué. Para te emprestar minha voz e me usar para você expor sua filosofia profana.

– Não é assim tão fácil. Tem que parecer natural, voluntário, real.

– Ué, se tiverem algo a reclamar que venham me encarar. [melhor não, Riley]

– Bom… nós paramos no que ou quem mudou a minha “quadratura”.

– Eu acho que foi um conjunto de coisas e pessoas que me ajudaram a dar um passo adiante. Mas a decisão final foi minha mesmo, quando eu senti que estava pronta.

– Mas… e o Osmar?

– Ah… Osmar… [risinhos safados] ele ajudou a “tirar a tampa”. Mas se eu não convivesse com Vanity e não conhecesse as meninas, a “garrafa” estaria vazia.

– Você está afirmando que sempre foi… pervertida?

– Eu acredito que todo mundo no fundo é tarado. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade, certo?

– Sim… mas permitimos que a sociedade nos reprima e nós aceitamos ter essa vida sexual frustrante, cheia de regras e tabus.

– Bom, de outra forma não haveria mais-valia e expropriação da riqueza produzida pelo trabalho…

– Nós precisamos melhorar isso, Riley. Como a repressão sexual funciona como parte do sistema capitalista?

– Hum… vejamos… o trabalho regido pelo capital depende da desumanização, da despersonalização. A fonte de energia mais brutal e básica que nos torna humanos é nossa sexualidade. Ao canalizar a energia sexual para o trabalho, aperfeiçoa-se o volume produzido e, consequentemente, o lucro.

– Isso está ficando bom. Só falta encaixar tudo isso na incoerente necessidade da sociedade em tolerar a prostituição e a pornografia.

– Hum… que tal assim… forjada a vergonha, a rejeição do corpo [desumanização] e do prazer [despersonalização], para complementar a alienação é preciso tornar o sexo algo sujo, vulgar, pecaminoso [eu sinto que isso é evidente na civilização ocidental, com o predomínio
da religiosidade judaico-cristã]. Hum… sim… o Cristianismo floresceu entre servos e escravos, manter a desigualdade econômica é tão importante quanto manter o controle social. A prostituição e a pornografia, tal como são produzidas e comercializadas, institucionaliza a supremacia masculina e justifica o patriarcado. São produtos desenhados para ressaltar as “normas sociais” de identidade, personalidade, preferência e opção sexual.

– Perfeito! Isso explica porque a sociedade resiste tão tenazmente contra o aumento dos direitos e liberdades de expressão sexual. Por isso que a contestação e resistência ao sistema perpassam por uma apropriação da pornografia e torna-la uma expressão democrática da sexualidade das pessoas. Eu diria mesmo uma ressacralização do corpo, do desejo e do prazer. Ao invés de prostíbulos, hieródulos.

– Os movimentos sociais estão assimilando isso. A mulher está retomando a posse de seu corpo, está se empoderando e se afirmando socialmente ao se colocar não como objeto, mas como sujeito sexual. A nudez está sendo resignificada como discurso de autoafirmação social.

– Sim, sim, muito bom! Através do corpo, desejo e prazer, uma verdadeira Revolução será possível!

– Eu até me sinto uma privilegiada. Pois a simples existência de pessoas intersexuais e transgênero, como eu, pode tornar possível um mundo melhor para tod@s.

– Um mundo onde haja consideração e respeito aos direitos erótico-afetivos de tod@s.

– Um mundo onde tod@s terão o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente.

– Um mundo onde deixem de existir padrões arbitrários de gênero e de relacionamento.

– Um mundo onde uma pessoa será reconhecida como tal, independente de sua origem, sua etnia, sua língua, sua crença/descrença e sua posição política.

– Um mundo onde toda pessoa terá o direito e a liberdade de decidir sua identidade, personalidade, preferência e opção sexual.

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