Arquivo mensal: março 2017

Por quem os sinos dobram

Ah, caprichoso e impassível Cronos! Peso e balança de todo ser vivente nessa efêmera existência. O tempo passa e nós voltamos para o ventre de Gaia de onde saímos. Por dez dias Tanya e Victoria tiveram uma vida impossível de sonhar. Gastaram todo o dinheiro que ganharam com a Operação Longinus e aproveitaram cada minuto de ginástica erótica. Dez dias de felicidade para um soldado acostumado ao campo de batalha é uma eternidade.

Victoria ronronava enquanto Tanya acariciava seus cabelos castanhos. Tanya suspira por pensar que falta apenas mais um dia da folga. Os últimos dias ao lado de Victoria foi como vivenciar um sonho. Como seria voltar ao batalhão, ao campo de batalha? Como ela poderia enfrentar uma luta sem pensar por um segundo em sua amada?

– Eu sou uma idiota, uma besta. Justo eu, que sempre disse e achava que o amor é vício e veneno, mas eis-me aqui, com o coração nas mãos, sem saber o que fazer.

– Mm… hmmm… Tascha? Já amanheceu?

– Sim, minha gatinha preguiçosa e manhosa.

– Puxa vida… eu estou toda arranhada e dolorida… nós fizemos uma farra e tanto nesses dias, né?

– Nós aproveitamos ao máximo esse momento mágico e especial. Eu queria ficar o resto de minha vida em seu braços, mas amanhã é o nosso ultimo dia de folga.

– Hmm… eu sei… [bocejo] O que faremos quando voltarmos?

– Nós teremos que retomar nossa rotina, esconder o nosso amor.

– Eu… eu não sei se consigo… se eu vou suportar… a dor de pensar em sua vida em risco…

– Aww… minha preciosa… eu também ficarei preocupada com você. Mas é importante que cuidemos de nós para que possamos continuar juntas. Eu sempre voltarei para você, custe o que custar.

Tanya faz menção de abraçar Victoria, mas a cena congela como se fosse uma fotografia em terceira dimensão.

– Então agora você se importa, agora você ama.

– Seimei! Maldito seja!

– Você não está mais em sua posição de superioridade. Imagine isso o que você sente por essa garota e multiplique por bilhões e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso que você sente pela minha gente não é amor! Você é incapaz de amar! Você quer que nós sejamos cegos, obedientes e serviçais como se nós fossemos seus animais de estimação!

– Você não está captando a sutileza dessa ironia. Você está apenas na emoção imediata do amor e da atração sexual. Mas e depois? Não quer cuidar dela, protege-la? Multiplique por bilhões de vidas e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso tão pouco o faz! Doenças, fome, miséria! Nessa encarnação onde você me jogou eu estou testemunhado uma guerra! Onde cada lado alega estar lutando em seu nome! Não, você não merece a nossa adoração. Você não merece o título de Deus.

– Você está sendo emocional, descrente. Pensa como humano e faz escolhas humanas. Todos estes males com os quais me acusa, são causadas por sua gente, não por mim.

– Ah, que conveniente! Alega ser Onipotente e Onipresente, mas quando a responsabilidade chega, empurra para nós?! Que amor é esse? Que zelo e cuidado é esse?

– Você continua agressiva e resistente. Isso é inútil. Mesmo recusando, eu ainda sou Deus. Na sua posição atual, é bom rever suas convicções, descrente. Eu posso facilmente privar-te dessa garota que você ama.

– Não ouse tocar em um fio de cabelo de Visha! Senão eu… eu…

– Eu o que, descrente? O que pode fazer? Contra algo que, segundo você, não existe? Você terá que admitir que eu existo. Então o que fará? Como pode me alcançar? Como pode me tocar? Como pode me impedir?

Tanya envolve Victoria em seus braços e fica olhando para todos os lados, como se a protegesse de um inimigo invisível. Ela está com tanta fúria, ódio e raiva que seus cabelos ficam eriçados. Não tem arma alguma próxima, apenas os talheres de alumínio do hotel.

– Eu juro que vou arrancar sua cabeça, Seimei!

A voz de Tanya sai com tanta força que acorda todos naquele corredor e algum funcionário do hotel bate na porta, perguntando se estava tudo bem. Tanya consegue apenas grunhir, o que espanta os intrusos. Demorou alguns minutos, mas Tanya notou que estava muito quieto. Quieto demais. Não havia mais o pressentimento da presença de Seimei, mas certamente tinha alguém ali.

– Qual o problema, Seimei? Com medo de uma garotinha?

– O ente, conhecido como Seimei, autointitulado Deus, foi imobilizado e conduzido até o Elohim para ser julgado e condenado por seus crimes.

– Senhor Weinberg?

– Ao seu dispor, major.

– O que o senhor está fazendo aqui?

– Eu lamento que tenha passado por tantas coisas desnecessariamente, major, mas assim como a senhora, eu tenho minhas ordens e meus superiores.

– Quer dizer que… essa era a sua missão?

– Infelizmente meu oficio me proíbe de entrar em detalhes, major. Conversamos mais tarde, quando a senhora retornar ao acampamento da 203ª.

O estranho mercenário some entre as sombras do quarto e o relógio retoma seu movimento e sons. Victoria estica os braços e boceja.

– Hei, Tascha, o que vamos fazer nessas ultimas 48 horas de folga?

– Visha, você é religiosa?

– Eh? Bom, nem sempre, só um pouco… porquê?

– Eu não creio em almas, espíritos e entidades. Mas aceito que possam existir seres que escapam de nossa razão. Seja qual for o caso, não custa muito irmos em algum lugar onde nós possamos agradecer a esses seres por olhar por nós.

– Hum… isso talvez venha a calhar. Meus avós ainda conservam as religiões antigas de nosso povo.

– Heh… malandrinha… romanticamente esperta. Quer mesmo me apresentar a seus pais e avós. Ou isso ou está planejando desertar.

– Sabe que é uma boa ideia? Nós duas podemos sumir do mapa e vivermos juntas.

– Não me tente, Visha. Por mais que me agrade a ideia de poder me aproveitar desses seus melões todos os dias, nós teríamos que nos sustentar de alguma forma e morando juntas levantariam muitas suspeitas.

– Não pense que o mundo inteiro é como o Império, Tascha. Você se espantaria com as coisas que acontecem nos Estados vassalos do Império Russo. Nós até podemos nos casar…

– Nós podemos fazer isso depois que a guerra terminar, Visha. Nós temos que continuar a luta. Senão o que será de cidade como Rosenheim? O que será do futuro de tantas pessoas se nós desertarmos? Quantas Vishas e Taschas devem estar por aí, com medo, vivendo clandestinamente, sem poder se amar livremente? Nós temos que construir esse mundo melhor, Visha.

– Eu vou sofrer… mas se você estiver comigo, eu aguento e tenho forças. Apenas me prometa vir brincar comigo de tempos em tempos.

– Eh… criançona. Coitado dos meninos quando descobrirem que eu tenho dona.

– Problema deles. Você é minha.

Tanya e Victoria riem bastante durante todo o trajeto até Salsburgo, Áustria, um Estado Neutro e parte do Império Austro-Húngaro. Em uma vila próxima encontraram uma velha cabana onde os camponeses ainda mantinham suas crenças em antigos Deuses. Mesmo sendo descrente, Tanya sentiu aquelas doces presenças, como se fossem longínquos ancestrais. Ali, Tanya sentiu enorme paz, harmonia e tranquilidade. Acendeu uma vela em oferenda a estes antigos poderes, sem qualquer crise de consciência.

– Vamos, Visha. Nós temos que voltar. Eu tenho uma promessa a cumprir.

– Hei, eu tive uma ideia. Que tal nós pedirmos ao pároco militar para nos casar assim que voltarmos?

– Visha… não me provoque.

Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Mistério da Baviera

Quando Tanya e a 203ª retornou ao acampamento, representantes do Comando Central os aguardavam para a respectiva comemoração. Tanya não estranhou a presença de Erich Rerugen e Hans Zettour no meio do alto oficialato. Um acreditava que a estava tutelando e o outro acreditava que a estava manipulando.

– Bravos! Bravos! Nós não esperávamos menos do Demônio de Rhine.

– Obrigado, senhor. Mas eu desconfio que sua presença aqui não é social.

– Sim e não. General Rudersdorf fez questão de que eu trouxesse para o 203º este despacho concedendo a todos 15 dias de folga. E para ouvir o seu relatório sobre a colaboração do Agente Cinza.

– O Agente Cinza demonstrou excelente espírito de equipe e apoio. Nenhum de nós estaria aqui se não fosse por ele. Quanto aos 15 dias de folga…

– Sem condição e sem negociação. São 15 dias de folga para todos, é uma ordem.

– Sim, coronel Zettour.

– Eu retornarei ao Comando Central com seu relatório sobre o Agente Cinza. Bom proveito, major.

– Obrigado, senhor.

– Algum lugar em mente, major?

– Senhor, por enquanto eu estou mais voltada em comunicar a dispensa ao meu pelotão.

– De qualquer forma, excelente trabalho, major.

– Obrigada, em nome de toda a 203ª, coronel Rerugen.

Não foi difícil encontrar e reunir o pelotão. A maioria estava se empanturrando com as mesas cheias de comida. Os feridos não estavam longe, então ela podia anunciar com sua excelente oratória.

– Senhores! Parabéns a todos! Nós estamos recebendo o legitimo reconhecimento por nossos atos heroicos. E nós não esqueceremos daqueles que tombaram em batalha. Seus espíritos estão no Valhalla. A nós, que ficamos, o Comando Central concedeu a todos 15 dias de folga. Sim! Os senhores ouviram bem! São 15 dias de folga! Aproveitem bem! Os senhores merecem! Dispensados!

Metade dispersou rapidamente em direção às tendas pessoais e arrumou-se com presteza. Outra metade demorou mais por estar sentindo o peso da cerveja escura. Uma sombra se aproximou de Tanya e ela adivinhou sem olhar quem seria.

– Algum problema, tenente?

– Ne…nenhum, major… eu só… eu gostaria… se não for incômodo… a senhora tem algo planejado?

Tanya se vira e olha para Victoria. Parecia uma garotinha diante da governanta. Nem parece a mesma mulher que praticamente tinha se declarado para ela há oito horas atrás. Mesmo sabendo do risco, Tanya resolve brincar um pouco com sua tenente.

– Planejado? Hum… não… por acaso a senhora está pensando em se convidar a me acompanhar?

– E… eeh… bom… quer dizer… eu não tenho nada planejado… então… sei lá…

Tanya segura a mão de Victoria e consegue sentir o nervosismo na pele e a palpitação no sangue.

– Se você quer receber de mim algo mais do que ordens, Visha, você precisa ser mais decidida. Diga o que quer e o que sente, sempre, sem arrependimento, sem medo.

Victoria fica toda trêmula e envergonhada só de estar segurando a mão de Tanya.

– Ma… ma… major…

– Visha, está na hora de você deixar esse tratamento formal de lado.

– Ta… Ta… Tascha… quer ir comigo a Cherkasy e visitar o lago de Kremenchuck?

– Ucrânia? Eu pensei que você fosse russa, Visha.

– Eh… nós somos um Estado Vassalo do Império Russo.

– Você nasceu lá? Tem familiares, parentes?

– Meus avós e pais.

– Mal começamos a namorar e está pensando em me apresentar aos seus pais e avós? Visha atrevidinha!

– E… eeh…

– Nós podemos ir a Rosenheim e visitar o lago Chiemssee. Adivinha por que?

– Seus pais e avós moram lá?

– Não, eu sou órfã, eu nunca conheci meus pais. Ali tem o Mosteiro Roth Ann onde, com alguma sorte, nós podemos encontrar Madre Maus, quem me criou.

– Ah… puxa… eu sinto muito…

– Sente pelo quê? Eu não tive problema algum nem vejo diferença alguma entre gente com pais e sem pais. Nós não acabamos todos na linha de frente, lutando em uma guerra? Nossa pátria é a nossa única família.

– Eu sinto muito por dizer que eu sinto muito…

Victoria ousa brincar pela primeira vez com Tanya e capricha na expressão de moleca. Ambas pegam seus poucos pertences e usam o propulsor de plasma para chegarem na estação de trem mais próxima. Suas presenças chamam a atenção do público, mas elas lidam com a intensa exposição diante de civis com naturalidade. Duas passagens classe econômica para Baviera.

O terminal anuncia a saída do trem para Baviera e o maquinista responde de volta, chamando os passageiros para embarcarem. As pessoas comuns estranham a presença de oficiais do exército e causa certo desconforto em poucos, certamente desertores, espiões ou ladrões. Na cabine 47C estão dois passageiros, o que deixa dois espaços para Victoria e Tanya escolherem. Uma senta de frente para a outra, fazendo a cara mais séria que tinham.

– Consegue acreditar nisto, tenente Victoria? Nós estamos sendo obrigadas a andar de trem apenas para vasculhar, identificar e prender desertores, espiões e ladrões.

– Nem me diga, major Tanya. A que ponto nossos concidadãos decaíram em seus valores! Como ovelhas, ouvem e acreditam nas mentiras da Republica.

– Ah, mas para isso o Império pode contar conosco. Eu sou uma loba e estou sedenta de sangue de ovelha!

O pobre homem idoso sai correndo como se o Diabo em pessoa estivesse atrás dele e a senhora desmaia depois de vomitar. Fiscais de cabine chegam, olham para as divisórias nos uniformes das garotas e se calam, apenas retiram a pobre mulher desmaiada. Com uma pequena encenação, Tanya e Victoria teriam a cabine apenas para elas.

– Ufa. Enfim podemos relaxar.

– Hei, tem serviço de bordo! Vamos pedir algo?

– Ótima ideia. Apesar de estarmos na classe econômica, depois de nossa encenação nos servirão como se estivéssemos na classe executiva.

– Oh, puxa! Tem chá inglês e pães franceses!

– Eu estou de olho em uma torta holandesa e uma cerveja austríaca.

No decorrer das duas horas de viagem, as garotas transformam a cabine do trem em um piquenique. Nem o chefe dos fiscais nem a cozinha questionaram seus pedidos, nem cobraram. Tanya e Victoria comeram e beberam tudo o que quiseram. Desembarcaram em Rosenheim estufadas e bêbadas. Para alívio de todos os demais presentes do trem, que seguiram até Berchtesgaden.

– Vamos ao Hotel Hirsch. Com uma boa encenação, é bem capaz de conseguirmos um quarto de graça.

Victoria apenas acenava afirmativamente com a cabeça, estava muito sonolenta depois de tanta comida e bebida. Tanya não poderia contar com sua atriz principal. A recepção do hotel olhou o uniforme e as divisórias. Alguns funcionários praguejaram, provavelmente partidários da Republica. O gerente não queria confusão nem discussão, então não fez muita questão do valor que as duas oficiais queriam pagar por um quarto. Elas não tinham bagagens, então só tinham que pegar a chave.

Um elevador com porta pantográfica as levou ao terceiro piso, o carpete cheirava a mofo, o papel de parede descascava, a luz do corredor era fraca e amarelada, mas mesmo assim as condições são bem melhores do que a de uma tenda e um catre. Dificilmente elas teriam serviço de quarto dos funcionários do hotel.

A poucos passos do quarto 307, Victoria é surpreendida ao ser encostada na parede. Tanya tem a metade do seu tamanho, mas sabe usar da força quando necessário.

– Muito bem, Visha. Você está para passar a noite comigo. Tem algo a declarar antes de entramos nesse quarto?

– Ta… Tascha… seja gentil… é a minha primeira vez.

Operação Longinus

Tanya entra na tenda de campanha sendo ladeada por Victoria e Rhum e vai direto ao palanque central para ler a ordem do dia. O 203º está perfilado em pé, em continência.

– Descansar! Senhores, nós temos novas ordens. Tenente Victoria me trouxe o telex confirmando que o Comande Central nos concedeu a missão que, para muitos, seria suicídio, mas não para nós. Segundo tenente Matheus, leia as instruções.

– Nossa missão é destruir os famigerados canhões de Navarrone. O plano de ação é infiltrar em território inimigo, remover quaisquer obstáculos e explodir os canhões. Caso nós concluamos a missão, o Império poderá forçar a Ibéria a assinar um tratado. Isso fraquejará a interferência da Tríplice Entente e será crucial em nossa batalha contra a República.

– Eu não vou enganar os senhores. Esta é uma missão suicida. Até o grandioso batalhão Scharzesmarken pensaria duas vezes antes de entrar nessa missão. Nós fomos escolhidos porque nós somos a elite da elite. Mas eu não os forçarei a coisa alguma. Levantem a mão apenas aqueles que aceitam fazer parte dessa missão que eu chamo de Operação Longinus.

Tanya disfarçou um sorriso de satisfação ao ver todo seu pelotão de mãos para cima. Sim, era extremamente arriscado, mas também o prêmio era grande. Em outras ocasiões o Comando Centra não poupou esforços e recursos para premiar o 203º em suas ações bem sucedidas.

– Eu agradeço a todos por confirmarem minha confiança nos senhores. Para esta missão, nós teremos o auxílio de um aliado. Senhores, eu lhes apresento o Agente Cinza, senhor Rhum Weinberg. Eu tenho boas razões para confiar igualmente na capacidade deste senhor, então eu lhes peço… eu lhes ordeno que colaborem com nosso aliado. Arrumem tudo. Partida em quinze minutos.

O pelotão se dispersa, cada soldado se direcionando para sua tenda pessoal, arrumando a mochila de campanha, checando os equipamentos, calibrando as armas, apanhando as munições. Por sorte ou necessidade, Tanya e Victoria tem as tendas vizinhas, então a tenente deixa escapar algo de ciúmes e desconfiança.

– Major… hã… senhora… nós podemos confiar nesse mercenário?

– Diga-me tenente, com sinceridade, quando você me viu pela primeira vez, confiou em mim?

– Com devido respeito, senhora, mas a situação é completamente diferente. Nós nos conhecemos na Academia Militar e cursamos o mesmo oficialato. Nós somos companheiras de armas há muito tempo, desde quando nós éramos apenas recrutas. Nós servimos orgulhosamente a 414ª e depois nós partimos para comandos e pelotões diferentes até nos reunirmos na 203ª. No entanto a senhora está prestes a confiar em um mercenário, cuja origem e filiação nada sabemos. Como seu primeiro tenente e amiga, eu tenho que alertá-la dos riscos.

– Oh… eu não sabia que a senhora tinha sido promovida a minha amiga, tenente.

– Vo… vo… você está sendo maldosa de propósito comigo! Só porque sabe que eu gosto de você! Vo… você devia ser ao menos um pouco mais… gentil comigo!

– Tenente! A disciplina militar considera uma falta grave e uma descortesia não usar o tratamento adequado ao seu superior! Eu poderia mandar prendê-la na solitária! Ou te chicotear pessoalmente! Você está ciente disso?

Victoria treme inteira. Poucas pessoas conseguiriam encarar Tanya quando ela usa aquele olhar assassino. Mas Victoria tinha dado um passo adiante que não tinha como voltar ou esquivar. Por alguns segundos, Victoria imagina sua cabeça caindo inerte no solo, decepada com um único movimento de sabre e o sorriso sádico de Tanya.

– Sim! Pelo bigode de Bismarck, eu estou ciente disso! E eu sei que a senhora não hesitaria nem pestanejaria se tivesse que me matar agora mesmo! Eu sei que a senhora monitoraria pessoalmente minha tortura, por métodos extremamente cruéis e dolorosos! Eu não me esqueci de Harald e Kurst! Mas sabe de uma coisa! Eu não me importo! Eu vou continuar amando a senhora mesmo se a senhora me matar!

Tanya cessa sua marcha e Victoria fecha os olhos, esperando o corte. Mas só se ouve um suspiro.

– Visha, você não pode estar falando sério. Você mesma diz. Todo mundo sabe. Eu sou o Demônio de Rhine. Eu seria capaz de te abrir as entranhas e rir de sua cara enquanto você morre lentamente em dores atrozes. Pela bandeira o Reich, Visha, não caia nessa armadilha. Amor é veneno e vício. Amor é loucura e perdição. O amor morreu há tempos nesse mundo Visha. Você deve viver por si mesma. Você deve confiar apenas em si mesma. Não há uma vida depois dessa e Deus não existe. Quando você morrer, tudo acaba. Nada resta. Não ache que alguém vai chorar ou lembrar sua existência. Nossos restos serão repastos de animais selvagens. Não vale a pena viver querendo bem a outra pessoa. Ninguém será capaz de suprimir sua necessidade. Pior, você não será capaz de suprimir a necessidade desse outro alguém e você será traída, trocada por outro amor. Todo tipo de relacionamento é uma mera conveniência, um contrato, com garantia e duração definidas. Você não pode estar falando sério quando diz que deseja isso.

Tirando coragem, sabe-se lá de onde, Victoria para de tremer, apruma-se e faz se credo, cheia de orgulho.

– Eu não acredito nisso e eu sei que a senhora também não acredita! O amor existe e é real! O amor é o que nos move e nos embala! Não são as ordens do Comando Central, mas nosso amor à pátria! Pelo amor ao Império, nós seguimos adiante, sem temer a morte, enfrentando os mais duros obstáculos e vencendo as mais duras batalhas! Pelo Reich! Por nosso povo! Nós temos que lutar e fazer coisas horríveis unicamente para que eles tenham um futuro! Poderá nos condenar, nos julgar, nos criticar, mas se nós não fizermos a nossa parte, se nós não cumprirmos com nossa obrigação, quem o fará? Que digam que você é o Demônio de Rhine! Quem liga? Você faz tudo por amor! Você nos inspira pelo amor! Nós a invejamos por causa do seu amor! O amor nos excede, nos transborda e nos eterniza! Então eu irei viver e eu morrerei te amando! E eu não aceito ordem contrária! Não aceito!

Tanya fica inexplicavelmente quieta e tranquila. Victoria não pressente qualquer instinto assassino vindo dela. Vitória engole seco com a expectativa, mas Tanya apenas relaxa de sua postura de oficial.

– Eh… não tem jeito… você é mesmo uma criançona. Então é isso? Você está oficialmente se promovendo de amiga para namorada? Tem certeza disso? Depois não adianta reclamar hem? Vamos, Visha, nós temos uma missão a cumprir.

– A… ah… oquei…

Victoria segue Tanya sem saber o que aconteceu de fato até que Tanya diminui o passo e segura Victoria na mão. Um passo pequeno, mas um passo. Victoria sente que está andando por cima de nuvens cor-de-rosa.

Duas horas depois, Tanya e Victoria estão na formação, seguindo em altitude baixa, seguindo a linha dos Alpes, um expediente perigoso, mas necessário para evitar os radares. Ventos gelados cheios de neve, rochas, árvores e frio. Uma trilha pelos ares através de cem quilômetros onde qualquer vacilo é fatal.

– Muito bem, senhores, a partir deste ponto vamos reduzir a comunicação. Matheus assuma o Vetor 1, Vooren, assuma o Vetor 2. Os demais seguem comigo em Formação Delta. Atacando em três frentes, nós temos mais chances de sucesso. Que Deus os acompanhe e os tragam de volta, sãos e salvos.

Dizem que no passado ali passaram Amilcar e Anibal. A Passagem de Trebia era tão conhecida quanto temida, pois apesar de ser um excelente ponto para uma invasão, era também um excelente ponto para uma tocaia. Tanya conhecia bem os grandes estrategistas, então tinha se preparado para utilizar essa passagem a seu favor. Vetor 1 seguiria o Rodano e Vetor 2 seguiria o Drone. Tanya seguiria pela linha dos Alpes com o Vetor 0. Com alguma sorte, não teriam baixas e chegariam na cidade de Ebro, praticamente um “ponto cego” dos canhões de Navarrone. Evidente que Tanya estimava que a Republica deva ter colocado algum efetivo e armamento nas costas de Navarrone para evitar ataques surpresas. Ela garantia o ataque aéreo e deixaria o ataque de campo para o Agente Cinza. Um código combinado foi tudo o que ela transmitiu aos demais soldados.

O atrito inevitável ocorreu, nas três frentes e o combate estava pesado. Isto indicava que estavam esperando por essa infiltração. No ambiente de guerra, a comunicação é um fator que altera uma batalha. Da mesma forma que o Império tem espiões e informantes, a Republica tinha os seus. No requinte e conforto do Comando Central ninguém sabe ou vê, mas Tanya vivenciou diversas vezes esses percalços que ocorrem na frente de batalha.

– Vetor 0 para Vetor 1 e 2. Manobra de agrupamento.

A verdade estava cristalina. Mesmo Tanya estava com dificuldades de rechaçar a tropa inimiga. O áudio de seus outros destacamentos confirmava suas piores estimativas. Seria um milagre qualquer um ali sair vivo.

– Cavaleiro para Dama. Solicitando permissão para agir.

A voz de Rhum nunca soou tão doce.

– Cambio. Asa de Prata para Agente Cinza. Avante, adiante, execute.

Repentinamente uma explosão lança bolhas e colunas de chamas ao firmamento. A onda de choque cria um vendaval que limpa as nuvens de poeira que pairam no céu. O chão treme, indicando que ainda vinha mais e veio, uma língua de fogo subiu alto, parecendo com a erupção de um vulcão. Uma terceira explosão ainda maior surgiu, formando um cogumelo de entulho, poeira, fogo e carne calcinada. O segundo impacto foi sentido pela tropa inimiga que começou a dispersar, sendo impiedosamente atingida por Tanya e seus soldados.

Dos famigerados canhões de Navarrone restaram apenas suas colinas transformadas em depressões fumegantes. A tropa de Tanya começou a se reagrupar, trazendo alguns cativos, somando 30 sobreviventes e 15 feridos. Dos seus, poucas baixas. Os cativos ficaram alinhados diante dela para aceitar a rendição.

– Muito bem, senhores. Vamos fazer isso de forma rápida e simples. Quem está no comando?

– Hã… ninguém… nosso capitão estava no complexo dos canhões.

– Ninguem? Não sobrou um tenente, um capitão, sequer um sargento?

– N… não… não senhora.

– Então de acordo com os termos do Tratado Internacional, eu não posso aceitar a rendição dos senhores. Os sobreviventes serão mandados para um de nossos campos de concentração. Nós não levaremos os feridos. Tenente, traga Lugher.

Os feridos acham que Tanya chamou um médico. Victoria sabe que não é o caso. Victoria traz uma caixa de madeira ricamente decorada e abre o fecho expondo o conteúdo para Tanya. Os olhos de Tanya brilham e seus lábios desenham um enorme sorriso enquanto ela empunha a uma arma chamada Lugher, uma pistola automática, um artefato extremamente raro e único. Tanya se posta ao lado dos feridos enfileirados e aperta o gatilho uma única vez. Com um único tiro, Tanya cessa a dor dos 15 feridos.

Ciúme na caserna

Um estampido indica a chegada de uma mensagem via radio.

– Pixie Zero Um. Recolher asas. Repito, recolher asas.

– Cambio. Ciente. Movendo para a Colmeia.

Tanya aciona o propulsor de plasma em seu pé, seguido logo atrás por Victória.

– Major, o que faremos com o cativo?

– Minha intuição diz que o senhor Weinberg nos seguirá sem dificuldades, Visha. No momento, temos que nos concentrar em reagrupar e voltar ao acampamento.

– Não me chame assim na frente de estranhos…

– Eh? Disse algo, tenente? Sua voz fica embotada quando você está amuada.

– Na… nada! Nada! Apenas que eu estou avistando os demais membros do 203º.

– Algum sinal de inimigo ou de possíveis retaliações?

– Nenhum sinal. Nem dos Observadores.

– Excelente. Vitória limpa e absoluta. Nossos superiores devem estar satisfeitos.

– Perdoe minha curiosidade, major, mas quem é Seimei?

– Um pobre coitado que teve a infeliz ideia de se meter comigo. Eu terei muito prazer em estourar os miolos dele.

O radar de Victoria aciona sons e luzes, indicando a proximidade de uma patrulha aérea de magos, visíveis a olho nu, mas a direção que tomam é completamente oposta da posição onde elas estão.

– Ufa… não nos viram.

– Nós estávamos no mesmo quadrante, Visha. Eles também têm radares. Eles nos evitaram. Ou perceberam a proximidade de nosso pelotão ou… pressentiram o perigo potencial de nosso cativo.

Tanya e Victoria reagrupam com os outros oficiais do 203º e todos seguem ao acampamento, para a Colméia, para descansarem, comerem, reabastecerem e aguardar as ordens do Comando Central.

Na cafeteria, Tanya enche seu prato com carne, repolho e linguiça. Disfarçadamente pega um caneco de cerveja escura e senta na mesa dos oficiais.

– Ah! Nada como um bom brecht para espantar o cansaço e a dor no corpo.

– Ma… major… eu posso me sentar com a senhora?

– Mas é claro, Visha! Vamos, puxe um banco e sente-se.

– Obrigada, major. Sabe… senhora… eu estou intrigada. Como o cativo sabe mais da senhora do que eu?

– Hum? O que quer saber sobre mim, tenente?

Victoria sua frio enquanto Tanya enxuga o caneco de cerveja. Quando a major a chamava de Visha era bom, mas não era bom quando a tratava de tenente.

– N… não interprete isto como indiscrição da minha parte, mas dentre os membros da 203ª, eu sou a única veterana. Nós nos conhecemos no fronte, quando éramos apenas recrutas da 414ª. Nós somos as únicas mulheres, então eu achei que nós temos que nos conhecer melhor e…

– Tenente! [arroto] Está querendo dizer que está interessada ou apaixonada por mim?

Os cabelos da nuca de Victoria se arrepiam enquanto o som da caneca batendo na madeira da mesa parece soar como um terremoto. Gesticulando os braços e as mãos vigorosamente em todas as direções e suando profusamente, Victoria tenta contornar a situação.

– Na…na…não! imagina! Sem chance! A senhora é o Demônio de Rhine, a Asa de Prata, major da 203ª! Nossos superiores devem estar satisfeitos e orgulhosos de suas vitórias e eu sou uma mera tenente! Hahaha! Bobagem! Sem chance! Eu? Que nada! Nós somos mulheres, o normal é que nós nos interessemos por homens.

– Visha… isso não tem coisa alguma a ver com “normal”. Atração, paixão, amor… nada disso é normal ou racional. Amor é supervalorizado. Amor é um vício e um veneno. Se pretende sobreviver nessa guerra, esqueça essas ilusões românticas.

Outro caneco com cerveja escura surge na mão de Tanya que, rapidamente, esvazia, sem que a major se importe com o visível aborrecimento de Victoria. Apesar de negar, a tenente no fundo tinha tais ilusões românticas. Se tivesse um padre ali presente, ela iria confessar diariamente seus conturbados sonhos que tinha com Tanya.

– Muito bem! [arroto] Eu acho que o Comando Central não entrará em contato conosco. Eu vou fazer a digestão de meu brecht na minha tenda, tenente. Qualquer novidade, venha me avisar imediatamente.

Tanya arrasta o banco, afasta-se da mesa e se posta de pé, diante de Victoria, na expectativa de uma continência, mas sua tenente está com os olhos mareados e com o pensamento longe.

– Que criançona… chorando por que foi rejeitada por um amor que sequer existia.

Tanya sacode sua cabeça negativamente, balançando seus curtos cachos louros. O amor é um veneno que sua tenente estava infectada até a medula. Tanya meio que sabe que ela não deve ser a única que nutre tais sentimentos. Dá para sentir os olhares de seus subordinados cobiçando seu corpo, apesar da enorme diferença de idade. Nos escaninhos ocultos de toda sociedade, jovens e adultos sempre dão um jeito para consumar seus amores, imagine em uma situação de guerra, onde as fronteiras da civilização, virtude e moral estão borradas.

– Matheus, Vooren, fiquem na escuta. Qualquer novidade, me avisem.

O segundo tenente e o capitão prontamente fazem continência e respondem adequadamente. Tanya espreguiça demoradamente e remove as botas após sentar em seu catre. Ela mal consegue afrouxar os botões do casaco, a mistura de brecht e cerveja a deixa sonolenta. Vestida com pouco mais do que a camisa branca, Tanya se deita no catre que, naquele momento, parece macio e convidativo como uma cama burguesa. Tanya dormiu profundamente por trinta minutos, uma eternidade quando se está em batalha.

Um barulho insistente, metálico, ajudou a desperta-la.

– Eh… major… senhora? Com licença? Eu tenho um comunicado do Comando Central.

A voz de Victoria vinha do outro lado da lona e pelo tom de voz, ela não estava brincando nem trapaceando… como se ela fosse capaz disso.

– Entre, Visha, com o Diabo! Entre de uma vez.

Victoria entra com um telex em mãos, com expressão levemente apreensiva, mas que muda completamente assim que se dá conta que Tanya está vestida apenas com a camisa branca, que mal esconde o corpo da major. O pobre papel é amassado em sua mão, enquanto seus olhos ficam arregalados e seu rosto vai do rosado ao roxo em segundos.

– A…aahh! Mil perdões, major, senhora! E… e… eu não pretendia… eu não queria…

– Pelos canhões do Império, Visha, me entregue esse telex de uma vez! Francamente! Até parece que nunca viu um corpo seminu!

Tremula, Victoria entrega o telex e Tanya notou que, apesar do casaco, era possível perceber que Victoria estava com “faróis acesos” e havia uma pequena mancha de umidade entre suas pernas, denunciando que sua tenente estava excitada.

– Colmeia para Pixie Zero Um. Proceder para coordenadas 137 73 2 31. Manobra Alfa Delta Tango 41. Execução de manobra receberá apoio de Agente Cinza. Aguarde código de confirmação.

– O código de confirmação é Valhalla, major.

Victoria fica evidentemente assustada, mas Tanya encara a presença de Rhum com naturalidade.

– Eh… isso significa que seu codinome é Agente Cinza.

– Sim, senhora.

– Então eu posso presumir que, por ordens superiores, o senhor agora é meu subordinado.

– Sim senhora.

– Excelente. Acompanhe Visha até a tenda de campanha e aguarde minha chegada ali junto com os demais. Aparentemente nós teremos negócios a tratar juntos, senhor Weinberg.

– Acredite, senhora, eu considero isso uma honra e um privilégio.

– Não pense que eu vou pegar leve com você.

– Absolutamente, major. Eu faço questão que seja mais rigorosa comigo.

– Perfeito. Quem sabe sua postura incentive e mostre aos demais subordinados como um soldado profissional deve se comportar. Nós não viemos aqui para espalhar flores, amor e felicidade. Nós viemos aqui para espalhar vísceras, sangue e morte.

O doce aroma da batalha

Victoria observa apreensiva e aflita para Tanya olhando para um ponto fixo indistinto no horizonte. Estaria a major pressentindo a presença do inimigo escondido em alguma trincheira? Elas são as únicas mulheres da 203ª Patrulha do Império e, no momento, ao redor delas somente existem corpos despedaçados, mortos, agonizantes e feridos, de ambos os batalhões.

– Sonzai Seimei! Por acaso é você quem está nos observando?

Victoria fica assustada com a voz firme de enérgica de Tanya. A major parece estar irritada então, seja quem for esse tal de Seimei, é melhor aparecer.

– Ah… você me descobriu… você é mesmo o Demônio de Rhine.

– Você não é Sonzai. Quem é você? Amigo ou inimigo?

– Nenhum dos dois, major, eu sou um mercenário. Pode me chamar de Rhum Weinberg.

– Saia de onde estiver. Devagar. Com as mãos para cima e sem truques.

O som de botas se arrastando no solo e de pedregulhos deslizando voltam a atenção das magas de guerra para um ponto próximo de onde o chão estava bastante marcado pela artilharia pesada. Victoria se dizia que era impossível que alguém tivesse sobrevivido a uma barragem dessas, mas ali estava um garoto, aparentando ter 17 anos, sem nenhuma arma nas mãos, exibindo um uniforme completamente desconhecido.

– Você não parece ser da República nem da Tríplice Entente. Você é do Exército Aliado?

– Não senhora. Eu não estou em nenhum exército.

– Visha, reviste-o. Muito bem, senhor Weinberg, mas como explica seu uniforme?

Victoria fica um pouco constrangida quando a major a chama pelo apelido carinhoso diante de estranhos. Enquanto revista o estranho garoto, Victoria observa bem de perto o uniforme para ver se distinguia alguma marca ou emblema. O tecido parece ter algum tipo de enfeite bordado, mas nada reconhecível. O próprio material do uniforme escapa de qualquer coisa conhecida, parece macio e suave ao toque, mas é semelhante ao couro ou a algum tipo de metal maleável desconhecido. Victoria sacode os braços e a cabeça sinalizando que o cativo estava “limpo”.

– Senhora, para o serviço que eu executo, eu necessito desse… uniforme.

– Ah, então você está aqui por algum tipo de trabalho ou negócio. Qual é o tipo de seu trabalho ou negócio? Representando quem?

– Oquei, oquei… eu conto tudo se a senhora abaixar esse fuzil.

Victoria retorna para sua posição, ao lado e ligeiramente atrás de Tanya, onde a experiência a ensinou que sempre é mais seguro.

– Major… eu revistei o suspeito e não encontrei arma alguma e também não reconheci qualquer distintivo ou divisória que possa indicar qual sua patente, divisão ou posição.

– Muito bem… nesse caso, eu abaixo meu fuzil. Para todos os fins, o senhor será tratado como um civil, senhor Weinberg. Comece explicando sua presença no campo de batalha, sem que pertença a algum exército, sem ter uma arma.

– Muito obrigado, major. Esse seu brinquedo poderia mesmo me machucar acidentalmente. Eu quero evitar esse tipo de estresse. Minha presença aqui, senhora, é a de um observador. Digamos que eu represento um conglomerado que despertou interesse em sua vida, major.

– Observador? O que tem que observar? Você não vai, não pode ou não quer interferir? Esse conglomerado tem algo a ver com Sonzai Seimei?

– Eu vejo que a major é afiada na língua também. Mas você está certa, não há separação entre o observador e o observado. O conglomerado não está muito satisfeito com a ingerência de Sonzai Seimei neste mundo. Digamos que eu seja um… fiscal de Deus. Eu farei o que for necessário, quando e se imprescindível, major.

– Fiscal de Deus?

– Sim. Se preferir, fiscal deste que a senhora chama de Sonzai Seimei.

– E quem, ou o quê, é esse conglomerado?

– Excelente pergunta, major. Embora minha explicação seja um desafio para a sua descrença.

– Não interessa. Faça-a assim mesmo.

– Veja bem, major, o mundo humano é um reflexo, uma imagem, do mundo divino. Da mesma forma que o mundo humano tem estruturas sociais, hierarquias, governos e territórios, assim também é no mundo divino. Sonzai Seimei é apenas um pequeno funcionário de uma empresa chamada Elohim. Um funcionário medíocre, incapaz, incompetente e ineficiente, mas que conseguiu galgar os escalões da empresa até chegar a gerente distrital, responsável pela gerência de u setor que há tempos tem se tornado uma dor de cabeça para a diretoria, então entregaram o abacaxi para ele sem muitas perguntas. Mas nesse tipo de… mercado, eventos que ocorrem em um setor inevitavelmente atingem e influenciam outros setores, o que acarreta em prejuízos a outras empresas. Eu fui contratado por uma empresa chamada Annunaki que tem feito constantes reclamações aos Poderes Maiores contra esse gerentezinho. Então eu estou aqui para observar, coletar evidências, enviar relatórios e, eventualmente, agir conforme diretriz superior.

– A sua explicação é bem razoável e eu a aceito, apesar de não acreditar nessas existências nem nesse mundo divino.

– O que é compreensível, apesar de ser contraditório, major. Sua atual condição deveria ser mais do que prova suficiente para que a senhora questionasse sua certeza religiosa sobre a inexistência de Deuses e outras dimensões.

– Então você está ciente sobre a minha… condição.

– Oh, sim, eu recebi um belo dossiê antes de vir a campo.

Som de terra seca crepitando debaixo da marcha de um pelotão denuncia que alguns soldados estão perfilados e prontos para atirar. Soldados da República. Tanya escarra no chão de repulsa.

– Permita-me cuidar desse empecilho como demonstração de boa fé de minha parte, major.

– Você quer lutar contra um pelotão, sozinho, sem armas?

– Acredite, major, eu não preciso.

– Está pedindo um salto de fé de um descrente. Eu espero que não se importe que eu veja o que fará.

– Absolutamente, major, eu considero uma honra.

O misterioso garoto posiciona os braços e a mão como se segurasse uma bola e, aos poucos, acima da palma da mão, forma-se uma esfera feita de algo parecido com luz. Os soldados, em pânico, atiram, mas é inútil, os projeteis de chumbo ricocheteiam em um tipo de barreira. Como se fosse um piscar de olhos, a esfera estremece e tubos de luz estendidas vão certeiros feito flechas até seus alvos e os desintegra em chamas reluzentes.

Victoria cai ao chão de joelhos e Tanya arregala os olhos. Mas os restos calcinados não deixam duvidas do fenômeno acontecido. Não havia qualquer artefato, equipamento, arma ou tecnologia visível naquele garoto, mas ele conseguiu gerar e manipular algum tipo de energia. Isso impressionou Victoria, que ficava balbuciando litanias para Deus, mas não Tanya. Ela sacudiu a poeira que pousou em seu uniforme, ajeitou seu quepe e, destemida, aproximou-se do garoto.

– Muito bem, senhor Weinberg, eu estou impressionada. Talvez o senhor seja de alguma utilidade para meu objetivo. Eu ainda não sei que tipo de truque ou técnica o senhor usou, mas eu descobrirei uma forma racional, lógica e científica de como explicar esse fenômeno. Eu proponho que estabeleçamos uma trégua, nenhum de nós irá agir belicosamente contra o outro. O que me diz?

Tanya estica a mão como se costuma fazer para celebrar acordos e contratos. Sua expressão está calma e controlada, ao contrario da tenente Victória. Rhum olha diretamente para os olhos azuis como o Paraíso. Um rosto angelical, mas ali habita um demônio.

– Eu digo, por que não? Eu agora entendo o interesse de meus patrões na senhora. Ainda que seja contra as diretrizes da empresa, eu sou um mercenário e eu aposto que nossa convivência será, no mínimo, divertida.

Rhum aperta com firmeza a mão de Tanya e imediatamente há um silêncio assustador. Nuvens escondem o sol e cães uivam ao longe. No ponto de vista da tenente Victória, Tanya acabou de selar um pacto com o Diabo.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.