Política Esquizerdista

[Série Política Esquizotrans]

João Pereira Coutinho escreveu em sua coluna:

Resumidamente, o manifesto [de Mark Zuckeberg] deseja construir um futuro perfeito. E que futuro é esse? Fácil: um futuro sem pobreza, sem guerra, sem angústia, sem solidão.

“Estamos a construir o mundo que todos queremos?”, pergunta o profeta Mark. Não, meu filho, não estamos. Cada um constrói o mundo que entende porque a ideia de um propósito comum só existe na cabeça de um fanático. Pior: de um fanático que acredita falar em nome de “todos”.

Mas imaginar o sr. Zuckerberg em tais preparos, para além de esteticamente arrepiante, é politicamente aberrante: aquilo que define a espécie humana é a diversidade de interpretações e soluções sobre qualquer assunto social.

O interessante não é o que o conservador diz, mas o que está subentendido no texto. Nisso, JPC é coerente, pois o conservador sonha em manter o mundo tal como está, onde 8% concentram 85% das riquezas e 71% são miseráveis. Os catequistas do neoliberalismo resumem por “meritocracia” essa defasagem imoral, mas o sistema capitalista é mantido exatamente porque está baseado na desigualdade social e econômica.

Eu recomendo ao meu leitor que leia os livros do economista Ha Joon Chang para entender como o sistema capitalista funciona de verdade e porque o neoliberalismo é o maior responsável pela enorme crise econômica mundial.

A psicanálise pode deslindar porque alguém de classe média apoia e sustenta um sistema que o explora e o expropria. A psiquiatria deve ter diagnóstico do porque um privilegiado utiliza sua formação acadêmica para defender um sistema que é o maior patrocinador de guerras, genocídios e ditaduras.

Então deve ser loucura mesmo, querer que exista justiça social e econômica. Os fascistas, reacionários e conservadores gostam de usar o termo “esquerda caviar” para pessoas de classe média, com ou sem formação, que se recusam a perpetrar esse sistema e apregoam publicamente os ideais da esquerda. Para isso, eu encontrei o conceito de “política esquizerdista” para definir essa loucura que acomete pessoas que, a despeito de seu conforto e privilégio, lutam para que mais pessoas possam ser incluídas na sociedade.

Para tentar definir a política esquizerdista, eu vou traduzir alguns textos trocados entre alunos em um fórum da Universidade Nova Gales do Sul.

O aplicativo que administra o fórum é chamado de Empyre [Império] e a definição foi dada quando Brian Whitener abriu um assunto intitulado “Para o Brasil com amor”.

Brian pergunta para Fabiane e Hilan:

O que significa trabalhar de maneira errática? Vocês podem dar um exemplo pelo livro “pornografia esquizotrans”? O que é esquizerda? Como é a organização da comunidade trans ou esquizesquerda no Brasil?

Fabiane e Hilan respondem:

Uma das idéias omnipresentes do esquizerda é a da proliferação. Queremos estar do lado do transhumano, dos excessos, do que escapa das fronteiras e contentores.

Pode-se encontrar aqui um compromisso com uma ontologia de potências, uma ontologia de itens que hospedam possibilidades.

Nós modelamos nosso equipamento político na provocação, na sedução, no atrito; nós estamos interessados no excêntrico, em movimentos de deslocamentos, em todos os tipos de recombinações.

O mundo está cheio de materiais, velocidades, intensidades e forças para serem recombinadas, deslocadas e curiosas.

Na verdade, supomos que não deveria haver espaço na política para odiar o mundo e fazemos a esquizerda para ser apenas sobre filtragens, cercas ou senhas – é mais sobre uma confederação do que vai embarcar. Não é sobre inclusão, mas sobre inadequação – encontrar maneiras, sempre que possível, para torná-lo ainda menos adaptado.

Estamos à esquerda de qualquer poder estabelecido – incluindo o do consumidor individual, do detentor de dinheiro e do dono da propriedade. Tomamos a propriedade como uma restrição – defendemos que proliferar é fluir.

Também tomamos uma posição contra a imagem das pessoas como monarquias subjetivas onde um rei coroado reina sobre a terra (o corpo, os desejos, as potências, os itens supérfluos que poderiam ser a semente para novas singularidades).

Nossos corpos são mais como plataformas para mágicas e personagens diferentes acontecerem, fluírem através de nós – nós somos feitos do material que é feito as casas de Santeria. Nós tendemos a engajar a favor de ver o corpo não como propriedade de alguém, mas como uma configuração de potências singulares.

A tentativa de experimentar o alcance do corpo tem sido nosso desafio diário, tanto quanto ampliar a percepção dos símbolos corporais que não encontram lugar no padrão inteligível.

Nós celebramos os estranhos movimentos humanos que não estão organizados em grupos, partidos ou sindicatos, mas insistem em encenar certos gestuais que desafiam nosso olhar forjado em uma lógica que nunca teve espaço para todos e talvez nunca tenha tanto espaço quanto haja singularidades.

Nós não seguimos muitos dos valores tradicionais da pré-esquizo-esquerda – [a
junção de esquizofrenia e esquerda é uma criação recente, então parece-me
confuso falar em uma tendência esquizo-esquerda anterior ao que Fabiane e Hilan
estão construindo-NT] teve como igualdade entre todos: pessoas possuem diversidade e para se desenvolverem precisam de oportunidades diferentes.

O lema será algo como: deixa fluir, deixe a inspiração acontecer, deixe o devir conspirar. Como diz um grafite de 1968: ser reacionário é justificar e aceitar a reforma sem deixar florescer a subversão.

Para mencionar algumas questões cruciais muito brevemente: queremos encontrar maneiras de nossas vidas fluírem e proliferarem mais do que o capital – mesmo que às vezes temos a impressão de que estamos indo eventualmente de mãos dadas com ele. Tentando não ir contra ele, mas sim em velocidades diferentes – mais lento ou mais rápido do que a forma como flui. Ou tentando usar sua energia para promover outros fluxos.

A esquizerda considera naturalmente o erro como parte do esforço de proliferação. [Sendo] contra o julgamento da ação em termos de seus fins, promove o erro e celebra o Internacional Errático [aqui deve haver uma referência à Internacional
Socialista-NT]. Vida e erro são companheiras de armas.

Trabalhar de forma errática é permitir que a ação vá junto com o pensamento, para melhorá-la, por assim dizer. Em vez de planejar tudo, deixe a ação seguir seu curso: o desempenho subversivo é sobre a coragem de desafiar, até mesmo a coragem de desafiar a ideia de que um fim (específico) deve ser alcançado. Erratismo para nós é também captar o momento: sem ensaios – vamos improvisar o improviso.

Nós temos promovido eventos que combinam questões como: excêntrico, software livre, ruído, música electrónica, música de fontes de ribeirões, ativismo mediático, ativismo urbano, prostituição. Nós tentamos criar ambientes que possam intensificar algumas variações singulares … e podemos chamar isso de esquizo-análise … nós levamos essas discussões para o campo da experimentação imprópria através de todos os tipos de máquinas humanas e não-humanas para amplificar, intensificar, propagar e promover alguma imersão em um ambiente barulhento. Tomamos o ruído como crucial – um elemento das nossas reflexões sobre a democracia.

Nossos próximos eventos vão fazer o barulho ainda mais central. Nossas ações passadas envolveram eventos com pessoas sem-teto em São Paulo, na luta pela abolição das instituições de saúde mental em Brasília, denunciando a prostituição indígena em Manaus (Amazônia), na Eroticomia [economia erótica-NT] no Rio, promovendo a dança do Balleckett em encontros feministas, fazendo parte da submidialogia e etecetera na Bahia. Em todos esses casos, experimentamos as ideias de imersão, produção coletiva e da micro-esquizo política [aqui há referência do âmbito da política –
macro ou micro – em combinação com esquizofrenia, que deixa de ser uma palavra
que define uma doença psiquiátrica/neurológica para tornar-se uma tendência
artística-NT].

Estamos tentando fazer algo do que mencionamos no “Manual de Pornografia Esquizotrans”. É, sobretudo, sobre intersexualidade e erotismo transexual – estravagância e cibergênero.

Finalmente, sobre o movimento no Brasil. Nós estamos começando algo [esperamos] que tenha reverberação no “Movimento Queer” e em alguns círculos feministas.

Nós nos consideramos uma renovação da Nova Esquerda, nossa ênfase é na subversão: nós consideramos a subversão como capaz de ser tão contagioso quanto o capital. Vamos espalhar.

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