Retalhos de textos – II

Meu corpo dói quando eu acordo. Coisas da idade. Minha esposa ainda dorme enquanto eu preparo o café. Meia hora depois, enquanto a “dona da pensão” toma café, eu me arrumo para leva-la ao serviço. Ela ainda toma mais meia hora para acabar de se arrumar. Seis e meia eu a deixo no serviço e volto para casa e durmo até nove e meia. Dez em ponto eu estou embarcando no ônibus e até onze eu entro no meu serviço. Essa é a rotina básica.

O telefone interno toca, eu atendo e um colega da portaria anuncia a chegada de uma visita. Intrigado, eu vou até a portaria, mesmo porque eu precisaria dar autorização pessoalmente para a visitante entrar. O cabelo laranja de Riley refulge como ouro na luz do meio dia. Ela veste um uniforme de colégio e eu sinto estar encenando algum anime. Meu colega está evidentemente confuso, pois a aparência masculina de Riley destoa de seu uniforme de colégio. Eu levo alguns minutos para esclarecer a presença da Riley, mas meu colega não parece muito interessado na peculiar sexualidade da Riley.

– Não vem com suas loucuras, escriba. Ele… ela…”isso”… é problema seu.

Eu dou de ombros, ajeito o crachá em volta do pescoço da Riley e aproveito para dar um beijo e um abraço nela. A risada dela é forte, mas é bem feminina. O coitado do meu colega fica em estado de choque enquanto eu passo pela catraca com ela envolta em meu braço.

– Nossa… senhor escriba… assim vão pensar que nós somos namorados…

Um contraste interessante ver uma garota tão grande e forte ficar enrubescida e envergonhada por estar ao meu lado. Eu a deixo mais solta, seria bastante confuso se minhas colegas achassem o mesmo. Eu faço algumas apresentações, amenas, superficiais que, para todos os casos, a Riley é minha “sobrinha”. Minhas colegas pressupõem que Riley é uma atleta ou ginasta por causa de seu corpo definido, mas tudo aquilo em Riley é a natureza dela.

Avançamos e eu a levo para o setor operacional, o “calabouço”, onde eu trabalho em conjunto com outros colegas e terceirizados. Inevitavelmente são feitos piadinhas e são ditas palavras de duplo sentido. Meninos de diferentes idades são muito inseguros de sua masculinidade. Eu estou acostumado com essa masculinidade encenada, mas Riley fica incomodada. Para disfarçar e distrair, eu começo a mostrar para ela o que nós fazemos todos os dias, de segunda a sexta. Sem atenção ou audiência, a zoeira acaba.

Uma em ponto eu levo Riley para almoçar comigo no refeitório. Para minha sorte, ela não está com fome, eu só tenho uma marmita. Os demais funcionários estão tão ocupados em forrar o estômago ou em fofocar com suas panelinhas que nós passamos despercebidos. Riley parece estar observando uma criatura extravagante enquanto eu movo o garfo da marmita para minha boca. Isso parece ser algo inusitado para todos os habitantes do multiverso, aparentemente não existe a necessidade de se alimentar, de ingerir líquido ou de ir ao banheiro. A sensação inconveniente desaparece quando Riley, enfim, se põe a falar.

– O senhor faz isso… tipo… todo dia?

– De segunda a sexta.

– O senhor tem que se deslocar de sua casa, ocupar um veículo público em um sistema ineficiente, tem que cumprir um horário bem definido e desempenhar uma função bem determinada… por oito horas ao dia, por cinco dias?

– Hã… sim… é isso que se chama “trabalho”.

– Isso não parece nem um pouco prazeroso ou satisfatório… por que o senhor trabalha?

– Bom, Riley, essa é a única maneira de eu e muitos ganharmos um salário para nos mantermos.

– Tipo… o senhor tem que trabalhar para poder comer?

– E pagar as contas, taxas, impostos…

– Isso não faz o menor sentido… isso é ser adulto?

– Não é nem um pouco agradável…

– Isso é loucura, totalmente irracional! Mas tem muito menino e menina que não vê o dia que vai se tornar adulto.

– Eu imagino que haja algum motivo.

– Bom, o senhor também foi adolescente, então deve saber.

– Ah, sim. Geralmente por algo que se quer fazer, mas há uma proibição por que se estipulou que algumas coisas não são próprias para crianças.

– Isso também não faz o menor sentido. Por acaso na sua época proibir resolveu algo?

– Não. Os garotos e garotas davam um jeito para consumir cigarro e bebida alcoólica. Sexo então…

– Isso acontece no multiverso também. Eu vejo meus colegas achando que ser adulto é fumar, beber e transar. Mas vendo como é sua vida, ser adulto é muito mais do que isso.

– Bom, eu não posso falar por todos os ditos adultos… muitos só tem a idade, não a maturidade, mas a vida adulta é cheia de responsabilidade e compromisso.

– Eu acho que entendo agora quando o senhor falou de estarmos vivendo em uma sociedade doente. A vida do adulto parece ser regrada por rotinas!

– E regras, tabus, proibições… mais do que os que vocês têm que aturar.

– Nossa… eu é que não sinto a menor vontade de me tornar adulta.

– Bom, no meu ponto de vista, você é mais madura do que muitos ditos adultos por aí.

– Heh… isso também é bastante confuso. Maturidade não tem coisa alguma a ver com a idade. Ninguém vai segurar alguém com pressão psicológica. Quem quiser fumar vai fumar, quem quiser beber vai beber…

– Quem quiser transar vai transar. No universo de Nayloria existe até uma celebração para isso.

– Sim, tem… a Vanity ficou falando disso por meses na escola. Antes e depois do Dia da Iniciação. Eu achava tudo isso muito besta.

– Mas parece ter mudado de ideia depois de ter conhecido Osmar.

Pega desprevenida, Riley arregala os olhos e fica lívida para, em seguida, ficar roxa como berinjela. Ela ainda não tinha encarado sua experiência e ainda não tinha conversado sobre isso com ninguém. Bom, eu não estou de olho roxo, então ela quer falar.

– Bom, eu acho que eu devo te agradecer…

– Eu?

– Sim… Osmar me mostrou o texto que o senhor escreveu contando a estória dele. Eu meio que me senti reconfortada. Foi realmente muito gentil como o senhor transcreveu a peculiar natureza de Osmar. Foi como se eu estivesse sendo descrita.

Meu horário de almoço termina com o pensamento e o assunto, soltos no ar. Eu tenho que dispender mais cinco horas de excruciante rotina tediosa antes de poder tentar retomar a emenda. Oito da noite eu estou liberado, desta vez contando com a agradável companhia da Riley.

– Puxa vida… depois que anoitece até parece que estamos em outra cidade, em outro mundo.

– Dependendo da região da cidade, mesmo de dia existem outros mundos…

– Ah é… o pessoal fez um trabalho sobre isso… desigualdade social. Eu não entendo como a sociedade produz um sistema que gera desigualdade e as condições de pobreza, miséria e crime.

– Bom, a sociedade é estruturada conforme o sistema… é absurdo, mas as pessoas acham isso normal.

– Pois ainda é loucura e irracional. Gente que é escravizada, mantendo um sistema que produz discriminação, preconceito e desigualdade.

– Heh… se eu fosse um psicólogo, eu diria que essa minha benção e maldição é uma forma de escapar dessa realidade.

– Pois eu gostaria que você “escapasse” mais… senão como eu vou te contar a minha estória?

– Hum… falta pouco para o sábado. Que tal eu, você e o Osmar irmos passear juntos?

Riley aparentemente fica amuada, olha para o chão como se fosse tímida, junta as mãos acima dos joelhos e torce os dedos, como se estivesse apreensiva.

– Huh… eu… eu estava pensando… Osmar é legal… mas sabe… tipo… eu queria um tempo só nosso.

Eu ouso arriscar e provoco.

– Não tem receio de sair com um velho pervertido?

E tomo o troco.

– Eu ficarei muito chateada e brava, se você não for um velho pervertido.

Antes de embarcar no outro ônibus que me levaria para próximo de minha casa, Riley devolve o beijo e abraço que eu dei.

– Por hoje é só. Nos vemos no sábado, oquei?

– Oquei.

– Durma bem e tente não sonhar coisas comigo hem?

Rapidamente ela escapa pela fenda dimensional, dando tchauzinho com as mãos. Eu fico pensando se isso é algum plano da Deusa. Felizmente a semana foi cansativa e eu não tenho problemas em dormir. Mas sonhos… sonhos não podem ser controlados.

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